Schizophrenia

14 Dois coelhos em uma cajadada


Estava tão entretida no que Emily falava que nem vi quando Danielle saiu da roda que estávamos, só fui perceber quando ela estava voltando. Vi um risinho bobo em seus lábios, seus olhos brilhavam como nunca, parecia aérea, bem, pelo visto algo aconteceu e não iria poder perguntar agora, já que ninguém além de mim tinha reparado que ela tinha voltado de algum lugar, não poderia chamar toda a atenção para ela, já sabia muito bem de quem ela tinha corrido atrás e tinha uma pequena suspeita do que poderia ter acontecido. Sou tirada dos meus pensamentos por Emily me chamando atenção.

—Mas então Lauren, era você que queria me conhecer?

Então todos os olhos presentes passam a me encarar, fico sem graça com a situação.

—Sim, sou eu quem quer falar com você.

Vejo a expressão de todas mudarem para curiosidade.

—Entendi e sobre o que você quer falar comigo? Dani não quis me dizer... — Ela diz voltando seu olhar para Danielle que sorri amarelo.

Quase todas estão olhando para ela, mas sinto apenas o olhar de Camila sobre mim.

—Na verdade é meio que pessoal, será que podemos conversar depois que as aulas terminarem?

—Lauren é assim mesmo, cheia de segredos, não é mesmo! — Camila falou chamando a atenção toda para ela. Ela me encarava como se me desafiasse.

As garotas em nossa volta arregalam os olhos, assim que ela termina sua frase, elas voltam seu olhar para mim como se esperassem alguma resposta.

Engulo em seco.

—Vish...

Ouço alguém murmurar.

"Acho que alguém está ferrada!" Mike fala, não tinha reparado sua presença até o momento.

Continuo encarando Camila, abra e fecho a boca algumas vezes, sem conseguir pensar em uma resposta.

—Está tudo bem, mais tarde nos falamos, sem problemas... — Emily quebra o silencio, sua voz soa calma e ela aparenta tomar um certo cuidado com o que falava, como se tivesse em um campo minado. Bom ela eu não sei, mas eu com certeza devo estar.

"Salva pela gatinha"

—Nossa olha só as horas, temos que ir, o professor de hoje não é fácil, então vamos meninas... — Danielle diz, calmamente, como se fosse algum tipo de ajuda.

—É, é melhor eu ir mesmo, tenho uma aula importante agora e depois vou me encontrar com Matt, vamos almoçar juntos hoje e conversar sobre nosso dia-a-dia, sabe não temos segredos um com o outro, nos gostamos mesmo! — Camila fala ainda com seu tom de desafio e me encarava enquanto falava.

Todas meninas em volta arregalaram os olhos mais uma vez e ficam intercalando os olhares entre mim e ela.

Fiquei em silencio mais uma vez.

—Vamos Dinah! — Camila diz, se despedindo das meninas, exceto a mim, sai sem me dizer tchau. Acompanhada por uma Dinah atônica, que me olhava com cara de desculpas.

—Vou indo também, depois nos falamos... — Falo isso olhando diretamente para Emily. Me despeço das meninas que restaram e saio logo em seguida também, em direção a sala de aula.

Fique tão perdida com tudo que aconteceu na hora da pausa que nem consigo prestar atenção de verdade na aula, em compensação a hora passa voando. Quando menos espero sou tirada dos meus pensamentos por um professor liberando a turma que falavam e riam alto, sem se preocupar. É isso que preciso na minha vida no momento, rir e conversar sem preocupações, sem espíritos no meu pé a todo momento.

Antes de sair da sala mando uma mensagem para Danielle, falando para ela e Emily me encontrarem no estacionamento. Em seguida saio em direção ao mesmo. Caminho rapidamente para chegar logo ao meu destino. Quando chego no estacionamento de longe posso ver Emily e Dani encostada no meu carro, sinto meu coração acelerar um pouco, estava chegando o momento em que eu teria que conversar com uma pessoa desconhecida sobre algo tão intimo, tão intimo que nem meus pais sabiam nada sobre isso.

Paro por um minuto e respiro fundo.

"Tenha calma Laur, isso é para o nosso bem" Mais uma vez Mike aparece ao meu lado me dando um leve susto. Eu apenas assinto com a cabeça e sigo em direção as meninas.

Ao chegar perto das meninas, elas já vem em minha direção.

Emily é a primeira a se pronunciar.

—Sinto muito por mais cedo, não quis te causar nenhum tipo de problema...

—Que isso Emily, nada disso foi culpa sua, só mais uma coisa que terei que resolver mais tarde...

