Schizophrenia
1 My reality is you, woman.
Notas iniciais
A história é feita e recriada pelos estereótipos da sociedade. Regras e denominações sem explicação, por vezes até absurdas, conduzindo e condenando milhões de vidas. Ou, meras existências. Animais são objectos, não tem direitos. Mulher devido à aparente fraca estatura física é declarada o sexo mais débil. Doentes e idosos são incapacitados de praticar diversas funções por isso denominam-se como lixo ou, de uma forma mais formal, são um peso para o governo desse país. Por que não abater um doente mental como um cão? Alguém com incapacidade psicológica nunca vai integrar-se na plenitude na sociedade hierática, nunca irá contribuir como alguém “normal”, portanto, sem utilidade não é necessário. Basta excluí-lo, certo?
Dessa forma, não é difícil de compreender porque as clínicas têm tantos hóspedes internados, mesmo podendo regressar a sua casa. No entanto, suas famílias os esqueciam, pelo menos, aqueles que sequer tinham uma.
Há normas para pertencer a um povo. Tem que ser-se normal. Mas o que é, afinal, normal? Não encontrarão a resposta nesta narrativa. Normal não existe. Normal pode ter vários padrões, consoante cada cultura presente em cada país. Na verdade, todos são anormais, por não existir um critério universal que possa definir alguém como o inverso.
Esta história que vou-vos contar começa numa clínica reconhecida pelo talento dos seus profissionais, situada no Japão. Mais propriamente, numa pequena cidade chamada Karakura. O responsável por tal instituição era o Dr. Isshin Kurosaki, viúvo após a morte cancerosa de sua esposa, Masaki Kurosaki. O impacto de não poder fazer nada enquanto assistia a morte gradual de sua esposa, fez com que ele desejasse ajudar outras pessoas em situações semelhantes ou igualmente degradantes. Estudou durante dez anos, intensivamente, medicina abrindo sua clínica que era a melhor nacionalmente. Antes de Masaki fechar os olhos pela última vez, eles foram pais, três vezes sentiram-se as pessoas mais felizes e sortudas do mundo. O patriarca da família Kurosaki sentia que queria dar muito mais que medicamentos e orientações médicas, pretendia dar uma esperança a quem teria uma doença como companheira eterna, ou dar a maior felicidade possível a quem cumprimentava a morte de muito perto. Seu sonho concretizou-se, ele era amado e agradecido por todos os pacientes que tivera e tinha. Bom, todos menos um. Um paciente especial, que nem com terapia, o médico conseguia decifrar a sua mente, os seus desejos ou sequer os seus receios. Um homem de vazio, sua alma não tinha emoção. Seus lábios mal abriam, com a raridade deste conversar.
Ulquiorra Schiffer, esse era o seu nome.
Cabelo preto, como a noite sem estrelas; pele alva sem marcas ou o tom rosado na pele como de usual…. Seus olhos eram da cor esmeralda. Tão belos, contudo, em simultâneo, tão melancólicos. Quem o enxergasse de longe, assumiria que ele era mudo ou lidava com uma depressão profunda. Havia quem pensasse que o jovem de vinte e quatro anos, tinha incapacidades motoras por ser tão quieto e sossegado. Isolado no seu espaço, sem interferir no de ninguém nem admitindo que alguém quebrasse o seu limiar. Todavia, seu estado clínico era bem imprevisível das conclusões mundanas: esquizofrenia.
Ulquiorra enganava os sentidos, sobretudo, o da visão. Ele não falava porque não podia, mas simplesmente porque não queria. Ele não estava limitado fisicamente, ele simplesmente não pretendia sair de perto da janela, deitado em sua cama, sempre e sempre olhando a monótona paisagem pelo vidro. Todas as suas acções eram um reflexo da sua vontade, não era uma imposição por ser “maluco”, como popularmente designavam os esquizofrênicos, mas uma opção pessoal. Era tão simples quanto resolver uma equação em que estão sabidas as soluções das operações.
Não se sentia triste, como alguns poderiam acusar. Não se encontrava revoltado com seu problema…. Apenas apreciava o sossego e o silêncio. Algo que ele não tinha o privilégio de usufruir, as vozes nunca estavam caladas. Sempre o incomodavam. Só queria estar sozinho, mas elas nunca iam embora.
A clínica mais conceituada de Karakura privilegiava o ambiente que a rodeava. Contribuindo para o estado de espírito dos seus pacientes, tinham um enorme jardim com diversas árvores e algumas flores de cores ténues. O verde desde as altas árvores até os arbustos e folhagens destacavam a esperança de uma salvação para todos os que encontravam-se internados. Evitavam porém o excesso das cores neutras, sobretudo o branco ou o preto. A rotina num hospital com esses tons tornaria o tom enjoativo e até massacrante. Por isso, a clínica parecia na verdade um hospital para crianças. Diversificadas cores claras unidas ao branco das habitações, e claro uma rosa branca em cada quarto. O bom-humor e positivismo de todos os profissionais daquela instituição fundida com o ambiente dócil, animava os doentes. Sempre revestidos com um lindo sorriso, eles não faziam discriminação de nenhum paciente independente do seu problemas, todos eram aceites e nunca se desistia de ninguém até o coração de alguém parar de bater.
Porém, Ulquiorra Schiffer era um caso especial. Não que algum médico tivesse desistido dele, mas todos consideravam que uma mudança sua, só poderia surgir por um milagre.
O jovem moreno intrigante estava internado desde que a sua doença fora diagnosticada por Isshin Kurosaki, numa consulta de rotina. Esta revelou-se na sua adolescência, como era usual, com apenas dezanove anos. Um período atribulado para Schiffer que via sua rotina gerar conflitos diários com outros colegas que o perseguiam, provocando-o e humilhando-o. O facto de remeter-se ao silêncio atribuía-se que este era medroso, e fraco por manter uma estrutura física mediana. Porém, ele possuía muita força. Demasiada. Fracturava constantemente seis ossos de quem o irritava, perdendo a noção da força usada em conflitos. Os professores cogitavam que ele era agressivo, contudo, isso também poderia ser uma manifestação precoce de seu problema.
Sem família, ou sequer um único amigo, este homem agora com duas décadas de vida tornara-se um quase mudo. Para além do distúrbio mental, ser uma situação complexa, uma vez que é caracterizado por comportamentos sociais fora do normal e a incapacidade de distinguir do que é ou não real; Ulquiorra também possuía uma personalidade introvertida e extremamente reservada e quieta, o que não contribuía para o seu tratamento. Nunca se tinha a plena certeza se a sua desconfiança do arredor era um sintoma natural da doença ou algum aspecto natural da sua personalidade. A grande semelhança e aproximação destas duas era um dos factores mais complicados na averiguação do seu caso peculiar.
Ninguém conhecia pormenorizadamente seu passado. Fora revelado que tornara-se órfão aos cinco anos, vivendo numa casa de acolhimento durante três meses, encontrando uma nova família que o adoptara, a família Sousuke. Porém, nunca criou grandes laços de afecto, já que os Sousuke’s apenas pretendiam as contribuições e apoios financeiros mensais oferecidos pelo governo. Cumpridos os dezoito anos, alcançando a maioria, começou a viver sozinho num apartamento simples. Contudo, os problemas não acabaram: trabalho, escola, contas atrasadas e discriminação contribuíram para seu estado actual. Assim que foi diagnosticado sua situação, entrou imediatamente em processo o seu internamento… Receando que Ulquiorra convertesse numa eventual ameaça.
Schiffer era um paciente que não criava problemas. Isolou-se por completo na sua habitação, tornando-se mais desconfiado com os médicos… Acreditando que o queriam usar para alguma experiência que as vozes o alertavam. Ocasionalmente, escutava de outros pacientes o designando de maluco ou perigoso… Na verdade, ele pensava ser os outros. Não se sabia se isso era real ou apenas as vozes de novo. Por isso talvez não se sentisse magoado quando o ofendiam, diziam sempre as mesmas coisas, contudo ele só queria ficar em silêncio. Mas elas simplesmente não sumiam… Ele sentia-se revoltado, e muitas vezes começava gritar num acto de desespero, batendo na cabeça. Ele queria estar sozinho. Não queria vozes, médicos ou outra pessoa. Não importava que medicamento eles lhe dessem, elas não desapareciam. E não se interessa pelos sorrisos amigáveis e compreensivos, ele não confiava em nenhum daqueles que usavam bata branca… Sabia que apenas o estavam a usar como cobaia. Ele não conseguia acreditar em nada no que os médicos faziam ou diziam… Regularmente os questionava nas consultas sobre o seu estado, contudo, eles nunca afirmavam nada de significativo e ele percebia isso. Era raríssimo os momentos que dialogava, exigindo respostas e imensas justificações para tudo, porém os médicos praticamente fugiam da resposta. Ou pelo menos, era nisso que ele cria.
Ulquiorra Schiffer estava condenado ao vazio e distúrbio.
⁕ ⁕ ⁕
Na Faculdade de Medicina de Karakura, uma aluna que concluíra o curso fora destacada rapidamente por obter a média máxima. Foi premiada e seu percurso profissional fora descrito em manchetes de vários jornais e revistas. Uma mulher com apenas vinte e dois anos, cheia de conhecimento e amor pela sua profissão, cativara todos os doentes com quem trabalhou no estágio. Cabelos ruivos e olhos marrom, portadora de um sorriso meigo e largo, uma beleza única. Sua fisionomia atraente contrastava com sua personalidade, atraindo diversos olhares e atenções, algo que ela sequer percebia.
O Dr. Kurosaki sempre se mantém atento a novos alunos que prometem ser grandes profissionais. Durante cinco anos acompanhou o percurso excecional de Orihime Inoue, indo inclusive assistir à sua palestra no final do curso à Faculdade. Interessado no seu dom e cativado pela bondade, ofereceu uma proposta definitiva à jovem que apesar de ter outras ofertas, algumas até mais altas a nível monetário, ela não resistiu e respondeu afirmativamente de imediato. O sonho dela era trabalhar num local em que houvesse alegria, que se unisse aos seus princípios, e ela sabia que a clínica Kurosaki era o local indicado para essa concretização.
Numa manhã nublada, húmida pelo recente aguaceiro, foi disponibilizado um gabinete para Orihime, na Clínica Kurosaki, que já trajava o uniforme dos restantes docentes, lendo detalhadamente a ficha de todos os cento e quinto pacientes que se encontravam internados.
A ruiva memorizava os detalhes ínfimos sobre cada utente, antes de começar seu turno. Isshin não queria preparar nenhuma cerimónia de recepção, apenas a apresentou aos seus colegas e entregou-lhe as fichas. Ela deveria escolher alguns pacientes e focar-se mais nesses, para estes criando uma ligação com a médica, a relação estabelecida permitiria uma maior confiança no tratamento. Orihime suspirou entediada, não sabendo como seleccionar de uma lista vasta apenas alguns para poder cuidar. Todos eram importantes para ela, certo?
— Concentre-se Orihime Inoue! Não pode começar o primeiro dia já distraída! —Exclamou para si, numa voz engraçada, repreendendo-se.
Abanou a cabeça, voltando-se a concentrar nos papéis, pronunciando alto um nome que ela achou jovial. O som daquelas letras juntas… era suave, e sedutor.
— Ulquiorra… Schiffer…—Aquele nome seria espanhol? Ou outra língua latina?
Mais intrigada que nos outros casos, ela moveu as folhas lentamente, lendo uma e outra vez, as linhas ficando penosas com o relatório. Esquizofrenia, pobre rapaz. Apesar de não ser uma doença mortal ou que causasse dor física, não tinha cura. E o preconceito fazia com que a recuperação fosse nula na maioria dos casos. Leu que este não tinha família, e que no processo de sua adopção sua família nunca tivera interesse em dar amor a uma criança. Suspirou, identificando-se superficialmente com aquela história. Pais interesseiros que a obrigavam a trabalhar e pedir esmola para satisfazer vícios alcoólicos, e a morte prematura de seu irmão, único ente querido que possuía. Viu-se forçada a abandonar a única casa que conheceu, chegando a dormir uma noite na rua sem ter para onde ir. Uma jovem senhora idosa notou que não tinha lar, e ofereceu-lhe sua casa para viverem juntas, em troca, ela ajudava nas tarefas domésticas. Fora a bondade dessa senhora que Orihime reconstruira sua vida. No entanto, aquele rapaz não tivera uma mão estendida para o ajudar, caindo na pobreza emocional que poderia ter sido o início de seu problema.
Orihime saiu dos seus aposentos e dirigiu-se ao refeitório. Eram quase dez horas, altura do pequeno-almoço, todos os pacientes estariam reunidos nesse local. Inoue não sabia como era Ulquiorra, mas tinha esperança de o conseguir identificar no local. Escutou imenso barulho vindo do seu destino, que entrando quase riu ao encontrar tantos sorrisos em pessoas que estavam próximas do seu final, ou que tinham sessões de tortura diárias por conta dos parasitas em seus corpos.
Ergueu o olhar, focando-se em cantos isolados. Notou uma mesa vazia, apenas com uma pessoa comendo. Prestou atenção nos seus gestos, ele comia sem interesse, não parecia estar a gostar da comida, porém também não parecia repudiar os alimentos ingeridos. Sua cabeça estava baixa, ocultando seu olhar nos cabelos negros. Seu peito apertou quando um grupo de pacientes iam sentar-se na mesa vazia, contudo percebendo a presença do homem e após um curto contacto visual entre eles, afastaram-se rapidamente. Exclusão e solidão. Tinha quase a certeza que seria ele, aproximando-se da encarregada de distribuir a comida, sorriu cordial.
— Desculpe, mas sabe qual o nome dele? —Apontou para Ulquiorra, que estava de costas para si.
A senhora acompanhou o seu olhar, identificando-o de prontidão, arregalando o olhar perante o interesse justo nele.
