Scars
1 Scars
Notas iniciais
O grito ecoou pelo hall de entrada dos Choi. A mobília quase intocada contribuía para a atmosfera aterrorizante. O sofá vermelho ainda coberto por um plástico transparente, a estante de mogno castanho avermelhado com algumas caixas contendo peças dos mais variados tipos, o tapete felpudo claro, a poltrona em que um corpo estava amarrado.
Outra vez, o som ensurdecedor parecia acolher as paredes beges recém-pintadas. Os vizinhos não poderiam escutar, por simplesmente não haver nenhuma casa naquele quarteirão. Assim como as paredes, o condomínio era recente.
Passos apressados desciam a escada de mármore em espiral. A agonia da mulher de cabelos castanhos era evidente em seu rosto, e o luar, que refletia em seu rosto pálido ao encontrar seu marido amarrado em sua poltrona, também iluminava o ruivo em sua frente.
Apesar de estar dormindo, ele chorava. As pesadas lágrimas percorriam o rosto que ela, outrora, cuidou tão docilmente. Os óculos não estavam em lugar algum, e o pequeno hamster mecânico tinha feito um excelente trabalho prendendo-o com um protótipo de algema diferente do que existia.
Assim que escutou o primeiro grito, Sun hee procurou as chaves. Na maior parte do tempo, Saeyoung era o amante que qualquer mulher em sã consciência gostaria de ter. Porém, o que poderia afastá-lo de qualquer outra era suas cicatrizes. Cada uma delas, invisíveis, não só por ser psicológicas e emocionais, como também pelo ruivo não querer demonstrar. Mesmo assim, Sun hee o amava mais do que podia suportar, por vezes.
Ela logo encontrou a pequena chave dourada escondida no travesseiro do marido, e ao ouvir o segundo grito, seu coração bateu mais rápido que o normal. Ele precisava dela. Ela precisava dele. Era uma troca justa, nada mais.
Agora, com o pequeno gênio ruivo em sua frente, tão inofensivo, tão machucado, ela dobrou os joelhos, colocando-os sobre o tapete, e tentando não deixar que as mãos trêmulas demonstrassem medo. Não medo por quem Saeyoung era, e sim porque ela talvez nunca conseguisse salvá-lo do caos que o assombrava quase o tempo todo.
Sun hee girou a chave nas algemas estranhas e o soltou. Jogou-as para baixo da estante, passou os dedos magros pelo rosto de Saeyoung, secando o trilho deixado pelas lágrimas que pareciam ter vindo para derrotá-la.
Os olhos dourados de Saeyoung se abriram repentinamente. Ele segurou as mãos de sua esposa e a fitou, desorientado. Apesar de sentir-se constrangida quando ele a olhava daquela forma, ela esperou. Ele demorava um pouco para lembrar-se de tudo quando tinha pesadelos horríveis. Deixou que o ruivo analisasse seu longo cabelo castanho, passando por seus lábios e parando novamente em seus olhos. Ela não desviou o olhar, ainda que as bochechas estivessem quentes.
Saeyoung então pulou da poltrona para ficar ajoelhado ao lado dela. Seu rosto era uma fusão de tristeza, confusão, culpa, alívio e felicidade. Ela sorriu, e apertou as mãos do ruivo com força. Com gentileza, ela soltou as mãos e acariciou os cabelos ruivos, puxando, com calma e leveza, a cabeça de Saeyoung para seu colo.
Ele voltou a chorar e a abraçou pela cintura. Seus braços eram tão fortes, um perfeito contraste com o indefeso Saeyoung que estava com ela. Tinha vontade de cuidar dele.
— Desculpe... – pedia ele, incessantemente. – Desculpe...
— Pode chorar, meu amor – disse ela, ainda acariciando os cabelos laranja. – Estou aqui por você, sempre estarei.
Ele a apertou um pouco mais, e, conforme a soltava pouco a pouco, ela percebeu que ele estava voltando a dormir.
— Eu amo você, Sun hee – murmurou ele, fechando os olhos.
— Eu também amo você, Saeyoung – respondeu ela.
A esfera prateada brilhava no céu tenebroso.
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