Notas iniciais
A historia se passa um dia antes de Gin revelar-se. la la la

A noite estava fria. O vento gelado castigava a área do décimo primeiro distrito. Uma garoa fina se iniciou, deixando o clima ainda mais propício para aconchegar-se nas cobertas quentinhas e dormir, após uma sopa e chá bem quentes. Naquela área, de casas medianas e pessoas simples, a noite era calma e silenciosa. Mas havia um lugar onde podiam, aqueles mais ousado, divertirem e se esquentarem com bebidas e a companhia de alguém que lhe fizesse da noite fria, um pouco mais acalorada.

Longe da diversão do primeiro andar, onde uma música animada preenchia o ambiente, a mulher dos longos cabelos avermelhados estava presa em seus pensamentos, admirando a madeira ser queimada pelo fogo na lareira.

Naquela noite não haveria nenhuma visita especial, então Kaori trancou-se em seu quarto, aproveitando o início do inverno para ficar sozinha. Ela saiu de perto do fogo, e sentou-se no banquinho acolchoado, e olhou seu reflexo no espelho. Pegou um lenço para retirar o batom carmim, e o restante da maquiagem. Lavou o rosto em uma bacia de água fria, balançando o rosto de um lado para o outro com o contato da água.

Kaori iria se trocar, tirar o longo quimono de seda azul-turquesa que vestia, para por algo mais simples e deitar.

Quando já estava pronta, alguém bateu a porta. Ela ordenou que fosse embora, já que não atenderia mais ninguém aquela noite. Mas a jovem do outro lado da porta insistiu, dizendo que uma pessoa importante queria vê-la. Nessas circunstâncias, Kaori acreditou que poderia ser..., bem poderia ser muitas pessoas importantes.

— Esta certo, peça para esperar um minuto que eu vou me arrumar e-

— Não é necessário. — A voz masculina e macia da tal pessoa especial entrou nos ouvidos da ruiva, fazendo-a girar o corpo para que seus olhos cor de mel pudessem confirmar quem era a tal visita. — Já te vi em situações mais constrangedoras que isso, não me importo em encontrá-la vestida para dormir.

Kaori passou as mãos pelo tecido da simples yukata que vestia sempre para dormir, quando estava sozinha, era confortável, porém deselegante para usar na presença de alguém como Ichimaru Gin. Geralmente usava coisas provocantes e obviamente sem elas era muito melhor. Mas pela impaciência do homem, a dama da casa imaginou que ele não estava ali para assuntos de natureza íntima. Pelo menos não da qual ela era perita.

Ordenou então que a jovem fosse trazer um chá ou alguma coisa quente para que seu convidado pudesse beber, mas ele alegou não sentir sede, nem fome.

— Desdenha da minha vestimenta, recusa o meu chá, o que mais preciso ouvir antes de saber o que veio fazer aqui? — Kaori voltou para o banquinho, e pegou a escova, passando a pentear os cabelos. — Será que a menina das madeixas douradas, não deu conta de prender o seu amado em sua cama essa noite? Ou quem sabe um pobre rapaz iludido não conseguiu fazer um agrado sequer ao seu Taichou?

Ela sorriu, acompanhando pelo espelho os movimentos de Ichimaru. Ele examinou o quarto. Ainda estava exatamente da mesma maneira que vira pela última vez há uma semana atrás, exceto pela cama. Ou a falta que ela fazia.

— Onde esta sua cama? — Perguntou ele, ignorando o sarcasmo maldoso da ruiva.

— Quebrou. — Kaori penteou pela última vez o cabelo até largar a escova sobre a penteadeira, virando-se para Gin. — Sabe, essas coisas acontecem. Ossos do ofício.

— Kaori-san é sempre tão, como posso dizer? — ele pôs a mão no queixo, sorrindo simpaticamente com seus olhos semicerrados.

— De bom humor? Prestativa? — Ela gargalhou, jogando para trás os fios acobreados com a mão. — Ainda não sei o que faz aqui. Por acaso sentiu saudades?

— Mais do que isso. — Gin sentiu-se a vontade para se sentar no colchão duro de espumas prensadas, e lençóis cor de vinho. — Podemos conversar essa noite?

Kaori arqueou a sobrancelha, fazendo uma expressão de dúvida. Ela era muito cara para apenas conversar, mas não era da sua conta o que era pedido. Ela deu a volta em Gin estava sentado e foi até a penteadeira para pegar um frasco pequeno de óleo.