— Oh, ele, claro… Ulquiorra Schiffer. Ele é muito fechado, gosta de estar sozinho.
— Obrigada. —Inoue ignorou o último comentário, agarrando em algumas coisas, formando seu pequeno-almoço.
Colocando tudo numa bandeja, dirigiu-se até à mesa do moreno, sentando-se à sua frente ousadamente. Riu largamente notando que este a encarou, sem expressão. Ficou fascinada pelos olhos esverdeados.
— Bom dia! Meu nome é Inoue Orihime. Qual o seu? —Ulquiorra desviou o olhar da ruiva, voltando a comer usualmente.
— Você sabe o meu nome, mulher.
Ela não disfarçou sua surpresa. O moreno fez sinal sobre seu ombro, apontando para onde ela antes estava conversando e apontando para ele. Sabia que um esquizofrénico não tinha problemas de raciocínio ou percepção, mas aquele homem era de facto estupendo. Ela fora discreta e mesmo assim ele a percebeu. Quem diria que até ela ainda tinha um pouco de preconceito em si. Riu, ela também estava começando a aprender.
— Você me apanhou, Ulquiorra.
— Não me trate como um idiota, mulher.
— Sim, tem razão. Me desculpe. —Seu bom humor não correspondeu ao pedido de desculpas, que por sua vez não deixava também ele de ser sincero.— Você é bem mais inteligente do que eu pensei, Ulquiorra.
— O que quer de mim, mulher? Por que eles foram buscar uma nova médica? Vão colocar mais alguma coisa dentro do meu corpo? —Seu olhar foi severo, parando de comer brusco.
Perguntas e mais perguntas. Um ciclo sem fim. Desconfiança era o cerne da doença, e rapidamente a ruiva identificou que aquele não era o real Ulquiorra falando. Orihime mostrou-se serena e compreensiva apesar do jeito duro com que falava.
— Ulquiorra, nós só estamos o ajudando. Confie em nosso trabalho.
— Não me minta, mulher. —Levantou-se áspero, dirigindo-se até seu quarto, notando os médicos distanciando-se, sabiam que o homem não gostava de aproximações com médicos.
Orihime ergueu a sobrancelha, recriminando a atitude dos colegas. Esse não era o jeito certo de lidar com o Schiffer, ele era como uma criança que não discernia o certo do errado. Como tal precisava de ser contrariado.
Naquele instante, Inoue estava decidida: ela escolheria Ulquiorra.
Não por pena ou compaixão, mas porque ela sabia, que ele estava precisando dela. Ele teria uma vida normal!
⁕ ⁕ ⁕
Paradoxalmente dos sete dias passados, alvorecia como se fosse Verão. A parte encantadora das estações do Outono, e da Primavera, era que não havia uma temperatura fixa… Poderia gradualmente tornar-se quente, ou inesperadamente descer até o mais arrepiante frio. Claro, que esse aspecto poderia tornar-se horrível para quem era mais sensível à mudança de tempo, sendo atacado directamente no corpo com gripes. Orihime porém, como reflexo de sua bondosa e juvenil personalidade, procurava enxergar sempre o positivo da situação.
Com um começo de dia esplendoroso, com o sol banhando os jardins de luz e cores, como a ruiva não poderia estar radiante?
Aquele seria seu primeiro dia como médica, oficialmente. O primeiro contacto com Ulquiorra como sua médica, desde que o escolhera. O doctor Kurosaki ficara estupefato e intrigado com sua escolha complicada. Não compreendeu o motivo de assumir uma tarefa tão complicada como iniciante naquele mundo coberto de coisas boas e coisas más. A cura de um doente enchia e movia a continuar com amor pela profissão, mas a morte de outro… Esse criaria desgosto e culpa eternamente. O fracasso de um médico seria sempre a consequência do fracasso de algum outro ser.
“— Inoue-san, tem certeza que pretende fazer isso? Ulquiorra é esquizofrénico, mas seu caso não é comum, é mais complicado do que as estatísticas apontam…
— Ulquiorra-san precisa de ajuda. Não é desistindo dele que irá recuperar.
— Entendo o que quer dizer, sinto o mesmo. Mas não confie demais, você tem um futuro brilhante… Não queira perder-se demais neste caso.
— Quando recuperar, valerá todo o tempo gasto. Será uma vitória.
— Na medicina não há ocorrência de acontecimentos surreais. Não existem milagres aqui, trabalhamos com factos. O fracasso é uma forte possibilidade.
— A evolução da medicina não começa com fortes probabilidades nem com factos. Mas esperança de encontrar o desconhecido. Eu irei encontrar isso para Ulquiorra-san.
Isshin suspirou, acenando em concordância, desistindo de a fazer desistir.
— Certo. Sendo assim ficará encarregue apenas de Ulquiorra Schiffer. Seu caso precisa de muita atenção e dedicação, irei livrar os outros médicos e entregá-los a outros pacientes. Ficará sozinha, espero que tenha consciência. Concorda?
— Hai. Não o irei desapontar, Kurosaki-san.”
Com um andar elegante e calmo, usuária de um largo sorriso, a placa com seu nome brilhava sobre o seio esquerdo que mexia consoante a típica ondulação do corpo movendo-se. Procurou no largo corredor, o quarto número “4”, na qual o moreno estaria hospedado esperando sua consulta rotineira. Sorriu quando o avistou de longe, inspirando fundo e criando força antes de entrar. Estava nervosa, mas sobretudo ansiosa!
Bateu três vezes na porta, esperando a autorização para entrar que rapidamente foi concedida. Adentrando no quarto simples, notou que Ulquiorra sequer a observara, prestando atenção à vista oferecida pela única janela do quarto.
— Por que mudaram de médico? —Questionou seco, e um tanto rude. A ruiva arregalou o olhar, como ele sabia que era outra pessoa se ele não a olhara e sequer falara?— Nenhum dos médicos anteriores bateu alguma vez na porta.
— Incrível seu poder de observação, Ulquiorra-san. —Orihime sorriu verdadeiramente espantada para o moreno, recordando que mudança de rotina era algo rapidamente detectado por um possuidor da doença. Porém, não acreditou que foi isso que denunciou-a. Ele era incrivelmente inteligente.
Ulquiorra redirecionou-se recordando a portadora da voz de imediato, confirmando suas suspeitas a encarando. Ficou ligeiramente intrigado com o seu sorriso.
— Seu idiota. Não percebe que ela o quer enganar? Seu sorriso é falso! —A voz grave atacou seus pensamentos, obrigando-o a fechar mais sua confiança, estranhado a súbita mudança de especialista.
— Não respondeu à minha pergunta, mulher. —Desviou o olhar pela janela, fazendo com que a ruiva suspirasse irritada, enrugando a testa.
— Eu o escolhi como meu paciente. —Anunciou frontal, não ocultando informação, sendo sincera. Para estabelecer confiança com Ulquiorra teria sempre de dizer todos os detalhes, e sobretudo, jamais enganá-lo.— Seu caso é grave. Desde que foi internado sua situação não melhorou ou regularizou, por vezes tem ataques, certo? Meu dever é acabar com eles, porém, a tarefa é difícil por isso o doctor Kurosaki retirou os outros médicos e deixou-me apenas como função sua estabilidade. —Completou com tom profissional.
Schiffer a observou procurando algum requisito de hesitação, medo ou mentira. Porém, ela mantinha-se firme o observando atentamente. Ela devia ser uma novata, constatou o óbvio. Deveria acreditar naquela médica?
— Ulquiorra, Ulquiorra… Não seja idiota! Eles querem colocar um diapositivo em você, não passa de um maluco perigoso! —A voz ria com escárnio apenas em sua mente, esta era um tanto mais aguda que a anterior.
— Eu estou bem. Não preciso de nada disto.
Inoue suspirou, retirando uma caixa branca do seu bolso, tirando a porção dos medicamentos recomendada da dose da manhã. Dirigiu-se até a mesa de madeira do quarto, e encheu o copo com água que ali continha, levando ambas as coisas até o moreno que mantinha-se receoso em tomá-lo.
— Ambos sabemos que isso não é verdade. Não resista, e tome os medicamentos é o único jeito de melhorar, Ulquiorra-san.
Ele simplesmente a ignorou. Levantando-se para ir até sua cama, Orihime agarra seu braço por reflexo para este parar. No entanto, num breve segundo Ulquiorra quase surtou. Mexeu seu braço com força e quase acertou no rosto da médica.
Dobrou uma perna, mantendo o equilíbrio, enquanto que com o outro pé deu um golpe nas pernas de Ulquiorra, agarrando seu braço o cruzando nas costas. Forçou este a dobrar a coluna, que rapidamente gemeu com dores, sendo dominado. Inoue aguardou uns segundos, o soltando ao perceber que seus músculos estavam menos tensos, regressando à normalidade. Sabia que aquele gesto agressivo não vinha do rapaz, por isso não estava chateada com a tentativa de agressão.
— Só para que saiba, fui cinturão negro em karaté. Não são uns ataques de raiva que me derrubam. Eu o irei ajudar Ulquiorra-san, por bem ou por mal. Tome os medicamentos, ou eu os faço engolir à força.
A ruiva tivera que retirar novos medicamentos e buscar outro copo de água, que tinham caído no instante que ela defendera-se, estendendo-os em seguida até ele, que com o braço ainda vermelho e dolorido não tivera forças para recuar.
Inoue abriu um largo sorriso quando este cumprira o ordenado. Fez sinal para este abrir a boca, comprovando que ele os tinha tomado. Habituado a esse tipo de pedido, cedeu rapidamente conformado. Aumentou o riso por este não ter fingido tomar e colocar os comprimidos no canto da boca ou debaixo da língua.
— Fico orgulhosa, Ulquiorra-san! Pode chamar-me se precisar de algo, na hora de almoço eu retorno para lhe entregar a medicação e fazer análises de rotina. Sabe que…
— … tomar o remédio nas horas certas, todos os dias, é muito importante. Sim, eu sei. —Complementou frio, desprezando o conselho. Algo que não intimidou a ruiva que continuou sorrindo.
— Exacto! Isso é bom, dificilmente o esquecerá!
Ele quase incrédulo assistiu a mulher dirigir-se à porta, murmurando um até breve como se fossem amigos. Ou como se ele sequer apreciasse sua companhia. Aquela mulher era louca! Ela queria usá-lo como cobaia, ela estava a ajudá-”los”. “Eles” queriam controlar sua vida e usá-lo, mas não o iria permitir. Aquela mulher era perigosa. E ele não confiava nela. Custe o que custar, não podia acreditar em suas palavras esperançosas.
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A relação de Ulquiorra e Orihime não começou da melhor forma. Um encontro num hospital, independentemente das circunstâncias, não era um lugar propício à criação de bons sentimentos. Contudo, era com o quebrar do espírito de Ulquiorra, com seu silêncio sufocante, e as vozes o atormentando constantemente, que ele descobriu o prazer e a harmonia de ter Orihime perto de si.
O Schiffer continuava o mesmo desconfiado com medicina e médicos. Porém, Inoue Orihime não era apenas uma médica. Aos poucos, criando uma amizade na base de honestidade e confiança, ele aprendeu a confiar exclusivamente nela. E após cinco meses, sendo visitado e tratado diariamente por seu jeito dócil -e por vezes firme- seu estado clínico começou a melhorar, pela primeira vez.
Apesar de ainda ter surtos, sendo preciso rever a medicação inicialmente atribuída e que precisa de ser modificada consoante o seu estado actual, Ulquiorra confessou ineditamente que realmente tinha um problema e desejava ser livre dele. As lágrimas lavaram o rosto da ruiva, comovida, com tal declaração. Pela primeira vez, viu a essência de Ulquiorra Schiffer sem qualquer requisito da doença.
Momentos únicos e indescritíveis criaram uma conexão demasiado intensa. Ambos sozinhos no mundo, acabaram por envolver-se demais um com o outro. Vários colegas de Inoue alertaram o perigo de ela até em folgas e fim-de-semanas visitar e cuidar de Ulquiorra. Ele poderia ficar obsessivo com sua presença e atenção. Isso mostra um sinal de confiança, um ponto positivo na sua evolução… Porém, se ela for quebrada ou diminuir -uma vez que esta possui vida para além da medicina- esse ponto torna-se negativo e seu estado pode regredir ainda mais do que quando ela começou.
Aceitando, respeitosamente, todas as divergências de opiniões da dela, ignorou-as, prosseguindo com seu procedimento. Nem ela previa afeiçoar-se tanto ao Schiffer, encontrou um amigo que a compreendia. Ele era boa pessoa, sentia isso. Notava sua real personalidade quando estavam juntos, e a medicação estava contribuindo imenso para todo esse desenvolvimento.
Foi quando, inevitavelmente, ela percebeu que tinha-se apaixonado.
Nunca sentiu amor antes. Não daquele romântico. Estava perdida com tantas emoções, sabia que ele tinha um problema para toda a vida, mas todos tinham certo? Contudo seu receio era misturar seus sentimentos com sua relação profissional. E se ele percebesse? Poderia não reagir bem a uma mudança, a uma confissão, poderia afastá-la. E isso não era apenas um amor não correspondido para ela, era uma perda da estabilidade para ele. Não podia permitir isso, não seria egoísta. Iria ignorar seus sentimentos, estava decidida!
No entanto, ela não conseguiu.
