Scarloon Samuel I - Herói
14 CAPÍTULO 14 — RIO
04 de novembro de 1812
Finalmente eu estava completamente recuperado.
Meu corpo já não doía mais.
As queimaduras no rosto praticamente desapareceram.
Ainda dava para sentir que a pele era um pouco diferente dali, mas Scarloon era generoso demais quando o assunto era cicatrização.
Nenhuma marca realmente importante ficou.
Talvez eu simplesmente me recuperasse rápido.
Ou talvez esse mundo se recusasse a deixar cicatrizes permanecerem.
Saí do Coliseu decidido a começar mais um treino.
Enquanto caminhava pelos arredores, observando a floresta ao redor, meus olhos encontraram alguém no topo de uma colina.
Uma silhueta conhecida.
Sorri.
Já sabia quem era.
Corri silenciosamente entre as árvores.
Desviando dos troncos.
Pulando pedras.
Até me aproximar o suficiente.
Era mesmo a Andressa.
Ela estava sentada sobre a grama, completamente imóvel.
Os olhos fechados.
Respirando lentamente.
Meditando.
Resolvi assustá-la.
Saltei bem na frente dela.
Ela permaneceu imóvel por um segundo.
Então abriu os olhos.
No instante seguinte…
VOSH!
Dois jatos de água dispararam diretamente dos seus olhos na minha direção.
Abaixei por puro reflexo.
As rajadas passaram raspando sobre minha cabeça.
Só então ela percebeu quem era.
Seu rosto relaxou imediatamente.
— Que susto… Samuel…
Sorri como se nada tivesse acontecido.
— Bom dia, Andressa! O que você tá fazendo?
Estendi a mão para ajudá-la a levantar.
Ela segurou minha mão.
Mas, em vez de ficar de pé, apenas voltou a se sentar na grama.
Acabei me sentando ao lado dela.
— Estou treinando meu Impar.
— Sério? E tá dando certo?
Ela permaneceu alguns segundos em silêncio.
Como se estivesse organizando os próprios pensamentos.
— Eu… não sei.
Olhou para as próprias mãos.
— Faz alguns dias que meu Impar ficou mais forte.
Foi simplesmente… de uma hora para outra.
Sem motivo.
Observei melhor a energia que emanava dela.
Era verdade.
Seu Impar parecia muito mais intenso do que quando nos conhecemos.
— Agora que você falou…
Realmente tá bem mais forte.
Mas você não faz ideia do porquê?
Ela balançou a cabeça.
— Não.
Só sinto que ficou muito mais fácil evoluir.
Quase como se…
Só por existir…
Meu Impar continuasse crescendo sozinho.
Cocei a cabeça.
— Mas isso não é bom?
Ela demorou para responder.
— Talvez…
Mas isso também me assusta.
Vai que…
Existe alguma consequência.
Alguma punição por evoluir rápido demais.
Sorri.
— Relaxa.
Se isso fosse verdade…
Eu já tava ferrado faz tempo.
Ela deu uma risadinha.
— Talvez…
Você realmente é diferente de qualquer Scar que eu já conheci.
Ficamos alguns segundos olhando o céu.
Até ela quebrar o silêncio.
— Samuel…
Por que você quer tanto ficar forte?
Nem precisei pensar.
A resposta saiu sozinha.
— Porque eu quero derrotar os maiores vilões de Scarloon.
Cada um deles.
Assim eu vou conseguir poder suficiente…
Pra acabar com quem criou tudo isso.
Ela virou completamente o corpo na minha direção.
— E você acredita mesmo que consegue?
Sorri.
Sem hesitação.
— Sim.
Eu acredito.
E vou conseguir.
Ela permaneceu me encarando.
Depois perguntou baixinho:
— E o que faz isso valer tanto a pena?
O que você ganha no final?
Respirei fundo.
Olhei para o horizonte.
— Minha família.
Ela piscou.
Continuei.
— Minha vida de volta.
Meu mundo de volta.
Um lugar onde ninguém precise passar por tudo isso.
É isso que eu ganho.
Ela abaixou o olhar.
— Você…
Não se importa com o que pode acontecer com você até lá?
Balancei a cabeça.
— Nem um pouco.
Se for pra proteger Scarloon…
Ou minha família…
Vale qualquer coisa.
Mesmo que eu tenha que passar por cima de mim mesmo.
Ela ficou completamente em silêncio.
Depois de alguns segundos…
Falou quase num sussurro.
— Esse mundo…
Não merece uma pessoa tão boa quanto você.
Meu peito apertou.
Ela respirou fundo antes de continuar.
— Você é bom demais pra viver tudo isso.
Sorri.
— Eu só vou fazer tudo que estiver ao meu alcance.
Porque…
Se eu desistir…
Quem vai fazer isso?
Eu sou o único que consegue.
De repente…
Ela ergueu uma enorme quantidade de água.
A água envolveu completamente sua cabeça.
Fiquei olhando, sem entender.
— Andressa?
Ela permaneceu imóvel.
Os olhos fechados.
O rosto…
Triste.
Alguns segundos depois…
Toda a água simplesmente caiu sobre seu corpo.
Molhando ela.
Ela respirou fundo.
Como se nada tivesse acontecido.
