Scarloon Flávia I - Apatia
2 CAPÍTULO 02 — NOVIDADE
E, num piscar de olhos, eu acordei.
Sem sonho algum.
Então significa que está tudo normal.
Só preciso me adaptar às mudanças e, com toda a certeza, posso dizer que não sinto falta de ir ao banheiro.
Muito menos de gastar dinheiro com comida.
Mas enfim, estou divagando.
Preciso focar na missão principal: conversar com esses Scars.
Levantei-me da cama e fui diretamente até a porta.
Assim que a abri, dei de cara com a Napolitano, que tomou um susto enorme. Acho que abri a porta de forma um pouco… bruta.
— AAAAH!
Ela quase caiu no chão, mas conseguiu se segurar. Depois de perceber que era apenas eu, finalmente se acalmou.
— Que susto, Flávia! Não abre a porta desse jeito, quase me matou do coração — disse ela, com a voz ainda tremendo.
— Não acho que você morreria por um simples abrir de portas.
— Era no sentido figurado, mas tem pessoas que morrem de susto de verdade. Meu tio me contou uma vez que…
E ela começou a falar de um assunto com o qual eu não me importava nem um pouco.
Clássico de seres humanos.
O que não é exatamente o caso, porque ela é uma Scar.
Então…
Caos, caos, caos.
Esperei ela perceber que eu não estava ouvindo sua história e retomar o meu objetivo principal.
— Daí o cara puxou uma bomba e…
Ela me encarou.
— Ei, você tá prestando atenção?
— Não. Eu queria conversar sobre algo que realmente vai fazer alguma diferença e que vai me ajudar a conviver com vocês.
Ela pareceu confusa.
Não sei dizer o porquê.
Mas logo seu rosto voltou ao normal de sempre, que, no caso, era o rosto de alguém que eu conhecia havia apenas um dia.
— Entendi, entendi. Você tem coisas mais importantes para fazer do que saber sobre a ligação do meu tio com o terrorismo. Tudo bem, vamos ao ponto original.
Ela estendeu a mão.
— Poderia me seguir? Temos que falar com a garota que vai te ajudar a desbloquear seu IMPAR secreto!
— No caso, ela se chama Geovana, certo? Vamos logo.
Saí do quarto sem pegar em sua mão.
— Tudo bem… posso me acostumar.
Ela disse isso com aquela voz de choro, guardando a mão para outra pessoa.
No caso, outro Scar.
Depois de andar pelos corredores dos quartos, passar pela sala principal e seguir para a esquerda, chegamos a um campo aberto.
Era parecido com aqueles lugares calmos dos filmes em que os heróis descansam depois de derrotar um vilão do capeta.
A diferença é que havia várias marcas de buracos que tinham sido tampados, árvores replantadas e alguns bonecos de treinamento espalhados pelo local.
Quando Vitória estava prestes a explicar o que era aquilo, eu pensei exatamente no que ela iria falar.
— Esse aqui é o campo de treinamento da nossa base.
E, a partir daí, ela começou a falar o óbvio.
— É aqui onde a gente fica quando precisa treinar os novatos. Isso inclui você.
— Entendo.
Olhei para as pessoas.
Quero dizer…
Scars.
Eles conversavam sobre assuntos que provavelmente não me interessavam.
— Ali está ela!
Vitória apontou para o outro lado do campo.
Na direção de seu dedo havia dois Scars.
A da frente tinha a cabeça em formato de “mais”, enquanto o outro, mais baixo, possuía uma cabeça arredondada cercada por espinhos curvados, parecendo uma maquita.
A moça devia ser a tal da Geovana.
O pequeno eu não sabia dizer.
Quando chegamos mais perto, a “mais” nos cumprimentou.
— Oi, Vitória…
Seus olhos se fixaram em mim, demonstrando um pouco de surpresa.
Não sabia dizer se era fingida.
— E essa seria a novata que o Emerson mencionou?
— Isso mesmo.
Ela apontou para mim.
— Ela se chama Flávia, e Flávia, essa se chama Geovana!
Cortei a enrolação da Vitória.
Eu odeio me apresentar.
— Enfim, eu não tenho memórias da minha morte e a Vitória me disse que você poderia me ajudar nisso. Então pode me ajudar?
Geovana se aproximou um pouco, com um sorriso no rosto.
Pelo que parecia, era gentil.
— Claro. Essa é uma das minhas melhores e mais divertidas funções dentro desse grupo. Vamos começar, porque já percebi que você é bem direta.
— Obrigada pela compreensão.
Depois das apresentações, Geovana começou a me orientar.
— Meu Impar me permite tornar tudo que eu falo em realidade. Bem, pelo menos aquilo que seja fisicamente possível. E uma das formas de usar meu Impar é essa.
