Sayryns - Saga Sllayer |1|
3 2| O Sayryn de asas negras
Notas iniciais
O sol passou boa parte do tempo escondido atrás das nuvens cinzas de chuva. Segundo dia de aula. Cass chegou à escola mais uma vez vestido no seu moletom cinza e encapuzado pelo mesmo. Caminhando lentamente com as mãos enterradas no bolso, ele adentrou o prédio pelo portão principal e saiu caminhando pelo corredor entre os outros alunos que conversavam e se divertiam em seus grupinhos. Miro estava organizando seus materiais no armário, quando viu Cass se aproximando.
— Cass! Bom dia! — disse animadamente acenando para o rapaz pálido, que passou direto por ele o ignorando completamente
Miro fechou a porta do seu armário, a trancou e foi atrás do Sayryn.
— E aí? Tudo bom? Dormiu bem ontem à noite? Vem cá, você não tem outra roupa além dessa não? E então? Quando a gente vai começar a escrever o livr- — disse sendo interrompido por Cass que colocou a mão na sua boca o calando
— Cala essa boca! — rosnou irritado e o empurrando para longe
Ao afastar Miro, ele continuou caminhando, mas o garoto resolveu continuar seguindo-o.
— Todos os Sayryns são chatos e estressados como você?
— Por que não falas um pouco mais alto para todo mundo saber que eu sou um Sayryn? — perguntou com deboche
— Ótima ideia! Ei, galera!
Todos os alunos olharam para ele.
— Sabiam que o Cass é um Say... — disse sendo interrompido mais uma vez quando um braço envolveu seu pescoço por trás e começou a estrangulá-lo
— Vai! Conta! Quero ver tu tentares! — disse pressionando ainda mais o braço contra a garganta do moreno
— Foi mal! Foi mal! Me solta... — disse batendo no braço de Cass já quase sem ar
Cass o soltou e Miro ficou tossindo bastante enquanto tentava recuperar o fôlego.
— Você é doente... — disse Miro ofegante
— Para de me seguir. — disse continuando sua caminhada até a sala de aula
— Hmf, é ruim hein! — disse o acompanhando
Cass chegou na sala de aula, andou até sua carteira no fundão e se sentou deitando a cabeça na mesa para tirar um cochilo, mas logo foi impedido por Miro que chegou e colocou seu caderno aberto em cima da mesa.
— Vamos começar agora? Que título eu devo colocar? "Sayryns – Os Anjos dos Olhos de Gato...ou de Cobra...?", ou "Sayryns – Os Anjos-Elfos da Mitologia", ou quem sabe...
— Ou quem sabe "Sayryns – Deixa eles em paz senão tu morres"! — interrompeu Cass realmente bastante irritado
— Esse título é bem desagradável!
— Assim como tu.
Miro suspirou.
— Olha só, você prometeu que ia me ajudar.
— Isso é só para o fim do ano, humano. Ainda tem muito tempo até lá.
— Ah, então você é desses que deixa tudo pra última hora?
— E se for?
— Mas...eu não quero fazer isso pelo projeto. É mais pelo meu sonho de ser escritor. Eu quero divulgar a história de vocês pro mundo. Por favor, me fala sobre vocês! Como vocês surgiram? Quais suas técnicas de combate? Que tipo de armas vocês usam? Vocês têm poderes mágicos? Por que os Lyvrenys são seus inimigos? Como os deuses-lobos são? Onde estão os corações?!
— Tu tens fita isolante?
— Hã? Fita isolante? Pra quê?
— Para colar na tua boca e te fazer parar de falar.
— Caramba, você é insuportável! — reclamou Miro indo para a sua carteira e se sentando
— Obrigado... — disse Cass bocejando
Enquanto isso, na sala do Conselho Estudantil, composta por apenas uma mesa com quatro cadeiras, um quadro branco e algumas estantes cheias de livros, Ivan estava um pouco inclinado com os braços apoiados na janela observando o campus do lado de fora. O vento soprava lentamente em seus cabelos e o rapaz de óculos e cabelos roxos estava com os olhos baixos bastante pensativo.
— Tu tinhas razão, Ivan. Ele está aqui mesmo. — disse uma voz feminina atrás dele. Era Nyra, que estava sentada na mesa com as mãos apoiadas na mesma e as pernas cruzadas
— Tu sabes que eu sempre tenho razão. — disse Ivan ajeitando os óculos
— E agora? O que faremos?
— Precisamos nos aproximar dele. Atraí-lo para um local deserto e então capturá-lo. Temos que levá-lo vivo ao Lowki. Afinal, ele é o único que sabe onde os corações estão. Não podemos matá-lo. Não ainda...
— Algum plano de captura?
— Estava pensando em usar o novato para isso. — disse com um sorrisinho maroto nos lábios
— Tens certeza disso, Ivan? — perguntou a ruiva de modo provocativo
Ivan se virou de frente para ela e ficou encostado na janela com os cotovelos apoiados na base.
— Por que não? Acho que vai ser ótimo!
— E se ele recusar?
— É claro que ele vai recusar. Mas eu tenho meus meios para convencê-lo. — disse retirando os óculos e limpando as lentes com um lencinho de pano que retirou do bolso da jaqueta preta de couro que usava
— Sei...e a Aryel? — perguntou Nyra com um leve tom de preocupação na sua voz
— Não te preocupes. Vamos resgatá-la.
XXXXX
Bem acima das nuvens, no gigantesco palácio dos Sayryns onde agora estava completamente destruído por causa da invasão dos Lyvrenys, no subsolo do salão principal, havia uma gigantesca caverna constituída por paredes negras — o que deixava o local completamente escuro — e um chão áspero de terra e pedras. Mas o local não era escuro totalmente, já que havia algumas tochas de fogo azul acesas pelas paredes. Também era possível avistar alguns pedaços de correntes velhas pendurados no teto. Era um lugar completamente claustrofóbico e um silêncio absurdo era a única coisa presente ali, mas de vez em quando esse silêncio era quebrado pelo som de uma goteira que pingava bem lentamente do teto para um pequeno córrego de águas cristalinas que corria pelo centro da caverna. Entretanto, aquele lugar não estava vazio totalmente. Havia alguém ali. Uma garota. Uma menina de cabelos azuis claros, quase prateados, bagunçados e curtos até o pescoço, a pele cinza com um tom um pouco mais escuro que a pele dos Sayryns, as orelhas compridas e pontudas, dentes felinos afiados ultrapassando os lábios, um vestido negro tomara-que-caia que ia até os joelhos e que era um pouco rasgado no fim do tecido com um cinto negro na cintura e botas negras de cano longo até os joelhos. Estava com suas gigantescas asas negras abertas e pregadas na parede, cada uma com um gigantesco prego de ferro fincado na mesma, onde sangrava bastante, estava cabisbaixa com as mãos e pescoço acorrentados e presos na parede. Aquela era Aryel, a Lyvreny filhote que os Sayryns tinham capturado há 995 anos atrás quando foram atacados por Lahkhesis e seu exército de Lyvrenys. Imóvel, ela não dava nenhum sinal de vida. Estava completamente parada enquanto que Simon tentava cutucá-la com um graveto. Bastante cauteloso, Simon aproximava lentamente o graveto com o objetivo de encostar a ponta na testa dela. Loon estava com ele e observava atentamente o irmão tentando provocar a Lyvreny presa. Assim que a ponta do graveto foi a tocando, Loon deu um grito bem alto, fazendo Simon gritar fino pelo tremendo susto e caindo na gargalhada.
— Maldito! Como ousas fazer isso?! — perguntou Simon indignado
— Haha! Devias ter visto a tua cara! — disse o irmão em meio à risada
Loon teve sua risada interrompida quando foi atingido na cabeça pelo graveto por Simon.
— Ai! — protestou passando a mão na cabeça onde foi atingido
— Tu és um idiota!
— Idiota és tu!
— Tu!
— Tu!