Franzi a testa.
— O que foi isso?
Ela desviou o olhar.
— N-nada…
Só um teste.
Que eu tava fazendo.
…
Não parecia um treino.
Mas resolvi não insistir.
Se ela quisesse contar…
Contaria.
— E aí?
Como foram suas missões até agora?
Ela me olhou.
Esperando minha resposta.
Suspirei.
— Bem…
Quase morri nas três.
Ela arregalou os olhos.
Então comecei a contar.
— Na primeira…
Quase apanhei até morrer.
Mas, por sorte, apareceu um Scar com um Impar muito bom.
Consegui copiar.
E foi isso que me deu força suficiente pra derrotar o Clarêncio.
Ela já parecia preocupada.
Continuei.
— Depois…
Levei dois tiros nas pernas.
Quase levei um na cabeça também.
Mas consegui deixar o cara inconsciente…
E terminei o serviço.
Ela levou a mão à boca.
— Meu Deus…
Respirei fundo antes de falar da última.
— E a mais recente…
Foi a pior.
Passei boa parte da luta completamente em desvantagem.
Mas consegui virar usando a Ordem.
Ela me salvou tanto atacando…
Quanto defendendo.
No final…
Acabou tudo numa explosão.
Andressa ficou completamente sem palavras.
Seu olhar dizia tudo.
Preocupação.
Medo.
E um certo alívio por eu ainda estar vivo.
— Samuel…
Ela respirou fundo.
— Mas…
Por que você precisa derrotar todos eles?
Sorri.
— Além de servirem como um bom parâmetro pra medir minha evolução…
Cada Mada guarda um objeto extremamente poderoso.
Os Fragmentos.
E eles são uma das peças principais do plano.
Ela ficou olhando para o horizonte por alguns segundos.
Depois assentiu lentamente.
— Entendi…
Agora faz sentido.
Sorri.
— Pois num é?
Ela passou lentamente a mão pela grama ainda úmida ao nosso redor.
Ficou alguns segundos em silêncio.
Até criar coragem para falar.
— Samuel…
— Oi?
Ela respirou fundo.
Parecia extremamente nervosa.
Então perguntou quase num sussurro:
— Você…
Quer sair comigo?
Sua voz saiu tão baixa…
Que parecia prestes a desaparecer.
Sorri na mesma hora.
— Sim! Eu adoraria ter um encontro com você!
Ela ficou completamente imóvel.
Por um instante, achei que ela nem tivesse me ouvido.
Então…
Ela soltou todo o ar que estava prendendo.
Como se um enorme peso tivesse acabado de sair de suas costas.
— Que bom…
Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
Era discreto.
Mas muito mais sincero do que qualquer outro que eu já tinha visto nela.
Ela olhou para os lados.
Claramente sem saber o que fazer agora.
— Quer… andar pela floresta?
— Vamos!
Me levantei animado.
Depois pensei por um instante.
— Quer só andar ou vamos fazer alguma coisa também?
Ela piscou algumas vezes.
— Alguma coisa?
— É!
Tipo brincar de pega-pega.
Esconde-esconde.
Ou qualquer outra coisa.
Você escolhe.
Ela soltou uma risadinha.
— Kkk…
Tá bom.
A gente decide na hora.
Ela ainda parecia nervosa.
Muito nervosa.
Até mais do que quando enfrentamos alguns Scars.
Inclinei um pouco a cabeça.
— Tá tudo bem?
Ela respondeu rápido demais.
— Tô sim!
Só…
Só cansei de ficar sentada.
Vamos logo!
Ela praticamente saiu andando antes que eu pudesse responder.
Sorri.
Resolvi acompanhar.
A floresta estava silenciosa.
Apenas o vento balançando as folhas e alguns pássaros faziam companhia durante a caminhada.
Resolvi puxar assunto.
— Andressa.
— Hm?
— Quantos anos você tem?
Ela pensou por alguns segundos.
— Bem…
Pelas contas…
Eu devo estar nesse mundo há mais de sessenta anos.
— Sessenta?!
Acabei rindo.
— Kkkk, que diferente.
Ela sorriu.
— E você?
Parei para pensar.
— Eu tenho…
Dezesseis…
Não.
Dezessete…
Também não.
Dezoito?
…
Ah!
Tenho dezenove anos!
Ela deu uma risadinha.
— Você é bem novo…
Observei o rosto dela.
— E você parece bem nova também.
Ela olhou para mim.
— Na verdade…
Isso acontece com vários Scars.
Principalmente com aqueles que passaram por muitas coisas.
Franzi a testa.
— Como assim?
Ela levou a mão ao próprio rosto.
— Quanto mais puro o coração de alguém…
Mais jovem aquela pessoa aparenta ser fisicamente.
Olhei para mim mesmo.
Depois para ela.
— Sério?
Ela assentiu.
— Você não parece ter dezenove anos.
Seu corpo parece o de alguém bem mais novo.
Cocei a cabeça.
— Eu achei que só fosse pequeno mesmo.
Ela riu.
— Você tem praticamente a minha altura.
— Verdade…
Olhei para ela por alguns segundos.
— Então…
Se eu não soubesse sua idade…
Acho que diria uns vinte anos.
Ela arregalou levemente os olhos.