Ela, estranhamente, fez uma pinça com os dedos, colocou a mão nos lábios e puxou-os para baixo, quase como se estivesse realizando algum tipo de ritual estranho.
Então, quase como um sussurro dentro da minha própria mente, ela disse:
— [Use seu Impar]
E, como se algo oculto tivesse sido despertado dentro de mim…
Algo inacreditável aconteceu.
Um nome surgiu.
[Bipolar]
As duas me encararam por alguns segundos.
Nada aconteceu.
— E aí, Flávia? O que você descobriu?
Eu nunca imaginei que isso seria possível.
— KKK… eu não sei explicar direito, KKKK!
Geovana apenas me encarou.
— Não entendi. Deveria ter acontecido alguma coisa.
— Pois é, né? KKK.
Enquanto eu ria, Vitória me encarou com uma expressão que eu poderia descrever como espanto.
Era bem engraçado.
— Ela tá rindo?!
— Sim! E eu nem sei o motivo!
Dei mais algumas risadas.
Eu simplesmente não conseguia parar.
— Geovana, a Flávia até agora não sorriu nenhuma vez. Na verdade, ela nunca demonstrou nenhum tipo de sentimento desde que eu a conheci!
— KKK… Ah, entendi agora. Então meu Impar é simplesmente rir? KKK.
— Não. Duvido muito.
Geovana repetiu o movimento.
— [Use seu Impar]
[Bipolar]
E, como num passe de mágica, as risadas pararam.
— Uh… voltou ao normal?
— Hm, talvez… mas…
Lágrimas começaram a escorrer dos meus olhos.
— Eu estou soltando água pelos olhos.
Isso era completamente estranho.
— E eu… não sei dizer o que está acontecendo comigo…
As lágrimas continuavam caindo.
— Mas eu me sinto estranha. Na real, sentir alguma coisa já é estranho…
As duas pareciam estar me julgando muito.
Eu nem conseguia enxergar direito por causa dos meus olhos terem virado dois reservatórios de água.
— Compreendi! Seu Impar tem a ver com sentimentos! — disse Vitória.
— Sentimentos?
Falei enquanto limpava as lágrimas.
— Faz sentido. Você passou de rir à toa para chorona em menos de um minuto. Diria que nem eu consigo trocar tão rápido assim.
Geovana disse isso com um ar de decepção consigo mesma.
E, por algum motivo, eu conseguia entender como ela se sentia apenas pelo olhar.
— Entendo…
Então pensei por alguns segundos.
— Então, se eu posso controlar…
[Bipolar]
Num piscar de olhos, parei de chorar.
Meu rosto voltou ao normal.
— Que sentimento é agora?
Vitória pensou por um momento.
— Diria que é a falta de um mesmo.
Ela olhou para mim.
— Indiferença.
Geovana deu uma olhada para cima.
— Bem, quer que eu tente fazer você descobrir quais são as suas outras duas habilidades?
— Tem mais que isso?
Olhei para minhas próprias mãos.
— Porque foi uma sensação muito… nova. Sendo sincera, nunca tinha sentido nada antes. Então é difícil explicar.
— Não tem problema, amorzinho. Cada um tem o seu tempo de aprendizado.
Pensei por um momento.
Esse Impar que eu acabara de despertar…
Ele me fazia sentir alguma coisa pela primeira vez na vida.
Era algo completamente novo.
Inexplorado.
E, de certa forma, eu sentia que estava começando a pensar diferente.
[Bipolar]
Pronto.
Agora eu sentia curiosidade.
Curiosidade suficiente para querer descobrir como era sentir os outros sentimentos.
— Muito obrigada, Geovana. Graças a você, eu posso experimentar essa novidade que vocês chamam de sentimento.
Olhei para ela.
— Gostaria de passar mais tempo experimentando isso. Então poderia tentar liberar o resto mais tarde?
Ela deu um sorriso gentil.
— Claro. No seu tempo. Qualquer coisa, eu te ajudo quando tiver tempo.
Ela disse isso enquanto voltava a conversar com o menino Maquita.
Enquanto isso, Vitória se aproximou de mim.
O que será que ela quer?
Eu quero muito descobrir!
— Isso é incrível, Flávia! É tão estranho ver você com uma expressão que não seja a neutra!
— Eu sei. Para mim também é estranho, apesar de eu não conseguir ver meu próprio rosto.
Ela deu uma risada.
— Quer ter um tempo para descobrir mais sobre os sentimentos?
— Eu sei o que eles são. Já li alguns livros sobre como funcionam os sentimentos humanos, então acho que consigo fazer isso com tranquilidade.
