Scenes Of Our Lives
68 Conversas
Notas iniciais
Molly Weasley chorava baixinho na sala incomumente vazia d’A Toca. Um porta-retratos apertado contra o peito enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto. Ela tentava controlar os soluços e por isso por vez ou outra dava pequenos pulinhos sentada no sofá. Mas ela abriu os olhos e virou a cabeça subitamente quando ouviu o barulho de algo caindo perto da porta. Molly viu um risco verde azulado passar rápido e sumir em direção a cozinha.
– Ted? – Ela chamou.
Um menino de não mais sete anos de idade apareceu na porta outra vez, olhando para baixo e visivelmente envergonhado.
– Desculpe. – Ele começou, olhando para os próprios pés. – Eu... eu não devia estar olhando eu... e eu derrubei o vaso...
– Tudo bem, querido. – Ela sorriu e secou as lagrimas.
– Desculpe.
– Senta aqui. – Ela falou batendo a mão no assento de sofá do seu lado.
Ele caminhou devagar e meio hesitante até ela. Já tinha visto Molly Weasley brigar com os filhos muitas vezes, mesmo eles todos já sendo bem mais velhos que Ted.
– Tio Harry e tia Gina saíram agora pouco e eu só vim ver... e... e a senhora estava chorando... – Tentou explicar enquanto balançava os pés no ar. – Eu...
– Tudo bem, Teddie. – Ela sorriu outra vez. – Não tem problema. Não me importo que você tenha me visto chorando.
Ele levantou a cabeça para olha-la e sorriu, mas, até mesmo para alguém tão pequeno quanto ele, a tristeza no olhar da mulher era inconfundível. E, como se aquilo para ele fosse um gesto automático, mas sincero, ele a abraçou apertado pela cintura. Molly o abraçou também, fazendo carinho no cabelo fortemente colorido do garoto e depositando um beijo na cabeça dele.
– Por que você estava chorando?
– Ah... bem... – Ele se inclinou e pegou o porta-retratos que tinha colocado na mesinha de centro ao ver Ted. – É só saudade.
– De quem?
– Meu filho.
– Qual deles? – Ted perguntou olhando fixamente para ela, genuinamente interessado e preocupado. – Você não pode mandar uma carta para ele pedindo para ele vir aqui?
– Não, querido, não posso. – Molly sorriu tristemente e passou a mão carinhosamente pelo rosto dele.
– Por que não?
– Ele... ele... você sabe sobre o meu filho Fred, não sabe?
– Ah... sei... – O menino voltou a olhar para baixo. – Sinto muito.
Ela passou a foto do filho para as pequenas mãos de Ted.
– Ele parece mesmo com tio George. – Ted comentou balançando a cabeça. – Eu já vi essa foto. Mas achei que era George. Só que com orelha.
Molly riu fracamente, se levantou pegando a moldura de Ted e a colocou sobre o console da lareira. Ela sorriu mais uma vez para ele e já estava quase na porta da cozinha quando Ted a chamou.
– Ele morreu na mesma noite que meus pais, não é? – Perguntou olhando para a foto na lareira quando Molly se voltou para ele.
– É. Foi sim.
– Eu queria ter conhecido meus pais.
– Eu sei. – Ela falou em um tom carinhoso, olhando para o garoto com olhar triste e se lembrando automaticamente do outro garoto que havia perdido os pais na guerra.
– Você acha que meus pais e seu filho estão em um lugar legal? E os pais do tio Harry.
– Estão sim, Ted. – Ela sorriu e caminhou de volta para o sofá, sentando-se mais uma vez ao lado do menino.
– Tomara. Eu queria que não tivesse tido uma guerra.
– Todo mundo queria isso.
Ele ficou alguns segundos olhando para ela, que por algum motivo que ele não entendia muito bem, sorria, embora tristemente.
– Não vai ter outra guerra nunca mais, não é? – Ted perguntou de repente com um olhar assustado no rosto.
– Nunca mais é muito tempo, Ted. – Molly respondeu mais uma vez acariciando a cabeça dele.