— Vinte?
— Sim.
Ela sorriu.
— E eu?
Quantos anos você diria que eu tenho?
Ela Pensou bastante.
Analisando meu rosto.
— No máximo quinze.
— Nossa…
Machucou agora.
Ri.
— Então…
Pra eu parecer mais velho…
Eu preciso deixar de ter coração puro?
Ela deu uma pequena risada.
— Não exatamente.
Quanto mais esperança alguém perde…
Mais velho começa a aparentar.
Fiquei alguns segundos processando aquilo.
— Então…
A aparência muda conforme a esperança?
— Isso.
— Que bizarro…
Nunca imaginei uma coisa dessas.
Olhei para frente enquanto caminhávamos.
— Então eu posso descobrir quem é do mal só olhando pra aparência?
Ela balançou a cabeça.
— Não.
Tem gente que chegou recentemente em Scarloon.
Outros ainda têm esperança…
Mesmo desejando coisas horríveis.
Então não funciona assim.
Assenti.
— Entendi.
Faz sentido.
Continuamos andando por mais alguns minutos.
Até que a floresta começou a se abrir.
As árvores ficaram mais espaçadas.
A luz atravessava melhor as folhas.
E logo…
Escutei água correndo.
Olhei para frente.
Meus olhos brilharam.
— Uau…
Um rio enorme cortava a floresta.
A água possuía um tom alaranjado.
Refletindo o céu daquele mundo.
A corrente seguia calmamente entre as árvores.
Era um lugar bonito.
Muito bonito.
— Que lindo!
Andressa sorriu.
E, pela primeira vez desde que a encontrei naquele dia…
Saiu correndo.
— Ei!
Esperei ela diminuir a velocidade e fui atrás.
Ela parou bem na margem.
Olhando para a água.
Nosso reflexo apareceu na superfície.
Ela ficou observando por alguns segundos.
Depois sorriu com certa nostalgia.
— Eu morava perto daqui.
Olhei para ela.
— Sério?
Estamos perto da sua antiga casa?
Ela assentiu lentamente.
— Sim…
Mas provavelmente…
Ela já não existe mais.
O sorriso dela ficou melancólico.
Resolvi não insistir.
Ela então estendeu lentamente a mão em direção ao rio.
A corrente começou a responder imediatamente.
Pequenas porções de água subiram.
Flutuando diante dela.
Depois…
Ela fechou lentamente a mão.
A água começou a ser comprimida.
Cada vez mais.
Mais.
Mais.
Toda aquela quantidade enorme de água foi diminuindo.
Até virar apenas…
Uma pequena esfera.
Do tamanho de uma bolinha de gude.
— Caramba…
Ela abriu a mão.
SPLASH!
A pequena esfera explodiu.
Liberando toda aquela água comprimida de uma só vez.
O jato espalhou gotas para todos os lados.
Algumas acertaram meu rosto.
Fiquei olhando completamente impressionado.
— Como você fez isso?!
Aproximei os dedos mostrando o tamanho da esfera.
— Como tanta água coube numa bolinha desse tamanhinho?
Ela sorriu.
— Foi uma técnica que descobri treinando.
Quando eu comprimo a água…
Ela tenta voltar ao volume original.
Então…
Quando eu libero…
Ela explode.
Assenti rapidamente.
— Nossa!
Muito legal!
Ela riu.
— O problema é que eu ainda não consigo aumentar muito essa explosão.
No máximo…
Ela vira uma espécie de bomba de água.
Mesmo assim…
Achei incrível.
— Tem mais alguma coisa que seu Impar consegue fazer?
Ela assentiu.
— Tem.
Eu consigo respirar embaixo da água.
Gastando muito pouco Impar.
Mas…
Não consigo recuperar meu Impar enquanto estou mergulhada.
Meu sorriso aumentou.
— Ei, Andressa.
Ela olhou para mim.
— Hm?
Sorri de um jeito que provavelmente não inspirava confiança nenhuma.
— Tenho uma ideia…
Ela estreitou os olhos.
— Eu conheço essa cara…
— Conhece?
— Conheço.
Você vai aprontar alguma.
— Claro que não.
— Vai sim.
— Não vou.
Ela cruzou os braços.
— Vai.
Suspirei dramaticamente.
— Tá bom…
Talvez eu vá.
Ela deu um passo para trás.
— Samuel…
— Oi?
— Não faz isso.
Sorri.
— Relaxa.
Vai dar tudo certo.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Isso nunca é um bom sinal.
Apontei para o rio.
— Você falou que consegue respirar embaixo d'água, né?
— Sim.
— Então…
Empurrei ela.
— O q-
SPLASH!
Ela caiu direto dentro do rio.
Nem tive tempo de rir.
Porque ouvi um som atrás de mim.
CLACK!
Por puro reflexo, ergui minha espada.
O impacto percorreu meu braço inteiro.
Uma garra enorme de águia havia acabado de bater contra minha lâmina.
Olhei para frente.
Um Scar.
Com asas abertas.
Patas enormes.
E garras afiadas.
Assim que a espada empurrou sua perna para o lado, ele aproveitou o impulso para voltar voando.
Mas não deu tempo de acompanhar.