— Porque você não tira esse uniforme de shinigami e relaxa um pouco. — A ruiva sentou-se na cama, atrás do Taichou, ajudando-o a tirar o haori. — Vou fazer uma massagem em você, enquanto isso, podemos conversar. Se bem que... — Ela sorriu, passando as mãos nos ombros do capitão. — Eu não sei se quero mesmo ouvir o que um homem como você tem a dizer.

— Não sou tão mal assim, sou?

Kaori inclinou o corpo de lado, capturando aquele olhar típico dele, sacudindo a cabeça negativamente. — Imagina, você tem uma carinha de bom menino.

Ichimaru deixou que ela o despisse da parte de cima. Kaori molhou as mãos no óleo e passou a fazer movimentos fortes nos ombros do convidado. A força dela não era de se comparar com muitas outras que já enfrentara, mas a diferença era que a ruiva conhecia muito bem o corpo humano. E aquela massagem estava até relaxante, digamos assim.

Gin sorriu, elogiando os dotes dela.

— Eu também sei cozinhar, se quiser um dia faço algo para você. — Sussurrou no ouvido dele, apoiando o queixo no ombro melado de óleo de amêndoas.

— É tentador Kaori-san.

— Eu sei que é. — A ruiva passou a manga da yukata no pescoço e queixo, limpando o excesso de óleo que ficara ali. A música do salão debaixo acabou tomando conta do quarto. Eles ficaram em silêncio alguns minutos.

— Kaori-san. — Começou ele, mexendo o pescoço. — Porque odeia shinigamis?

— É uma questão complicada de explicar. — Ela pôs força nas pontas dos dedos, fazendo pequenos círculos nos músculos mais rijos que encontrava. Ichimaru Gin sempre foi uma incógnita. Ela nunca sabia o que pensar dele. E além disso, sentia calafrios quando ele a olhava nos olhos tão diretamente, como se pudesse ler seus pensamentos. E os azuis eram tão frios as vezes, que a assustava. — Sou cercada deles, como posso não gostar. Simples. Questão de sobrevivência.

— Você seria uma ótima shinigami, pensando dessa forma. — Kaori apertou as costas de Gin, com mais força que o normal, fazendo-o abrir um sorriso pequeno, imaginado que a irritara.

— Já me disseram isso. — Ela ordenou que deitasse, e então sentou-se sobre o cóccix dele, esticando os braços conforme passava a mão completamente por suas costas, voltando a massagear os músculos. — E eu não achei graça. — finalizou deitando sobre ele. Era tão quente aquele corpo, apesar de ter vindo a pouco tempo do frio lá de fora.

— Você teme aqueles que são mais fortes que você. Por precaução. — Gin aprovou a massagem, aquilo não fazia com que o peso de suas ações desaparecessem de suas costas, porém era uma ótima forma de passar o tempo.

— Não tenho medo de nada, Ichimaru-san. — Kaori rolou de cima do corpo dele, caindo no colchão. Ficou deitada, olhando fixamente para o teto sacudir levemente com o vento forte la de fora.

— Kaori-san parece corajosa. — Gin virou na cama, colocando os braços atrás da cabeça.

— Sou sim, senão eu não dava conta de homens como você. — Ela deixou de lado aquele clima depressivo que abateu as suas últimas palavras e apoiou o corpo de lado, sobre os cotovelos, levando a mão ao peito descoberto do capitão. — E você? Não tem medo dessa vida? Eu não quero ter que usar luto, e chorar sobre o seu túmulo. — Kaori aproximou-se mais dele, levando a cabeça até o peito. As batidas ritmadas do coração, dava para ouvir e sentir perfeitamente. A respiração leve, fazendo o peito subir e descer devagar. Aquele homem fazia uso de seu coração? — Eu fico horrível de preto, e não gosto de chorar.

Ichimaru levou a mãos aos cabelos macios acobreados, ele abriu os olhos e atentou-se também para o telhado movimentar-se com o vento lá de fora. Aquilo lhe trazia certas lembranças, de quando era só uma criança, vivendo em um lugar precário. E claro, que se compartilhasse essa lembrança, provavelmente Kaori não se compadeceria. A infância dela nos arredores do décimo primeiro distrito também não foram tão melhores que as dele e Rangiku.

— Não, eu não quero que use preto. Vermelho lhe cai bem melhor. — Ichimaru jogou o corpo da ruiva para o lado e estendeu o seu sobre o dela.

— Fique sabendo que eu não choraria pela morte de nenhum shinigami. Mesmo os mais generosos. — Ela piscou os olhos devagar, encarando os azuis frios, passou a mão pela pele branquinha e sorriu. — Mas não morra, ficarei entediada. — Provavelmente ela já sabia dos rumores que foram espalhados sobre Aizen, mas Gin não entrou no assunto.