Ambos ficaram discutindo e se empurrando, quando passos pesados foram ouvidos se aproximando. Um Sayryn chegou no local. Asas gigantes, cabelos longos, lisos e prateados, olhos felinos marrons, um par de katanas presas nas costas, vestido com uma jaqueta branca sem nenhuma camisa por baixo deixando seu tronco definido à mostra, expondo uma grande cicatriz reta e diagonal no abdômen, que era o resultado de um ferimento causado por um Lyvreny quando os mesmos invadiram o palácio; calça cinza claro com um cinto preto envolta da mesma e um par de coturnos negros nos pés. Ele chegou em silêncio, se dirigindo até a Lyvreny filhote acorrentada na parede.
— Aí, Lorien! Estás bonitão, hein! — disse Simon
— Ele está do mesmo jeito de sempre, imbecil! — disse Loon
— Por isso mesmo! Ele é sempre bonitão!
— Por que tu vives puxando o saco dos outros?
— Que é? Agora elogio é crime?
Eles começaram a discutir. Lorien se irritou e se virou para eles com um olhar ameaçador.
— Calai a boca! — ordenou de modo rígido
Os dois se calaram e fizeram posição de sentido com cabeça erguida e peito estufado, como se fossem soldados do exército.
— Por que o mestre Lídius ordenou que dois idiotas como vós ficásseis de vigia?
— Porque nós somos responsáveis! — respondeu Simon
— De idiota nós só temos a cara. — afirmou Loon
— Fala por ti, meu irmão. — disse cruzando os braços e revirando os olhos
Lorien apenas os ignorou e se dirigiu até a Lyvreny. Ao se aproximar, segurou em seu queixo e ergueu a cabeça dela para olhar em seu rosto. Seus olhos estavam semiabertos, os lábios secos e entreabertos, a franja bagunçada cobria os olhos mas era possível ver o brilho vermelho dos mesmos através dos fios azulados. Estava bastante fraca para qualquer reação.
— 900 anos presa aqui e nenhuma palavra...mas eu sei que tu não és muda. Vamos, me diz. O que as Irmãs estão planejando contra nós? — Lorien começou o interrogatório
Aryel continuou imóvel, calada, sem nenhuma reação, o ignorando completamente como se estivesse sozinha ali.
— Conta uma piada para ela. Quem sabe assim ela fala...ai! — disse Simon sendo interrompido por Loon que lhe deu uma cotovelada na cabeça
— Cala essa boca!
— Não vais falar? — perguntou Lorien para Aryel, que assim que teve o queixo solto deixou a cabeça cair para frente novamente
— Ela é uma filhote...talvez ainda não saiba falar. — disse Loon
— Ela sabe sim. Enquanto não abrires a boca, vais ficar aí até que teu corpo seja consumido pelo tempo. — disse Lorien de modo duro e firme
— Uuh...Lorien é hardcore...ai! — disse Loon também levando uma cotovelada de Simon na cabeça
— Vingança! — exclamou Simon erguendo os braços
— Estás a fim de briga? — perguntou sacando sua espada
— Briga é meu sobrenome! — respondeu também sacando sua espada e fazendo posição de luta
— Mas Sayryns não têm sobrenomes. — afirmou inocentemente
— Ei! Ninguém vai lutar aqui. Francamente, por que não cresceis? — Lorien perguntou irritado
— Eu sou mais alto que o Simon. — respondeu Loon
— Só três centímetros!
— Isso já é alguma coisa!
Lorien passou a mão na testa e suspirou. Realmente ter que aturar aqueles dois era uma tarefa difícil. Ainda eram filhotes, por isso eram bastante infantis e bagunceiros.
— Por que não ficais quietos? Não é tão difícil.
— Desculpa... — disseram ambos sentando no chão e ficando quietos
Lorien voltou sua atenção à Lyvreny presa na parede. Ela estava presa há quase um milênio, por isso estava bastante fraca. Lorien ficou a observando em silêncio por alguns segundos antes de sacar uma das katanas e fazer um enorme corte diagonal no corpo dela do ombro direito até o quadril esquerdo. Ela gritou alto e ficou gemendo de dor.
— Agora ela reage... — resmungou enquanto limpava o sangue da lâmina e guardava a espada nas costas novamente
Os Sayryns filhotes apernas observavam em silêncio com os olhos arregalados.
— Simon, Loon.
— Sim? — perguntaram ambos
— Ficai de olhos grudados nela. — disse Lorien dando de ombros e saindo da sala
— Tu que mandas. — disse Loon
No salão principal, Lídius estava sentado em seu trono, com o cotovelo esquerdo apoiado no braço do mesmo com o queixo apoiado à mão. Estava com uma perna dobrada sobre a outra e uma expressão triste no rosto. As Sayryns Angela, Minxie, e Samantha estavam reunidas em frente ao trono. Minxie não tinha os cabelos muito longos, os mesmos ultrapassavam um pouco os ombros, usava um macaquinho cinza claro de alças cruzadas e botas brancas de cano não muito longo nos pés. Seus olhos felinos possuíam a cor lilás escuro e suas armas eram duas belas tonfas de lâminas brilhantes. Samantha era outra Sayryn filhote. Tinha os cabelos longos e lisos, seus olhos felinos eram cinza escuro, vestia uma blusa branca de manga longa com vários rasgos pelo tecido e um shortinho preto de tecido grosso. Também calçava botas pretas de cano não muito longo. Suas armas eram dois machados de cabo pequeno de lâminas bastante afiadas.
— Mestre Lídius, não vai demorar muito tempo para que sejamos atacados novamente pelos Lyvrenys. Precisamos tomar alguma providência. — disse Minxie
— Eles não vão mais atacar o palácio porque sabem que Casstyel não está aqui. — disse Samantha girando um dos machados na mão
— Isso não quer dizer nada. É claro que eles vão atacar, até porque Casstyel é o único Sayryn que eles querem vivo. Faltam apenas cinco anos para a Batalha do Destino. Precisamos encontrar o Casstyel e proteger o segredo dos corações. — disse Minxie
— E como tu pretendes fazer isso? — perguntou Angela bastante calma
— Bom...o Lavidh foi atrás dele. Primeiro vamos esperar ele voltar e nos dar notícias.
— Onde será que Casstyel se meteu, hein? — perguntou Samantha sem parar de girar o machado na mão
— Pelo que eu percebi, as Irmãs e os Lyvreny estão mais fortes do que na última vez. Olhai o estrago que fizeram! — disse Minxie apontando para os locais destruídos na última batalha
— Minxie...o que estás sugerindo? — perguntou Angela cruzando os braços
— Eu sugiro que desçamos para o mundo dos humanos e invadamos o esconderijo dos Lyvrenys. Precisamos saber o que estão planejando! Eles mataram o Dyllan! Isso não pode ficar assim! — disse começando a se alterar
— Invadir o esconderijo dos Lyvrenys? Piraste de vez? — perguntou Samantha
— Nós temos que contra-atacar! Não podemos simplesmente esperar que Casstyel e Maloman batalhem novamente. Casstyel é o mais fraco! E se ele perder? O que vai ser de nós? Sabeis como é irritante ter que depender do mais fraco e ainda por cima um híbrido para garantir mais mil anos de vida?
Lídius apenas as observava em silêncio. Estava calmo. Na verdade, calmo até demais.
— Para de girar esse machado! Está me irritando! — disse Angela
Samantha obedeceu e fez biquinho.
— Sugiro irmos ao mundo dos humanos. Podemos até ter chances de encontrar o Casstyel.
— Sinto muito, Minxie. Mas isso está fora de cogitação. – Lídius finalmente falou
— O quê?
— Não devemos invadir o esconderijo dos Lyvrenys, ainda não é o momento certo. Somos apenas 12, eles são milhões, seria o mesmo que jogar pedras em uma colmeia. Capturamos um deles, isso já nos dá uma certa vantagem. — disse Lídius
— Com certeza eles vão vir resgatá-la! E eu não quero que mais nenhum Sayryn morra!