Da moita ao lado…
Outro Scar surgiu correndo na minha direção.
Droga.
Talvez eu devesse ter copiado o Impar da Andressa antes de jogar ela no rio…
…
Ah.
Agora já foi.
Vou copiar o desse cara mesmo.
[Chá Ringan]
As informações apareceram imediatamente.
[Carpo]
Cria mãos negras ao seu redor, podendo controlá-las.
[Metacarpo]
Suas mãos impedem, de toda forma, qualquer coisa de se aproximar.
[Falanges]
Funde suas mãos, criando mãos maiores e mais fortes.
Sorri.
Já sabia exatamente como usar isso.
Continuei avançando.
[Carpo]
Dezenas de mãos negras surgiram ao meu redor.
O Scar pareceu entrar em choque.
Mas continuou correndo.
Ele também criou várias mãos.
As duas habilidades avançaram ao mesmo tempo.
POF! POF! POF!
As mãos começaram a colidir umas contra as outras.
Empurrando.
Agarrando.
Se desfazendo.
Em poucos segundos…
Todas desapareceram.
Os dois ficamos completamente sem defesa.
Era exatamente o que eu queria.
Corri.
A espada já preparada.
O Scar arregalou os olhos.
— Droga! Junin, me aju-
SWINH!
Um único golpe.
A lâmina atravessou seu rosto quase inteiro.
Seu corpo caiu antes mesmo da cabeça terminar de girar.
Nem tive tempo de respirar.
A águia.
Ela ainda estava por perto.
Esperando uma oportunidade.
Sorri.
Já tinha encontrado você.
[Carpo]
As mãos negras dispararam para trás.
Agarraram as asas do Scar.
Prendendo-o completamente no ar.
Ele começou a se debater.
— Me solta!
Levantei minha espada.
— Péssima hora pra querer uma briga.
— Por favor, tenha pieda-
PSHHHHHHHHHHHH!
Um fino jato de água atravessou sua cabeça.
Como uma agulha.
O corpo perdeu completamente a força.
Ficando mole.
As mãos negras soltaram o cadáver.
Que caiu no chão sem vida.
Fiquei olhando alguns segundos.
…
Aquilo foi assustador.
Virei lentamente a cabeça.
Saindo do rio.
Andressa caminhava em nossa direção.
Seu corpo ainda escorria água.
Seu olhar…
Estava completamente diferente.
Frio.
Sério.
Assustador.
Mas assim que seus olhos encontraram os meus…
Tudo desapareceu.
Seu rosto relaxou imediatamente.
— Samuel!
— Ah…
Oi, Andressa.
Joguei o corpo da águia para longe.
Ela correu até mim.
— Quem eram esses caras?
Olhei para os dois corpos.
— Não faço ideia.
Mas não eram Gomendis.
Então provavelmente…
Só eram Scars querendo matar qualquer um que aparecesse.
Ela respirou aliviada.
— Entendi…
Ficamos alguns segundos olhando os corpos.
Depois ela pareceu lembrar de alguma coisa.
Seu rosto mudou completamente.
Ficando animado.
— Samuel!
— Hm?
— Tem uma coisa dentro desse rio que você não vai acreditar!
Inclinei a cabeça.
— Sério?
O que é?
Ela abriu um sorriso enorme.
— Você precisa ver!
Eu nem consigo explicar.
Corri imediatamente para a margem.
Começando a olhar a água.
— Onde?
Onde tá?
Ela apontou para bem perto.
— Bem aqui.
Me aproximei.
Tentando enxergar.
— Eu não tô vendo nada…
TUM!
SPLASH!
— AAAAH!
Ela me empurrou.
Caí direto dentro do rio.
Assim que voltei para a superfície…
A primeira coisa que vi foi Andressa quase caindo de tanto rir.
— KKKKKKKK!
— Você me enganou!
Ela apontou pra mim.
Ainda rindo.
— Sim!
Mas foi você quem me empurrou primeiro!
Cruzei os braços.
— Eu fiz aquilo pra te salvar!
Sua…
Parei.
Pensei.
…
Esqueci o resto da frase.
Ela esperava.
— Sua…?
Cocei a cabeça.
— Não pensei no final da frase porque sou completamente desprovido de saberes palavrísticos.
Ela colocou a mão na boca.
E começou a rir ainda mais.
— Kkkkkkkkk!
Apontei para ela.
— Só sei de uma coisa.
Ela limpou uma lágrima de tanto rir.
— E o que seria?
Sorri.
— Que eu não vou cair sozinho!
[Carpo]
Uma mão negra surgiu debaixo da água.
Segurando o tornozelo da Andressa.
— Ãh?
Ela olhou para baixo.
— Samuel… não…
Sorri ainda mais.
— Agora já era.
A mão puxou.
SPLASH!
Ela caiu de volta dentro do rio.
Assim que afundou, abriu os olhos e ficou me encarando.
Cruzou os braços.
Fazendo uma cara de brava.
Mas eu conseguia ver claramente que ela estava segurando o riso.
As mãos negras continuavam prendendo seus braços.
Aproximei-me nadando.
— Que foi?
Achei que você gostasse de água.
Ela permaneceu me encarando.
— Até porque esse é o seu Impar.
Nenhuma resposta.
