Scarloon Flávia I - Apatia
1 CAPÍTULO 01 — ESTRANHO
Não sei exatamente o que aconteceu, mas eu juro que acabei de acordar em pé dentro de uma floresta.
Olhei em minha volta, analisando melhor o cenário. Essa floresta era nada normal.
Troncos azuis grandes e folhas vermelhas.
Me agachei por um momento, segurando uma delas na mão e observando de perto. Elas pareciam ser feitas de vários triangulinhos pequenos.
Eu acho que vim parar em um mundo paralelo depois de dormir…
Ou eu ainda tô dormindo, o que seria estranho, já que eu não tenho sonhos há vários meses.
Qual foi a última coisa de que eu me lembro?
Talvez a data. Ontem foi 23 de fevereiro de 1952…
Mas isso não vai me ajudar muito, eu acho. Estou no meio de uma floresta desconhecida, sem nenhum meio de localização, então acho que saber o dia já é um passo grande.
BOOM!
Um estrondo vindo do lado.
Provavelmente alguma troca de fogo entre dois países em guerra nesse exato momento.
Ou talvez não.
Quem sabe.
VOSH!
De repente, uma grande labareda de fogo disparou na minha direção, passando de raspão pelo meu rosto, com a minha pele sentindo o calor do projétil de puras chamas.
Perigo iminente.
Mas eu não me importo o suficiente para fugir ou gritar por ajuda.
Vai que é um dragão do bem que, sem querer, disparou sua rajada de fogo na minha direção.
Quem sabe…
— AAAAAAAAAHHHHHH!
E, cortando todo o silêncio depois do disparo, um grito.
E não era um grito normal, mas de alguém que precisava urgentemente de ajuda.
Felizmente, eu não sou a mais capacitada para essa situação.
VOSH!
Mais um ataque, só que dessa vez ele passou bem mais longe.
E, de dentro da moita, alguém surgiu, aparentemente com medo.
Tudo indica isso.
Ou seja, probabilidade de perigo igual a 1%.
Ela me encarou por alguns segundos, mas logo correu enquanto falava:
— Garota! Tá fazendo o quê? Se liga, os cara tão na maldade, corre!
Nem deu vontade de responder tal pergunta, muito menos à sua motivação.
Ela passou por mim, correndo para dentro da floresta.
“Eu só quero a minha cama…”
Era só isso que eu conseguia pensar naquele momento.
Um som, que eu não me importo o suficiente para descrever, veio da moita à minha frente.
E de dentro surgiu ele!
Fingi surpresa.
Um cara com chamas na mão.
Ele me encarou com um sorriso que eu acho que era malicioso.
— Olha o que temos aqui, uma mocinha indefesa?
Revirei os olhos.
— Pode avançar logo pra parte onde você faz algo além de gastar o seu tempo falando coisas sem sentido?
Ele parecia irritado, mas não sei dizer ao certo, disparando na minha direção.
— Como quiser, desgraçada, vou te mostrar o que acontece quando você—
Ele nem terminou.
Foi atingido em cheio por uma…
Pedra?
Não, não era uma pedra.
Era uma melancia.
SPLASH!
A melancia explodiu na sua cabeça, fazendo ele cair no chão, confuso. Ele limpou os olhos, que agora estavam cheios de carocinhos e restos de melancia.
SPLOSH!
Mas não demorou muito para ele ser novamente acertado por mais dessas frutas.
Estranho.
Nunca pensei que um marginalzinho desses seria pego por simples frutas.
Se bem que elas estavam vindo a uma velocidade bem considerável.
Imagina se fossem pedras mesmo…
E, de trás da árvore, surgiu mais um cara, com a palma da sua mão apontada na direção do moço das frutas.
— Ei, você tá bem? — Ele perguntou olhando na minha direção, devia estar me confundindo com outra pessoa, mas vou responder só por descargo de consciência.
— Se responde à sua pergunta… Não descobri ainda.
Assim que ele ia se aproximar, algo que devia ser inesperado aconteceu.