Os olhos de Minxie tremeram e ela apertou os punhos com força.
— O Dyllan...tsc...eles mataram o Dyllan! — disse furiosa
Angela e Samantha apenas se olharam em silêncio.
— Não. Vamos esperar. — disse Lídius
Minxie rosnou de raiva e apenas deu as costas saindo do local.
— Ah, Minxie...sentimental como sempre... — disse Angela passando as mãos nos cabelos
Lorien chegou no local.
— Lorien, e então? Ela falou alguma coisa? — perguntou Lídius
— Nada ainda. Mestre, temos que agir. E rápido. Com certeza vão vir atrás dela.
— Vamos esperar o Lavidh voltar. — foi apenas o que Lídius respondeu
Eles se entreolharam. O que será que Lídius estava planejando? Líder da primeira legião de Sayryns desde sempre, ele nunca foi previsível. Era praticamente impossível descobrir o que se passava pela cabeça dele, o que estava pensando ou o que estava planejando. Além disso, os Sayryns nunca o questionaram, nunca se rebelaram e nunca o desobedeceram. Eram sempre fieis a ele pois era um líder gentil, bondoso, forte, extremamente poderoso, que se importava com seus Sayryns e sempre sabia o que era melhor para todos. Mesmo assim...seus belos olhos felinos brancos e luminosos carregavam consigo o tempo todo um olhar triste, melancólico e...talvez não tão vazio, já que parecia estar preenchido com um enorme sentimento de culpa. Mesmo sendo o mais poderoso dos Sayryns, Lídius ainda não se sentia forte o suficiente para proteger a todos, além de se sentir mal por nunca mais ter visto seu filho Casstyel sorrir desde a sua primeira batalha contra Maloman.
— Mestre Lídius...está tudo bem? — perguntou Samantha o notando pensativo demais
No entanto, Lídius estava tão distraído que não ouviu o que Samantha disse e continuou na dele, em silêncio, lutando contra seus pensamentos.
— Vamos deixá-lo. Ele deve apenas estar com saudades do Casstyel. — disse Lorien
— Casstyel é um idiota. — disse Samantha
Angela ergueu a cabeça e olhou para o céu azul acima de si, que era possível de ser visto já que uma parte do telhado do palácio tinha sido destruído pelos Lyvrenys.
— Lavidh...por favor, volta logo... — pensou preocupada
Minxie caminhava pelo enorme corredor indo em direção ao portão de saída do palácio. De repente, parou de caminhar, pegou impulso, bateu as asas e voou para o alto saindo por uma janela quebrada. Ela voou para o topo e pousou em cima da torre do centro, observando o imenso campo de nuvens abaixo, que se seguiam até o horizonte onde o sol brilhava com toda a sua intensidade.
— Ei, Minxie! Vieste observar o sol também? Lindo, não é? — perguntou Willow sentada no topo da torre à direita com seu enorme bumerangue de lâmina preso nas costas entre as asas brancas abertas
Minxie não respondeu. Olhou para a esquerda e avistou Yel sentado no topo da outra torre com suas asas bem abertas e os olhos fechados apenas sentindo o vento soprar contra ele. Ela também se sentou na beirada da torre e ficou observando o horizonte ao longe.
— Não fica assim não. O Dyllan está em um lugar melhor agora. Com certeza está nos Elísios. — disse Willow tentando confortá-la por ter perdido seu melhor amigo
Minxie continuou em silêncio e abaixou a cabeça. Dyllan foi morto e Casstyel foi embora. Restavam apenas doze Sayryns na legião e ela sabia que o exército das Irmãs era enorme. Não aguentava mais perder seus companheiros e por isso resolveu tomar uma atitude. Ficando de pé, a Sayryn de olhos lilases, que brilhavam com a luz do sol distante, abriu suas asas se preparando para pegar impulso.
— Minxie...o que irás fazer? — perguntou Willow um pouco nervosa
— Uma coisa que já devíamos ter feito há muito tempo! — respondeu a Sayryn se jogando da torre
Yel abriu os olhos e avistou Minxie caindo em direção ao campo de nuvens.
— Ei, Minxie! — gritou usando sua arma, que era uma lança, de apoio para se levantar e ficar de pé. Mas seu grito foi em vão. Minxie caiu até atravessar o campo de nuvens e desaparecer
Pela primeira vez, um Sayryn tinha desobedecido as ordens do líder.
XXXXX
No mundo dos humanos, na Floresta dos Olhos Vermelhos, havia uma gigantesca catedral escondida na parte mais sombria. Uma catedral abandonada com aparência de que estava assim por séculos. Talvez ninguém sabia da existência daquela construção completamente arruinada, com os vidros das janelas quebrados, as paredes rachadas e lascadas, uma parte do teto destruída, alguns pilares caídos em pedaços pelo chão e várias trepadeiras subindo pelas paredes. Aquela catedral era a base dos Lyvrenys, onde eles se escondiam.
Dentro, ainda haviam alguns bancos que as pessoas usavam para sentar para assistirem às missas, o enorme salão era iluminado pela luz do sol que entrava pelas janelas e pelo buraco do teto, o piso rachado, o altar com alguns pilares caídos sobre o mesmo. Indo mais a fundo, em uma pequena sala localizada depois do salão principal, havia apenas uma mesa de madeira e uma cadeira, além de uma pequena janela na parede que era usada para permitir que a sala fosse iluminada pela luz do dia. Na cadeira, uma pessoa sentada; na mesa, uma taça de vinho. A sala era completamente escura, já que a luz que entrava pela janela era bem fraca. Portanto, não era possível ver o rosto do indivíduo sentado à cadeira, mas era possível ver que ele tinha longos cabelos prateados e o brilho vermelho de seus olhos felinos era o que mais se destacava.
— Há quanto tempo estás aí? — perguntou o indivíduo sentado
— Acabei de chegar. — disse a voz de Ivan adentrando a sala
Ivan não estava em sua forma humana. Ele era um Lyvreny e estava na sua verdadeira forma. Ivan era um dos Lyvrenys mais poderosos, além de que ele era o único livre para não obedecer as ordens do líder. Era um Lyvreny independente.
— O que tu queres, Ivan? — perguntou deslizando o dedo pelas bordas da taça em cima da mesa
— Trago notícias. — respondeu se dirigindo até à janela permitindo que seu rosto fosse iluminado pela luz de fora. Estava sem seus óculos e seus olhos roxos agora estavam vermelhos
— Boas ou ruins?
— Isso é tu quem decides. Encontrei o Casstyel.
— Meus parabéns. Mas apenas encontrá-lo não é o suficiente. — respondeu admirando o reflexo de seus olhos felinos vermelhos no vidro da taça
— Hmf, e tu achas que eu não sei disso? Estamos providenciando um plano de captura. Estava pensando em usar o novato para isso.
Ivan não gostou da risada que ouviu atrás de si.
— O novato? Ivan, francamente...tu podes ser um dos mais fortes e um dos mais habilidosos fisicamente, mas mentalmente com certeza és um dos mais fracos. Que tal colocares tua cabeça para funcionar um pouco? Achas mesmo que mandar o novato capturar o Casstyel será um plano bem sucedido? Tu sabes muito bem que ainda não podemos confiar totalmente nesse novato. Além disso, se queres algo bem feito, faz tu mesmo. Vai tu capturar o Casstyel. Ou manda teu grupo. Eles são bem fortes. — pegou a taça e tomou um gole do líquido vermelho que havia dentro
— Então de que adianta termos um novato se não podemos colocá-lo para trabalhar?
— Nós podemos. Assim que ele conquistar a nossa confiança. Não podemos esquecer que o grupo dele capturou a Aryel. — disse colocando a taça novamente em cima da mesa
— Falando nisso, eu estou indo resgatá-la.
— Vai sozinho? Por que não levas tua companheira leal contigo? A Nyra?
— Ordenei a ela e aos outros que persuadissem o novato para aceitar lutar do nosso lado.