Visivelmente, os restantes médicos e até o chefe Kurosaki notaram a conexão entre eles. De como Orihime ruborizava quando o tocava, mesmo em acto profissional. O dono da instituição apressou-se em retirar-lhe o caso, porém o contracto assinado por ambos não o permitia, e como ele esperava ela negou-se a abandoná-lo. Ainda tentou levar o caso a administração, mas não existia uma brecha de como a tirar do caso do Schiffer. Ela não violou o procedimento, não demonstrara conduta incorrecta já que apenas nutria sentimentos pelo paciente, nunca se envolveu com o mesmo… E os números da evolução de Ulquiorra Schiffer eram significativos. Eles falavam por si. Ulquiorra era o paciente fantasma daquela clínica, nunca ninguém conseguiu uma décima de uma melhoria, e naquele momento ela avançava com 4.2 por cento. Se continuasse assim, brevemente, ele poderia receber alta. Algo inédito, nunca pensou que ela conseguisse. Na verdade, que sequer alguém obtivesse tal proeza.
Podia parecer intransigente ou que estava sendo problemático, contudo ele apenas se preocupava com o bem estar de Orihime. Como médico, ele defendia a filosofia que um esquizofrênico podia ter uma vida normal… porém, sua experiência lhe revelava que isso era utopia. Nunca seria normal, equilibrada talvez. Sempre existiriam medidas de precaução, medidas de risco, não era apenas o controlo excessivo da medicação. Um esquizofrênico era inseguro, ciumento, possessivo, desconfiado… Mesmo sobre o efeito dos medicamentos isso sempre faria parte de sua vida por conta da doença. Sempre seria um doente, e uma relação não era fácil nessas circunstâncias. Ela poderia arrepender-se e descobrir o amor mais saudável posteriormente, e a culpa destruíria a jovem se ele cometesse alguma loucura por conta do desgosto. Ou seria amargurada por ver-se forçada a nunca abandoná-lo para evitar um muito provável suicídio.
Ela era médica no horário laboral, mas numa relação com Ulquiorra ela seria a tempo inteiro. Não havia pausas para descansar ou para aproveitar com seus amigos. Ele sempre reagiria mal a meios sociais muito agitados. Eles eram demasiado diferentes. Ela alegre, cativante, sorridente, sonhadora, ambiciosa, amiga. Ele era obscuro, sério, indiferente, vazio, frio. Isso não era só pela doença, é um contraste de personalidades com o extra do seu problema.
Era impossível darem certo. No entanto como ele fazia isso entrar em sua cabeça? A resposta da ruiva era sempre a mesma. Dizia para ele não se preocupar, que ela sabia o que estava fazendo.
Escutou passos apressados pelo corredor, espreitando disfarçado pelo seu gabinete, confirmou que tratava-se de Orihime com a lancheira do seu almoço no peito dirigindo-se ao quarto de Schiffer. Suspirou derrotado, ela iria almoçar com ele de novo. Ele preferia comer isolado, raramente ela o convencia a reunir-se com os demais no refeitório.
— Orihime Inoue, você tem um coração puro e muito ingénuo. Talvez só você possa salvar esta alma da sua escuridão. —Comentou alto, observando o relatório de Ulquiorra. De vez enquanto, até se enxergavam milagres na medicina.
A ruiva dançava entre passos ao dirigir-se, apaixonada, até o quarto onde sua rotina se prendia. Bateu na porta, usualmente três vezes, escutando sua voz permitindo a entrada.
— Ohayo, Ulquiorra-kun! Como se sente hoje? —Ulquiorra sorriu com o entusiasmo habitual da médica.
— Bem. Como sempre. —Respondeu irônico, fazendo com que esta fechasse a cara num beiço emburrada.
— Sempre simpático, Ulquiorra-kun. Precisa de sorrir mais! Se não quando tiver cinquenta anos sua cara só terá rugas! —Alertou séria, o moreno quase gargalhou com essa sua expressão. Inoue séria era de rir, sobretudo se o alertava para temas de estética. Ele não ligava para isso.
Na verdade, preocupava-se com poucos assuntos. Talvez sua atenção fosse exclusivamente para a médica que o acompanhava.
Notou esta trazer sua lancheira rosa, retirando sua sandes de queijo com doce de morango e mortadela. Que sabor mais… exótico. Sentiu-se enjoar apenas de olhar. Ainda recordava-se que no início pensava que ela o queria matar, como as vozes lhe diziam, se ela não comesse sempre, acreditaria que aquela mistura era tóxica.
— Quer um pouco? —Orihime riu, não suspeitando de seus pensamentos, educadamente lhe oferecendo a sandes.
— Estou sem fome. Obrigado. —Respondeu prontamente, quase desesperado.
— Nunca tem fome, Ulquiorra-kun. Será que está doente? Uma gripe, talvez.
Comentou alto, pensativa. Ulquiorra suspirou… ela era tão… prestável, demais às vezes. Escutaram um som vindo do bolso de Orihime, que fez um sinal, em que ia atender. Notou o seu sorriso ao atender a chamada, rindo largamente.
— Ishida-kun! Como vai? Sério? Fico tão feliz por você! Claro que irei, será na semana que vem, certo? Estarei lá! —Com a promessa explícita, Ulquiorra fechou o rosto com aquela situação. Não gostou daquele Ishida.
— Idiota. Ela nunca olharia para você… Ela é linda demais, haverá melhores para estarem com ela. Você é apenas o maluco de quem ela cuida. A mascote. Pensou que seria algo mais? Ridículo! —Tentou ignorar com muito esforço as vozes que gargalhavam em sua cabeça.
— Ishida vai publicar um livro sobre costura! Ele faz vestidos para bonecas, é muito bom! Ele tem muito jeito e vai ter muito sucesso de certeza!
Orihime narrava os feitos do amigo quando eles eram da mesma turma. A intimidade que eles partilhavam, as memórias agradáveis que faziam esta sorrir estavam alterando seu humor, que cada vez mais ficava silencioso.
— Vai ter com ele? Quem fica encarregue da medicação então? —Frio e indiferente, acusou, numa crise de ciúmes.
— Ah? Ulquiorra-kun que coisa boba, você vem comigo é claro! —Ulquiorra piscou o olhar confuso e abismado, esquecendo seu recente mau humor. Esperando uma justificação.— Ontem, estive conversando com o doctor Kurosaki e decidimos que seria bom você sair um pouco da clínica, ter um passeio semanal para se ir habituando ao ambiente social e ao mundo real antes de receber alta.
O ar natural de Orihime e seu sorriso contagiante, o assustou. Como ela não o enxergava como um perigo? Por que ela não tinha medo dele? Por que ela confiava tanto que ele era capaz de vencer a sua doença? Inoue, carinhosa e profissional, adivinhando o rumo de seus pensamentos, colocou a mão em seu ombro o observando fixamente.
— Eu não estou com medo. Confie mais em si, Ulquiorra-kun! Nós vamos vencer seu problema, eu prometo.
— Arigatô, Orihime. —Agradeceu sinceramente, pela primeira vez, por a mulher estar a lutar arduamente por si.
Abraçou-a, enterrando a cabeça entre seus seios, escutando os batimentos cardíacos contra a sua face, tranquilizando-o. Aquele coração era a fonte de sua esperança. Era só isso que ele gostaria de ouvir, o resto de sua vida.
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A Biblioteca de Karakura acolheu, muito atenciosa, o projecto de Ishida Uryuu. Interessados pela sua iniciativa, e curiosidade pelo trabalho demonstrado, ficaram fascinados com os bordados elaborados durante o tempo livre do ex colegial. Encarregaram-se de conseguir uma editora confiável, tratando também do monetário, sendo merecedora de trinta por cento de cada venda. Também, todos os livros com a mesma temática deviam ser publicados associados com a biblioteca, tendo sempre cada um uma palestra especial de Ishida com os leitores que se reunissem no espaço para o escutar.
Um acordo que Ishida vibrou de felicidade. Era a concretização de um sonho seu, um reconhecimento de seu trabalho.
Foi essa notícia, que originou a saída de Ulquiorra da Clínica Kurosaki, directamente para a Biblioteca de Karakura para escutar o amigo de Inoue. A médica considerou uma excelente estratégia, que a primeira saída do moreno fosse a um espaço fechado, quieto e reservado. Numa biblioteca não haviam gritos ou confusões, normalmente as pessoas que se interessam por livros costumam ser mais reservadas. Não que isso fosse uma regra como estereótipo, mas o facto é que havia poucas chances de haver uma crise no esquizofrénico por apenas escutar uma palestra. Era um bom teste para analisar concretamente sua evolução naqueles meses que se sucederam desde que ela encarregou-se do seu estado.
Orihime encontrava-se deslumbrante com um vestido simples pérola. Por sua vez, Ulquiorra usava uma camisa branca com calças de ganga comuns. O conjunto deste foi comprado recentemente pela ruiva, uma vez que este praticamente não possuía roupas pelos longos anos de internamento sem previsão de saída, tornando-as inúteis.
O casal passeava junto, recebendo diversos olhares pela beleza do pormenor daquelas duas figuras juntas. Muitas jovens colegiais suspiravam apaixonadas por sonharem com um amor como aquele que enxergavam no momento. Orihime ruborizou com a atenção recebida, desviando o olhar curiosa para Ulquiorra, ficando frustrada por esta manter-se apático. Ele, percebendo que era encarado pela ruiva, correspondeu ao olhar fazendo com que esta ficasse mais envergonhada rapidamente voltando a olhar para o caminho que seguiam, deixando-o confuso com sua reacção sem sentido, aos seus olhos.
Prestando atenção nos seus próprios passos, parecia escutar sussurros sobre ele. Os olhares voltados para si, agravaram sua suspeição, distorcendo a realidade.
— Está vendo? Todos sabem o quanto você é patético! Nunca será alguém normal. —Malditas vozes, apertou o punho enraivecido.
Um gesto que não passou despercido a Inoue que colocou-se à sua frente, o encarando serena.
— Ulquiorra-kun, sente-se mal? Quer voltar?
Não, ele não queria. Estava a gostar mesmo de inspirar ar puro, ver cores e novos ambientes… Mas aquelas pessoas os observando e sobretudo sua mente não o deixavam aproveitar o momento.
— Não. Desculpe por preocupá-la, elas não se calam, é só isso. —Orihime compreendeu rapidamente o que este queria dizer. Não era novidade Ulquiorra referir-se às vozes que o atormentava, ficava feliz pela confiança que ele nutria por ela, ao compartilhar esse sintoma.
Carinhosa, levou suas mãos até cada maçã de seu rosto, erguendo seu olhar para o dela, sorrindo com as esmeraldas surpresas.
— Eu percebo, é cansativo elas estarem sempre em sua mente. —Ele acenou, pesaroso.— Não as escute, sei que não é fácil… Mas quando elas o chatearem, fale comigo, e ouça apenas a minha voz.
O corpo de Ulquiorra tremeu com a última parte sussurrada. Sentiu seu corpo aquecer estranhamente, mas de um jeito bom, nunca antes experimentado. Um sorriso largo dançava pelo rosto da médica, e num impulso, ele agarra sua mão, entrelaçando seus dedos. Orihime começou a gaguejar, escarlate, enquanto ele mantinha-se sereno puxando-a para continuarem seu trajecto até à palestra. Inoue pousou a cabeça em seu ombro, estava muito feliz.
Quem os enxergasse na rua, não os considerava apenas amigos, porém concordavam não serem amantes. O amor era um processo lento. As bases precisam ser firmes para vencer as adversidades, ou o sentimento iria desmoronar com a primeira ventania mais brusca. Tinha de ser construído, e não precipitado. Eles ainda estavam no meio do processo.
De mãos dadas, entraram na biblioteca, ricamente enfeitada com bonecas de porcelana vestidas elegantemente.
— Olhe Ulquiorra-kun! São os vestidos que o Ishida-kun fez, não são bonitos? —Ulquiorra reparou nas vestes das bonecas, indiferente, na verdade não tinha senso de gosto de roupa para brinquedos.
Perante seu rosto cheio de expectativa, suspirou.
— Suponho que sim.
Riu com seu jeito emburrado, encaminhando-se pelo percurso que as bonecas faziam, como se fossem placas de informação, para o local da palestra. Haviam vários assentos disponíveis, porém, Orihime preferiu resguardar Ulquiorra num lugar mais discreto, acenando de longe a Uryuu, incentivando-o. Ele sorriu agradecendo o gesto, confiante.
As duas horas seguintes eram prestadas apenas no autor do livro, apresentando e ensaiando um pouco alguns textos de seu livro de costura. Muitos ficaram fascinados, aplaudindo entre a explicação. Orihime sorriu orgulhosa pelo triunfo do amigo. O Schiffer, incrivelmente, prestou atenção gostando do que ouviu. Ele era um homem que sabia falar com algumas ideias interessantes, apesar de não ter interesse numa amizade ou um contacto a longo.
No final da apresentação, agachou a cabeça pensativo, enquanto Orihime cumprimentou Uryuu. Não quis pressionar apresentações, percebendo o desconforto do moreno. Ao retornar, notou a distracção incomum no olhar esmeralda que sempre se mostrava atento a seus movimentos.
— No que está pensando? —Ulquiorra ergueu o olhar com Orihime ajoelhar-se, ficando da mesma altura de seu olhar.
— Seu amigo amigo é bom no que faz. —A ruiva enrugou uma sobrancelha desconfiada.
— Sim, é verdade. Mas não é isso que o incomoda.
— Nunca fiz algo que realmente gostasse… Isso é normal? —Notou que a pergunta era retórica, reparando em seu tom cabisbaixo.
Ulquiorra estava a sentir necessidade de encontrar-se, trabalhar, procurar e encontrar sua identidade. Queria ser normal, integrar-se num meio específico. Isso era excelente, um grande avanço para a primeira visita. Sorriu, estonteante. Sabia que era cedo demais para ele começar a trabalhar, mas podiam começar a prepará-lo? Seus dias podiam preencher-se de actividades que o ajudassem a encontrar uma tarefa que o complementasse.
— Sabe o que eu acho? Que é normal todos desejarem algo para fazer. Posso ajudá-lo nisso. —Ulquiorra sorriu discreto, ainda distraído.— Não se preocupe, você não é uma aberração Ulquiorra-kun. Você é capaz de fazer algo se quiser, confie mais em si e no seu potencial! Eu vou ajudá-lo em tudo, estarei sempre ao seu lado!