BOOM! FOSSSSSSSSSHHHHHHH!
O corpo do fruteiro simplesmente entrou em combustão, liberando CO₂ e água.
E ele levantou novamente.
Me encarando com os olhos em chamas.
Literalmente.
E, com a mão levantada, ele a moveu na minha direção, como se fosse arremessar alguma coisa.
Mas, nesse pequeno momento, senti algo encostar no meu ombro.
SWITH!
E se colocar na minha frente.
FOSHHHHHHHHHHHHHHHH!
Sendo engolida pelas chamas…
Pelo menos era isso que deveria acontecer.
Mas, na sua frente, havia um espelho, que aparentemente não refletia apenas luz, mas também chamas, que voltaram com tudo naquele cara-tocha.
Que parecia não sentir dor de fato.
Enquanto eles estavam em uma disputa de resistência, eu me certificava de olhar em volta, vendo o estrago que isso tá causando na natureza.
E, de fato, é muito estrago…
Mas, assim que voltei a olhar para aquela disputa de poderes muito interessante, vi algo que de fato deveria ser impactante.
TUM!
Bem na cabeça.
Um cano de metal foi acertado por trás.
O chaminha caiu no chão na hora, finalmente descansando em paz para sempre.
E quem deu essa batida?
O cara da palma levantada…
Não tenho um nome melhor para ele.
Os dois se viraram para mim.
E, como eu já tô vendo eles há um tempo considerável, vou fazer o esforço de descrever suas aparências.
A da esquerda tem o rosto redondo, escuro, com uma grande listra branca que separa seu rosto verticalmente.
Parecendo um sorvete napolitano, só que preto, branco e preto.
E o da direita é um “T”.
Só isso.
Nada de mais a se comentar.
— Ei, garota! Você é doida? Por que não correu comigo? — perguntou a Napolitano.
Não vi motivos.
— Não tem amor à vida? — perguntou o Tubarão-Martelo.
Não sei o que isso significa na prática.
…
Eles me encararam por um momento.
— E então, não vai falar com a gente?
Pensei por um momento se valia a pena, mas lembrei da minha situação atual de “não sei onde eu tô” e resolvi responder.
— Poderia me falar onde eu estou?
Eles se entreolharam.
— Bem, você não deve saber, mas estamos em Scarloon! O local onde as almas vêm descansar pela eternidade…
Ela fez a tal da pausa dramática.
Mas o que seria ser dramática?
— …Mas, na real, tá mais pra um inferno com algumas regalias pra quem tem sorte.
Inferno?
Regalias?
Sorte?
Por que tantas perguntas?
Eu não sei.
Talvez eu saiba?
— Resume de forma mais eficiente — falei, querendo objetividade.
O Tubarão falou rapidamente:
— Você morreu e agora está no mundo dos mortos, onde todos têm poderes baseados na causa de sua morte, onde eu e ela estamos em um grupo cheio de caras legais que procuram uma forma eficiente para sair daqui e acabar com o ciclo de dor e sofrimento que os seres humanos causam uns aos outros!
Um resumo bem feito e explicativo no ponto certo.
— Então eu morri e vim parar aqui, mas eu não sei a causa da minha morte, então eu não sei qual seria meu Poder, me tornando uma completa inútil nesse tipo de situação…
Eles se entreolharam mais uma vez.
— Eu acho que você é bem apática, garota.
— Você acha? Então faça questão de ter certeza daqui em diante.
— Tua voz é tão calma que chega a ser irritante. Cadê a emoção?
Esse comentário deveria me irritar, mas provavelmente você já sabe a resposta.
— Eu me pergunto a mesma coisa desde criança, mas até hoje ela não bateu na minha porta.
Os dois me olharam com olhares que eu não sabia dizer se eram de tristeza ou vontade de construir uma casa com palitos de dente.
— Olha, garota, qual seu nome?
— Flávia, com acento no primeiro “a”.
— Entendi. Então, Flávia com acento no primeiro “a”, eu e o meu amigo fazemos parte de um grupo…
Você já disse isso.