— Muito bem então. Podes ir. Não esqueças de se divertir um pouco pelo caminho. — disse dando um sorrisinho maroto
— Eu vou. — respondeu se afastando da janela e saindo pela porta por onde entrou
— E Ivan...
Ivan parou na entrada.
— ...também não esqueças de voltar vivo. — finalizou
— Hmf, até parece que tu não me conheces. — respondeu Ivan saindo da sala
Ivan chegou no salão principal da catedral, onde Nyra e mais dois Lyvrenys — os três na forma humana — estavam conversando com um rapaz sentado em um dos bancos. Este rapaz estava cabisbaixo, abraçado a si mesmo e parecia assustado.
— E então? Como estão indo?
— Ele continua se recusando a lutar do nosso lado. — respondeu Nyra
— Quem sabe ele aceita se usarmos a violência. — disse Dlav, um dos Lyvrenys
— Dlav, tudo tu queres resolver na violência. — disse Ivan
— Claro, porque é somente assim que as coisas vão para frente.
— Ele também se recusa a tomar sua verdadeira forma. Quer ficar na forma humana o tempo todo. — disse Huey, o terceiro Lyvreny, sentado no chão igual cachorro
Ivan tomou a forma humana, se aproximou do rapaz sentado e puxou seus cabelos cinza escuros para cima o forçando a levantar a cabeça. Os olhos do rapaz demonstravam medo e remorso.
— Se não queres lutar do nosso lado, então não teremos escolha a não ser matá-lo. Aqui não há lugar para inúteis.
— Então me matai. Porque eu jamais lutarei ao lado de vós! Manterei meu orgulho até o fim! — disse o rapaz com a voz firme e ao mesmo tempo trêmula
— Que interessante...então usa teu orgulho para cortar as cordas. Vamos conseguir os corações e seremos livres. Tu vais ser livre. — disse Ivan
— Mas como assim? Do que estás falando? — perguntou o rapaz confuso com aquelas palavras
Os quatro Lyvrenys se olharam e deram um pequeno sorriso.
— Se eu conseguir os corações para vós...ides me libertar? É isso? — perguntou o rapaz
— É. Por aí. — respondeu Nyra
— Até parece que posso confiar em vós. — disse o rapaz virando o rosto
— Querendo ou não, tu és um de nós agora. Mas tu tens duas escolhas. Tu podes seguir o nosso líder, Lowki, ou podes seguir o Ivan. Ele é um Lyvreny independente, é como...um "segundo líder". E olha...eu sugiro que sigas o Ivan. Ele é muito mais bonzinho. — disse Dlav deslizando o dedo indicador pela tatuagem na bochecha direita que estava lá para esconder uma cicatriz causada em uma antiga batalha
— Pois é. Sou tão bonzinho que até vou te dar uma chance para pensar. Tu ficas aqui. Nyra, Dlav, Huey, ficai de olho nele. Eu já vou indo. — disse Ivan saindo
— E para onde vais? — perguntou Nyra
— Vou resgatar a Aryel. — respondeu tomando sua verdadeira forma novamente abrindo suas enormes asas negras. A roupa que Ivan usava em sua forma de Lyvreny era a mesma que usava em sua forma humana. A única diferença é que a camisa branca que usava por baixo da jaqueta de couro ficava negra e os tênis viravam coturnos
O rapaz rapidamente ficou de pé com os olhos arregalados e com os punhos fechados com força.
— Espera o que disseste?!
— Vou resgatar uma Lyvreny que foi capturada pelo teu grupo.
— Tu disseste...Aryel? — perguntou com a voz trêmula
— Sim, eu disse. Por quê? Tu conheces? — perguntou Ivan se virando para ele com seus olhos felinos vermelhos brilhando
"Não...não pode ser...não pode ser ela...eu...não posso acreditar nisso...ela jamais seria uma Lyvreny..." — pensou o rapaz cabisbaixo com os olhos lacrimejando
— Enfim...eu já vou indo. Fica aqui quietinho como um bom Lyvreny. — disse Ivan com um sorrisinho maroto no rosto. Pegando impulso, o Lyvreny bateu suas gigantescas asas e voou para bem alto, saindo da catedral pelo buraco do teto
[XXXXXXXXXX]
O céu escuro lotado de nuvens negras de chuva dominavam toda Tefyan. Era possível ouvir o som de trovões ao longe, o que indicava que uma forte chuva cairia mais tarde. Em uma pequena vila, o silêncio absoluto reinava. Nenhum sinal de vida, as ruas desertas, algumas casas fechadas e as que estavam abertas pareciam abandonadas. Algumas bancas de vendas destruídas, ninguém nos comércios, ninguém nas lojas. Era uma verdadeira cidade fantasma. O motivo? Estavam todos mortos. Todas as ruas da vila possuíam sangue espalhado pelo chão e pelas paredes. Além disso, era possível ver vários corpos espalhados pelo local. Corpos de pessoas partidas ao meio, outros de pessoas desmembradas, decapitadas, estripadas. Homens, mulheres, crianças, até mesmo animais. Ninguém tinha escapado do massacre que ocorreu ali. Haviam pessoas mortas até mesmo dentro da própria casa. O clima de morte e tristeza dominava aquela vila e o silêncio absoluto que era quebrado somente pelo som do vento, foi quebrado mais uma vez por som de passos pesados. Em meio à névoa causada pelo clima gélido de chuva que se formava nas nuvens, uma criatura de mais ou menos três metros e pouco de altura, cabelos espetados roxos escuros até o pescoço, pele cinza, olhos felinos vermelhos, orelhas grandes e pontudas, dentes caninos afiados ultrapassando os lábios, imensas asas negras nas costas, vestida com uma jaqueta preta de couro por cima de uma camisa preta sem nenhum detalhe, calça preta e um par de coturnos pretos nos pés, carregando uma foice assustadoramente enorme nos ombros com uma lâmina toda melada de sangue, apareceu caminhando calmamente por uma rua, passeando por entre os cadáveres de forma tranquila, como se não houvesse nada de ruim e estranho ali. Pela forma como caminhava sem nenhuma preocupação e pela quantidade de sangue na lâmina de sua foice, concluía-se que aquela criatura era a responsável por todo aquele massacre. Aquela criatura, era Ivan na sua verdadeira forma de Lyvreny. Os Lyvrenys eram criaturas horrendas e sanguinárias. Matavam sem dó e piedade. Faziam tudo em nome das três Irmãs do Destino que almejavam o poder dos corações dos três deuses-lobos para dominarem o mundo.
Ao chegar no final da rua, Ivan parou de caminhar e se virou, contemplando toda aquela paisagem horrenda de morte e destruição. Respirou fundo sentindo o ar puro, para ele, aquela era uma visão magnífica; matar humanos, apenas por diversão, era o passatempo favorito do exército das Irmãs. O vento soprava contra suas asas, roupas e cabelos. Depois de alguns segundos observando o estrago que causou, Ivan desfez o sorriso preguiçoso dos lábios, tomando uma expressão séria.
— Sinto...sinto muito. — murmurou, abrindo suas asas e voando para bem alto em uma velocidade absurda, como um foguete subindo para o espaço. Ivan estava indo para o mundo dos Sayryns, com o objetivo de resgatar Aryel
Não muito longe dali, no topo da Torre de Tefyan — um monumento com 115 metros de altura que se localizava no centro da cidade e era considerado o maior ponto turístico de Zardren — Lavidh se encontrava sentado na beirada, com as pernas penduradas sobre os carros que passavam pela avenida abaixo de si. Estava na sua verdadeira forma de Sayryn, cabelos prateados, olhos felinos amarelos e suas gigantescas asas negras abertas. No topo da torre, ele apenas admirava a paisagem da cidade ao longe. Várias casas, vários prédios, sons de carros e falatórios da população. Sem os três deuses-lobos, o mundo humano estava completamente desprotegido e vulnerável ao ataque dos Lyvrenys e das Irmãs, por isso Lavidh estava ciente de que tinha que proteger os humanos a todo custo, até que os inimigos finalmente fossem derrotados.