Ele observou profundamente o tom marrom de seus olhos, abaixando a cabeça, tocou de leve nos lábios da médica, um toque de lábios tão breve que mal sentiram a maciez. Recuou veloz, ignorando o que fizera ou as razões que o motivaram para tal coisa.
Ruborizada, sentiu de novo sua mão ser puxada como antes, tinha sido seu primeiro beijo. E talvez tivesse sido o mais curto da história da humanidade, mas fora o suficiente para imaginar borboletas em seu ventre.
Por que ele a beijou? Sentia algo por ela? Era o nascer de algo novo entre eles? Por que só vinham perguntas à sua cabeça?
Apesar de o dia estonteante, Orihime não deixou de sentir-se confusa. Ela estava mais certa do que nunca que amava Ulquiorra, lutaria por ele e por uma relação entre os dois. No entanto, estaria também ele disposto a isso?
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Orihime encontrava-se no seu gabinete, preenchendo relatórios sobre o avanço de Ulquiorra. Deveria comentar o beijo? Eticamente, era errado eles envolverem-se mas o facto de ele conseguir ter demonstrações de afecto, de cariz romântico, podia ser significativo. Omitir um dado desses podia ser problemático, porém era embaraçoso demais escrever isso nas observações nos comentários no final da folha.
Mordeu o lábio, indecisa. Expirando longamente, levantou-se num pulo, determinado.
— Força, Orihime! Não pode mostrar medo logo agora!
Colocou os relatórios debaixo do braço, encaminhando-se firme até a direcção. Bateu, simples, na porta apesar de esta estar ligeiramente aberta.
— Hm? Oh, Inoue! Pode entrar. —Isshin sorriu carismático, como usual, indicando à ruiva para sentar-se na cadeira de frente para si. Algo que ela obedeceu prontamente.— Precisa de algo?
— Só vim entregar a papelada sobre Ulquiorra Schiffer. —A médica sorriu nervosa, com a expressão séria do Kurosaki, que colocou os relatórios num canto, dobrando os braços sobre a mesa.
— Não era preciso incomodar-se em vir entregá-los, Inoue.
— Sim, eu sei. —Ruborizou por ter gaguejado. Isshin suspirou com o previsível.
— Há algo que queira contar que não pode constar nos relatórios sobre o paciente, certo? —O rosto da mulher ganhou diversas tonalidades entre o rosado e o vermelho, acenando positivamente escondendo a cara entre os longos cabelos ruivos. Isshin a observou sério.
— Fico feliz pelo desenvolvimento de Schiffer. Nunca pensei que o conseguiria, confesso. Nem eu fui capaz.—Orihime elevou o olhar, surpreendida pelo elogio do superior.— Mas tenha cuidado, Inoue. Não me importo que tenha alguma relação com o paciente, acho um absurdo quererem colocar regras em relacionamentos que podem contornar os padrões e tornar-se imprevisíveis. Mas ele é um esquizofrênico, melhorou mas não está estável. E mesmo que fique…
— … Ele nunca será normal, nunca terá uma cura. Eu sei. —Completou maquinalmente Orihime, ganhou uma expressão mais feroz. Aquele tema a estava começando a irritar, apesar da bondade e compreensão do Kurosaki.
— Eu não duvido de seus sentimentos. Nem dos dele, eu sei quando um homem está apaixonado. —Isshin desviou o olhar, melancólico. Recordando-se de Masaki.— Porém, a vossa relação terá sempre um problema com os avanços naturais. Ele será extremamente dependente de você. E isso pode gerar conflitos que usualmente terminam com relações normais, quanto mais uma assim. Uma doença muda as circunstâncias. Você quer ser esposa ou uma enfermeira, Inoue?
Inoue o encarou com o rosto franzido, estava a sentir-se ofendida.
— Ulquiorra pode ser alguém normal! Não um eterno doente!—Exclamou num tom mais elevado.
— Mas é isso que ele é, Inoue! Uma relação precisa de apoio mútuo, não é você suportar todas as dificuldades sozinha.—O Kurosaki acalmou-se ligeiramente, não poderia exaltar-se, queria alertá-la, não revoltá-la.— Nunca se esqueça que o Schiffer estando muito ligado a si, ele irá colocar os motivos da sua recuperação por si, e não por ele. E se um dia você falecer primeiro que ele? Ou se eventualmente acabarem a relação? Isso é algo comum nos jovens, na indecisão não sabem o que sentem nem o que querem. Schiffer ficará pior do que quando começou.—Finalizou num tom sábio.
A médica pensou em silêncio poucos minutos sobre o que escutara. Ela sabia que o Dr. Kurosaki estava certo, porém, ter esquizofrenia não era uma sentença. Agora uma doença exercia o papel de destino ou de uma divindade que controla as vidas humanas? Então para que existiam os médicos? Não era uma salvação para estas pessoas? Ela iria combater esse preconceito. Por Ulquiorra, e por todos os que padeciam do mesmo mal.
— Agradeço sua preocupação, Kurosaki-san. Mas eu sei fazer meu trabalho. Eu sou amiga de Ulquiorra-kun, quero que ele recupere por ele mesmo. Quero que ele ganhe confiança e amor próprio, mas preciso de o ajudar. Quero que ele seja alguém normal, e não que tenha uma vida limitada por sua doença. Não é assim que trabalho com meus pacientes.
Erguendo-se, voltou a posicionar a cadeira no seu devido lugar, numa cordial despedida, deixou o director da clínica com os relatórios. Ele confessava que Orihime tinha um incrível poder de persuasão. Gostava que ela estivesse certa, e funcionasse. O problema era o “se não…”, como médico, angustiava com tal possibilidade.
Lembrou-se da primeira vez que a viu, na sua palestra, sentiu que ela era alguém especial e extremamente talentosa. Talvez, fosse aquele momento, em que ele teria de confiar nela e deixar seu talento fluir.
Seu andar, ligeiramente apressado, demonstrava sua frustração. Revoltava-a que não houvesse ninguém que lhe desse algum apoio, apenas lhe colocavam mais perguntas e problemas diante de si. Como se ela não os soubesse antecipadamente. Orihime estava disposta a pelejar contra todas as opiniões que os enfrentavam, contra todas as vozes da cabeça dele, para que ele apenas escutasse a sua. Era uma promessa que lhe fizera.
Inoue o iria salvar da escuridão da desconfiança que o acompanhavam. Apesar da sua doença, ele poderia e seria feliz.
Orihime observou o jardim na paisagem, lembrando-se da primeira vez naquela clínica, apresentando-se a Ulquiorra. Os ramos despidos enfeitavam os jardins congelados. O verde era substituído pelo manto magro, aparentava ser tão fofo, recordou. Como uma jovem tipicamente romântica e apaixonada por contos de fada, sua expressão suavizou percebendo que se conheceram num rigoroso inverno. A morte das estações, queimava o lixo excessivo, causado pela própria Natureza. O que será que a aguardaria a ela e a Ulquiorra na Primavera? O contraste com o frio, era a estação do começo da existência. No desabrochar das folhas, a esperança saltava nos corações, era o recomeço do ciclo da vida.
Como uma profissional, ela acreditava firmemente que Ulquiorra poderia ter uma vida normal devidamente medicado. Não era apenas uma crença ou fé, ela confiava no seu potencial, nos factos extraordinários da medicina, e sobretudo, acreditava na força de Ulquiorra Schiffer. Por isso, ela lutaria por ele, com fé na sua recuperação. Se ela não acreditasse, quem o faria? Ulquiorra? Ele sempre esteve sozinho, rodeado de dúvidas e vazio interno. Precisa de apoio para se reerguer, psicologicamente, e isso não eram os medicamentos que poderiam ajudar. Eram pessoas, amizades. Talvez estivesse na altura de ela enquadrar o Schiffer no seu ambiente social. Poderia ser arriscado, ele podia não gostar de seus amigos… Mas uma recuperação implicava sempre contras. E ela confiava também em seus amigos, eles eram boas pessoas, iriam ajudá-la. Com certeza, ela não poderia desistir dele. Orihime estava decidida a lutar contra as vozes da cabeça dele para que ele apenas pudesse escutar a sua voz. Iria salvá-lo do pessimismo e descrença que faziam parte da sua cabeça. Apesar da sua doença, uma parasita, ele deve encontrar a alegria de viver.
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Faltava uma hora para o turno de Inoue terminar, a maioria de seus colegas já eram os responsáveis pelas vigias nocturnas, acudindo os pacientes caso estes necessitassem de algo com urgência. A ruiva tinha sido dispensada mais cedo, porém, preferiu ficar a preencher relatórios e jantar com Ulquiorra no seu quarto.
Ele falava pouco, era da sua natureza ser mais ouvinte do que falante. Contudo, isso não a incomodava, aprendeu a decifrar no seu silêncio as respostas e atenção que ele lhe dava, mantendo o diálogo. Desde a morte de seu irmão mais velho, Inoue Sora, a médica ficara sem ninguém com quem partilhar as refeições tipicamente familiares, ou festas de comemorações importantes. Preferia abafar sua solidão com o trabalho, até acabar por encontra-lo.
— Mulher.
— Orihime. —Rapidamente o corrigiu severa, porém, seu olhar distante fez com que ela não relevasse esse aspecto.— Nani?
— Você tem a mesma opinião dos outros? Acredita que sou doido? —A profundidade melancólica do seu tom, fez com que uma dor terrível em seu peito, manifestasse no ardro aguado em seus olhos. Ela nunca pensou isso dele. Nunca pensaria.— Orihime. Você tem medo de mim?
A médica por um momento prendeu o ar, sem resposta. Incrédula, com as íris marrom arregaladas em espanto. Não sabia se era pelo enfase em seu nome, demonstrando a sua seriedade, ou se pela pergunta simplesmente imprevisível. Ela sentiu muita coisa pelo paciente, medo, nunca fez parte de sua lista.
Notou os músculos pálidos enrijecerem sobre a vestimenta hospitalar, seu silêncio tinha sido mal interpretado. Tinha de remediar rapidamente a situação, ou ele fechar-se-ia ainda mais consigo. Porém, como expor em palavras? Ele não acreditaria simplesmente nela, um esquizofrénico era conduzido pela desconfiança e fraca auto-estima.
Orihime ergueu-se da secretária onde comia, sentando-se ao lado de Ulquiorra na sua cama. Ficou uns instantes quieta, pensando numa resposta credível para sua mente cheia de vozes o instigando contra ela. Desviou o olhar para ele, notando que tinha a cabeça baixa. Movida pelo impulso, colocou as duas mãos em seu rosto, o obrigando a olhar directamente sobre seu olhar.
— Eu nunca tive medo de você, Ulquiorra-kun. Nem nunca terei, porque… eu me apaixonei por você. —Sorriu, ligeiramente rosada nas bochechas arredondadas.
Ulquiorra tremeu com essa revelação, atónico pela simplicidade com que ela confessara tal sentimento. Teve medo de suas palavras, teve medo do impacto que isso teve directamente dentro de si. Ele ficou eufórico, feliz? Ela o amava…?
— Idiota. Ela só quer enganá-lo… Uma mulher tão linda, nunca se interessaria por você. Apenas tem pena. —A gargalhada em sua mente, criava eco. O olhar esmeralda esmoreceu com a repetição lenta da frase, bloqueando em desgosto. Ele ficaria sempre sozinho, isolado, como uma ameaça. Como elas diziam.
A ruiva estranhou a súbita mudança do Schiffer, repentinamente ficou quieto, silencioso. Seu olhar opaco, ficou preocupada. Será que se precipitou?
— Ulquiorra-kun? —Ele não a estava ignorando, ele de facto não a ouvia, e suspeitou do motivo. Novamente, forçou os dedos na face pálida a puxando para si, desta vez mais firme, murmurando.— Não se esqueça, oiça apenas a minha voz, Ulquiorra-kun.
Audaz, e tendo consciência que arriscava muito, pressionou os lábios fortemente contra os do moreno. Queria despertá-lo, trazer para o mundo real. No entanto, estava nervosa. Nunca tinha beijado ninguém, estava nervosa e acabou por exercer força a mais do que a pretendida, falhando o encaixe perfeito das bocas, desajeitada.
Contrariamente ao que ela previa, ele correspondeu ao beijo. Seus lábios moveram-se gentis, transmitindo-lhe a calma que era suposto ser ela quem o deveria fazer. Um aperto quente em seu peito a emocionou, Ulquiorra conseguia ser tão romântico. Mordia levemente sobre seus lábios, tudo em movimentos lentos carregados de ternura. Entregaram-se justamente por essa sincronia que os dois encontraram, apesar da volúpia inicial, foi após ela que o beijo tornou-se carregado de intensidade.
Não eram mais uma médica e um paciente, eram apenas um casal apaixonado.
A mente de Ulquiorra estava totalmente vazia. Não escutava as vozes perturbadoras, sequer pensava no que estava fazendo, o sentimento o conduzia e sem desconfiança entregou-se a ele. Por sua vez, Orihime encontrava-se apreensiva com tantas linhas de raciocínio matutando-a. Ela queria ser amada, e amar, mas tinha receio que este avanço pudesse prejudicar Ulquiorra posteriormente. Ele agora não estava pensando, porém, a revolta poderia surgir depois. E ela não suportaria ser afastada dele.