Continuei.
— Tá brava?
Ela ainda não respondeu.
…
Acho que exagerei.
Rapidamente desfiz as mãos negras.
Ela subiu lentamente para a superfície.
Nós dois colocamos a cabeça para fora da água ao mesmo tempo.
Passei a mão na nuca.
— Desculpa…
Sério.
Eu não sei exatamente o que eu fiz de errado…
Mas não fica brava comigo.
Eu prometo que não faço de novo.
Ela continuou olhando diretamente para mim.
Sem dizer uma palavra.
Seu rosto permanecia completamente sério.
…
Ai.
Ferrou.
Ela levantou lentamente a mão.
Apontando para o meu rosto.
Fiquei esperando um tapa.
Mas…
PSHHHH!
Um jato de água acertou minha cara em cheio.
Fui obrigado a fechar os olhos.
Quando os abri novamente…
Ela estava gargalhando.
— KKKKKKKK!
Levei alguns segundos para entender.
Depois comecei a rir também.
— Você tá brincando com o perigo!
Ela sorriu.
— Sério mesmo?
Então me prova.
Abriu os braços.
— Você tá no MEU território.
Sorri.
— Será?
Esqueceu qual é o meu Impar?
Olhei no fundo dos seus olhos.
[Chá Ringan]
Ela arregalou os olhos.
— Ah…
Então é assim?
— É.
Ela levantou uma parede de água ao seu redor.
— Você não vai ganhar de mim.
Mesmo copiando meu Impar.
Sorri.
— É o que veremos.
[Piscina]
Senti imediatamente a ligação com a água ao meu redor.
Era uma sensação estranha.
Como se cada gota estivesse esperando minhas ordens.
Levantei as duas mãos.
A água do rio começou a subir.
Andressa fez exatamente o mesmo.
Nós dois ficamos frente a frente.
Controlando enormes quantidades de água.
Olhei para ela.
— Preparada?
Ela sorriu.
— Sempre.
As duas ondas cresceram.
Cada vez mais.
Até ficarem maiores do que nós.
Apontei para frente.
— Ataque Tsunami!
Ela respondeu na mesma hora.
— Tsunami dos Rios!
SPLAAAAASH!
As duas ondas colidiram.
Uma quantidade absurda de água voou para todos os lados.
Nós dois fomos arrastados pela corrente.
— AAAAH!
— KKKKKK!
Consegui recuperar o equilíbrio primeiro.
Levantei outra coluna de água.
Ela também.
— Lá vai!
Disparei uma lança de água.
Ela girou o braço.
A lança mudou completamente de direção.
Passando do lado da sua cabeça.
— Errou!
Ela respondeu criando cinco pequenas esferas.
Todas comprimidas.
— Agora vê isso!
As cinco vieram voando.
SPLASH! SPLASH! SPLASH! SPLASH! SPLASH!
Explodiram uma atrás da outra.
Levei água até dentro da boca.
— Cof! Cof!
Ela ria sem parar.
— Você falou que ia ganhar!
— Calma!
Agora é sério!
Concentrei toda a água possível.
[Copia, mas faz melhor]
Tentando copiar o que ela havia feito antes.
Comprimir.
Mais.
Mais.
Mais…
A pequena esfera começou a tremer.
Sorri.
— Consegui!
Ela arregalou os olhos.
— Samuel, espera!
Abri a mão.
BOOOOSH!
A explosão foi muito maior do que eu esperava.
Uma verdadeira parede de água foi lançada na direção dela.
— AAAAAH!
Ela foi levada pela corrente por vários metros.
Fiquei completamente desesperado.
— ANDRESSA!
Ela colocou a cabeça para fora da água alguns segundos depois.
Respirando normalmente.
Depois começou a rir.
— Kkkkk!
Você aprende rápido demais!
Passei a mão na cabeça.
— Foi mal!
Achei que ia ser igual ao seu!
— Eu também achei!
Nós dois começamos a rir.
E, dali em diante…
A brincadeira virou uma verdadeira guerra.
Jatos de água cruzavam o rio.
Pequenas explosões molhavam tudo ao redor.
Tentávamos acertar um ao outro sem parar.
Às vezes eu acertava.
Às vezes ela.
Na maioria das vezes…
Nenhum dos dois acertava nada.
Só fazíamos ainda mais bagunça.
E, sem perceber…
As horas começaram a passar.
Depois de algumas horas de guerra de água…
Eu fui oficialmente derrotado.
Não porque ela era mais forte.
…
Tá.
Era porque ela era muito mais forte usando água.
Andressa me puxou pelo pescoço enquanto eu boiava completamente sem forças.
— Vamos, campeão.
— Eu ainda consigo…
Ela deu outra puxada.
— Consegue?
— Consigo sim…
— Tá bom.
Então levanta sozinho.
Tentei colocar os pés no chão.
No mesmo instante minhas pernas falharam.
Caí sentado dentro do rio.
Ela colocou a mão na boca.
Tentando não rir.
Falhou miseravelmente.
— Kkkkkkkkk!
— Para de rir…
— Você disse que ia ganhar.
— Eu ainda acho que ganhei moralmente.
— Moralmente?
— Sim.
Fisicamente eu perdi.