Parei por um instante.
— Qualquer problema, eu peço sua ajuda.
— Tudo bem! Estarei no Armazém!
Ela disse isso enquanto corria até a entrada do campo de treinamento.
E, finalmente, eu pude entender o que era sentir curiosidade por alguma coisa de verdade.
Era…
Estranhamente satisfatório.
E eu quero saber mais.
Muito mais.
Depois de me sentar debaixo de uma árvore, comecei a pensar melhor em como funciona o meu Impar.
Pelo que eu me lembro, normalmente os humanos não têm apenas um sentimento por vez, mas sim um conjunto de, no mínimo, dois. E eu preciso controlar a intensidade dessas emoções.
Qual seria a diferença entre emoção e sentimento?
Emoção é algo mais biológico, algo mais intenso, tipo um susto.
Já sentimentos costumam ser mais controlados, sendo a interpretação que temos sobre as emoções. O susto pode se desenvolver para o medo ou para a ansiedade.
Mas, como eu nunca senti nenhuma emoção, diria que o único sentimento que eu poderia dizer que tive foi a indiferença, apenas vivendo porque sim, fazendo coisas porque…
…
Eu nem sei o porquê.
Acho que eu só não me importava o suficiente para procurar um motivo.
É tipo um paradoxo.
Se a minha vida não tinha motivação, então eu também não conseguiria me matar, por exemplo, até porque eu não tinha motivos para tal.
Hm…
Ser curiosa é realmente intrigante. Sinto que isso desperta ainda mais a minha concentração em tudo à minha volta.
Mas eu tenho que encontrar um meio-termo, então vou começar os testes.
Um dos sentimentos que as pessoas dizem ser o melhor deles é…
[Bipolar]
Alegria.
Senti minha boca formando um sorriso involuntário.
E, logo em seguida, algumas risadas altas.
Ok, talvez não tão intensa assim…
[Bipolar]
Pronto, já me sinto um pouco menos feliz.
Aquele sorriso de orelha a orelha já se tornou algo bem mais discreto.
E…
É estranho falar sobre como é sentir felicidade.
Ainda mais sendo a minha primeira vez.
Então vou me utilizar de metáforas metafóricas.
Hehe.
Eu tô tão alegre que nem me importo de ser redundante nos meus pensamentos.
Alegria, parecido com um prazer interno, transmitido com sorrisos, risos e uma sensação de leveza.
…
De fato, por mais que eu tente, não vou conseguir descrever uma emoção com outras emoções que eu não tenho. É tipo tentar aprender português lendo o dicionário sem saber nem falar.
Então, a melhor forma de descrever como eu me sinto nesse momento é a seguinte:
Agora que eu sinto o sentimento, é como se eu sempre soubesse como ele é.
Não tem como alguém que nunca sentiu nada entender como é sentir, apenas entender o que isso afeta ao seu redor.
Então…
É instintivo.
Algo que eu só precisava entender uma vez e pronto, já está gravado na minha mente.
…
Isso…
Isso é estranho…
Me deitei no chão, nessa grama vermelha.
Ah, é, esqueci de comentar que aqui parece muito com o lado de fora, o mesmo lugar onde eu apareci pela primeira vez, a floresta vermelha.
E, analisando melhor esse campo, percebo que é um enorme domo, com o teto e as paredes parecendo o céu, só que tem algo de estranho.
É como se alguém tivesse desenhado e pintado com lápis de cor.
Até a iluminação é de um sol todo desenhadinho.
E, de fato, é algo engraçado…
E curioso.
Me pergunto como funciona o Impar.
Nem perguntei isso para elas.
O que acontece se meu Impar acabar?
Ele sequer tem limite?
A minha habilidade de sentir coisas vai sumir?
Ou eu apenas vou ficar presa no mesmo sentimento até ela voltar?
Hm…
[Bipolar]
Tentei ver o quanto eu conseguia ser mais curiosa. Sabe, para aumentar a minha vontade de entender essas perguntas que surgiam em mim.
E, assim que eu fiz isso, senti as minhas forças indo embora.
E, com elas, toda a minha alegria e curiosidade…
De uma forma muito brusca.
Que droga.
Agora que eu não tô sentindo mais…
E eu não sei se eu me lembro de como era me sentir daquela forma.
…
Mas eu nem me importo o suficiente para fazer algo a respeito.
Depois de algumas horas apenas deitada na grama, e quase dormindo ali mesmo, senti meu Impar voltar.
Como se meu sangue tivesse ficado mais quente, me sentindo mais viva.
(Sarcasmo.)
[Bipolar]
E, novamente, eu estava alegre.
Alguns vão dizer que isso é bem estranho, até porque ter controle total sobre o que você sente é algo bem impensável.