Empurrou a palma das mãos contra o peito de Ulquiorra, fazendo com que ele parasse o beijo, encarando-a penetrante. Um rasto de saliva pendia pelos cantos dos lábios. A ruiva entreabriu os lábios, pensando em algo que deveria dizer, porém ficava desnorteada com os dedos de Ulquiorra movendo-se circularmente em sua cintura, suspirou em deleite ao subir o toque pelas costas. Ele colou a testa na dela, quase implorando uma permissão muda para continuar. Não iria conseguir resistir a isso, constatou rapidamente. Sorriu discreta, subindo ligeiramente sua testa, arranhando a ponta do nariz na boca dele, expirando lentamente. Apesar da tranquilidade em suas acções, ele não deixava de ser firme, e por vezes rápido, como quando voltou a capturar os lábios inchados, sugando-os. Gemeu com a língua adentrando por seus lábios.
Ignorando os princípios éticos que envolviam sua profissão, Orihime foi esquecendo que Ulquiorra era um paciente, cruzando os braços envolta do pescoço do moreno. Remexia com os dedos uma ponta da gola da camisola, insinuando tirá-la, percebendo isso ele afasta-se ligeiramente tirando-a sem pudor. Orihime sentiu o rosto ficar mais quente tanto de vergonha como excitação. Com a ponta dos dedos, contornou os músculos abdominais definidos, arranhando-os de leve, sentindo a pele contrair-se em sua mão. Não deixava de surpreender-se com a tranquilidade dele. Podia tentar pressioná-la para irem mais directo a um contacto mais íntimo, contudo, ele estava parado à sua frente, claramente excitado, a encarando avidamente. Como seu olhar era penetrante!
Arrepiou-se, engolindo um suspiro rouco, quando a mão de suas costas contornou a cintura, alisando a barriga sobre a veste, subindo até o avultado seio. Permitiu que ele abrisse os botões da bata médica, deslizando-a com o vestido suave que utilizava. Ficou constrangida por ver-se praticamente nua, não percebendo que era esse também o estado de Ulquiorra.
Ele agarrou sua cintura, a erguendo ligeiramente a sentando em seu colo, Inoue gemeu arqueando o pescoço ao sentir o membro forçando-se entre os lábios vaginais, sobre as últimas peças de roupa. As mãos alvas agarram firmemente as coxas, movendo-as repetidamente cima-baixo. Inoue mordia os lábios com força, apoiando-se nos ombros do moreno, enterrando praticamente a cabeça dele entre os seios.
O sutiã lilás que esta trajava tinha um fecho na frente, notando esse aspecto, com os dentes Ulquiorra puxa-o, fazendo com que a veste se abrisse e deslizasse pelos ombros ligeiramente suados com o aumento de temperatura.
Com o lábio inferior, contornou massageando o mamilo enrijecido, o puxando por vezes entre os lábios. Sugando mais firme, a ruiva moveu a cintura por reflexo do espasmo enterrando o membro dentro de si, mesmo sobre as vestes, o contacto fez com que ele gemesse. Inoue revirou os olhos de prazer, evitando gritar, respirando sofregamente.
Sentindo a textura macia da pele rosada contra a sua face, Ulquiorra circula com a língua no mamilo, enquanto uma de suas mãos subia pela cintura apalpando o outro seio. Ela puxava com força os cabelos negros, suspirando contra o topo de sua cabeça, em meio dos estímulos fechava instintivamente as pernas, apertando-as pela cintura do moreno.
Com o peito húmido pela saliva, Ulquiorra ergue o pescoço encarando directamente o olhar avelã. Seu rosto mantinha-se vermelho, com os lábios ligeiramente feridos ao morder para conter os gemidos. O corpo dela tremia convulsivamente, observando-a, acariciou um rosto com a sua mão, esfregando-a no seu corpo com a mão na sua cintura a empurrando para ele.
— Não se machuque, Orihime.
Ao princípio, ela não compreendeu o que este queria dizer, somente quando no meio de um espasmo, ia mordendo de novo os lábios, percebeu que ele apertou-a na nádega, com alguma força, a repreendendo. Ele forçou-a abaixar a cabeça, enterrando-a no seu pescoço, oferecendo a zona para que ela contesse os sons que não deveriam nunca sair daquele quarto.
O indicador de Ulquiorra brincava enrolando-se na aba da calcinha lilás, observou-a com alguma curiosidade, esperando alguma reacção negativa. Prevendo isso, a ruiva colocou a sua mão sobre a dele, fazendo força arrancando a única peça que ainda cobria sua nudez. Orihime constrangida, encostou-se ao corpo do moreno, tapando-se de sua visão minuciosa, beijando as marcas onde mordera anteriormente.
Arqueou-se quando Ulquiorra ergueu a sua cintura, encaixando um no outro, para a deitar na cama, ficando sobre ela de joelhos, ficou rubra com seu corpo exposto e ao perceber que este também retirara a roupa íntima, ficando nu. Mordeu o lábio ao notar o membro excitado roçando em sua coxa erguida.
Gemeu quando este mordiscou a barriga da sua perna, enrolando os dedos nos lençóis arqueando mais o corpo contra a boca que explorava seu corpo. Um espasmo perfurou a sua coluna com o pélvis circulando quase adentrando em si, abrindo os lábios em “o” por reflexo.
Zonza pelo prazer, sentiu o líquido transparente humedecendo as virilhas, gemeu rouca ao seu penetrada lentamente por um dedo. As paredes internas contraíam-se, desesperada, apertava as coxas na mão do Schiffer, tentando satisfazer a insatisfação do tamanho dentro de si. Ela queria mais, aquele vazio era demasiado torturante. Ulquiorra sorriu, impercetível, com essa atitude.
O polegar massageava o clitóris inchado, fazendo com que desta vez ela gritasse. A imprevisibilidade do toque, numa zona já extremamente sensível, fez com que seu corpo vibrasse frenético, percebendo a proximidade do orgasmo, Ulquiorra penetrou-a de súbito com dois dedos, fundo. Ele a beijou no momento que ela gemeu alto, abafando o som que com certeza teria sido escutado. A mão ficou húmida pelo gozo, continuando a penetrá-la mais devagar.
Orihime suspirava sentindo as ondas de prazer voltarem a comandar seu corpo, a franja colava-se na sua testa pelo suor, Ulquiorra beijou atencioso sua testa ao retirar a mão, posicionando o membro no sexo dela. Sem pensar com clareza, ela ficou frustrada quando ele não se mexeu, o encarando emburrada. Sua voz monótona, denotava algum carinho e preocupação, repetindo a pergunta que sempre o fez em silêncio desde que a beijou.
— Tem a certeza disso? —Sua reacção a trouxe bruscamente para a realidade, as maçãs do rosto ganhando uma tonalidade rosada mais acentuada pela vergonha. Ela sabia que aquela escolha era importante, não era apenas sexo, e ambos sabiam disso. Estando ligada intimamente a Ulquiorra, assumiria o amor que sentem um pelo outro, lutariam por isso.
Acenou em concordância, no entanto ele estreitou o olhar, queria uma resposta audível. Queria ouvir na sua voz que ela queria tanto aquilo como ele. Não suportava incertezas, estava cansado delas, já lhe bastavam as vozes. Orihime sorriu com a expressão carrancuda, por ela estar a demorar a responder.
— Sim, eu quero isso. —Ainda sorrindo, puxou seu rosto na sua direcção, deixando os lábios a milímetros de distância dos dele, sussurrando. — Sempre quis.
Sorriu disfarçadamente pela resposta com um certo toque de provocação quando ela o beijou. Moveu a cintura, penetrando-a com cuidado. Mordeu com força o lábio superior, contendo o gemido de satisfação empurrando-se totalmente dentro dela.
O braço de Ulquiorra escorregou para a cintura curvilínea, erguendo-a, embatendo contra ela durante as estocadas. O ritmo calmo e profundo foi modificando-se consoante a necessidade crescente, a mão esquerda do moreno agarrava firmemente a coxa marcando-a. O peito de Orihime sacudia-se a cada estocada, com algumas gotas de suor deslizando pela pele suave, que escorria da testa de Ulquiorra.
Os sentidos mais apurados, sensíveis a qualquer som ou toque, aproximaram-nos do auge. Orihime manteve as pálpebras abertas, encarando directamente as íris esmeraldas a observando. Não desviou o olhar, sequer cedeu à tentação de fechá-los com a explosão em seu ventre pela segunda vez. Em menos de dois segundos, Ulquiorra atingiu o seu ápice, perdendo a força nas pernas caindo contra o busto da ruiva, ofegante. Sentiu-se ser abraçado pela mulher, o pressionando contra si, remexendo em seu cabelo negro. Suspirou, em deleite, não havia mais vozes.
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O céu estava ocultado pelas nuvens cinzentas, apesar da temperatura quente. Avoada, Inoue encontrava-se em seu gabinete, bebendo chocolate quente. O seu olhar assistia o vapor indo contra a o vidro da janela, embaciando-a, ignorando por completo as letras expostas no livro aberto. Suspirou pela centésima vez, por seus cálculos.
Não sabia como haveria de encará-lo, depois de adormecerem, ela acordou com vozes das colegas do turno da manhã, assustando-se. Vestiu-se o mais rápido possível, ajeitando Ulquiorra em algumas cobertas, saindo do seu quarto. Evitava tirar a sua capa com a placa de sua identificação, temia que alguém estranhasse o pormenor de estar usando as mesmas roupas no dia anterior. Temia que suspeitassem…
Mas sobretudo receava a eventual não adaptação de Ulquiorra. Será que avançou demasiado em pouco tempo? E se ele começasse a criar também teorias de conspiração como inicialmente? No início, ela estava preparada, sabia que era efeito da doença, e mesmo sabendo isso naquele momento, sua desconfiança agora a machucaria.
Notou uma folha acastanhada voando, empurrada pelo vento, pela calçada. Não deixava de pensar em como aquele avanço na relação poderia ser prejudicial para seu estado clínico. E como ela deveria agir com ele? Profissionalmente? Amiga ou… namorada? Eles sequer eram isso?
Seria melhor enfrentar a situação com ele. Se não, ele pensaria que ela estava arrependida e a evitá-lo. Levantou-se num pulo da cadeira, batendo com as mãos no rosto, determinada.
— Coragem Orihime! Não podes ter medo agora!
Dirigiu-se à habitação com o número quarto, o início do seu trajecto era firme, escutando-se os seus passos com a força que embatiam contra o piso, no entanto, à medida que o quarto aproximava-se de seu campo de visão, os nervos afloraram, abrandando o ritmo.
Ficou cerca de cinco minutos encarando a porta, com a mão estendida, o rubor subia por seu pescoço. Ainda não sabia como encará-lo depois do que fizeram naquele quarto.
— O que está fazendo aí parada, mulher? —Ulquiorra sorrateiro e silencioso, aproximou-se da ruiva que bloqueava a sua entrada.
— Ah! Ulquiorra-kun! Não faça isso de novo! —Pulou assustada com a sua voz, ainda mais envergonhada, parecia que o coração iria sair de seu peito com a força que palpitava.
O Schiffer piscou confuso por sua reacção chamativa, ergueu uma sobrancelha, sua face inerente de expressão e maldade.
— Está mais estranha que o normal. —Afirmou usual, notando esta ficar mais desconfortável, encolhendo os ombros, desviando o olhar.— Está assim porque ontem fizemos s…—Foi bruscamente interrompido com as mãos da ruiva tapando sua boca, um gesto exagerado.
— Ah! Ulquiorra-kun, alguém pode escutar você! —O rosa alargara-se a todo o rosto da médica desesperada, enquanto este mantinha-se a observá-la sem compreender seu escândalo.
A usualidade do moreno acalmou Inoue. Ele não teve nenhum surto, na verdade, era ela que estava ficando doida e desconfortável com aquela situação. Nunca namorou antes, nunca soube o que era estar apaixonada. A ideia sempre a encantou, mas o cupido nunca acertou com a flecha em seu coração. Ela o olhou disfarçadamente, encarando este ainda a observando, ruborizou levemente por seu gesto ter sido percebido. Inspirou fundo, sentindo o coração palpitar mais forte.
— Ulquiorra-kun, eu acho que… precisamos de conversar. —Ele não disse nada, concordando.— Vem.
Orihime segurou na mão pálida o guiando para dentro do quarto, procurando um lugar reservado. Expirou o ar que continha, nervosa, procurou sempre olhá-lo em seus olhos, reparando que este abaixara o olhar, franzido a testa eventualmente. Eram elas. De novo o estavam perturbando.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Ulquiorra-kun. —O chamou, captando sua atenção com êxito.— Eu amo-te.
A simplicidade daquela declaração fez com que o Schiffer arregalasse as esmeraldas em choque, como se aquela declaração fosse uma novidade. Seus lábios proferiram as últimas palavras, sorrindo. Sentiu o seu rosto pálido ficar mais quente, apesar de não ter ganho nenhuma cor evidenciando seu constrangimento. Procurou disfarçar melhor suas emoções quando os olhos marrons brilhavam em sua direcção.
— Mas… Eu entendo se não sentir o mesmo por mim.—Ele a encarou atónico, notando o tom amargurado. Ela estava a conter o choro.— Não irei ficar triste se não quiser algo sério… Ontem… Apenas aconteceu… Não quero que se sinta obrigado ou pressionado para sentir ou assumir algo comigo… Seremos sempre amigos, e sou sua médica… e…
Ulquiorra tapou os lábios de Orihime com o indicador, a encarando severo. Agachou a cabeça tocando em sua boca, roçando os lábios, permaneceu próximo dela, colando sua testa na dela. Tentou soar indiferente, quase não reconhecendo sua voz ao identificar algum carinho, uma necessidade de reconfortar aquela mulher.
— Não minta para mim, Orihime. Você prometeu. —Surpresa, iria protestar, sendo novamente interrompida com os lábios perto dos seus.— Sei que ficaria sim desiludida se o que aconteceu ontem fosse apenas satisfação de desejo ocasional. Posso não ser normal, mas não subestime minha inteligência, mulher.
