Scarloon Leandro III - Pneumonia
1 CAPÍTULO 16 — NOVA ERA
16 de outubro de 1827
A floresta estava silenciosa.
Não o silêncio calmo das manhãs — mas o silêncio tenso, pesado, que precede algo grande.
Eu caminhava sem pressa, os passos abafados pelas folhas secas. Vinte e seis anos caçando demônios. Vinte e seis anos vivendo nas sombras. Meu corpo já não sentia cansaço como antes. Meus sentidos estavam sempre alertas, mesmo quando eu tentava descansar.
Foi então que o céu explodiu.
Um estrondo. Um feixe de luz azul disparou de algum lugar distante, rasgando as nuvens como uma lança divina.
Parei.
Senti algo. Uma presença. Quase divina. Vindo daquela luz.
— Que bizarro…
Meus olhos se estreitaram.
— Acho que consigo ir correndo até lá.
[Febre 43 graus]
Saí correndo.
A luz parecia estar a uns nove quilômetros. Eu ia demorar, mas chegaria.
A floresta passava como um borrão ao meu lado. Árvores, arbustos, pequenos riachos — tudo virava manchas verdes e marrons. Minhas pernas queimavam, mas não de cansaço. De excitação.
O que será aquilo?
2 horas depois, cheguei.
E reconheci o lugar.
Era a cidade onde eu morava em Scarloon. Antes de Adam. Antes do caos. Antes de tudo desmoronar.
Agora, estava irreconhecível.
Casas destruídas. Monumentos quebrados. Ruas cobertas de sangue seco. O cheiro de morte impregnava cada pedra.
Caminhei entre os destroços, os olhos atentos. A energia divina que eu senti antes sumia e voltava em ondas irregulares — como um coração pulsando fracamente.
O que aconteceu aqui?
No fundo da cidade, em uma parte isolada, encontrei uma cratera.
Era enorme. As bordas fumegavam. O chão ao redor estava vitrificado, como se uma estrela tivesse caído ali.
E perto da cratera, caído no chão, estava um Scar.
Cheio de sangue. Inconsciente.
Corri.
Quando cheguei perto, reconheci o rosto.
Samuel.
— Ei — segurei seus ombros, sacudindo-o com cuidado. — Samuel. Acorda aí.
Ele respirava com dificuldade. Cada inspiração parecia custar um esforço sobrehumano. Seu corpo estava coberto de feridas — algumas superficiais, outras profundas, algumas que eu nem sabia como alguém podia sobreviver.
Ele está bem ferido.
Eu não queria me envolver. Não era meu problema. Samuel era o herói, o salvador, o tal do Caçador de Madas. Ele que tinha o poder de copiar Impares. Ele que ia derrotar Adam.
Mas não podia ignorar ele ali, sangrando sozinho.
— Droga.
Segurei Samuel nas minhas costas e comecei a andar.
Dois minutos depois, ele acordou.
— Uh? — sua voz saiu grogue, confusa. — Quem é você?
— Leandro. Já se esqueceu de mim?
— Ah… — ele piscou algumas vezes. — É que é difícil saber quando não vejo seu rosto.
— Consegue andar?
— Num sei.
Soltei ele das minhas costas. Ele cambaleou, os joelhos dobrando — mas se manteve de pé.
— O que aconteceu para você estar assim?
Samuel olhou para mim. Um sorriso lento se abriu em seu rosto — cansado, mas triunfante.
— Ha — ele riu fraco. — Não sabe da novidade?
Pausa dramática.
— Eu derrotei Adam.
Fiquei surpreso.
Não esperava ouvir isso tão cedo. Não esperava ouvir isso nunca.
— E aqui está a prova — ele disse.
Invocou uma mão decepada.
A mão flutuava no ar, pálida, estranha. Mas o que emanava dela… era poder. Poder bruto, puro, avassalador.
— Aqui estão os 90% do poder de Adam.
Franzi a testa.
— Como assim? O poder dele está nessa mão?
— Eu não vou contar tudo — Samuel suspirou, a voz cansada —, mas só o essencial.
Ele respirou fundo.
