Schizophrenic

1 1. onde moram os pesadelos


Notas iniciais
Boa leitura.

Margareth Jones encarava o teto, tentando resistir ao sono. Como sempre, vinha uma enfermeira lhe dar seus devidos remédios, que a causavam sonolência e cansaço. Margareth é esquizofrênica e toma remédios para se manter mais "lúcida" e não ter alucinações, ou outras coisas típicas de sua doença. Apesar de não gostar, sabe que é preciso tomá-los para não surtar novamente, totalmente descontrolada e voltar "lá para baixo", como todos os outros pacientes chamam.

"Lá em baixo" é o local onde ficam os pacientes com casos mais extremos, os casos mais graves. Margareth ficou lá por algum tempo, e depois de alguns meses obteve melhora, segundo os médicos. Foi para a outra parte do hospício, onde ela está agora, onde é muito mais tranquilo. Aqui em cima ficam os pacientes em que os casos não são tão graves e que são, digamos assim, mais "calmos". Tem os bipolares, cleptomaníacos, ninfomaníacos, etc. Margareth se sentia uma aberração perto deles.

Ela já presenciou tantas coisas horríveis (e também fez) lá em baixo, que acabou ficando deprimida e com medo de tudo ao seu redor. Mas quem não era naquele lugar? Qual pessoa esquizofrênica não era? Pelo visto os médicos não perceberam, e se o fizeram, nem se importaram com isso. Mandaram-na lá para cima.

O quarto que a menina ficava era completamente branco e não tinha muita coisa. Só uma TV simples que vivia desligada (ela nunca gostou de assistir isso); uma cama de solteiro pequena com um colchão que estava começando a ficar velho, mas até que era um pouco confortável; um lençol fino pois era verão; e do lado da cama, uma cômoda pequena que dentro da gaveta não tinha nada que ela não soubesse. Era trancado com cadeado e só era aberta por um dos enfermeiros. Porém, Margareth sabia o que tinha lá dentro. Eram só as cartelas de seus remédios.

E falando nisso, ela se lembrou do dia que se negou a tomá-los. Achava que não precisava tanto assim deles. Uma enfermeira chamada Ana (por quem ela começou a ter um carinho especial) insistiu, os colocou na boca da menina e a fez beber a água. Margareth teve muito cuidado para não engolir alguma delas. Depois que Ana saiu, ela se ajoelhou na na cama, tirou os remédios da boce os jogou embaixo do colchão. "Ninguém vai perceber, não é?", uma voz conhecida falou em sua mente. Apertou os olhos, mandou-a ir embora se concentrou em tirá-la de sua cabeça. Conseguiu, mas por pouco tempo.

Três horas depois, Margareth começou a ouvir vozes. Não aquela voz. Aquelas. As conhecidas vozes que a atormentavam um tempo antes de dar entrada no hospício. Começou a se desesperar. Apertou os olhos como fez há horas atrás e tentou afastá-las de sua mente. Não conseguiu. Elas gritavam todas juntas, ameaçavam a menina e falavam coisa obscenas, horríveis. Matar, torturar, estripar...O estrago já estava feito.

"NÃO!" gritou,as vozes continuavam, ela chorava no cantinho do quarto, arrependida. Depois as vozes pararam, então ela suspirou e fechou os olhos, mas ainda não tinha acabado.

Quando os abriu, viu um homem de cabelos pretos, com fios brancos e de terno com uma cara malvada. Nunca o tinha visto antes. Franziu o cenho e tentou entender o que estava acontecendo. Ela passou os olhos por todo o homem e viu que em sua mão, havia um enorme machado. Olhou para seu rosto e viu uma feição ruim, muito ruim. Parecia tão malvado, caminhando em direção a ela. Ele ia matá-la. Ela se encolheu mais ainda no cantinho do quarto e gritou por socorro, mas ninguém veio. Era como se não estivessem ouvindo, ou poderiam estar ignorando-a. Quando ele chegou perto dela, levantou o machado, pronto para acertá-la. Fechou os olhos com força e esperou, mas não sentiu nada. Enfermeiros tinham entrado no quarto, e quando ela abriu os olhos, o homem já não estava mais lá. E aí notou que era tudo coisa de sua cabeça. Chorou mais ainda, falando sozinha, coisas sem nexo, que os enfermeiros não entendiam. Ana não estava lá.

Olhando ela ali deitada encolhida no chão, chorando e falando sozinha, perceberam que ela não havia tomado seus remédios. É claro que eles sabiam que ela não havia tomado, já lidaram com isso diversas vezes com outros pacientes. Alguns foram chamar a enfermeira que havia dado suas doses, Ana, enquanto outros foram andando pelo quarto, procurando pelos supostos remédios que Margareth não havia engolido, deveria estar por ali... e encontraram, bem na hora que Ana entrou no quarto.

"O que está acontecendo?" a mulher perguntou, e Margareth que ainda não havia parado de falar, levantou a cabeça para olhá-la. Ana já encarava a menina.

Os outros explicaram o que estava havendo e Ana disse que achava que ela havia engolido, pois deu seus remédios na boca e a água também.Ana quase foi demitida naquele dia, então Margareth prometeu que não iria mais fazer esse tipo de coisa, pois gostava muito dela.

Ela não queria tomar os remédios por causa dos efeitos colaterais que causava, mas sem eles, ela sentiu os efeitos de sua doença, que era muito pior que os dos remédios, que ela tanto odiava.

Depois de uma enfermeira (que não era Ana) entregar-lhe na boca as pílulas, a água, e checando embaixo da língua dela para não correr o risco de tudo isso acontecer novamente, a menina deitou na cama e esperou o sono chegar. Não o evitava mais. Não adiantava nada mesmo.Naquele dia, aprendeu que não se pode evitar uma coisa que sabe que vai acontecer de uma maneira ou de outra.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.