Orihime sorriu envergonhada, acenando em concordância, abaixou o olhar evitando o contacto visual, tentando afastar-se deste. Porém, rodeou sua cintura com o braço, a prendendo mais contra si, erguendo o queixo da ruiva.
— Você é diferente, Orihime. Sempre estive interessado por você. Não imagino você longe de mim, não mais.—Pousou a cabeça sobre o couro cabeludo ruivo, surpreendendo-a.
— Isso é sua forma de dizer que gosta de mim? —Riu, perguntando esperançosa pela resposta. Seu olhar cintilante parecia o de uma criança reluzente ansiosa. Ulquiorra desviou o olhar, arqueando o nariz, sério.
— De certa forma.
— Ulquiorra-kun! —Repreendeu-o por sua resposta vaga e usual, gargalhando. Não conseguia estar chateada ou decpcionada quando acabara de descobrir que seus sentimentos eram correspondidos. — Um dia vou conseguir que você diga as três palavras.
Orihime piscou o olho, fazendo com que ambos se divertissem, ela pulou em seu pescoço o beijando. Orihime arrepiou-se, com a agradável sensação aquecendo seu corpo, parecia levitar com o toque suave de Ulquiorra. Tão lento e tão intenso, uma maresia de sentimentos apenas com um roçar de lábios.
— A paixão na juventude é inspiradora. Me lembra de quando era mais novo.
A médica ficou estática reconhecendo a voz de Isshin Kurosaki à frente da porta aberta, os observando com um sorriso. A vergonha, e sobretudo o pânico, a impediram de soletrar uma única letra. Como se entrasse uma corrente de ar gélida pelo quarto, congelou todo o calor ou entusiasmo que a ruiva antes sentia. Ulquiorra observava Inoue, notando a palidez quase mórbida em seu rosto, suspirou observando o doctor. Não estava minimamente interessado numa eventual repreensão do chefe da clínica, sequer sentia-se constrangido. Apenas, não confia nele.
— Ele está aqui para o levar, Ulquiorra.—A voz feminina pronunciou-se como sinos em sua mente.— Vão usá-lo como cobaia de novo, vão colocar um chipe para o seguir!
Ulquiorra abanou a cabeça tentando ignorar os comentários das vozes, sabia que aquilo não era real. Ele não as podia escutar. Sentiu-se incomodado com o olhar marrom em choque, mesmo que Dr. Kurosaki sorrisse compreensivo, ela ainda estava perturbada, agachou o olhar, tentando esquivar-se daquele clima, apesar de elas, não o deixarem.
— Ela tem vergonha de você! Um doido… Ulquiorra, é isso que você é. Ela não gosta de você, só o quer usar como todos os médicos. Um experimento…
— O que pretende? —Ulquiorra soou normalmente frio, o encarando desconfiado. Isshin sorriu ignorando o tom acusatório, nitidamente zangado por o tê-los interrompido.
— Oh, é verdade! Já me ia esquecendo. Tenho uma notícia para lhe dar Ulquiorra, ainda bem que a Inoue está aqui também, assim ficam a saber os dois.
Orihime permitiu-se relaxar ligeiramente, recuperando do terrível choque de sua relação ter sido exposta logo ao seu superior. Atiçando a curiosidade do casal, o director fez durante largos segundos algum suspense, os torturando, divertido.
— Eu levei o seu caso à direcção Ulquiorra. —Ele tremeu visivelmente incomodado com seu caso ser explorado por tantos médicos, muitos sem ele os conhecer. O que pretendiam com ele? Orihime ficou mais atenta, seus batimentos cardíacos aceleraram em ansiedade.— E a decisão foi unanima. Após a sua grande recuperação, optámos que já poderia receber alta, amanhã. Parabéns Ulquiorra, fico muito feliz, de verdade.
O olhar de Orihime arregalou, levando as mãos até os lábios, abismada. Gritou de euforia, saltando para os ombros do Schiffer comemorando. Ficou estático com a notícia, nunca esperou um dia sair daquelas quatro paredes brancas. Abraçou a ruiva, com pequenas lágrimas presas no canto de seus olhos. Isshin enxergava-os comovido, seu receio profissional com a relação deles os dois estava desaparecendo, na verdade, até ele já acreditava que eles poderiam ser muito felizes juntos.
— Mas claro, que isso não teria sido possível sem a senhorita Inoue. Conquistou minha admiração, jovem. —Orihime o observou constrangida, e emocionada sorriu-lhe. Afastando-se do abraço do moreno, impulsiva abraçou o chefe agradecendo seu apoio e confiança, num murmúrio.
Ulquiorra encarava-os ainda grogue pela alegria de ver-se livre daquela clínica. Cada vez mais sua vida normal se aproximava.
⁕ ⁕ ⁕
As flores cresciam, subindo, pelas pernas dos bancos decorativos. Um encantador arranjo para os jardins presentes na entrada da Clínica Kurosaki. Uma mala simples e de tamanho médio, preta, encontrava-se junto a um dos diversos bancos espalhados pela zona. Junto dela, estava Ulquiorra Schiffer.
Observava o movimento singular das visitas, identificando-se para irem ver amigos e familiares. Sempre sorrindo. Um aspecto intrigante tendo em conta que era um sítio de doentes, se estavam ali não era uma felicidade, como se fosse uma maternidade. Era algo mau que se apoderara do corpo humano, porém, através dos vários profissionais a esperança era tremenda, impossível não alegrar-se apesar da desgraça que lhes visitara.
— Não parece muito feliz, Ulquiorra-kun. No que está pensando? —Orihime aproximou-se do moreno, notando que este sequer percebera sua presença, um facto raro no Schiffer. Sentou-se ao seu lado, trajando a bata hospitalar, olhando para a mesma direcção deste, apesar de ter notado as malas ao seu lado.
Aquele era o dia em que ele ia embora. Poderia ir para casa, estava livre daquele ambiente, na promessa de sempre cumprir a medicação e ser visto mensalmente numa consulta por Orihime ou o Dr. Kurosaki.
A ruiva pensou que este pudesse desaparecer logo pela madrugada, porém, vestira uma roupa casual que comprara num passeio com ela, e sentara-se ali… a manhã inteira. Apenas observando os outros, com uma expressão indecifrável. Sua atitude não condizia com a alegria que expressara no dia anterior… será que ele se acostumara demasiado à clínica, ou ao ambiente movimentado? Será que uma só com sua presença o assustava?
— Nada, na verdade. —Ela ergueu uma sobrancelha pela resposta previsível. Cruzou os braços o encarando.
— Por que não voltou para casa então? Pensei que quisesse ir embora, ou já sente saudades? —Orihime riu, com seu comentário, porém este sequer piscou o olhar.
— Não seja tola, nunca sentirei saudades disso. —A frieza ao apontar a clínica era compreensível para a ruiva, porém esta não deixou-se de surpreender.— Mas ainda não pensei para onde ir.
Arregalou o olhar, notando esse pormenor. Ele não trabalhava há imensos anos, tudo o que tinha foi para pagar suas despesas, logo nem teria dinheiro guardado para pagar uma renda. E se não tinha uma casa própria, realmente, não tinha onde ficar. E sendo perspicaz, ele sabia que não iria arranjar trabalho facilmente. Esquizofrenia era encarada quase como um perigo contagioso ou prejuízo laboral… Era aterrorizante para a maioria dos empresários. Suspirou, entendo por fim sua atitude, e seu dilema. Para onde ir? A clínica era o único lugar que tinha.
Uma ideia elaborada começou a ser trabalhada em sua mente, no entanto, ele poderia não gostar e rapidamente reprovar, uma escolha com consequências sérias para serem consideradas com atenção.
— Ulquiorra, você confia em mim? —O moreno desviou o olhar para esta, incrédulo. Iria responder com sarcasmo, porém enxergou pela primeira vez um olhar extremamente sério na mulher. Calmo, sereno, mas sem inocência ou brincadeira. Isso fez com que mudasse sua compostura perante aquela interrogação.
— Sim. Neste momento, é a única pessoa em quem confio.
Orihime sorriu com a sua resposta sincera, agarrando em sua mão, entrelaçou os dedos nos dele, depositando-a em seu rosto, sua expressão estava mais suave e adocicada.
— Então acho que o consigo ajudar, Ulquiorra-kun. —A face enrubesceu ligeiramente, intrigando o Schiffer.— Venha viver comigo.
Durante uns longos minutos, nenhum deles se pronunciou, escutando a melodia da brisa embatendo contra as folhas perdidas. Não quebraram o contacto visual em algum instante, Orihime não se arrependera de seu convite. Estava confiante. Ulquiorra por sua vez ponderava a situação, não lhe desagradava a ideia de morar com a ruiva, também não se sentiria bem longe dela… Porém, estava consciente que poderia ser um peso morto, sempre haveriam elas, e seus momentos racionais poderiam ser escassos. E se um dia ele desconfiasse dela? Ela o perdoaria? Vivendo juntos será que ela se iria cansar mais rápido dele?
— Se eu responder sim, teríamos de assumir algo... —Começou ligeiramente vago, recordando quando Orihime ficara nervosa quando ele insinuara o que aconteceu entre eles no corredor, e quando Isshin descobriu-os.
— Sim, eu sei.
— Tem a certeza que vai querer isso? Com alguém como eu? —A pergunta não fora tão directa como Ulquiorra costumava ser. Desde que aceitara o diagnóstico, mencionar sua doença era um assunto problemático, sobretudo quando envolvia a médica.
— Sempre deixei claro que isso não me incomoda. Eu aceito-o como você é Ulquiorra, ninguém é normal. Nenhuma relação é normal, porque não existem padrões para definir pessoas. Se eu o convido para viver comigo é porque o amo e quero estar ao seu lado a todo o momento. —Sabia que a confiança dele era uma coisa que precisava de ser trabalhada. Estava consciente que aquelas palavras teriam de ser repetidas inúmeras vezes, mas não se importava. Ele precisava de sua ajuda, e ela o iria fazer. Ele foi o único que tornou seus dias mais felizes. Não iria desistir.— Prefere que eu o deixe pensar sobre isso?
Orihime não esperou por uma reacção positiva, levantando-se do banco para dirigir-se para a clínica, deixando-o reflectir. Contudo, sua mão foi segurada bruscamente, ela o encarava surpresa por essa atitude.
— Não é necessário. Eu aceito morar com você.
Puxando a mão que segurava, Ulquiorra beijou rápido a ruiva, ruborizada por seu gesto imprevisível. Estava muito feliz com a sua decisão. Aquela nova fase poderia ser difícil, mas com certeza seria a mais feliz.
O beijo assistido foi duramente criticado e comentado pelos colegas de Inoue, sobretudo, por aqueles que eram movidos pela inveja de sua beleza ou talento. Loly e Menoly, enfermeiras do horário nocturno, inclusive apresentaram queixa contra a médica por não respeitar a ética profissional, envolvendo-se com um paciente, a Isshin. Apesar de este saber que os primórdios da relação estabeleceram-se perante esse erro, não iria prejudicar a jovem por isso. Nunca o fez, nem pretendia fazer. Essa regra era imbecil na sua perspectiva. Por isso, fingira não saber de nada para além do beijo público, declarando que não poderia aceitar a queixa porque Ulquiorra já não era um paciente internado da Clínica, logo, a ruiva respeitara todos os padrões estabelecidos.
Loly, durante uma explosão de raiva, tenta esbofetear o superior por defender a ruiva sabendo de sua falha. Porém, resultado dos anos de treinamento de artes marciais, fez com que bloqueasse o golpe, segurando seu pulso atrás de suas costas. Naquele instante, perante a fúria escrita nos traços envelhecidos do Kurosaki, perceberam seu grave erro. Foram despedidas naquele exacto instante, com justa causa. Isshin apresentou queixa às autoridades, e foram algemadas encaminhando para fora da clínica.
Algumas recriminações se alongaram depois do motivo do incidente com as duas enfermeiras se espalhar como uma gripe pelo centro hospitalar. Alguns médicos amigos da ruiva, com boas intenções, tentaram demover a jovem de envolver-se com o problemático e silencioso Ulquiorra Schiffer. Unohana era uma senhora de quarenta anos, sempre sorridente e simpática com os pacientes, porém nunca deixando a intimidade transbordar por sua gentileza. Ela queria sobretudo tratar seus doentes num clima agradável, não ser de facto uma amiga. A senhora extremamente sabedora pelos largos anos de experiência, usava uma trança debaixo do queixo, seus longos cabelos castanhos desciam pelo peito até a cintura.
Numa agradável visita, entregou alguns relatórios a Orihime, comentando discretamente sua relação. Tentou alertá-la para o fracasso inevitável de seu relacionamento, com um pequeno sorriso, tentou mostrar-lhe sua perspectiva.
“— Inoue-san é jovem, é normal acreditar e ter esperança no impossível. Mas lembre-se uma relação não é um jogo de individualidades, não é um campo de batalha onde se sacrifica pela pessoa amada. É uma vida conjunta, um apoia o outro. Mutuamente. Com certeza, você ajudará Schiffer-san com sua doença. Mas, todos temos problemas, e todos precisamos de ajuda. Será que o Schiffer-san vai conseguir ajudá-la? Entender sua necessidade de trabalhar mais por outras pessoas? Pense e considere antes de o machucar. Acima de tudo, você é médica.”
Inoue agradeceu genuinamente o conselho da mais velha. Reflectiu sobre isso até o amanhecer, a personalidade calada de Ulquiorra e as vozes sempre seriam um empecilho entre eles. Mas não se tratava só de esperança, era amor. Ela sabia que essa conexão profunda os unia, e podia mantê-los unidos. Acreditava firmemente na lenda Akai Ito, onde um fio vermelho amarrado na ponta do mindinho de duas pessoas, unia-as, e não importavam as circunstâncias, elas estavam destinadas a estar juntas… Porque esse fio nunca se quebraria. Estava disposta a lutar por ele, e percebeu que ele aceitou até combater a si mesmo por eles. Eles estavam a remar na mesma direcção, e isso provava que tal como Unohana sugeriu: apoiavam-se mutuamente. Contudo, de formas diferentes, eram pessoas distintas logo apoiam-se consoante cada um precisava.
