Scarloon Leandro II - Tosse
10 O PÔR DO SOL
Andei até Sara.
Ela estava completamente destruída. O corpo queimado. Os braços marcados. O rosto que um dia foi tão familiar agora era uma paisagem de hematomas e cortes. O sangue escorria devagar, como se até ele estivesse cansado.
Ouvi algo atrás de mim.
Virei.
Samuel.
Ele estava ali, cercado por corpos. Demônios. Devia ter derrotado o Nono Mada — ou pelo menos aberto caminho até aqui. Os demônios que rondavam o Dôjo tentavam conter o avanço dele.
Não estavam conseguindo.
Samuel movia-se como um fantasma. Cada golpe seu encontrava um alvo. Cada movimento era preciso, mortal.
Esse garoto…
Virei-me novamente para Sara.
Ela levantou os olhos para mim. Os olhos que antes brilhavam com orgulho, com deboche, com aquela chama que ela sempre falava… agora estavam opacos.
Mas ainda assim, um sorriso surgiu em seus lábios.
— Você realmente… — ela tossiu, o som úmido, pesado — …realmente me surpreendeu mais uma vez, Leandro.
Sentei no chão ao lado dela. Olhei para suas mãos — as mãos que um dia me ensinaram a lutar. Agora estavam inertes, caídas sobre a grama encharcada de sangue.
Lembrei de uma coisa.
O Fragmento do Medo.
Usei meu Impar. Invoquei a espada-tesoura de Rafael. Ela surgiu entre meus dedos, brilhando com uma luz fria.
— O que é isso? — Sara perguntou, franzindo a testa.
— É uma tesoura. — Dei de ombros. — Legal, né?
Sendo o portador daquele artefato, eu sabia o que ele podia fazer. Desconectar conceitos. Separar o que estava unido. Cortar o que não deveria estar ligado.
Segurei o ombro de Sara. Com cuidado, sentei-a melhor.
— Por que você tá sendo tão gentil comigo do nada? — ela perguntou, a voz trêmula. — Você sabe que eu posso te matar se você vacilar!
— Cala a boca rapidinho.
Ergui a espada.
Fiz um corte.
Não em Sara. Não em sua carne. Mas no conceito. Na conexão invisível que a prendia a Adam.
Por um momento, nada aconteceu.
Então vi.
Saindo do corpo de Sara, emergindo como uma sombra que se recusava a ficar escondida, um triângulo negro surgiu. Dele escorria um lodo escuro, grosso, pulsante. O Fragmento do Medo.
Estendi a mão. Peguei.
O poder que emanava daquilo era massivo. Mesmo aquele pequeno pedaço — apenas 1% de Adam — era mais pesado do que qualquer coisa que eu já havia sentido.
— O que você fez? — Sara murmurou. — Sinto que minhas forças se foram.
— Retirei uma coisa importante — respondi, sentando ao seu lado.
Olhei para ela. Sua pele roxa estava mudando. Lentamente, lentamente, voltando ao tom original. O preto de Scar. O preto de antes.
— Sara?
— Leandro… — ela piscou, confusa. — Sério, o que você fez?
— Só tirei o poder que Adam te deu. Só isso.
— Mas como?
Mostrei a espada.
— Com isso. Retirou o poder de Adam.
Ela olhou para a espada, depois para mim.
— E como isso aconteceu exatamente?
— Tô com preguiça de explicar.
Ela riu. Um riso fraco, curto, que rapidamente se transformou em tosse.
— Seu pestinha — ela murmurou. — Você não se dá nem ao trabalho?
— Eu só vou dizer que não desfiz o pacto que você tem com ele, apenas tirei o poder dele.
— Entendi...
Passou a mão na barriga. Fez uma careta de dor.
— Eu acho… — ela começou, a voz falhando — …que meu tempo está acabando, Leandro.
Olhei para ela. Seu estado era deplorável. Corpo queimado, nariz entupido, hematomas por toda parte, cortes abertos.
Minha situação não era muito diferente. Cortes em todo o corpo. Um buraco no ombro. Hematomas que latejavam a cada batida do coração.
Estamos ambos destruídos.
— Escuta — falei, a voz mais baixa. — Saiba que se não fosse eu que te matasse, outro Scar iria fazer isso.
Ela assentiu devagar.
— O tal do Caçador de Madas?
É assim que chamam Samuel?
— Adam não se importa o suficiente para intervir no que esse moleque está fazendo — ela continuou. — Então a gente que tinha que se virar contra ele.
Ela mudou a expressão. O olhar se perdeu no horizonte, onde o sol começava a se pôr, tingindo o céu de laranja e vermelho.
— Você se lembra — ela disse, a voz quase um sussurro — de quando eu disse que "a gente pode olhar o pôr do sol juntos" quando nos víssemos de novo?
Olhei para o horizonte.
O sol tinha chifres e uma auréola. Diferente. Estranho. Mas bonito.
— Sim — respondi. — Me lembro bem disso.
Sara se inclinou. Seu ombro encostou no meu.
— Eu sei que não posso viver — ela disse. — Acho que fiz meu papel bem.
— Relaxa, Mestra. — Minha voz saiu mais macia do que eu pretendia. — O Caçador de Madas vai acabar com essa merda.
Ela me olhou. Um sorriso alegre surgiu em seu rosto — o primeiro sorriso verdadeiro que eu via nela há anos.