Distraído com seus pensamentos e envergonhado de si mesmo por ter permitido que suas asas fossem atingidas pelo poder maligno de Lahkhesis, Lavidh avistou algo ao longe que chamou sua atenção. Algo negro com asas subindo para o céu em alta velocidade. Rapidamente deduziu que era um Lyvreny. Sacando sua pistola, o Sayryn atirou e a bala foi certeiramente em direção a Ivan, que ainda estava a caminho do mundo dos Sayryns. As orelhas de Ivan vibraram e o mesmo sentiu algo se aproximando, rapidamente se esquivando e sendo atingido de raspão.
— Tsc... — resmungou Ivan batendo suas asas e aumentando a velocidade do voo
Lavidh pegou impulso, bateu suas asas e voou em extrema velocidade em direção a Ivan. O Sayryn conseguiu colidir com ele, o atacando com a lâmina da pistola enquanto que o Lyvreny se defendeu com a lâmina da foice.
— Aonde pensas que vai? — perguntou Lavidh forçando a lâmina da pistola contra a foice de Ivan fazendo faíscas voarem
Lavidh não deu tempo para que Ivan respondesse, dando um mortal no ar e um chute violento na cabeça do Lyvreny o jogando novamente contra o chão. Foi com tanta força que o impacto da queda causou uma enorme explosão, criando uma cratera no local onde Ivan caiu em pé, apenas um pouco agachado. Lavidh veio caindo em sua direção atirando, mas Ivan girou a foice nas mãos se defendendo de todos os tiros usando a lâmina como escudo. Ivan conseguiu partir uma das balas ao meio com a foice e partiu para cima de Lavidh em alta velocidade, mas o Sayryn conseguiu se esquivar a tempo, tendo apenas alguns fios do seu cabelo cortados. Assim que Ivan passou por ele, Lavidh agarrou seu tornozelo e o jogou com toda força contra uma parede de tijolos, mas o Lyvreny apenas usou a parede como impulso para pular em cima de Lavidh e atacá-lo; Lavidh se defendeu e começaram uma guerra de lâminas. Faíscas e pequenos raios de luz voavam assim que a lâmina da foice do Lyvreny e da pistola do Sayryn se batiam. Durante a guerra de lâminas, Ivan inverteu a foice e bateu com o cabo da mesma na cabeça de Lavidh, lhe dando uma rasteira e pulando em cima dele com a ponta da lâmina mirada em seu peito. Mas assim que caiu no chão, Lavidh rapidamente rolou para o lado, fazendo com que Ivan atacasse o chão no seu lugar. Erguendo-se rapidamente, Lavidh começou a atirar sem piedade, mas Ivan corria em sua direção desviando para os lados quase que na velocidade do som desviando das balas. Assim que Ivan se aproximou, o atacou com a foice, mas Lavidh deu um salto bem alto se esquivando e começou a atirar do ar. O Lyvreny apenas riu e girou a foice acima de si, repelindo todas as balas contra o Sayryn, que tentou se esquivar, mas foi atingido no braço por uma das balas.
Ignorando o ferimento no braço, Lavidh caiu em cima de Ivan tentando furá-lo com a lâmina da pistola, mas Ivan agarrou o braço do Sayryn e o jogou contra o chão com toda força, o afundando em uma cratera. O Lyvreny pulou sobre o Sayryn para atacá-lo, mas Lavidh ergueu seu braço e atirou, conseguindo atingir a testa de Ivan. Com o impacto do tiro, o corpo de Ivan dobrou para trás e Lavidh aproveitou o momento para conseguir se levantar. Para a surpresa do Sayryn, mesmo levando um tiro na testa, Ivan se reergueu e jogou a foice contra ele como um bumerangue. Lavidh deu um mortal fazendo com que a foice passasse por baixo dele. Ao cair no chão novamente, Lavidh começou a atirar sem parar em Ivan, que se esquivava dando vários mortais pelo chão. Ivan de repente ergueu a mão para frente e Lavidh percebeu que ele estava chamando a foice. O Sayryn não pensou duas vezes e dobrou o corpo para trás, permitindo que a foice passasse por cima dele. A foice girou até Ivan, que a segurou pelo cabo, a girou no ar e atacou o chão com toda força, fazendo com que o solo começasse a rachar. A rachadura foi indo em direção a Lavidh, que bateu suas asas voando no ar. O Sayryn pousou sobre o cabo da foice e mirou sua pistola no olho de Ivan, atirando sem pensar duas vezes. O tiro jogou Ivan longe contra uma casa abandonada. O impacto foi tão intenso que a casa desabou sobre ele. Lavidh caiu ajoelhado no chão um pouco ofegante e apenas ficou esperando. De repente, os escombros da casa foram jogados para o ar e Ivan saiu debaixo voando em alta velocidade na direção de Lavidh, o atacando com a foice. Lavidh se defendeu com a pistola e foi empurrado para trás, até que firmou os pés no chão e travou no local. Com a testa sangrando e sem um dos olhos, Ivan apenas sorria.
— Nada mal para um meio Lyvreny. — provocou com a voz rouca e um sorriso debochado
Lavidh nunca tinha sentido tanto ódio quanto sentiu ao ouvir aquilo. Furioso, o Sayryn começou a atirar sem parar, sem se importar se iria acertar ou não. Ivan apenas se defendia com a foice, até que ele fechou as asas para frente como um escudo e ao abri-las novamente, jogou todas as balas de volta para Lavidh. Se esquivando das balas, o Sayryn não parava de atirar. Sua pistola possuía munição infinita, por isso não se importava em se exceder. Se desviando das balas, Ivan bateu suas asas com tanta força que o vento causado empurrou Lavidh o fazendo soltar a arma. Assim que a pistola caiu no chão, Ivan jogou a foice contra o Sayryn, o fazendo se esquivar e o impedindo de juntar a arma. Ivan chutou a pistola para longe e bateu suas asas voando um pouco alto. Lavidh ficou agachado pressionando o ferimento em seu braço com força, onde não parava de sangrar. Ele ergueu a cabeça e ficou olhando Ivan flutuando no ar sobre ele batendo suas asas de leve. Lavidh arregalou os olhos ao ver que o olho de Ivan que tinha sido atingido pelo tiro estava ileso. Como ele tinha se regenerado tão rápido?
— Eu estava apenas indo resgatar a Lyvreny que vós capturastes. Se tivesses ficado quietinho, tudo isso teria sido evitado. — disse Ivan ainda voando no ar sobre Lavidh
— Eu jamais permitiria que fosses ao nosso mundo. — disse o Sayryn fechando os olhos com força pois o ferimento em seu braço doía bastante
Ivan coçou a orelha esquerda com a ponta da lâmina da foice.
— Já que estamos aqui...que tal me dizeres onde o Casstyel está? Não te preocupa. Eu só vou te matar depois que me disseres. — disse sorrindo
— Eu não sei onde ele está...
— Não sabes?
— Desde que foi embora do palácio, ele nunca mais foi visto! — respondeu penetrando um dedo na ferida em seu braço e tentando retirar a bala
— Ah, foi sim. Eu sei que ele está estudando em uma escola aqui de Tefyan. E quando chegar a hora certa, vamos pegá-lo e ele nos dirá onde os corações estão...nem que seja nas profundezas do Tártaro!
Lavidh sorriu.
— Sinto muito...mas eu não garanto que vós estareis vivos quando essa "hora certa" chegar. Não subestimeis o Casstyel. Ele é o mais fraco dos Sayryns, mas isso não quer dizer que ele é mais fraco que vós, Lyvrenys. Ele é filho do mais poderoso dos Sayryns. Por que achas que ele foi escolhido pelos deuses-lobos para proteger o segredo dos corações? Por que Maloman nunca o venceu? — perguntou em um tom ameaçador
— Que interessante...eu nunca tive a chance de lutar contra ele. Mal vejo a hora de enfrentá-lo. Quero ver o quão forte esse híbrido é. Depois, é claro, que matarmos todos os Sayryns. — disse segurando a foice firme nas mãos se preparando para atacar
— Por que quereis os corações? Por que quereis destruir o mundo dos humanos e dos Sayryns? O que ides ganhar com isso?