Sua relação com Ulquiorra não semelhante às que eram descritas em contos de fadas. Ulquiorra não a salvava de um dragão, nem dizia palavras bonitas para a ver sorrir. Seu relacionamento era baseado num confronto real com a morte e resistência ao pior da essência individual. Não era uma história cor-de-rosa, era o tom mais negrume e sujo que poderia existir. Era um ajuste de tons, até ir gradualmente clareando, e o final… esse sim, poderia ser cor-de-rosa. E por que não muitas mais cores radiantes?
Orihime apesar da profissão que lhe concebia um ordenado consideravelmente avultado, não procurava riquezas manterias, e esse aspecto reflectia-se em todo o seu quotidiano. Sobretudo, seu lar. A ruiva morava num modesto apartamento com as divisões necessárias, com espaço suficiente para receber tranquilamente dois ou três convidados. Por isso, a mudança de Ulquiorra para a casa não fora turbulenta, havia espaço suficiente para os dois. Inoue nunca quis viver sozinha numa mansão, era triste e melancólico observar um espaço tão largo com apenas ela o desfrutando. A ideia de agora ter uma companhia era reconfortante, sobretudo a dele. A decoração não era aprimorada, porém pormenorizada com bom gosto e reconforto. Apesar de não adquirir grandes extravagâncias, transmitia um ambiente calmo e reconfortante, algo que agradou o moreno, sorrindo satisfeito pelo toque pessoal de Orihime em cada canto mais escondido.
O que se podia esperar de um casal muito apaixonado que, recentemente, fica a morar junto? Felicidade. Nenhuma chuva poderia significar tempestade, eram apenas gotas de água onde podiam dançar por debaixo delas. Não havia tribulações ou combates, era apenas o amor que preenchiam seus dias. Dia ou noite, eles sempre se amavam. E durante um tempo, só isso importava.
As previsões de Isshin e Unohana não tardaram, e por fim, a tempestade penetrou no lar abundante em felicidade. No sexto mês de união oficial, Ulquiorra continuava sem conseguir emprego. Apesar de ser extremamente habilidoso e demonstrar ter uma aptidão natural com engenharias, ninguém o contratava. Nas entrevistas de emprego, Ulquiorra sempre se destacava face à concorrência, mesmo sem comprovativos e diplomas reconhecendo estudos, o moreno dominava melhor a técnica e a sabedoria da matéria. Os longos anos de independência ocasionara que trabalhando desde muito novo, se sustentasse, arranjando trabalhos ocasionais em grandes empresas de engenharia mecânica. Mas, o imprevisto era a esquizofrenia, a parasita do seu corpo. Era obrigado, pela lei, informar seus superiores disso, ficavam surpresos por não constatarem nenhum indício da doença, receosos, sorriam torto; e ele sabia naquele instante… que não o voltariam a contactar. A garantia da melhor clínica do Japão não bastava para arriscarem a vaga de trabalho para si, revoltava-se. Ele estava bem, mas o tratavam como se ainda estivesse doente! Era sempre a doença que enxergavam e não a ele. Por conta disso, Ulquiorra voltou a fechar-se, isolando-se na habitação enquanto Orihime fazia seu turno na clínica. Ela reparou na sua mudança e no silêncio penetrante, preocupando-se. Temia que ele tivesse uma recaída e deixasse de tomar os comprimidos, por causa delas… As vozes usariam aquele problema para voltar a manipular sua mente. Porém, suas boas acções eram acusadas como desconfiança pelo Schiffer que gradualmente reconquistava a expressão morta e melancólica.
— Você não serve para nada… Até a mulher tem que sustentá-lo… Que ridículo Ulquiorra, que ridículo…
Ele apoiava as mãos na cabeça tentando ignorar a veracidade daquelas palavras. Sentia-se inseguro, mas sobretudo fracassado. Queria ajudar Orihime, sentir-se útil e não um peso morto. No fundo, do que ele considerava -por influência da ruiva- o coração, ele sabia que ela apenas o estava protegendo daquelas vozes. Que ela o estava salvando, de novo. Mas e ela? E se seu sorriso desaparecesse? Ele o traria de volta, como ela fazia com ele?
Levou os dedos até o rosto, sentindo a ponta do indicador molhando-se nas lágrimas que fluíam por sua face, não se lembrava de alguma vez ter chorado. Não notou quando a noite absorveu o céu, ou a súbita aproximação agachando-se ao seu lado. Os dedos pousando sobre os seus, hipnotizaram sua atenção.
— Ulquiorra-kun. —O tom meigo da ruiva fez com que, num movimento impensando, recolhesse contra o busto dela, chorando em silêncio tendo os cabelos negros amaciados, o tranquilizando.
A confiança aumentou entre eles depois daquele momento íntimo. Ulquiorra revelou seus receios, confiando nela e vencendo a tempestade que acinzentara os dias claros.
— Recusaram de novo, não foi? —Compreensiva, continuava enrolando os dedos sobre os seus cabelos.
— Sim. —Assoprou com a resposta positiva, cedendo. Frustrado, prosseguiu.— Tenho que conseguir algo rápido.
— Tenha calma, Ulquiorra-kun… Não precisa de ter pressa, na clínica eu recebo o suficiente para os dois, por enquanto nós…
— Eu não vou ser sustentado por uma mulher. —Friamente brusco, a interrompeu. Esta parou o carinho, com ele afastando-se do abraço, com o rosto plenamente seco. Mordeu o lábio, irritada.
Levantando-se, colocou ambas as mãos na cintura, com o nariz franzido. Contava mentalmente até dez, tentando, inutilmente, se acalmar.
— Ulquiorra Schiffer…—Lentamente pronunciou baixo o seu nome, surpreendendo o moreno que ficou intrigado com essa nova atitude.— Qual o problema de aceitar ajuda de sua namorada? Por ser mulher não pode receber mais!? Você não está sendo sustentado, está com problemas para arranjar emprego e eu quero ajudar, e você não quer minha ajuda por ser mulher!? Preconceituoso! —Acusou. Ulquiorra arregalou o olhar, deveras surpreso por esta ter ficado tão ofendida, sentindo-se culpado pela forma egoísta que expôs o problema.— Também gostava que eu não aceitasse seu dinheiro por que eu seria sustentada por um doente?
Orihime sabia que tinha sido dura na sua analogia, no entanto, não podia permitir aquele comportamento machista. Poderia lidar com qualquer doença, mas preconceito era uma peste mental. Não iria tolerar, nem mesmo vindo de Ulquiorra. Não tencionava magoá-lo, apenas fazê-lo compreender que sua atitude a machucava, como o inverso também o iria ferir. Contrariamente a todas as hipóteses que a ruiva, em segundos, previu… a que se seguiu, não foi minimamente especulada.
Ulquiorra riu. Discreto, e mínimo. Mas era um sorriso.
Avançando rapidamente aproveitando o espanto da mulher, ele a abraçou, deitando a testa em seu ombro, inspirando seu cheiro. Os braços femininos repousaram em seu peito, percebendo que Inoue queria dizer algo mas não passavam de sons de palavras não formuladas.
— Arigato, Orihime. —O olhar marrom ficou aguado, sorrindo, aliviada e extasiada com aquela atitude, apesar de não a entender.— Você é uma mulher peculiar.
O sorriso na face aumentou, compreendendo que aquele era o jeito especial de o Schiffer afirmar que ela tinha razão. Enquanto aquele abraço durou, longe de mais palavras e empecilhos, eles recordaram que apenas o que sentiam um pelo o outro importava… E seria isso que os manteria sempre juntos.
Apesar de vencer-se uma tempestade, não significa que esta nebulosamente não possa voltar. O facto de Ulquiorra continuar a sentir-se um inútil, sem poder contribuir financeiramente, continuou a ser um obstáculo para os dois. Encarava os relatórios e ficava revoltado pelas desculpas burocráticas falaciosas. Preferia que fossem honestos ao recusá-lo em vez daquela ridícula pena que sentiam por si. Orihime assistia Ulquiorra encarando o vazio com as cartas recebidas das empresas, nas mãos.
Afastando-se do quarto, sentava-se no sofá, com a divisão iluminada pela fraca luz do candeeiro. Um oco preenchia seu peito com um ardor terrível queimando seus olhos, soluçou não contendo a tristeza em seu olhar. O peito subia e descia com os soluços do choro, sentia-se sozinha e perdida. Compreendia a revolta de Ulquiorra, mas naquele momento parecia que seus problemas também precisavam de atenção.
Ela também estava cansada de tantas horas de trabalho. Ela estava exausta de suportar a responsabilidade toda, e não poder chegar a casa e ser reconfortada com mimos e palavras meigas, afirmando no seu ouvido "vai ficar tudo bem". Ela queria isso, precisava disso. Na penumbra da divisão, Orihime não percebeu que Ulquiorra estava encostado na parede, escutando-a.
Na manhã seguinte, a ruiva acordou dorida por ter adormecido no sofá. Suspirou frustrada por seu jeito distraído ser incurável. Levantando-se para verificar o horário, sentiu um saboroso cheiro que provinha da cozinha, arrebatando sua atenção. Minuciosa, apurou mais o seu olfacto, arregalou o olhar cintilante animada.
— Panquecas!
Correu em direcção da habitação de onde provinha o agradável aroma, atordoada com a visão de Ulquiorra cozinhando. Ele estava de costas para si quando colocava geleia sobre as panquecas. Semelhante ao típico pequeno-almoço americano que ela assistia nos programas de televisão. A culinária de outros continentes a fascinava.
— Ulquiorra-kun? —Não completou uma pergunta, assistindo este virar-se para si, colocando o prato na mesa.
— Bom dia. Desculpe não a ter levado para a cama, estive a fazer umas arrumações no quarto, mas fiz o pequeno-almoço. —Ele sentou-se normalmente na mesa, comendo apenas umas bolachas simples, enquanto ela mantinha-se estática o encarando. Fazendo-o erguer uma sobrancelha desconfiado.— Não tem fome?
— Não... Quer dizer, sim, estou esfomeada! —Gritou rápida, envergonhando-se com seu exagero, sentando-se começou a comer, perante o olhar inexpressivo esmeralda— Desde quando você cozinha?
— Meu pai visitava a Europa, aprendi alguma coisa enquanto viajavam. Uma vez fomos à América também. Não me lembro de muito, apenas do que minha mãe fazia para comermos. —Orihime o encarava perplexa, devorando um pedaço da panqueca.
— Está delicioso! Você é um excelente cozinheiro, Ulquiorra-kun! —Empolgada continuou as garfadas, passando despercebido um ténue sorriso do moreno.
A primeira refeição do dia foi bastante tranquila, com Orihime dizimando tudo o que Ulquiorra cozinhara. Apesar de ela ser fascinada por aquele dom, muitos encaravam estranho seus pratos, não eram -propriamente- medicamente receitáveis, diziam. Por isso, raramente cozinhava, a não ser que fosse só para si. Odiava que na hora da refeição, um momento de diálogo e comunhão, alguém não comesse e apenas a encarasse. Por isso preferia comprar algo pré-feito.
— Obrigada, Ulquiorra-kun. Estava tudo delicioso. —Sorrindo levantou-se notando que estava na hora de aprontar-se para o trabalho.
— Orihime. —Ela o olhou, parando com o seu chamado.— Sua farda está em cima da cama. Lavei-a e passei-a a ferro, espero que não se importe. Também preparei sua mala com as fichas dos pacientes. E está tudo pronto para o seu banho... E caso precise...—Ele colocou nas mãos dela uma sandes embrulhada.— Pode ter fome.
Orihime estava abismada. De onde vinha tudo aquilo? Por que ele estava fazendo tudo aquilo afinal?
— O que se passa? Por que...
— Eu quero ajudá-la, Orihime. Não quero que esteja sozinha. —Seu tom demonstrava o pesar que perturbava sua mente.
Pequenas lágrimas pendiam-se no canto dos olhos, gargalhou baixo notando rapidamente alguns móveis na cozinha, percebendo que estavam incrivelmente limpos. Quem diria que ele fora tão detalhado até na limpeza. Apesar do apartamento não ser grande, de certeza que ele não dormira. Emocionou-se com seu gesto, ele sempre arranjava um jeito de a surpreender e fazer acreditar que ela tomara a escolha certa ao permanecer com ele.
Ela cada vez estava mais perdidamente apaixonada por Ulquiorra Schiffer.
— Tenho de tomar três medicamentos brancos e um azul, certo? —O moreno tinha os comprimidos na mão, os tomando e bebendo água fresca em seguida, notando as vozes cada vez mais abafadas nas profundezas da sua mente.
Ele teria que tomar a medicação sem desconfianças e resistências, precisava de mostrar mais em como confiava em Inoue. Sorrindo, ela o abraçou, pousando a cabeça contra o peito do moreno que ficou levemente surpreendido.
— Você é forte, Ulquiorra-kun.—Encostou os lábios junto aos dele, carinhosa. —Por estar lutando contra elas.
Naquele dia especial, Orihime deu-se ao luxo de faltar à clínica, pedindo para ser substituída. Entre beijos e carícias mais ousadas, Orihime e Ulquiorra permaneceram em casa como se desfrutassem de uma noite de núpcias.
Porém, a paz estava longe de reinar o casal. Amor era o alvo de várias provações, um derradeiro campo de batalha. E quando Ulquiorra acreditou que a tranquilidade da normalidade retornaria, com um quotidiano determinado e aprazível, uma notícia quase surreal, arrebata sua calma.