—Tudo bem, mas eu realmente sinto muito, mas enfim, Dani não me falou praticamente nada sobre o que você quer falar comigo... — Falou revezando seu olhar entre mim e Danielle.

—Bem você trabalha nesta livraria relacionada sobre espiritualidade e Lauren quer tirar algumas dúvidas sobre o assunto, acho que você seria a pessoa certa para nos ajudas sobre isto... — Dani fala calmamente.

—Compreendo, mas eu não sei de exatamente tudo, sei de algumas coisas, mas farei o que posso para ajudar vocês. — Então ela sorri docemente. -Mas então, qual é sua dúvida Lauren?

—Er... bem... — Coço a nuca sem jeito, não sabia como aborda-la sobre o assunto, sinto uma imensa pressão sobre o peito, começo a sentir calor, me mexo desconfortável, me lembro de todas as vezes que meus pais me repreendiam quando eu tocava neste assunto, não sei o que perguntar, não me lembro mais como se fala...

"Pergunta para ela sobre o que acontece quando uma pessoa morre!" Mike volta a falar.

—O que acontece quando uma pessoa morre? — Falei um pouco em dúvida e receio, essa pergunta nem é minha na realidade.

Ela junta as sobrancelhas, parece estar confusa. Dani apenas me olha com dúvida, mas ela me conforta com o olhar e assente com a cabeça.

—Bom... cada religião enxerga isto de uma forma, bem no espiritismos a morte não é o fim, mas sim o começo de uma outra etapa evolutiva. Por isso, a morte é apenas a passagem da alma do mundo físico para o espiritual.

—Mas não entendo, todos que morrem ficam vagando pela terra?

—Não necessariamente, na verdade as almas passam por um processo de evolução no qual o espirito é preparado para reencanar...

—Mas todos deveriam passar por este processo certo?

—Sim, mas...

—Então por que existem espíritos vagando pela terra?

—Bem tem algumas almas que não conseguem passar por este processo e acabam ficando na terra e existem alguns nomes dados a estes espíritos, por exemplo os obsessores que são uma evolução destas almas, só que não são seres amigáveis e dai em diante existem outros seres evoluídos deles que não são nem um pouco legais também, mas a diferença de um espirito vamos se dizer comum para estes seres são suas formas, os obsessores e suas evoluções já não tem uma forma muito humanizada, eles tem uma aparência mais animalizada, eu não sei explicar isto na verdade, eu não sou médium ou uma clarividente, isto que estou te dizendo eu aprendi com meu avô que é espirita.

—Compreendo, mas por que essas almas vagam e te perseguem, mesmo não sendo obsessores?

—Olha chegamos em um ponto do qual eu não saberei mais te responder, mas se você quiser podemos ir a livraria hoje, agora na verdade, meu avô está lá hoje, infelizmente não poderei trabalhar mais lá, pois consegui uma vaga de estagio na minha área e você sabe como é essas coisas...

—Entendo, se pudermos ir lá agora, seria perfeito...

—Ótimo, então vamos... — Dani se pronuncia.

Assentimos.

Logo em seguida eu destravo o carro e entramos no mesmo. Assim que nos acomodamos, eu dou a partida. O caminho e curto, mas cheio de conversas, Emily é realmente uma mulher incrível, simpática, agradável e disposta a sempre deixar o clima confortável. Quando menos espero já chegamos a tal livraria, realmente muito perto da faculdade.

Estaciono o carro sem problemas e descemos em seguida.

A livraria por fora tinha aparência antiga, mas muito bem conservada, tem uma faixada dos ano 50. Toda de madeira, muito bem cuidada. Ao entrarmos pela porta é possível ouvir o som de um sino tocando, o mesmo ficava em frente a ela, assim denunciando a entrada de estranhos dentro do ambiente.

—Esperem aqui, eu vou o chamar, ele deve estar lá trás... — Emily fala, não é preciso dizer quem ela vai chamar, estávamos ali para encontrar apenas uma pessoa.

Danielle e eu assentimos.

Passam alguns minutos, não sei dizer ao certo, mas foram o bastante para mim andar pela pequena loja, observando todo seu ambiente.

Quando olho para trás de novo, vejo Emily voltando acompanhada com senhor, sua aparência é muito semelhante a de Emily, seu tom de pele, nariz, boca, tudo muito semelhante principalmente os seus cabelos lisos, porém brancos como neve...

—Meninas, este é meu avô Allan Fields...

O cumprimentamos com um aperto de mão.