— Não morrerei. — ele fitou os lábios rosados, dificilmente os via sem o batom carmim cobrir sua real cor. Beijou-a deixando de lado a conversa. Aquela noite ele não conseguia mesmo lidar com a shinigami das madeixas douradas, como Kaori a chamava. E a inquirição de Kira em querer saber o que estava acontecendo, também não era muito convidativo para aquela noite. Dessa forma, ele conseguiria tranquilamente ceder aos encantos daquela mulher.

De madrugada, ainda ventava e estava muito frio. Kaori aconchegou-se no corpo quente do shinigami, sonolenta. Ele nunca dormia. Eles nunca dormiam ao seu lado, talvez isso fosse também um dos motivos por não gostar de shinigamis. Não confiavam em ninguém. O que era de sua natureza manter sempre a guarda. Mas o que ela poderia fazer? Matá-lo com sua lixa de unha?

Poderia tentar um dia com o Kenpachi, mas aquele bruto seria capaz de gostar de ver sangue em seus lençóis.

Kaori abriu os olhos quando sua companhia se levantou, ainda faltava algumas horas para o dia amanhecer. Ela sentou-se, procurando por sua vestimenta, enquanto o mesmo era feito do outro lado do quarto.

— Eu tenho que admitir uma coisa. — Ela começou, jogando os cabelos bagunçados para trás, a fim de melhorar mais a aparência. — Vocês são todos iguais.

Gin mantinha aquela tranquilidade na voz e a aparência calma, porém aquilo não deixava a ruiva calma, ao contrário. O calafrio tomava-lhe a espinha, fazendo-a sentir como se algo estivesse para acontecer.

— Achei que sentiria a minha falta por eu ser único. — Ele sorriu, discretamente, vestindo o haori. Kaori o ajudou, e depois manteve as mãos sobre o peito do capitão, encarando-o sem sorriso.

— Semana passada alguém veio aqui com o mesmo olhar que o seu. — Kaori alisou o tecido do haori amassado, com as mãos. — Vocês são iguais, subestimando a inteligência das pessoas mais fracas. — Ela virou o corpo, caminhando até a janela. — Em todos esses anos, aprendi muitas coisas com pessoas como você.

— Kaori-san, não precisa pensar nessas coisas. — Ichimaru foi ao encontro dela, agarrando-a pela cintura, curvando o corpo para alcançar o pescoço dela, coberto pelas ondas dos cachos formados. Beijou a pele fria, após tirar os fios dali. — Preocupe-se com você apenas.

— E você acha que estou preocupada com você? — Ela gargalhou. — Com a idade que tenho, não posso me dar ao luxo de cuidar da vida dos outros. Cada um sabe o que faz.

— Você não deve ser tão mais velha que eu. — Gin e Kaori não conversavam muito. Talvez aquela foi a primeira vez que eles falaram mais deles do que de qualquer outro assunto. — Ou é?

— Faz alguma diferença para você?

— Realmente não. — Gin soltou suas mãos da cintura de Kaori, e deu alguns passos para trás, em silêncio. — Agora eu preciso ir.

Kaori analisou a expressão costumeira dele, mas era como se alguma coisa estivesse errada. Sentia que tinha algo errado. E sim, estava tudo errado. Mas não era de sua conta. Aquela briga não lhe pertencia.

— Eu não vou mais te ver, não é? — Kaori cruzou os braços, como se quisesse proteger-se do frio que tomou seus braços após Gin afastar-se dela.

— Porque diz isso? — Ichimaru sorriu, movendo a cabeça para o lado.

— Já disse que esses anos todos aprendi muita coisa. Inclusive... — Ela se aproximou de maneira rápida, e o abraçou ternamente. — Sei distinguir um até breve com um adeus. Você não precisa me dizer nada, eu nem preciso dizer também. Não temos nada um com o outro, mas, mesmo assim, eu ainda não quero usar luto por um conhecido.

— Kaori-san não seja dramática, ou vou duvidar de você quando diz que não tem tempo para sentimentalismo.

A ruiva semicerrou os olhos, irritada, estapeando o braço do capitão. Era um moleque atrevido mesmo.

— Agora quem quer que você vá embora sou eu. — Ela apontou para a porta, ordenando que ele deixasse seu quarto.

— Sayonara, Kaori-chan. — Gin acenou, antes de fechar a porta e sumiu. Para sempre.

Ela sabia que eles não se veriam mais. Uma pena, porque a ruiva do décimo primeiro distrito sempre soube que apensar de causar arrepios aqueles olhos azuis, ele também traziam calma para algumas pessoas.

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