Não há uma maneira benéfica de deter um espírito obstinado.

Essa é uma boa forma de começar um relato, porque eu realmente não acreditava que Aurora pudesse, de fato, me expulsar de seu Nemed. Para ajudar, ela tinha de ter o Incendiário mais resistente de todo o Paraíso. Existem alguns anjos, nós os chamamos de Arsonists, ou apenas Incendiários, que são os responsáveis pela proteção dos portais que nos levam aos Bosques do Sigilo de cada pessoa. Afinal, um humano desavisado pode passar de um lado a outro e parar onde não devia; e, para que isso não aconteça, os Incendiários servem como portas que impedem a passagem tanto de dentro para fora, quanto vice-versa. Um deles, chamado Samuel, é considerado “o chefe”, por assim dizer; é o responsável por comandar a abertura e fechamento de cada portal, e, portanto, fica de olho nos Arsonists. E tinha de ser justamente ele a estar na porta dela, naquele amanhecer.

Por que Samuel? O nome significa chamado pelo Senhor. Ele está aqui há muito tempo, talvez desde o começo de tudo, quando o Pai moldou a vocês, humanos, e a nós, anjos. Na primeira alvorada, foi o primeiro arcanjo chamado; foi o primeiro a ser criado. Há boatos de que o primeiro foi Miguel, e, logo em seguida, Lúcifer. A verdade é que eles vieram logo em seguida, como os guerreiros de Deus, e não como guardiões. O que, necessariamente, implica alguns transtornos quando Miguel resolve bancar a babá, já que Lúcifer não está mais entre nós.

Voltando.

O grande problema de Samuel é seguir ao pé da letra tudo que nos é ordenado pelos Gêmeos de Deus; também conhecidos como Thaumiel e Gamaliel. A proteção de um portal não implica, tecnicamente, impedir que um guardião passe por ele para entrar em contato com seu protegido. Mas Samuel leva bem a sério seus comandos, e não permite que eu ultrapasse novamente a porta, uma vez que Aurora me expulsou de lá no exato instante em que decidiu que não deveria confiar em mim.

Eu poderia muito bem ter apelado para alguns outros Incendiários, poderia ter procurado portais aos quais ele não estivesse ligado naquele momento. Mas isso, além de trabalhoso, seria desnecessário; Müller não quer me ver, que dirá me escutar. Significa que, mesmo se por um acaso pudesse entrar novamente, nada seria além de uma incômoda brisa que ela pode conter com um simples pensamento.

Samuel não é o culpado por isso, apesar de tudo. Ele está apenas fazendo seu trabalho; o que lhe foi ordenado há milênios. E isso tudo não deixa de ser um tanto quanto... Irônico. Por quê? Porque está amanhecendo, minha protegida se chama Aurora, e o protetor da alvorada não permite que eu tente ajudá-la agora.

Minha única opção, se não a pior, é esperar que tudo se acerte; que Müller consiga seguir um caminho agradável enquanto não estou por perto, que esqueça a teimosia durante alguns instantes e tente apenas pensar no que será melhor para ela. Sinto que não é a primeira vez que ela está aqui, o que significa que seu espírito deve reconhecer seu Nemed, e daí vem a capacidade de controlá-lo tão facilmente. Mas são apenas especulações, enquanto meu verdadeiro problema nem mesmo se relaciona ao mundo espiritual e as formas cujas quais Aurora utiliza para se sentir bem por aqui.

Se a alma de Müller se nega a escutar, a única maneira de ajudá-la é por meio do lado carnal, por meio de seu corpo, na Terra. Para conseguir entrar em contato com ela, terei de apelar para os Ocultadores. Preciso de uma matéria à qual possa me agarrar, algo físico que me faça íntimo de Aurora, para que ela finalmente me ouça e consiga voltar.

Preciso de um terno de carne para vestir em minha estadia no mundo humano.

E isso não vai ser agradável.

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Existe uma parte, no mundo espiritual, que muitos arcanjos denominam como Portões do Inferno, ou apenas Versteckt; que, em alemão, significa escondido. Por quê? Essas... Terras, por assim dizer, são as mais distantes e mais sombrias do Paraíso. Sim, para quem não se lembra, havia uma árvore de maçãs no Éden; mas não estou me referindo à história de Adão e Eva. Estou me referindo àquilo que existe por trás do catolicismo: a serpente morava, e ainda mora, no tronco dessa macieira, e é por isso que poucos se aproximam do local.

Tecnicamente, não existe nada a temer. É apenas uma cobra, como qualquer outro animal existente na Terra e no Céu. Mas, quer acredite ou não, anjos também podem ser supersticiosos. Variante de acordo com cada humano, seu protetor pode ou não se aproximar dessa “árvore de maçãs” e confabular com a serpente. Um católico, por exemplo, influenciaria seu arcanjo a jamais aceitar os conselhos da vil criatura. Um ateu não teria tanto problema, apesar de isso ser um pouco mais complicado.

Por quê? A serpente não tem boa fama nem entre humanos, o que imediatamente a torna incapaz aos olhos dos protetores. Na Terra, uma mulher considerada ferina é chamada de cobra pelas demais. Isso pesa muito para o lado celestial.

Mas Aurora, pelo visto, não tem problema nenhum; nem com a criatura, nem com a religião. Não me lembro de tê-la visto numa missa, ou no mínimo orando, e por isso acredito que, apesar de seus pais a considerarem católica, Müller não possui uma religião definida. Ou, pelo menos, ainda. Ela pode vir a mudar, em algum momento, apesar de a possibilidade ser pequena.

Sei disso, pois, ao me aproximar da macieira, nada me impele a afastar-me e sair daqui.

O sol está quase a pino, e eu poderia tentar falar novamente com Aurora antes de tentar um pacto com a serpente. Mas isso seria inútil. Eu a conheço bem demais para nutrir esperanças de que possa, de fato, me escutar. E, de qualquer forma, não é exatamente um trato com a cobra. Ela está ali, assim como Samuel, desde o começo dos tempos. Sabe das coisas.

Proteger implica, automaticamente, tomar decisões difíceis no que diz respeito aos humanos. Como é muito difícil um protegido não ouvir seu anjo em momento algum, poucos precisam, de fato, entrar em contato com o corpo, na Terra.

Mas Aurora não é uma humana simples. Complicada é a palavra que melhor a define desde sempre.

Não é a primeira vez que descerei ao mundo terreno, e por isso sei que a experiência não será das melhores. No entanto, um guardião não desiste. Falar com a serpente, pedir-lhe uma forma carnal... Não será a coisa mais fácil que já fiz em minha existência, mas isso não significa que será um suplício.

A partir de agora, serei Jason Dasovic.

E, aos olhos humanos, um homem cego.

Notas finais
Uma curiosidade realmente interessante: tanto em alemão, quanto em latim, Arsonists, significa "Incendiários".
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Esse capítulo vai especialmente para Caroline Ribeiro por motivos de que SIM. Espero que tenha curtido, flor :33