— Leandro… — ela hesitou. — Foi mal por todo o problema que eu fiz você passar.
— Não precisa se desculpar por isso, Mestra.
Ela arregalou os olhos.
— Eu não mereço ser chamada de sua Mestra, Leandro. — A voz dela tremeu. — Você me provou que com muita força de vontade, dá para superar qualquer desafio.
— Para de falar besteira, Sara.
Abracei ela.
Apertei com força — mas com cuidado, com medo de quebrar o que já estava tão frágil.
— Vou sempre te considerar minha Mestra.
Ela ficou em silêncio por um momento. Depois, seu corpo relaxou contra o meu.
— Leandro… — ela sussurrou. — Eu realmente não mereço isso. Eu me entreguei para o mal. Fiz coisas horríveis. E tudo isso porque eu tinha medo.
Pausa.
— Medo de morrer. E medo de você morrer por minha causa.
— Sim. — Soltei o abraço e olhei nos olhos dela. — Você fez merda mesmo.
Ela ficou surpresa. Seu rosto se contorceu — quase um choro.
— Não era pra você concordar assim, poxa! — ela reclamou, com um resquício da antiga indignação. — Você sempre é muito direto com as coisas.
Sorri.
Ela se separou do abraço. Lentamente, com esforço, sentou-se na grama.
O céu estava pintado de cores quentes. O sol se punha atrás das montanhas.
A voz dela já falhava. Cada palavra saía com esforço.
— Eu posso morrer em paz… — murmurou.
— Vê se não faz merda na sua pós-pós-vida.
Ela soltou um riso fraco.
— Pode deixar. Prometo…
Seus olhos se fecharam devagar. Como se o peso do mundo finalmente fosse suave o bastante para ser carregado.
O sangue ainda escorria de seu corpo. Escorria devagar, silencioso.
Fiquei ali, sentado ao lado dela, olhando o sol se pôr.
Como prometido.
Depois de um tempo — não sei quanto — me levantei.
E por fim, parei de ouvir sua respiração.
E caminhei para a saída.
O corredor do Dôjo estava cheio de corpos. Demônios. Scars. A confusão da batalha.
No fim do corredor, um demônio estava de joelhos. Suas mãos erguidas. Sua boca gaguejava pedidos de misericórdia.
Samuel não hesitou.
Sua mão perfurou a cabeça do demônio como se fosse papel molhado.
Esse garoto tem cara de dezoito anos e faz isso.
Este mundo realmente está bem distópico.
Samuel me viu. Seu rosto sujo de sangue se abriu em um sorriso.
— Iai, Leandro!
Ele deu um pulo e veio na minha direção.
Estendi a mão.
— Pega. — Entreguei o Fragmento do Medo. — É isso aí, né?
Samuel pegou o triângulo negro. Olhou para ele por um instante.
Depois, esmagou com a mão.
O lodo preto percorreu seu braço como uma serpente líquida. Entrou em sua pele. Fundiu-se a ele.
Ele soltou um suspiro.
— É isso sim. — Ele me olhou. — Bom trabalho, Leandro!
— Você derrotou o Nono Mada?
Ele balançou a cabeça.
— Não. Pensei que talvez você não conseguisse derrotar ela, então fiquei observando só pra ter certeza.
Ele estava vendo a luta?
— Esses Gomendis planejavam te matar assim que você mandou a Rainha do Sangue pra fora deste local — ele explicou. — Mas como eu estava aqui, matei eles para facilitar pra você.
— Valeu. — Olhei para os corpos ao redor. — Isso seria realmente um problema, parando para pensar.
— De qualquer forma — Samuel continuou, já se virando —, amanhã eu vou lutar contra o Mada dos Foguinhos e partir para o décimo.
— Daora, te vejo por lá. — Cruzei os braços. — Espero que você consiga fazer isso.
Ele sorriu. Aquele sorriso otimista, quase ingênuo.
— PODE APOSTAR! — Ele levantou o punho. — Tchau, se cuida! Vê se não morre!
E sumiu na direção oposta.
Saí do Dôjo.
A floresta me recebeu com seu silêncio habitual.
Comecei a caminhar. Sem pressa. Sem destino.
Pensando bem…
Não tenho muito lugar para onde ir. Nada específico para fazer.
Meu propósito principal foi concluído.
Qual será meu próximo passo?
Derrotar Adam?
Nem fudendo.
Ele é muito mais forte que eu. Analisando o nível de força… a Sara estava certa. Eu não estou nem perto dos dez por cento do poder de Adam.
Deixo essa missão com Samuel.
Não sou arrogante o suficiente para achar que consigo derrotar o Deus que criou este mundo. Não sei como Samuel vai fazer isso.
Mas isso já não é meu problema.
Se ele não conseguir… acho que ninguém consegue.
Pensamentos pessimistas.
Deixo eles de lado.
Vou ver se Samuel realmente consegue derrotar Adam. De longe. Observando.
Mas por enquanto…
Vou continuar meu papel.
Exterminar todos os demônios de Scarloon.
A floresta se abriu diante de mim.
O sol já havia se posto. A lua surgia no horizonte — minguante, sorridente.
O mesmo rosto. O mesmo sorriso.
Mas agora, ele não me assombrava mais.
Respirei fundo.
E entrei na escuridão.
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