Mas espiritualmente…
Ela interrompeu.
— Você também perdeu.
Suspirei.
— Ok.
Ela segurou meu braço.
Me ajudando a sair da água.
Quando finalmente chegamos à margem…
Caí de costas na grama completamente encharcado.
Ela fez o mesmo ao meu lado.
Nós dois começamos a rir sem motivo nenhum.
Só lembrando dos golpes ridículos que inventávamos durante a luta.
— Ataque Tsunami!
— Tsunami dos Rios!
— Canhão Aquático Supremo!
— Água Molhada!
Olhei para ela.
— Esse último foi muito ruim.
Ela deu de ombros.
— Funcionou.
— Funcionou porque eu tava rindo.
— Continua sendo vitória.
Revirei os olhos.
— Apelona.
— Muito.
Ficamos alguns minutos apenas respirando.
O barulho do rio era a única coisa que se ouvia.
Uma brisa atravessava a floresta.
Balançando as folhas das árvores.
O lugar era realmente bonito.
Depois de um tempo…
Lembrei de uma coisa.
— Ah, Andressa.
Ela virou a cabeça na minha direção.
— Hm?
— Aquele golpe…
O que atravessou a cabeça da Águia.
Ela apoiou os braços para trás.
— Qual deles?
— Aquele jato bem fininho.
Parecia um laser.
Ela sorriu.
— Ah…
Aquele.
Olhei curioso.
— Como você fez aquilo?
Ela pegou um pouco de água do rio.
Fazendo uma pequena esfera flutuar sobre sua mão.
— A água normalmente ocupa muito espaço.
Então…
Ela começou a apertar lentamente a esfera.
Ela foi diminuindo.
Cada vez mais.
Até ficar do tamanho de uma bolinha de gude.
— Eu aumento muito a pressão dela.
Ela apontou para uma árvore distante.
— E faço toda essa pressão escapar por um único ponto.
Um pequeno furo apareceu na esfera.
PSHHHH!
Um filete de água saiu em velocidade absurda.
Atravessando completamente o tronco da árvore.
O buraco era tão limpo que parecia ter sido feito por uma máquina.
Meus olhos brilharam.
— CARACA!
Ela riu.
— Assustador, né?
— Isso é incrível!
É literalmente um laser de água!
Ela concordou.
— É mais ou menos isso.
— Eu preciso aprender isso!
Ela piscou.
— Sério?
— Claro!
Ela abaixou a mão.
A água voltou para o rio.
— Mas…
Você mesmo disse que seus espaços para guardar Impares já estão cheios.
Cruzei os braços.
— Estão.
— Então por que quer aprender?
Sorri.
— Porque um dia eles não vão estar.
Ela continuou olhando para mim.
Esperei alguns segundos.
Depois completei.
— Quando eu conseguir guardar mais Impares…
Eu quero que um deles seja o seu.
Ela congelou.
Completamente.
Seu rosto perdeu qualquer expressão por alguns instantes.
— O… o meu?
— Claro.
Ela desviou os olhos.
— Mas…
Meu Impar nem é tão bom assim…
Você vai encontrar tantos outros pelo caminho…
Balancei a cabeça.
— Acho que você tá se subestimando.
Levantei um dedo.
— Você consegue respirar embaixo d'água.
Outro dedo.
— Pode controlar rios inteiros.
Outro.
— Faz explosões de água.
Mais um.
— E ainda dispara laser.
Sorri.
— Pra mim já tá aprovado.
Ela permaneceu imóvel.
Os olhos começaram a ficar brilhantes.
Não sabia se era água do rio…
Ou outra coisa.
Alguns segundos depois…
Ela envolveu a própria cabeça em uma pequena esfera de água.
Fiquei olhando.
— Hã?
Ela permaneceu assim por alguns segundos.
Depois desfez a esfera.
A água escorreu pelo seu rosto.
Como se nada tivesse acontecido.
Olhei confuso.
— Você tá treinando?
Ela respondeu baixinho.
— S-sim…
Só um teste…
…
Claramente não era só isso.
Mas decidi não insistir.
Ela respirou fundo.
Depois levantou os olhos.
Ainda havia um pequeno sorriso em seu rosto.
— Tudo bem…
Pode colocar meu Impar na sua lista.
Eu te ensino.
Abri um sorriso enorme.
— Sério?!
Ela assentiu.
— Sim.
— Aí sim!
Prometo que aprendo rapidinho!
Ela deu uma risadinha.
— Eu sei.
Você aprende rápido até demais…
Enquanto falava, sua mão foi se aproximando da minha.
Primeiro, apenas os dedos.
Depois, a palma.
Até que nossas mãos ficaram encostadas.
Olhei para ela.
— Hm?
Tem alguma coisa errada, Andressa?
Ela não respondeu de imediato.
Sua outra mão subiu lentamente pelo meu braço.
O toque era leve.
Quase delicado demais.
Pelo ombro.
Até parar no meu rosto.
Sua mão era fria por causa da água.
Mas, estranhamente…
Era confortável.
Ela respondeu em um sussurro.
— Tem…
Mas…
Eu não sei dizer o que é.
Meu coração acelerou.
Ela também parecia nervosa.
Conseguia perceber pela respiração.