Mas, para quem não tinha nada, eu estou bem convencida de que isso é o de menos.
Me levantei, olhando ao meu redor.
Pelo visto, a maioria dos Scars que estavam aqui já foram embora.
Apenas a Geovana e o menino Maquita ainda estavam aqui.
E eu precisava perguntar algumas coisas em relação ao meu Impar.
E, dito isso, fui correndo na direção deles.
Geovana parecia estar apenas conversando casualmente com o Maquita, mas, quando percebeu que eu estava correndo até ela, virou-se.
— Ah, oi, Flávia. Aconteceu alguma coisa para você estar correndo assim?
— Não, só estou feliz mesmo. Queria te perguntar algumas coisas.
Ela deu um sorriso.
— Tudo bem. Me diga, o que você gostaria de saber?
Me preparei para fazer as perguntas mais importantes.
— O que eu preciso saber sobre o Impar no geral?
Ela colocou a mão na cintura.
— Bem, vamos começar com algo simples. Sobre as habilidades.
Scars têm Impares, sendo eles relacionados à causa de sua morte.
E cada Impar tem três habilidades-base.
Ou seja, eu tenho mais duas habilidades além de controlar o que eu tô sentindo.
E a Geovana pode me ajudar a descobrir quais são essas outras duas.
— Mas tem algo que vai acontecer daqui a alguns dias. Uma sensação que vai despertar em você, e ela vai apontar para um local.
— Sério? Mas o que isso significa?
— Significa que você vai saber a localização do seu Artefato.
Artefatos são armas… bem, na maioria das vezes, utilizadas para aumentar seu Impar-base e desbloquear mais duas habilidades extras.
Só que tem um detalhe.
Para utilizar o Artefato, é preciso ativá-lo, e ele apenas pode ser ativado por cinco minutos. Dentro desses cinco minutos, eu consigo utilizar minhas habilidades extras.
— Entendo. É tipo uma cartada final? Um último trunfo?
— Exatamente, mas depende bastante de Scar para Scar. Eu mesma uso o meu com bastante frequência, até porque eu normalmente não sou de lutar diretamente. — Ela encostou a mão no queixo. — Mas, no seu caso, ainda precisamos descobrir mais sobre eles e, claro, eu vou te ajudar a descobrir as suas habilidades de Artefato o mais rápido possível.
— Muito obrigada mesmo, Geovana. Você é, de fato, alguém bem prestativa.
— Não precisa agradecer. Esse é meu trabalho. Vamos te ajudar contanto que não faça nenhuma besteira.
— Entendo. Vou tentar não infringir nenhuma de suas leis impostas.
Ela ficou um pouco envergonhada.
— Ah! Não! Não são as minhas leis, Flávia, são do Líder!
Ela deu uma limpada na garganta.
— Enfim, só mais uma coisa: quanto mais você usa seu Impar, mais forte ele fica. Então, consequentemente, mais vezes você consegue usar suas habilidades.
— Entendo. Então é só repetição até alcançar o máximo?
— Isso mesmo. Mas não se preocupe com isso. Nem mesmo eu estou com meu Impar por completo.
Então, pelo visto, é realmente demorado…
— Tem mais alguma coisa que eu preciso saber sobre o Impar?
— Bem… diria que nada muito essencial para a sua evolução. Então, por enquanto, é isso.
Ela pousou a mão na cabeça do Scar ao seu lado, fazendo um carinho.
— Ademais, é isso. Que tal ir descansar um pouco? Você parece bem diferente. Diria que de um jeito bom. Talvez amanhã já vamos decidir qual vai ser a sua dupla oficial.
— Dupla oficial?
Ela deu uma risadinha.
— Não precisa se preocupar com isso. Amanhã vamos te contar como funciona melhor a gestão desse lugar, então você precisa estar completamente disposta.
— Entendo. Então é isso. Tchau, Geovana.
— Tchau, Flávia! Tenha uma ótima noite de descanso.
Depois de me retirar do Campo de Treinamento, cheguei no meu quarto.
Ou, pelo menos, na porta.
Coloquei minha mão na maçaneta e abri.
Vendo apenas meu quarto com as luzes apagadas.
Diria que tem mais espelhos do que eu me lembrava e, por algum motivo, um deles tá quebrado.
Mas acho que isso é problema para outro dia.
Não estou usando a minha curiosidade agora para isso.
Tenho que recuperar minhas energias para amanhã.
Só espero que isso não seja algo que vai possivelmente me causar prejuízos no futuro.
…
Claro que não vai.
É só um espelho.
Não criem expectativas altas apenas nisso, sério.
Vocês vão se arrepender, e não foi falta de aviso.
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