— Em um momento da luta, eu encostei no Adam com a minha mão e usei o Impar do Rafa para desconectar os Fragmentos de Medo dele. Então ele foi enfraquecendo aos poucos. Enquanto isso, copiei os três artefatos lendários para virar um Adedonha. Assim, lutei de igual para igual com Adam.
É bastante informação.
— Mas a cópia dos artefatos tem um limite de cinco minutos — ele continuou. — Quando acabou, eu perdi o poder Adedonha. Mas Adam já estava fraco por conta da falta de seu poder. Acho que ele estava com uns 30% do poder total naquele momento.
Ele ergueu o queixo.
— Daí eu dei um pau nele. Até poder usar meu artefato de novo e finalizá-lo.
— O fatiando em mil pedaços.
— Entendi.
Não entendi metade das coisas que esse garoto disse. Mas não estava com cabeça para isso. Em resumo: ele venceu Adam usando seu Impar.
Era o que importava.
Samuel desinvocou a mão e olhou para mim. Seu sorriso ainda estava lá, mas seus olhos estavam pesados, fundos.
— Valeu por não me deixar lá — ele disse. — Mas tenho que contar a novidade para meu pai e meus irmãos. Tenho certeza de que eles vão se orgulhar muito de mim!
Pai? Irmãos?
Não sabia que Samuel tinha família viva neste mundo distorcido.
— Te vejo por aí, Leandro!
Ele se virou e começou a andar para o outro lado, cambaleando, mas determinado.
Ok.
Isso é assunto dele.
Estou feliz que Adam morreu. Só meio triste de não ter visto isso em primeira mão.
A floresta me recebeu novamente.
Sempre volto para ela.
Sempre acabo entrando na escuridão.
Comecei a caminhar. Sem pressa. Sem destino. Apenas seguindo em frente.
Que por algum motivo estranho, sei a exata quantidade de Scars que matei.
Como se esse número estivesse cravado na minha mente.
21076.
Vinte e um mil e setenta e seis.
Depois de vinte e seis anos caçando demônios, acabei ganhando Par. Eu até sinto que estou com menos de dez por cento do potencial total. Para chegar a cem por cento, precisaria matar muito mais.
Mas o Par já fazia efeito.
Minhas características físicas aumentaram. Me sinto mais forte. Mais rápido. Mais resistente. Meus reflexos estão mais aguçados. E meus sentidos… meus sentidos captam tudo ao redor.
Como se o mundo tivesse ficado mais nítido.
Como se eu finalmente estivesse vendo.
Enquanto eu pensava nisso... Um rugido.
Parecido com o de um urso, mas mais grave. Mais gutural. Mais errado.
Parei.
O que é isso?
Olhei na direção do som. Uma silhueta grande se aproximava entre as árvores.
Movia-se pesadamente, quebrando galhos, arrastando o vento.
E correndo na frente da silhueta…
Um Scar.
Cabeça triangular. A parte de baixo do rosto faltando — um buraco escuro onde deveria haver mandíbula. Ela corria desesperada, tropeçando, chorando.
Acho que ela está em apuros.
Eu odeio esses Scars. Eles sempre causam problemas para outros.
A Scar me notou. Seus olhos se arregalaram.
— ME AJUDA!
ZOOM.
[Febre 50°]
Vi a garra do scar descendo sobre ela. Grande. Afiada. Mortal.
Como um borrão, cheguei nela. Segurei sua mão e a puxei comigo.
PEC!
O golpe passou raspando. O vento cortou meu rosto.
Analisei o scar com mais atenção.
Grande. Enorme. Uma massa de músculos e pelos escuros, com garras que pareciam facas. A postura de um urso. Os olhos de um predador.
— Eu realmente odeio Scars como você — falei, sem paciência.
Virei-me para a Scar.
— Garota, foge daqui. Deixa que eu mato essa porra.
Ela me encarou com preocupação. Mas não questionou.
Correu para longe.
Me virei para o scar.
Ele rugiu novamente. O som ecoou pela floresta, fazendo as folhas tremerem.
Eu apenas fechei os punhos.
Hora de mais um combate.
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