—Então você é Lauren, a garota cheia de dúvidas. — Ele afirma olhando diretamente para mim.

Eu apenas assinto. Vejo a expressão de Emily se tornar de uma pessoa surpresa, não entendo o motivo, prefiro apenas ignorar.

—Pois bem minha jovem, vem, vamos conversar em particular. — Ele faz um gesto para que eu acompanhasse.

Olho para as duas meninas em dúvida, elas não dizem nada apenas me encorajando com o olhar.

Então eu o sigo, vejo ele caminhando para a entrada da loja, próximo a porta da qual entrei, tinha algumas mesinhas e cadeiras em volta, algo que me tinha passado despercebido de primeira. Então ele faz um gesto para que eu me senta-se, em uma das mesas, assim o fiz.

—Então Lauren, o que você precisa... — Ele diz ao se sentar em uma cadeira a minha frente.

—Eu... Bem... Eu gostaria de saber o que leva um espirito a ficar vagando pela terra...

Ele me olha atentamente, parece me analisar. Ele coça seu queixo, em um gesto de uma pessoa que fosse pensar.

—Existem algumas opções para caso isso aconteça, por exemplo se uma pessoa morre tragicamente de uma forma totalmente imprevisível, uma tragedia assim por dizer, quando sua alma deixa seu corpo físico e aparece então para ela um ser evoluído, chamando-a para seu processo de evolução, muitas das vezes a ficha destes seres caem neste momento, o que faz eles entrarem em desespero ou conflito, querendo voltar para auxiliar ou se despedir de um ente querido, não se desprendendo deste plano que não os pertencem mais, fazendo com que eles fiquem presos aqui, sem terem para a onde ir...

"Mas eu não me recordo de nenhum ser evoluído nem nada Lauren, eu apenas me lembro do clarão e de acordar no hospital, pergunte a ele o por que disto Laur..."

Mike de novo ou estou louca de vez ou o improvável esta acontecendo, estou me acostumando com esta situação.

—Mas o senhor saberia me dizer caso ocorresse essa tragedia com uma pessoa, porém na hora que ela deveria receber a visita do tal ser divino ai, não ocorresse e se ela não tivesse nem optado por escolher voltar, apenas voltar como um ser espiritual, o que isso significaria?

—Nossa, bem especifica sua pergunta, não? Bom, ai podemos ter algumas opções, primeira e muito ocorrente é que a pessoa que sofreu este acidente tivesse pendenças ruins aqui na terra, talvez um caso de ódio do qual a pessoa que esta viva não consegue se desfazer deste rancor e fica remoendo muito este sentimento horroroso, ou um caso de amor verdadeiro, no qual sua alma gêmea o prenda aqui não o libertando, fazendo com que seu amor na verdade se torne uma prisão para a pessoa amada, temos casos de assuntos pendentes que é a pessoa que morreu ter uma angustia ou arrependimentos tão forte que a prendesse aqui, temos inúmeras possibilidades basta analisar a situação com calma que você achara o real motivo, mas uma coisa importante que também pode acontecer, que é a morte desta pessoa não ser tão trágica assim, pode ter sido algo planejado por outro ser humano e caso antes da pessoa morrer neste plano, descobrir isso de alguma forma isso pode fazer com que ela volte para encontrar justiça...

—Entendo e é possível fazer com que esta alma penada encontre seu caminho para onde quer que seja?

"EEiiiii!"

Então o senhor Fields dá uma pequena gargalhada, sua risada é tão gostosa de se ouvir que acaba me fazendo rir junto.

—Quantas perguntas especificas Lauren... — Ele diz entre os pequenos risos, em seu rosto ainda estampava um grande sorriso. — Sabe, estava aqui pensando, você tem um grande interesse nestes assuntos, Emily deve ter te contado que não irar mais trabalhar aqui, não é mesmo? — Apenas concordo com a cabeça. — Então o que você acha de trabalhar aqui comigo, sei que está procurando um emprego e eu preciso de ajuda.

Olho para ele surpresa. O que? Como assim eu preciso de um emprego? Será que está tão obvio assim na minha cara que sou uma desocupada?

—Pense bem Lauren, você arruma um trabalho tranquilo e ainda descobrira tudo que precisa para sua pesquisa, além do mais você recebera por isso... — Ele diz, seu sorriso se mantém firme em seu rosto.

Eu ouço suas palavras com atenção, ele tem razão, só tenho a ganhar com essa oferta.

Então eu retribuo seu sorriso.

É... Parece que acertei dois coelhos em uma cajadada.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.