Ela aproximou um pouco mais o rosto.
Ficando tão perto que eu conseguia sentir sua respiração.
Ela me chamou baixinho.
— Samuel…
— Oi?
Ela respirou fundo antes de perguntar.
— Você…
Sabe o que é amor?
Pensei por alguns segundos.
Depois respondi naturalmente.
— Sei.
É quando você gosta muito de alguém.
Quando você quer ver essa pessoa feliz.
Daí vocês se amam.
Ela sorriu.
Um sorriso pequeno.
Mas sincero.
— Entendi…
Ela desviou o olhar rapidamente.
Como se estivesse procurando coragem.
Depois voltou a olhar para mim.
— E…
Você sabe o que é…
Se apaixonar?
Cocei a cabeça.
— Hmmm…
Não muito.
Meus irmãos falavam que isso ia acontecer quando eu ficasse mais velho.
Disseram que era muito legal.
E que, quando acontecesse…
Era pra eu apresentar a pessoa especial pra eles.
Ela abaixou lentamente a mão do meu rosto.
Seu sorriso diminuiu.
— Esse mundo…
Não permite esse tipo de coisa.
Franzi a testa.
— Como assim?
— Porque…
Ela olhou para o rio.
A corrente seguia seu caminho normalmente.
— Nunca sabemos o dia de amanhã.
Fiquei alguns segundos pensando.
Depois dei de ombros.
— Bem…
Eu sei o meu.
Ela voltou a me olhar.
— Sabe?
— Claro.
Amanhã eu vou treinar.
Depois vou passar um tempo com você.
Depois vou treinar de novo.
Ela sorriu de canto.
Mas havia tristeza naquele sorriso.
— Você não pode garantir isso.
Balancei a cabeça.
— Posso sim.
Eu sei o que eu quero fazer.
Então eu vou fazer.
Ela permaneceu em silêncio.
O vento balançou as folhas das arvores.
Seus olhos permaneceram presos nos meus.
— Você…
É tão inocente, Samuel…
Sorri.
— Inocente não.
Perdi isso faz tempo.
Coloquei a mão no peito.
— Eu só tenho esperança.
Tenho certeza de que amanhã pode ser melhor que hoje.
Ela continuou me olhando.
Como se tentasse entender alguma coisa.
Ou talvez…
Como se estivesse tentando gravar aquele momento.
Seu rosto misturava tantas emoções…
Que eu simplesmente não consegui entender nenhuma.
Depois de alguns segundos…
Ela desviou o olhar.
— Samuel…
— Oi?
— Vamos voltar?
Olhei para o céu.
Já estava escurecendo.
— Claro.
Tá ficando tarde mesmo.
Levantei primeiro.
Depois estendi a mão para ela.
— Vem.
Ela olhou para minha mão.
Ficou parada por alguns segundos.
Então segurou.
Puxei devagar.
Assim que ela ficou de pé…
Abri um pouco os braços.
Quase oferecendo um abraço.
Mas fiquei com vergonha.
Então recuei.
— Ah…
Foi mal…
Só achei que…
Antes que eu terminasse…
Ela deu um passo à frente.
E me abraçou.
Forte.
Fiquei completamente sem reação.
Depois sorri.
Retribuí o abraço.
Ficamos assim durante alguns segundos.
Sem dizer absolutamente nada.
Até que ela lentamente se afastou.
Olhei para ela.
— Melhor?
Ela respirou fundo.
— Um pouco…
Depois sorriu.
Um sorriso mais verdadeiro do que todos daquele dia.
Mesmo assim…
Ainda havia preocupação em seus olhos.
— Mas ainda tenho medo.
Inclinei a cabeça.
— Medo do quê?
Ela apertou levemente as próprias mãos.
— Que tudo isso acabe de repente.
Fez outra pausa.
— Eu…
Sua voz falhou.
— Eu não quero perder você.
As palavras me pegaram completamente de surpresa.
Não fazia ideia do que responder.
Então falei a primeira coisa que veio na cabeça.
— Então fica mais forte.
Ela piscou.
— …O quê?
Sorri.
— Se você quer tanto me proteger…
Apontei para ela.
— Então treina.
— Fica forte.
— Assim você pode me proteger quando precisar.
Ela ficou alguns segundos completamente imóvel.
Depois começou a rir.
De verdade.
Uma risada leve.
Gostosa de ouvir.
— Sério?
— Muito sério.
Levantei o punho.
— Eu também vou treinar.
— Aí nós dois ficamos fortes.
— E protegemos um ao outro.
Abri um sorriso enorme.
— Igual uma dupla de super-heróis!
Ela levou a mão até a boca enquanto ria.
— Kkkkk…
Respirou fundo.
— Você acha mesmo que eu consigo ser uma heroína?
Respondi sem pensar nem por um segundo.
— Tenho certeza.
Ela inclinou a cabeça.
— Por quê?
Sorri.
— Porque heroísmo não é sobre ser o mais forte.
Apontei para o próprio peito.
— É sobre quem você decide proteger.
Os olhos dela começaram a ficar brilhantes de novo.
Ela segurou minha mão com força.
— Samuel…
Respirou fundo.
— Eu prometo.
Sorriu.
— Que vou me esforçar ao máximo.