— E eu gostaria de saber se você quer entrar nele!
Não precisa de tanta animação pra algo assim.
— O que você me diz?
Não sei.
— O que eu ganho?
O Tubarão falou:
— Uma cama.
É isso, trato feito. Nem precisa falar mais.
— Explicações.
Importante.
— Scars que não vão te abandonar caso você esteja com problemas.
— Scars?
— Isso faz parte das explicações que vamos dar a você se você aceitar entrar no nosso grupo.
— Eu aceito só pela cama. Agora me conta.
Ele deu uma risada.
Não sei dizer se foi forçada.
— Tudo bem, Flávia com acento no primeiro “a”. A gente te conta no caminho.
…
— Só me chama de Flávia mesmo.
— Ok, Flávia.
E assim, eles começaram a me levar até a sua base secreta, que aparentemente recruta qualquer pessoa que não tente matar eles ou que não demonstre nenhum nível de ameaça visível.
Mas eu não tenho motivos para reclamar. Afinal, finalmente vou poder me deitar em uma cama.
Até porque eu já estava pensando em dormir no chão por conta da floresta, o que provavelmente resultaria em problemas para as minhas costas.
Algo que, com toda a certeza, me deixaria menos eficiente.
Depois de um tempo andando pela floresta vermelha, eles começaram a me explicar algumas coisas que deveriam ser importantes.
A Napolitano se apresentou:
— Me chamo Vitória! — Ela apontou para si mesma. — E esse aqui é meu parceiro e amigo James. — Ela apontou para ele também.
Bacana.
— E nós dois vamos te contar tudo que você precisa saber sobre Scarloon.
— Conte-me.
— Primeiro, vamos começar por aqueles que vivem aqui. Os Scars. Ou seja, a gente.
Entendi.
Então Scar é a forma de vida que viramos depois de morrer…
Pensando melhor, eu morri. Então não sei exatamente como meu corpo funciona agora.
Eu ainda tenho que me preocupar com a minha coluna?
Eu tenho uma?
Comecei a tocar nas minhas costas.
Eles parecem ter notado.
— Ah, não se preocupa com isso. Os Scars têm a mesma forma dos humanos. Temos órgãos, sangue, ossos, músculos, tudo que um humano tem. Só não sei quais são as diferenças exatas entre um Scar e um humano. Mas as principais são: não sentimos nenhuma necessidade biológica. Ou seja, nada de banheiro, comida ou bebidas.
Perfeito.
Sem gastar energia caçando ou perder tempo com coisas fúteis.
— Mas a mais importante são os poderes que nós, Scars, temos, que nós chamamos de Impar!
— O poder que vem da morte, no qual eu não sei qual é o meu porque aparentemente sofri uma lavagem cerebral e não consigo lembrar de como morri?
— Exato, esse mesmo. Mas relaxa, quando chegarmos na base, vamos resolver isso rapidinho.
…
Não sei explicar o que estou sentindo.
Até porque não é nada.
E o nada em si não tem uma definição além da falta de algo.
E esse algo pode ser qualquer coisa.
…
Mas eu já não tenho tanta certeza assim.
Chegando em uma clareira nada suspeita, que, no caso, realmente não era suspeita. Ela era bem normal.
Os dois se agacharam no chão e bateram duas vezes contra ele.
TRFF!
Um bloco de terra se abriu para cima, como um alçapão, revelando uma escada.
Vitória desceu primeiro, enquanto James esperou que eu descesse logo depois.
Sem perder meu precioso tempo, comecei a descer, finalmente descobrindo a tal base secreta.
Após uma longa sessão de escadas que mais pareciam levar diretamente para o quinto dos infernos, finalmente cheguei ao final.
E vamos analisar o nosso cenário novo.
Bem espaçoso.
Parecia uma sala de reunião, com uma mesa grande no centro.
Tem bastante espaço. Diria que cabem umas quarenta pessoas aqui.
Existem várias estantes de livros espalhadas pela sala, além de três portas que levam para outros corredores.