– Vai ter outra guerra? – Ele quase gritou e se levantou rapidamente. – Eu não quero estar em outra guerra!
– Não, não, não! Calma. – Ela falou segundo a mão dele e fazendo-o sentar outra vez. – Um dia, é provável que tenha outra guerra, mas daqui a muito, muito tempo. Tenho certeza que você não vai estar em nenhuma outra guerra.
– Guerras não deviam existir. – Ted disse balançando a cabeça rapidamente.
– É verdade, você tem razão. Todo mundo devia pensar assim.
– Você acha que um dia vai parar de ter guerras?
– Eu não sei, querido. – Molly respondeu. – Eu espero que sim.
– Mas o que você acha? – Ted insistiu.
Molly ficou o observando. Ele a olhava atentamente, os olhos bem abertos e a boca ligeiramente contraída. Ele parecia preocupado, mas ao mesmo tempo Molly podia ver uma ponta de esperança na expressão dele.
– Um dia, eu acho que sim, Ted. – Ela finalmente respondeu, abrindo um pouco mais o sorriso.
– Mesmo? – Ele perguntou, agora sorrindo amplamente.
– Mesmo.
– E ai ninguém mais vai ficar sem pais nem filhos, não é?
Molly abriu a boca e fechou outra vez, uma outra vez olhando para o garoto esperançoso sentado ao seu lado, ansiando pela resposta dela, e quase sem medo do que ela seria.
– É. É, sim. Ninguém mais vai ficar sem pais nem filhos.
– E vai parar de existir bruxos ou bruxas más?
– Você é tão pequeno, querido. – Ela falou sorrindo carinhosamente depois de algum tempo.
– Eu não sou pequeno! Eu já tenho quase oito anos! – Ele protestou. – Eu sou mais velho que a Vic!
– Tem razão, você já é bem grande. – A mulher riu.
– Sou mesmo. E daqui a uns anos eu vou para Hogwarts!
– É verdade.
– Eu sou grande mesmo, não sou? – Ele questionou estreitando os olhos.
– É, sim, querido.
–É! Eu sou. Eu sou bem grande. Eu não sou uma criancinha.
– Não, não é. – Molly concordou tentando não rir enquanto Ted olhava meio desfocado para a lareira.
– E eu não sou um bebezinho igual o James.
– Tem razão.
– E ele chora muito. Eu não choro.
– É verdade, ele chora muito.
– Porque ele chora tanto? – Ted perguntou se virando para Molly.
– Alguns bebês são bem chorões.
– Eu não era assim, era?
– Não. – Molly falou balançando a cabeça. – Você era um bebê bonzinho.
– Vovó Andromeda também me disse isso. – Ele sorriu. – Mas o James chora muito. – Insistiu. – Quando eu durmo na casa do tio Harry e da tia Gina ele chora a noite inteira e eu não consigo dormir direito.
– Mesmo?
– Mesmo. Eu... eu não gosto muito dele. – Confessou olhando para os pés.
– Porque ele chora muito?
– Também. Ele é chato.
– Porque você acha isso? – Molly perguntou depois de rir alto.
– Ele não faz nada.
– Mas ele é só um bebê, Ted!
– Eu sei. – O garoto balançou os ombros. – Mas mesmo assim. Ele só chora.
– Bom, quando ele crescer ele vai ficar melhor. Ai vocês podem ser amigos.
– Eu não quero ser amigo dele. – Ted resmungou.
– Não?
– Não. – Respondeu ficando emburrado.
–Ted?
– Sim?
– Você não está com ciúmes do James, não é?
– Não. – Respondeu rápido demais.
Molly sorriu ainda mais e ficou alguns segundos calada antes de dizer:
– Bom, eu acho que você era um bebê muito mais legal que o James. Na verdade de todos os bebês que eu conheci você foi o mais legal.
Ted sorriu amplamente e de repente abraçou Molly fortemente.
– E você cozinha melhor que a vovó Andromeda.
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