Suas feições estavam distorcidas pelo sorriso, os lábios esticados de orelha a orelha, os olhos vermelhos pelo choro faiscando de raiva. As mãos esguias e pálidas seguravam a lâmina com força, e esta se assemelhava à Vorpal Blade dos jogos humanos sobre Alice. Lembro-me vagamente das horas que Aurora gastava tentando ensinar a irmã mais nova a jogar. Esse parece um universo distante, numa outra época, longe demais para que eu possa resgatar as memórias perdidas em algum lugar de minha mente.

“Não está se divertindo?” é o que os lábios se movem para dizer, mas nenhum som quebra o silêncio sepulcral da sala.

Posso vê-la ali, gritando, implorando para que eu vá embora, para que deixe tudo como está. Ah, Müller, você definitivamente é ingênua demais para a idade que tem. Talvez seja por isso que Caleb conseguiu lhe entregar a aliança de noivado... Bem, não importa agora.

Está prestes a acabar. Mary não se arrepende de nada, mas, mesmo assim, sua língua ferina encontra uma forma de alterar o rumo de nossa conversa amigável.

— Onde estão suas asas, anjo?

Mais do que tudo, eu queria poder mostrá-las agora.

Uma última vez.