Pelo visto, é uma enorme base subterrânea.
E, com tudo isso, já conseguia ver alguns outros Scars andando por aí e conversando.
Mas isso não é relevante para a trama principal por enquanto.
Vou ter muito tempo para conversar e saber mais sobre cada um deles depois.
Porque o mais importante ao entrar em um grupo novo é conhecer aquele que o lidera.
E o líder estava sentado em sua mesa, cercado por vários desenhos de coisas que eu ainda não conseguia compreender totalmente.
O tal líder tinha o rosto arredondado, com várias linhas curvadas saindo de todos os cantos de sua face.
De fato, bem característico.
— Quem é essa? Vocês conseguiram trazer mais uma? — perguntou ele aos dois.
— Claro! Ela estava sozinha na floresta. É uma Scar que acabou de chegar aqui e não se lembra de como morreu. Então vamos falar com a Geovana para ela poder ativar seu Impar e começar as nossas expedições!
Ela falou muita coisa em tão pouco tempo.
Eficiente.
— Perfeito.
Ele se levantou da cadeira, caminhou até mim e estendeu a mão.
— Prazer em conhecê-la. Me chamo Emerson, líder dos Mente-Captus. Será uma honra ter você conosco.
Aperto só por educação.
— Beleza. Onde tá a minha cama?
Ele pareceu um pouco confuso, mas logo soltou algo que parecia uma risada e apontou para um dos corredores.
— É bem ali. Um deles pode te apresentar seu quarto. Desculpa, mas, para economizar espaço e tempo, dividimos um quarto para dois Scars.
— Tudo bem. Contanto que não faça tanto barulho, eu só espero que a minha cama seja confortável.
— Hmm… Ok, ok. Garanto que é melhor que o chão…
— Vamos, Flávia. Deixa que eu te mostro onde vai ser o seu quarto!
— Ok.
E assim fomos na direção dos quartos.
Não consigo descrever o quanto estou cansada de tanto andar…
Eu sei o quão improdutivo é dormir, mas me sinto mais disposta depois de uma boa noite de sono.
Andando pelos corredores, percebi que eles eram iguais aos dormitórios daqueles filmes horrorosos.
Mas, pelo menos, não vai ter romance de desgraçados.
Eu sinto algo ruim quando vejo esse tipo de coisa.
Posso dizer que não era bom.
E entre sentir nada e sentir aquilo, a escolha está mais do que óbvia.
Depois de uma andadinha, chegamos aos quartos.
E, curiosamente, foi a Napolitano que ficou como minha colega de quarto.
Acho que posso considerar isso sorte.
Afinal, ela foi quem me salvou, ou algo assim.
Diria que é mais fácil aturar pessoas com quem eu já interagi anteriormente.
— Enfim, se quiser dormir, já pode, viu, Flávia? Eu vou dar uma saidinha. Se quiser alguma coisa, é só chamar.
Ela disse isso enquanto fechava a porta.
Olhei à minha volta, observando com cautela aquele quarto.
Por mais que seja debaixo da terra, diria que ele é bem limpo.
Me pergunto se eles têm algum tipo de arquiteto para projetar esse tipo de estrutura sem grandes problemas…
Mas não acho que isso seja tão importante quanto descansar a m—
— Na real, se precisar de alguma coisa, pode ir na sala principal. Até porque não vai ter certeza de que vai ter alguém que vai te ouvir nesse local no momento em que você chamar.
E ela fechou a porta de novo.
Hm…
Eu já sabia disso, garota Napolitano…
PUF!
Me deixei cair na cama, finalmente cedendo aos desejos do meu corpo de descansar os músculos.
Amanhã eu penso nessas coisas de Impar e tudo mais.
Até porque, por mais que não pareça, eu ainda preciso processar tudo que aconteceu e tudo que me foi dito até agora.
Mas não vai demorar nadinha para eu me acostumar com a minha vida nesse mundo.
Eu me viro.
Enfim, boa noite.
Tô morrendo de sono.
…
Vai dormir você também.
Faz bem pra pele.
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