— Vós, Sayryns da primeira legião de Keryuss, nunca pensei que fôsseis tão ingênuos. Realmente as Irmãs almejam os corações dos deuses-lobos para destruírem o mundo e matarem todos os humanos de uma só vez sem precisarem quebrar as regras do destino...mas nós, Lyvrenys, possuímos um objetivo a mais.
— E que objetivo seria esse? — perguntou sem parar de cutucar a ferida em seu braço
— Se eu contar, infelizmente terei que matá-lo. Ou melhor, felizmente. — respondeu com um sorriso sapeca no rosto
— Tu foste atingido na testa e no olho pela minha arma. Como não morreste? Esta arma foi criada para matar apenas Lyvrenys com um único tiro! — disse ao ver que o buraco de bala na testa de Ivan tinha sumido
— Juras? Talvez devesses ler melhor o manual de instruções das tuas armas. — disse sorrindo
— É. E talvez tu devesses aprender a não te distrair com qualquer bobagem!
— Hã? — perguntou confuso
Após dizer aquilo, Lavidh conseguiu retirar a bala do seu braço e a jogou com toda força na direção de Ivan. Foi com uma força tão intensa que a velocidade que a bala se deslocou foi como se realmente tivesse sido disparada de uma pistola. A bala atingiu o peito esquerdo de Ivan, que não conseguiu se esquivar a tempo. Assim que o Lyvreny caiu, Lavidh correu até sua arma e a juntou do chão. Após se armar novamente, começou a atirar sem parar, mas Ivan rolou no chão se levantando e se defendendo com a foice, no entanto, ainda chegou a ser atingido no braço, ombro, pescoço e tórax. Mesmo assim, ele correu na direção de Lavidh e atacou, conseguindo cortar o tronco do Sayryn de forma violenta. Lavidh gritou de dor e caiu no chão um pouco fraco para conseguir levantar. Ivan se aproximou dele mancando e pisou em seu peito exposto pelo enorme rasgo da camisa pressionando a ferida com o pé, fazendo Lavidh gemer alto de dor.
— Tu não achas triste arrumar briga com um semelhante? — perguntou Ivan esfregando o pé sobre a ferida no corpo de Lavidh onde não parava de jorrar sangue
— S-semelhante? Eu...j-jamais serei como tu. — disse agarrando o tornozelo de Ivan tentando retirar seu pé de cima dele
— É mesmo? Tuas asas dizem o contrário. — devolveu se referindo às asas negras do Sayryn
— T-tens razão...mas um amigo me disse...q-que não importa a cor das nossas asas...devemos sempre manter o orgulho de quem nós somos por dentro! E eu sempre serei um Sayryn! — disse Lavidh conseguindo esticar o braço direito o suficiente para pegar sua pistola que estava no chão ao seu lado, erguendo o braço para cima encostando o cano da mesma na testa de Ivan e puxando o gatilho com vontade
Ivan foi jogado para trás com a intensidade do tiro e mesmo bastante fraco, Lavidh se levantou um pouco do chão, o suficiente para metralhar o Lyvreny. Com o corpo completamente cheio de buracos de bala por onde jorrava bastante sangue, Ivan caiu no chão sem capacidade e nem força para se levantar. Uma enorme poça de sangue começou a se formar embaixo do Lyvreny; completamente ferido e mesmo com um enorme corte bastante profundo em seu corpo, Lavidh conseguiu ficar de pé e caminhou se arrastando até Ivan. Ao se aproximar, começou a dar mais tiros para garantir que ele morresse de vez até que finalmente ele parou de se mover. Lavidh ficou em pé, observando o corpo do Lyvreny à sua frente, esperando o mesmo se desfazer em penas – que era o que acontecia quando um Lyvreny morria – mas nada aconteceu. Ivan apenas continuava lá, caído no chão inconsciente, praticamente morto.
— Espero que não descanses em paz. Lyvreny maldito. — disse Lavidh lhe dando as costas e indo embora
Após dar alguns passos, começou a ouvir uma risada medonha. O coração de Lavidh gelou ao ouvir aquilo. Não era possível. Ivan ainda estava vivo? Assim que se virou, foi surpreendido pelo Lyvreny que estava de pé bem atrás dele e atravessou o peito dele com a lâmina da foice.
— Uma regra que todo Sayryn deveria saber! Jamais vai embora até que o Lyvreny se desfaça em penas! — disse Ivan gargalhando completamente banhado em sangue, tanto dele quanto o de Lavidh que jorrou sobre ele, e levantando a foice erguendo o Sayryn no ar ainda com a lâmina fincada em seu peito
Lavidh cuspiu bastante sangue e estava tão fraco que sua mão ficou frouxa e deixou sua pistola cair no chão. Ivan cortou o ar com a foice fazendo a lâmina sair do peito do Sayryn o jogando longe no chão. Bastante machucado e sangrando muito, Ivan caminhou até Lavidh e ergueu a foice no ar se preparando para dar o golpe final.
— Se tu fores um dos Sayryns mais forte, realmente me decepcionaste bastante! Essa luta não serviu nem como aperitivo!
— Me admira como podes afirmar isso nesse estado quase morto... — disse Lavidh com a voz bem fraca e rouca tossindo e cuspindo sangue
— Digamos...que eu tenha pegado leve contigo.
— Eu também. — disse Lavidh fechando os olhos como um sinal de que estava se entregando
Ivan sorriu e assim que foi atacando, foi atingido nas costas por uma flecha de luz que atravessou seu corpo. O Lyvreny gritou de dor e cuspiu uma jorrada de sangue. Ele se virou e avistou Casstyel na sua verdadeira forma em cima do telhado de uma casa com seu arco de luz projetado nas mão com mais uma flecha sendo mirada na cabeça do Lyvreny.
— O-olha...olha só quem apareceu...até que essa brincadeira valeu a pena. — disse Ivan retirando a flecha do seu corpo sorrindo
Casstyel continuou em silêncio sem parar de apontar a flecha para Ivan.
— É tu...quem eu quero! — disse Ivan deixando Lavidh de lado e partindo para cima do Sayryn arqueiro
Casstyel atirou com sua flecha, mas Ivan a partiu no meio com a foice. Assim que ele foi atacando, o Sayryn de olhos verdes pulou de cima da casa desviando do golpe fazendo com que Ivan atacasse o telhado destruindo toda a residência. Casstyel voou até Lavidh e o levantou nos braços.
— Lavidh! — chamou bastante preocupado
— E-estás atrasado... — resmungou bem fraco
— Tu estás bem? — perguntou com os olhos trêmulos
— E-eu pareço bem?
— Se estás debochando é porque não estás tão ruim. Quem é esse?
— Não sei...mas olha...esse é difícil de morrer. — respondeu enquanto que Ivan estava voando com suas enormes asas negras abertas bloqueando a pouca luz do sol que mal conseguia iluminar o local por causa da gigantesca aglomeração de nuvens pesadas de chuva
— Ivan? — Casstyel perguntou franzindo a testa
Ao olhar o rosto do Lyvreny, Casstyel o reconheceu. Era o presidente do Conselho Estudantil da sua escola.
— Então quer dizer que tu és um Lyvreny... — disse fazendo seu arco de luz se transformar em um chicote
— Surpreso? — perguntou com um sorrisinho de canto
— Nem um pouco. Eu já desconfiava.
— Casst-tyel...vai embora. Deixa ele comigo... — disse Lavidh bastante fraco
— Nada disso! Olha o estado em que tu se encontras! Eu sei que desisti de ser um Sayryn, mas se eu tiver que lutar para proteger um companheiro...não me importo em fazê-lo. Além disso...eu devo muito a ti.
