Ganhar um receptáculo é quase como cair, com a diferença de que após o prazo estipulado, o anjo que desceu volta a interagir apenas espiritualmente com seu protegido e as pessoas que o cercam. A serpente me deu apenas um ano, e eu não poderia usar meus poderes celestiais, tampouco minha “habilidade de persuasão” durante a estadia na Terra. Mas, em troca, quando estivesse interagindo com Aurora, ou dormindo, poderia ter experiências extracorpóreas.

Para proteger um humano, anjos fazem muitas coisas que parecem totalmente impensadas, e, de fato, elas realmente são; afinal, a cobra pode não ser bem-vista, mas é uma das poucas que não exige muitas cláusulas num contrato para a criação de um terno de carne. Por quê? Nada garante que tudo terminará bem, ou que o protegido reagirá de alguma forma. Meu trato não era exatamente algo justo, se considerado o fato de que praticamente nada estava a meu favor, mas é assim que funcionam as coisas por aqui.

Ou você está dentro, ou você está fora.

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A experiência de ganhar matéria em questão de minutos é algo que esgota física e emocionalmente a qualquer um, mesmo aquele que já passou por algo semelhante. Imagine que você é uma bexiga sendo lentamente enchida de água. Agora, a pressão começa agradável, mas logo traz o desconforto. Logo em seguida, para a junção das células recém-criadas, vem a queimação; a bexiga já devidamente amarrada é exposta ao sol escaldante de um deserto.

E é exatamente como me sinto quando as coisas ao meu redor tomam lentamente o foco. Cego aos olhos humanos, foi o que a serpente disse. A primeira coisa que me ocorre, é que ela não tirou completamente minha visão, e isso definitivamente é um ponto positivo. É uma forma estranha de enxergar, apenas com massas coloridas e disformes, mas é o suficiente para que eu não esteja completamente perdido; talvez, com alguma prática, consiga lidar melhor com isso. Posso sentir a agitação ao meu redor, a curiosidade gritante na presença de cada uma das pessoas que me rodeiam.

Há algo de absurdamente familiar e assustadoramente estranho no gesto de elevar as mãos ao rosto e tocar minha própria pele, sentir a temperatura, testar a textura. Por que estranho? Anjos não possuem forma física. Não precisamos desse tipo de coisa, somos mais como formas “flutuantes” que seguem seus protegidos. E, sim, nós os tocamos quando necessário, mas é um contato frio por não sermos sólidos o suficiente para manter o calor que o corpo humano possui naturalmente.

Consigo sentir os óculos escuros, e algo peculiarmente incômodo que pinica minha pele. Minhas mãos, apesar de ser estranho ver dessa forma, ardem, e o asfalto sob elas é áspero e frio, apesar de o sol estar claramente a pino, a julgar pela temperatura um tanto agradável e da leve brisa que sopra. Um homem está ao meu lado, segurando meu braço no que julgo ser uma tentativa de ajudar, e posso ouvir os resmungos aliviados do dono do automóvel que provavelmente acabou de levar esse corpo ao chão.

— Ele surgiu de repente, não tive tempo de parar! — alega uma voz aguda e feminina ao longe, quase posso sentir um sorriso se formando em meus lábios.

Mas, no momento, as preocupações são outras. Tenho um corpo, sim, mas sou tecnicamente cego, e preciso encontrar uma forma de fazer com que a família de Aurora confie o suficiente em mim para permitir minha entrada no quarto particular no qual ela provavelmente já está instalada a essa hora. Posso sentir um leve peso no bolso esquerdo da roupa que agora uso, e, ou isso é uma carteira, ou eu não sei de mais nada.

Levantando-me, cambaleante, a pressão das mãos do homem em meu braço aumenta, como se ele tentasse me manter de pé. Isso continua sendo estranho. Por quê? Anjos não andam. Engana-se aquele que pensa que possuímos uma forma inteiramente humana, e caminhamos atrás de nossos protegidos. Não. É como... Como uma corda, ou uma coleira; o que preferir. Pairamos alguns centímetros acima do chão, no aspecto mais puro de um espírito, e nossas asas estendem-se automaticamente, mantendo-nos em constante movimento. Mas não precisamos segui-los, porque é como um modus operandi: onde estiver o humano, então ali estará também seu anjo.

— Onde estou? — o som é grave, meio rouco, e reconheço surpreso o timbre de minha própria voz, angelical ou não, que parece ressoar levemente antes de o homem pigarrear de forma audível.

Quase posso ver a forma como ele me encara, como se eu fosse algum tipo de louco, ou como se o acidente houvesse afetado meu cérebro. Conheço os humanos o suficiente para saber que uma pergunta como essa provocaria suspeita em qualquer lugar, mas, como um carro acabou de me atropelar, eles desconsideram a loucura do fato. Ele parece considerar a possibilidade de não dizer nada, e a figura branca que perambula sobre sua cabeça sussurra algo em seu ouvido.

Mesmo como uma massa disforme, reconheço seu anjo da guarda, que possivelmente me conhece e sabe que estou tentando salvar minha protegida. Por mais estranho que isso pareça, já que quase nunca lhe prestam a devida atenção, o instinto humano é sempre ajudar ao próximo. Portanto, a primeira reação do anjo, ao encontrar um receptáculo como eu, é sussurrar para que seu protegido responda às perguntas. Agora, se a pessoa irá ou não seguir esse conselho, isso depende dela mesma.

Para minha sorte, esse homem é religioso; sua relação com o anjo parecia relativamente amigável. Ele relaxou antes de responder, num tom um tanto rude que automaticamente me fez estipular que possui entre cinquenta e sessenta anos, pois apenas um homem idoso pode soar tão áspero e anormalmente simpático ao mesmo tempo:

— Eptalofos. — não compreendi o nome de imediato, ainda desnorteado pela enxurrada de sensações que tomavam meu corpo. O humano atribuiu isso ao impacto da queda, e explicou: — Fokida. Na Grécia. E você acabou de sofrer um acidente e tanto, filho.

Sim. Pedir um corpo à serpente, definitivamente, não foi uma boa ideia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.