A mulher estendia um pequeno objecto comprido rosado, com uma risca esverdeada. Encolhia os ombros, e trémula estendia o utensílio como se este por si, revelasse a notícia, seu rosto acalorado de um tom intenso.
— Eu estou grávida, Ulquiorra-kun.
Como era suposto ele reagir? Os olhos marrom o encaravam timidamente, porém sua mente estava apagada de qualquer emoção.
— Pobre criança, vai ter um pai falhado como você, Ulquiorra. Você é uma desgraça para todos aqueles que o rodeiam! —Riram com escárnio em sua mente, aterrorizando-o.
A primeira reacção não foi positiva, ele recuou notando as lágrimas nos olhos da mulher.
— Eu preciso ficar sozinho. —Ele queria isolar-se num quarto e esquecer a realidade. E sobretudo precisava de afastar-se da mulher antes que ele a machucasse, ainda mais.
Ele não sabia como reagir, e a antecipação da voz fez com que tivesse a pior recepção da notícia. Mas como seria pressuposto ele ficar? Alegre? Como um doente, um esquizofrénico, como ele iria cuidar de um recém nascido? Ele era um perigo, instável! E se por culpa das vozes, um dia ele atacasse sem intenção a criança? Tremeu, soluçando. Mas o seu maior medo era... e se ele fosse como ele? Teria o mesmo problema? Ele não desejava isso para a junção do seu amor com a mulher que o salvou. Irritado, puxava o cabelo, não poderia machucar o único de bom que tivera em sua vida. Ele ia proteger seu coração, inclusive de si mesmo.
A mudança inevitável do rumo de suas vidas transformou de novo o moreno. Isolando-se, crendo ser para protecção dela, evitava qualquer mínimo de contacto, carícia e até de olhar. Falava o estritamente necessário, prosseguindo com seus afazeres domésticos usualmente. Sua frieza e distanciamento, abriram uma ferida profunda em Orihime, foi como um déjà-vu... Um retornar à clínica, quando eles se conheceram.
Um filho não resolvia os problemas existentes entre um casal, piorava-os se estes não se mantivessem unidos. A chegada de uma criança num momento inoportuno não era necessariamente uma bênção, contradizendo as filosofias de Orihime. Ela ao início pensou que um ser inofensivo e angelical pudesse comover Ulquiorra, porém a afastou mais de si, e ela compreendeu amargurada seu erro. Não era uma criança que iria resolver os problemas dela com Ulquiorra, tinha de ser ela própria a fazê-lo. Passeou com as mãos em seu ventre, sorrindo tristemente.
— Não se preocupe meu anjo, eu irei proteger você. E o amarei muito! —Sussurrou como se fosse um segredo, rindo com a leve impressão de sentir uma resposta de dentro de si, em formato de um chute. Porém, era ainda muito cedo para isso, ela sabia que era apenas fruto de sua imaginação precoce como mãe, rindo por estar tão boba de felicidade com a criança.
Até o quarto mês, Orihime e Ulquiorra pouco falavam, apesar de esta ter tentado inúmeras vezes conversar com o companheiro. Com o crescer de sua barriga, o Schiffer diversas vezes a espiava sem esta se aperceber ficando intrigado com o ser que lá repousava. Um sentimento agradável crescia em seu peito à medida que observava o processo natural desenrolar-se. Aos poucos, a ideia de ser pai não o aterrorizava, mas excitava-o. Apesar de não o admitir. Inoue pela visão periférica percebeu essa sutil diferença, e mesmo prosseguindo sem nada dizerem um ao outro, a cumplicidade era diferente. O silêncio não era moribundo como antes, agora reflectia uma compreensão e união inexplicáveis para além deles os dois. Ocasionalmente, ela sentava-se junto do Schiffer e colocava a mão de Ulquiorra em seu ventre, emocionando-se quando o bebê chutava contra as mãos dos pais, vendo uma discreta lágrima no olhar esmeralda.
Durante a gravidez, Ulquiorra evitava usar palavras. Temia dizer algo errado, porém, sua compostura não era mais a mesma. Todas as noites ele velava pelo seu sono, e todos os dias a acompanhava até a clínica, ou quando recebeu a baixa, ficava sempre na mesma divisão caso ela precisasse de algo. Orihime sentiu-se imensamente amada com esses pequenos gestos, com um encantador sorriso sempre moldado na sua face rosada, ganhando traços mais maduros com o passar do tempo. Os momentos de paz e silêncio entre o casal teriam findado após o inevitável acontecimento: o romper das águas. Ulquiorra carregou a ruiva até o hospital que era a pouco menos de dois metros de distância do apartamento, horrorizado com a hipótese de algo correr mal. Bruscamente a arrebataram de seus braços, a conduzindo para a sala de operações, sentindo um tremendo vazio e frio em sua barriga.
O parto não foi um processo simples. Apesar de não ter sido necessário recorrer à cesariana, a anestesia demorou a fazer efeito em Orihime, quando o parto começou esta poderia sentir todas as dores naturalmente. O suor lavava seu rosto, gritava rouca com as contracções expulsando o ser que cresceu durante nove longos meses para fora de si. Não foi permitido uma visita. Havia demasiados médicos a rodearem-na, tentando tranquiliza-la com palavras de incentivo para prosseguir com força ou com esperança. Porém, ela não os escutava. A dor estava roubando toda a sua clareza de altruísmo materno e racional naquele momento. Só queria que parasse. Uma força parecia estara quebrar seu ventre, mal conseguia sentir as pernas. Sequer se incomodava com o sabor salgado da transpiração em seus lábios.
— Por favor...—Ninguém escutou sua súplica. Falara baixo demais, um reflexo de sua exaustão.
Gritou novamente, sentindo o corpo amolecer e a dor diminuir passando a um leve desconforto. A anestesia começou a fazer efeito. Suspirou de alívio apesar de seu corpo continuar a reagir às contracções, continuava a fazer força para ver seu bebé, agarrando com força o braço da cama, vincando-o com as suas unhas, rasgando-o.
Sentiu-se mole quando num último esforço deu tudo o que tinha, escutando um choro em seguida. Estava com a visão turva, queria dormir, fechar os olhos. Mas ao enxergar pequenas madeixas negras nos braços da parteira, ficou de imediato hipnotizada por tal cena. A doutora sorriu, depositando a criança em seus braços cuidadosamente.
— Parabéns senhorita Inoue, é uma linda menina.
Orihime chorou quando a pequena estendia as mãos para si, procurando seu rosto, enquanto chorava. Agachou a cabeça, roçando o seu nariz no mais pequeno, acalmando a menina que apalpava às cegas a face da mãe, reconhecendo o calor.
— Minha filha...
Um dos seus maiores sonhos tinha-se concretizado. Era mãe. E seria uma muito melhor do que aquela que teve. A recém-nascida suspirou contra a sua cara, lentamente respirando num profundo sono, a médica retirou a criança de Orihime, colocando a mão em sua testa.
— Descanse. Vai ter muitos mais momentos com ela. —Orihime sorriu acenando, agradecendo num murmúrio. Encostou a cabeça adormecendo, vendo as médicas rodearem seu maior tesouro.
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Orihime encontrava-se no seu quarto com a menina amamentando em seu seio, a ruiva ria ternamente vendo a criança chuchar com tanta força seu peito, procurando fogosamente alimento. Fazia carinho nas suas madeixas negras, percebendo esta afastar a pequena boca do seu mamilo, suja de leite. Arrotou satisfeita, voltando aninhar-se no colo da mãe adormecendo preguiçosa.
Inoue riu da sua filha, notando que o grande apetite de sua filha foi herança sua. Escutou pequenas batidas da porta, ficando arrepiada. Sabia quem era. Será que ele também gostaria dela? Será que iria ter uma crise ao vê-la? Era muito importante para si, que ele aceitasse a filha de ambos... Seria um ruir de sua felicidade se ele a rejeitasse. Abanou a cabeça, irritada consigo mesma, tinha de ser positiva e acreditar que tudo ia correr bem.
— Pode entrar, Ulquiorra-kun! —O seu largo sorriso estava presente na sua face, genuína.
O Schiffer abriu a porta silencioso, mantendo a expressão usual indecifrável ao entrar. Observaram-se sem dizer nada um ao outro. Ela abria e fechava os lábios na menção de dizer algo, falhando. Estava demasiado nervosa. Percebendo isso, Ulquiorra caminha na sua direcção, começando a vislumbrar a criança, ficando mais ansioso e… emocional.
Ulquiorra ao enxergar o rosto da criança, não conseguiu sentir a repulsa inicial consequente da sua habitual desconfiança. Aquele bebé era especial, ele sentia-se conectado a ele, profundamente ligado, nem a sua doença conseguia colocar em causa o seu afecto por aquele pequeno ser. Naquela habitação algo de novo acontecia. Um tanto receoso, e extremamente ansioso, o moreno levou a mão cuidadoso até a bochecha rosada da menina com os mesmos cabelos negros do pai, sorriu ao sentir a pele macia sem se aperceber. Todos os seus gestos eram carinhosamente acompanhados por Inoue, que mantinha-se em silêncio, sentindo o coração da criança apoiada em seu seio, respirar tranquilamente num profundo sono.
Ele sentia que as vozes lhe diziam algo, no entanto, ele sentia-se tão embriagado naquela felicidade que sequer decifrou as palavras acusatórias, era como se elas não existissem ou sequer tivessem pronunciado.
Um apito mecânico, estridente, soou. O Schiffer ficou automaticamente tenso, aquele som era do aparelho ligado a Orihime e sua filha? Os batimentos cardíacos não estavam bem! E por que os médicos corriam pelos corredores, gritando? Começou a ter entraves na respiração, ficando nervoso. O corpo tremia em pânico, levando as mãos ao cabelo, o puxando numa tentativa de tentar tranquilizar-se. Por que eles não faziam nada por elas? Será que eles não ouviam as máquinas a apitar? Remexeu-se demasiado rápido, despertando a criança que assustando-se começou a chorar, aquela agitação inesperada surpreendeu Orihime que rapidamente abanava o braço, recolhendo a filha contra seu peito, cantando para a aninhar, devolvendo-a ao mundo dos sonhos. Porém, o olhar da ruiva pendia-se no amado que observava atónico a bebé chorando.
— Ela vai morrer por sua culpa… As duas estão assim por sua causa…—Um ardor queimou seus olhos, que piscando lentamente, fez com que amargas lágrimas seguissem o trajecto até seu lábio superior.
— Ulquiorra-kun. —Orihime notou que ele não escutou seu chamado, sequer percebeu que chorava. Com algum cuidado, para não despertar a morena que dormia novamente, a ruiva esticou o braço, alcançando-o sua mão, fazendo com que este por fim a percebesse.— Ulquiorra-kun, escute apenas a minha voz.
Ulquiorra piscou surpreso, notando uma lágrima escorrer por seu rosto molhado, compreendendo que todos aqueles sons e receios eram travessuras de sua mente. As palavras da médica fizeram tanto sentido para si naquele momento, que agachou-se, encostando a cabeça entre o vale de seus seios, encostando o nariz à testa da morena.
— Me desculpa…—Fungou, regularizando a respiração, expirando mais aliviado.— Obrigado.
Os intentos de suas palavras não eram muito claros, contudo Inoue sorriu acariciando os seus cabelos. Manteve seu sorriso quando este ergueu-se, ainda com as mãos unidas, observando-a profundamente. Seu olhar esmeralda tão penetrante sempre a fazia ruborizar, mesmo que superficialmente. Não era algo que ela conseguia acostumar-se.
— Orihime…
— Hai? —Ficou intrigada com a serenidade do seu tom, tentando conter a sua típica curiosidade exagerada.
— Eu não sei como isso do coração funciona, nunca acreditei no que meus olhos não enxergavam. Mas eu amo você. —Orihime acenava com a declaração de Ulquiorra, contudo sua última declaração a fez estancar.
Ela sempre o soube. Contudo não previa que este lesse seus sentimentos, ainda mais que os declarasse a si. Uma lágrima deslizou pela face, a simplicidade e seu quase tom indiferente era tão peculiar que se não fosse assim duvidaria tratar-se do homem com quem vivia.
Com o braço que tinha livre puxou-o para si, beijando-o. Os lábios moviam-se entre os sorrisos de felicidade, roçando e brincando com os narizes. Uma gargalhada que pareciam sinos invadiu o quarto do hospital, a menina de olhos marrons ria inesperadamente. As vozes de seus pais alegres, se reconciliando, empolgara a criança, a motivando para também ela participar do diálogo.
Os três ainda tinham muitas emoções a viverem juntos, com obstáculos e inimigos que eventualmente perturbariam os seus pensamentos, no entanto, que casal não tem dificuldades no seu relacionamento?
Orihime conseguiu com que Ulquiorra a amasse, e à filha de ambos. Conseguiu com que ele fosse alguém feliz, aproveitando a curta existência humana que a natureza divina lhe concebeu. Contudo, esse sentimento era apenas o início de uma grande aventura.
Afinal, as vozes que segredavam a Ulquiorra, eram apenas ilusões de sua mente… mas Orihime, ela era a sua realidade. Os flocos de gelos transfiguraram-se em gotas de água com a exposição solar, num belo começo de Primavera, a primeira flor desabrochora. As pétalas rosadas da flor de cerejeira abriram-se longamente, afastando-o impiedosamente todos os requisitos do rigoroso Inverno.
Uma flor delicada que vencera a estação congelante, um novo ciclo da vida se instaura na Natureza. Sua coragem foi curiosamente observada pela criança que estendia os braços para a flor reluzente contra os raios solares.
— Sakura. —Ulquiorra sorriu, aprovando o nome de sua filha. Ele sempre protegeria sua pequena flor.
Perante o excelente florescimento de Sakura, os preconceitos findaram com a rigorosa geada. Eles estavam, por fim, completos. Seriam sempre uma família unida.
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