— Quanta enrolação. Onde estão os corações? — perguntou Ivan
— Qual a palavrinha mágica? — provocou Casstyel
— Aqui a palavrinha mágica! — devolveu jogando a foice como um bumerangue na direção do Sayryn, que bateu suas asas e voou alto fazendo com que a foice passasse por baixo dele. Casstyel lançou seu chicote de luz fazendo a corda do mesmo se enrolar no cabo da foice e a jogou de volta contra Ivan, que arregalou os olhos sem ter como se defender
No entanto, assim que a foice foi o atingindo, um segundo Lyvreny surgiu ficando na frente e segurando a foice com as mãos.
— Nyra... — disse Ivan surpreso
— Temos que ir! — disse Nyra agarrando o braço de Ivan e saindo o puxando
— Nada disso! Casstyel está aqui! Precisamos levá-lo conosco! — disse puxando seu braço fazendo Nyra soltá-lo
Casstyel lançou seu chicote contra ambos, mas Nyra agarrou a corda com a mão e a puxou, trazendo o Sayryn junto. No ar, assim que a ruiva foi atacando com a foice, um tiro passou por ela a fazendo recuar para trás por impulso. Casstyel caiu no chão novamente e se virou para Lavidh que tinha atirado.
— Tsc... — resmungou Nyra
— O que estás fazendo aqui, Nyra? — perguntou Ivan
— Estava preocupada e vim ajudar.
— Eu não preciso de tua ajuda! — disse parecendo bravo
— Se eu não tivesse chegado, tu com certeza estarias morto agora!
As orelhas de Ivan vibraram.
— Cuidado! — disse Ivan a empurrando e a tirando da frente de mais um tiro pois Lavidh não parava de atirar, no entanto, a bala ainda chegou a atingir a cintura dela de raspão
Queimando de raiva, Ivan pegou sua foice e partiu com tudo para cima do Sayryn de asas negras; quando foi o atacando, Casstyel ficou na frente protegendo o amigo e agarrou o rosto de Ivan com a mão direita. Uma forte luz branca preencheu todas as veias do corpo de Casstyel, saindo na mão e fazendo o rosto de Ivan queimar tanto por fora quanto por dentro, até que a luz ficou tão intensa que houve uma enorme explosão. Lavidh arregalou os olhos impressionado com aquilo. Ele nunca tinha visto Casstyel usar aquele poder antes. O Sayryn arqueiro pulou sobre Lavidh e fechou suas asas sobre ele o protegendo. Todo o local foi destruído, porém, assim que a fumaça se desfez permitindo a visão, Casstyel percebeu que Ivan e Nyra tinham desaparecido. Com certeza tinham fugido. Casstyel abriu suas asas e saiu de cima de Lavidh, o pegando nos braços novamente.
— Lavidh! — chamou bastante preocupado
Lavidh tossiu e Casstyel suspirou aliviado ao ver que ele ainda estava vivo.
— O que...o que eu devo dizer agora? — perguntou Lavidh com os olhos fechados e um sorrisinho preguiçoso nos lábios
— Um "obrigado" talvez...
— Eles...eles morreram? — perguntou fraco até para abrir os olhos
— Sumiram. Com certeza fugiram.
Com bastante dificuldade, Lavidh abriu os olhos. Seus belos olhos felinos amarelos pareciam bastante cansados. Casstyel envolveu um braço de Lavidh pelo seu pescoço e o ajudou a se levantar o segurando.
— Segura firme. Eu vou te levar de volta para o palácio.
— O quê?
— Não vais conseguir voltar sozinho. Eu vou te levar.
Lavidh deu um pequeno sorriso.
— É...vai ser até bom te ter de volta.
Casstyel pegou impulso e bateu suas asas deixando o chão voando para bem alto carregando Lavidh, subindo para o céu como um foguete e desaparecendo entre as nuvens. Atravessando o portal invisível, eles chegaram no mundo dos Sayryns, batendo suas asas e voando em direção ao enorme palácio que flutuava no ar sobre um gigantesco pedaço de terra, onde duas pontes monstruosamente imensas ligavam esta terra até o horizonte, uma de cada lado, porém, estavam quebradas e era impossível atravessá-las. Não se sabia para onde aquelas pontes levavam, mas com certeza aquele castelo não era o único naquele mundo. Casstyel ficou com uma expressão triste no rosto ao ver o palácio completamente destruído. Yel e Willow estavam distraídos observando o horizonte e sentindo o vento soprar contra suas asas, quando as orelhas de Yel vibraram. Ele olhou para o lado e avistou um bater de asas ao longe.
— O que é aquilo? — perguntou ficando de pé e segurando sua lança firme nas mãos
Willow também viu e ficou de pé.
— Asas brancas e...asas negras? — perguntou Willow
— Não pode ser...será que é um Lyvreny? — perguntou Yel
No entanto, assim que ficaram mais próximos, eles os reconheceram.
— É o Casstyel! — comemorou Willow batendo suas asas alegre
— Ei, o que aconteceu com o Lavidh? — perguntou Yel vendo Lavidh bastante ferido e machucado
Casstyel o jogou em cima de Yel, o fazendo cair deitado e Lavidh cair sobre ele.
— Mas o que é isso?!
— Cuidai dele. — foi apenas o que o Sayryn de olhos verdes disse antes de bater suas asas, dar meia volta e ir embora, atravessando o campo de nuvens e voltando para o mundo dos humanos
— Maldito... — resmungou Lavidh bastante fraco
Ao chegar no mundo dos humanos, Casstyel pousou na mesma vila onde Lavidh e Ivan lutaram e causou uma enorme cratera no local por causa do forte impacto da queda. Em pé no centro da cratera, os olhos felinos verdes dele tremiam. Abrindo suas mãos, o Sayryn ficou contemplando as palmas cinzentas e ásperas. Lembrou de quando agarrou o rosto de Ivan com a mão e uma luz forte surgiu, queimando o Lyvreny e causando uma imensa explosão. Estava um pouco assustado, era a primeira vez que tinha usado aquele poder e nem fazia ideia de como tinha feito aquilo. Suas mãos tremiam, ele podia sentir uma corrente elétrica preencher suas veias; seus pulsos estavam pulsando tão forte que chegava a doer. Ele sabia que fazia parte da primeira legião de Keryuss — o deus-lobo da luz — mas não sabia que possuía tal poder e mesmo assim, sabia que ainda não era o suficiente para derrotar os Lyvrenys, já que Ivan e Nyra tinham conseguido fugir. Fechando os punhos com força, Casstyel tomou a forma humana enquanto que alguns pingos de chuva começavam a cair. Os sons de trovão ficavam mais altos ao longe. Cass apenas cobriu a cabeça com o capuz do moletom, enterrou as mãos nos bolsos do mesmo e saiu caminhando calmamente deixando toda a destruição para trás na chuva, que ficava cada vez mais forte.
XXXXX
Na catedral abandonada na floresta, nove Lyvrenys estavam reunidos no salão principal. Sete estavam de pé em frente ao altar e o mesmo indivíduo que estava conversando anteriormente com Ivan tomando uma taça de vinho — que na verdade não era vinho e sim sangue — estava em cima do altar na frente de todos, já que este era o líder dos Lyvrenys, Lowki.
— Já faz cinco mil anos desde que Lahkhesis lançou a maldição contra meu filho Maloman o obrigando a batalhar contra o mais fraco dos Sayryns, Casstyel, com o objetivo de arrancar dele a informação de onde os corações dos três deuses-lobos estão. Esta maldição é que se Maloman perder e enquanto continuar perdendo, será obrigado a reencarnar e lutar novamente contra Casstyel...até vencer. Cinco Batalhas do Destino já aconteceram...e nessas cinco Maloman perdeu. Não sabemos como é possível o mais poderoso dos Lyvrenys perder tantas vezes para o mais fraco dos Sayryns...mas não podemos subestimá-lo. Casstyel é um Sayryn de confiança para os deuses...por isso devemos tomar cuidado. Precisamos desses corações o quanto antes. Precisamos nos libertar. — disse Lowki sentado em um trono velho, negro e bastante horrendo, com lâminas, cabeças de serpentes e asas negras esculpidas no mesmo
O novato era o único que estava na sua forma humana e era o único que não estava de pé. Estava sentado em um dos bancos sem fazer a mínima ideia do que eles estavam falando.