— Vou ficar muito mais forte.
Retribuí o aperto.
— Isso!
Depois apontei o dedo para ela.
— Mas também não faz nenhuma loucura por minha causa.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Como assim?
— Pensa antes de fazer qualquer coisa.
— Não quero ver você se machucando tentando me salvar.
Ela sorriu.
Um sorriso confiante.
— Pode deixar.
Fechou o punho.
— Eu esmago a cabeça de qualquer um que tentar te machucar.
Pisquei algumas vezes.
— Tá…
— Acho que essa parte foi meio exagerada.
Ela riu.
— Talvez.
Começamos a caminhar novamente pela floresta.
Lado a lado.
Ainda de mãos dadas.
Ela dizia que era só para garantir que eu não iria me perder dela.
Eu sei que meu senso de direção não é dos melhores…
Mas também não era pra tanto.
[Dia seguinte]
Assim que entrei na sala do Rafael, ele levantou os olhos dos papéis que organizava.
— Samuel, quero conversar com você sobre a sua evolução.
— Opa! Pode falar! Tô com os ouvidos atentos!
Ele ajeitou algumas folhas sobre a mesa antes de começar.
— Existe uma energia nova circulando por aí. O nome dela é Par. Já ouviu falar?
— Ah! O Guilherme comentou alguma coisa quando a gente foi naquela missão!
Rafael ergueu uma sobrancelha.
— Sério? O que ele disse?
— Só falou que ele era rápido por causa dela.
Rafael soltou uma risada curta.
— Claro que foi isso que ele disse.
Ele limpou a garganta antes de continuar.
— Enfim… essa energia é adquirida quando um scar mata outro scar.
Pisquei algumas vezes.
— …Sério? Isso existe mesmo?
— Existe. Cada scar derrotado fortalece seu Par. Por isso vou incluir caçadas a Gomendis na sua rotina de treinamento.
— Ah… entendi.
Ele cruzou os braços.
— Todos os Madas utilizam Par. Como eles precisam matar um scar por dia para continuar existindo, essa energia cresce constantemente. Décadas passam… e eles ficam cada vez mais fortes.
— Então… eles literalmente são recompensados por matar?
— Exatamente.
Ele pegou uma folha e apontou para um pequeno desenho.
— O Impar representa sua parte espiritual. Já o Par representa sua parte física. Força, velocidade, resistência, reflexos… tudo isso é influenciado por ele.
Assenti lentamente.
— Além disso, cada Fragmento concede automaticamente 1% de Par.
Arregalei os olhos.
— Espera… então…
— Isso mesmo. Como você possui três Fragmentos, já começou com aproximadamente 3% de Par, além da pequena quantidade acumulada pelas batalhas que já travou.
Olhei para minhas próprias mãos.
Então era por isso…
Eu realmente estava ficando muito mais forte.
— Mas… três por cento já não é muita coisa?
Rafael balançou a cabeça.
— Parece muito, mas não é bem assim. O primeiro por cento causa um aumento enorme. Depois disso, cada novo crescimento rende um ganho proporcionalmente menor.
Ele apoiou as mãos na mesa.
— Em compensação… acredito que existam pontos de ruptura.
— Pontos de ruptura?
— Quantidades específicas de Par que provocam grandes saltos de poder. Ainda não sabemos exatamente quais são esses valores… mas tudo indica que eles existem.
Fiquei alguns segundos pensando.
Então…
Quanto mais scars eu derrotasse…
Mais forte eu ficaria.
E não era só o Impar evoluindo.
Meu próprio corpo também.
— Entendi…
Levantei a cabeça.
— Então já posso voltar a treinar?
— Pode.
Ele respondeu imediatamente.
— Mas quero que tome cuidado.
Seu tom ficou mais sério.
— Hoje o Par ainda parece inofensivo para você. Porém, conforme aumenta… ele pode influenciar o comportamento de um scar.
Franzi a testa.
— Influenciar como?
— Impulsividade.
Ele respondeu sem hesitar.
— Violência.
— Instintos.
— Desejo por batalhas.
— Se deixar isso dominar sua mente… você para de pensar e começa apenas a agir.
O silêncio tomou conta da sala.
— Então sempre use a cabeça antes de agir.
Ele olhou diretamente para mim.
— Pelo seu próprio bem.
Sorri.
— Pode deixar.
Fechei minha mão.
— Eu não vou deixar uma energia qualquer mandar em mim.
Ele assentiu, satisfeito.
Depois voltou a organizar os papéis sobre a mesa.
— Pode ir.
— Era só isso que queria te explicar.
— Tenha um bom treino.
Sorri.
— Você também.
Olhei para a montanha de documentos em cima da mesa.
— Bom trabalho… arrumando papéis.
Ele soltou um pequeno riso enquanto eu fechava a porta.
Saí do Coliseu respirando fundo.
O céu estava limpo.
Meu corpo finalmente havia se recuperado completamente.
Hora de continuar.
Direto para a floresta.
Treinar meu Impar com a Andressa.
E dessa vez…
Eu não iria parar por nada.
…
Bom…
Até meu Impar acabar.
…
Aí eu realmente teria que parar.
…
Tchau.
Tô indo treinar.
Se cuida.
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