— Já procuramos esses corações pelos quatro cantos tanto do mundo dos humanos quanto do mundo dos Sayryns e não encontramos nada. Apesar de tudo, sabemos que Casstyel e Maloman são amigos. O que o senhor achas disso? — perguntou Maxxi, um dos Lyvrenys
— Não sei quando essa amizade deles começou...mas não acredito que isso possa ter alguma relação com o fato de Maloman sempre perder. Maloman é o lendário Lyvreny das chamas. Apenas um golpe de sua foice é capaz de matar mil Sayryns e até mesmo mil Lyvrenys. É claro que ele é capaz de matar Casstyel até mesmo sem querer e quando ele luta, deixa de lado todos os sentimentos. Mas por que Casstyel sempre vence? — perguntou Lowki pensativo
— Esses corações estão em algum lugar e Casstyel é o único que sabe onde. Será que Maloman está planejando matá-lo apenas quando descobrir onde estão escondidos? — perguntou Suenne, uma das Lyvrenys
— Essa é uma teoria bem provável...afinal, se Casstyel morrer...jamais saberemos onde os corações estão...e jamais poderemos ser livres. — respondeu Lowki
O novato apenas assistia bastante confuso. O que eles queriam dizer com "ser livre"? Aquilo não fazia nenhum sentido. Mas naquele momento, tudo o que importava era o fato de que tinha se tornado um Lyvreny e não sabia o que deveria fazer quando chegasse a hora de lutar. Além disso, estava bastante incomodado pois Huey não parava de encará-lo. O novato evitava olhá-lo, mas podia ver pelo canto dos olhos que Huey estava sentado no chão com a língua para fora, exatamente como um cachorro, porém, a língua dele era uma língua de serpente enorme e ele também possuía garras nas mãos e nos pés, por isso era o único que ficava descalço e aquilo o deixava horrorizado.
— Será que Maloman perde de propósito? — perguntou Dlav
— Será? Maloman é forte demais. Talvez é o único capaz até de derrotar as Irmãs sozinho. É impossível que Casstyel consiga vencê-lo tantas vezes. — respondeu Suenne
— O que será que ele está tramando?
— Ele sempre foi um belo estrategista.
De repente, algo caiu pelo buraco do teto e o impacto da queda causou uma pequena explosão. Todos se assustaram, menos Lowki que continuou relaxado em seu trono como se nada tivesse acontecido. Eram Nyra e Ivan e estavam bastante machucados — Nyra nem tanto — e por isso não conseguiram pousar normalmente.
— Ivan! Nyra! — disseram Dlav e Huey indo até eles e os ajudando a se levantar
Lowki olhou para cima e para os lados como se procurasse por algo.
— Ué...cadê a Aryel? — perguntou
Ivan sorriu.
— Vais bancar o engraçadinho agora, Lowki? — perguntou gemendo de dor
— Não estou brincando. Tu disseste que ias resgatar a Aryel...mas não a estou vendo em lugar nenhum. Inventa qualquer desculpa, mas não me digas que não conseguiu. Isso seria ridículo para ti, considerado o terceiro mais poderoso dos Lyvrenys.
— Pelo menos eu não sou um preguiçoso que só fica sentado bebendo.
Lowki sorriu.
— Gosto do teu senso de humor.
— O que aconteceu, Ivan? — perguntou Huey
— Eu estava indo para o mundo dos Sayryns, quando um Sayryn de asas negras chamado Lavidh apareceu do nada e me impediu. Nós lutamos...depois o Casstyel apareceu e...
— Espera, o Casstyel apareceu? E tu não o capturaste? Poxa, Ivan...nunca pensei que fosses tão inútil. Aposto que foste salvo pela Nyra. Que ridículo. — interrompeu Lowki sorrindo
— Tsc... — resmungou Nyra ofendida
— Podes debochar o quanto quiser. Eu não ligo. Mas se tu és tão orgulhoso e cheio de si só porque és pai do Lyvreny lendário, na próxima vez, vai tu tentar capturar o Casstyel. Tens mesmo que tirar essas teias de aranha do corpo. — atacou Ivan dando de ombros e saindo da sala. Nyra, Dlav e Huey o acompanharam
— Mandou bem, Ivan! — disse Huey andando de quatro exatamente como um animal quadrúpede, além disso, ele também tinha uma enorme calda negra, igual a de um leão. Huey se destacava pela sua aparência peculiar e ainda era um dos Lyvrenys mais poderosos, mesmo sendo um filhote
— Ivan! Como ousas falar assim com o nosso líder? — perguntaram Juny e July juntas, duas Lyvrenys gêmeas
Lowki estava apenas com um largo sorriso medonho no rosto com seus dentes afiados à mostra. O novato estava com medo. Tudo o que ele queria era ir embora. Os Lyvrenys eram criaturas medonhas e assustadoras e não conseguia acreditar que tinha virado um deles, além disso, não conseguia tirar o nome Aryel da sua mente. Seria a mesma Aryel que ele estava pensando?
Mais tarde, em uma pequena sala da catedral que ficava no alto de uma das torres, Ivan estava sentado na janela observando a floresta ao longe. Estava na forma humana e quase todo seu corpo estava coberto com curativos. Nyra estava sentada em uma cadeira também na forma humana e Dlav estava fazendo um curativo no ferimento da cintura dela.
— Essa é a primeira vez que te vejo tão machucado assim, Ivan. — disse Huey na forma humana deitado no chão como um cachorro
— Lavidh...é muito poderoso. Realmente nenhum Sayryn tinha me dado tanto trabalho quanto ele.
— Então temos que tomar cuidado. Não conhecemos todos os Sayryns daquela legião. — disse Dlav também na forma humana terminando de fazer o curativo
— Obrigada, Dlav. — agradeceu Nyra gentilmente
— De nada.
Ivan olhou para o lado levemente e focou sua visão discretamente na cintura de Nyra. Ao ver o curativo, ele rapidamente virou o rosto e o brilho em seus olhos expressavam um sentimento de ódio.
— O que importa é que conseguimos voltar vivos. — disse Nyra
— Por que não me deixaste capturá-lo? — perguntou Ivan em um quase sussurro
— Tua vida é mais importante. — respondeu a ruiva
— Aquele poder que o Casstyel usou contra mim...nunca tinha visto algo parecido.
— Era como se fosse...o próprio deus Keryuss que estava ali. Aquela luz que saiu da mão dele era muito poderosa.
— Não faço ideia do que estão falando. — disse Huey coçando a orelha com o pé
Ivan também lembrou que quando Casstyel usou aquele poder de luz, ele podia jurar que os olhos do Sayryn não estavam verdes e sim brancos. Um branco único, com vários raios de luz ao redor das íris felinas.
— Bom, eu vou tirar um cochilo. Huey, tu vens? — chamou Dlav
— Claro. — respondeu o filhote se levantando do chão e indo junto com Dlav
— Melhoras. — disse Dlav saindo da sala junto com Huey e fechando a porta, deixando Ivan e Nyra a sós
— Eu também vou indo. Aposto que queres ficar sozinho. — disse Nyra se levantando da cadeira e saindo da sala
— Nyra. — chamou Ivan com a voz doce e calma
A ruiva parou na porta e se virou.
— Sim?
— Obrigado. — agradeceu tímido
Nyra deu um pequeno sorriso.
— Sempre que precisares, podes contar comigo. — respondeu saindo e fechando a porta, deixando Ivan sozinho naquela sala escura
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