Notas iniciais
Música: The Phantom Agony - Epica
Link: http://www.vagalume.com.br/epica/the-phantom-agony-traducao.html
Boa leitura

P.o.V: Samuel Muniz

Confesso que fiquei muito assustado com o ataque. Claro, já tinha participado de batalhas antes, mas dentro de um ambiente seguro? Já me acostumara com a reconfortante presença do velocino de ouro. E agora ele foi roubado? E como o acampamento vai ficar? Vamos ser atacados constantemente? E quando não pudermos nos preparar? E ainda, tinha a questão do David. Se ele era mesmo um filho de Ares, então eu era Zeus. Francamente, mesmo sem treinamento, nós filhos de Ares temos um instinto nato para lutar nas batalhas, e parece que o senhor azul não tem isso.

Essa era outra questão que me preocupava. Quando encontrei David, ele já veio com aquele papo estranho de estar revoltado com os deuses e tudo mais. A partir daí já não confiei nele. E tinha a impressão de que na batalha, ele não lutou muito. Era como se os monstros não quisessem atacá-lo, como se estivessem ao seu lado. Aquele “ataque” do cão infernal de última hora foi bastante estranho, e muitíssimo suspeito. Depois ele ameaçou os outros campistas que estavam falando mal do seu cabelo azul. Creio que alguém assim deve ser vigiado. Já sei! Vou dar uma olhada em Clarisse e depois irei treinar com ele para tentar notar suas intenções.

Antes de ir até Clarisse, Quíron chamou os conselheiros dos chalés para discutir a questão da fronteira e de como protegê-la. Ficou decidido que todo dia, alguns integrantes de um chalé diferente vigiariam a fronteira. Teríamos que nos revezar, claro, e ficar com os olhos bem abertos. O centauro escolheu primeiramente o chalé de Ares. Depois disso, fui direto para meu chalé e convoquei cinco campistas para serem os primeiros guardas. E não, não estou abusando da minha liderança. É óbvio que irei ser um sentinela, mas primeiro tenho que resolver algumas coisas mais importantes antes, certo?

Corri até a Casa Grande e fui para a enfermaria. Clarisse estava lá com algumas ninfas que estavam cuidando dela. Chris estava ao lado dela, sorrindo para o bebê. Olhei para ele. Tinha os mesmos olhos negros e intensos de Clarisse. Os olhos estavam abertos, À espreita de algo. As feições se pareciam mais com Chris. Tinha um pouco de cabelos castanhos. Era estranho ver um filho de semideuses, já que muitos não costumam chegar até a idade adulta. E um filho de semideuses? Isso era muito legal.

— Como vai chamá-lo? — perguntei.

— Já chamei. Seu nome é Ajax. — Clarisse respondeu, sempre “educada”.

Franzi a testa.

— Não é um personagem de quadrinhos?

Dada a expressão de Clarisse, se ela não tivesse acabado de dar a luz, com certeza me atacaria.

— É um personagem da mitologia seu estúpido! Um herói da guerra de Tróia.

—Clarisse, olha o estresse — Chris advertiu. — O bebê pode ter maus exemplos.

O olhar que ele recebeu foi pior.

— Ei, gente, preciso comentar algo sério. O que acham de David?

— Uma mocinha que gosta de tingir os cabelos — Clarisse respondeu.

— Não sei muito. Parece meio quieto para um filho de Ares — Chris analisou. —Sei disso por experiência própria. — murmurou e depois recebeu um soco de Clarisse. Será que ela não para nem com uma criança?

— Verdade. Quando o encontrei, ele veio pra cima de mim com aquele papo de semideus mimado e revoltado, que os deuses não prestam e blá blá blá. Será que é seguro mantê-lo aqui?

— Ele pode ser só mais um revoltado. Ou então uma ameaça. Se bem que com aquele cabelo azul... — Clarisse disse. — Mas fique de olho nele.

— Sim, está bem. — me levantei. — O que acha de eu treiná-lo para perceber seu real estilo de luta?

— Boa ideia. Isso pode ajudar em algo. — Clarisse falou.

— Então está bem. — me dirigi para a porta. Mas antes me virei e disse:

— Espero que Ajax puxe o seu temperamento Chris! — e fui embora ouvindo uma torrente de palavrões.

***

Procurei David pelo acampamento, até que o encontrei na arena.

— Ei David! Quer escolher uma arma?

— Eu já tenho. — e mostrou a adaga que ele tinha “lutado” na batalha.

— Você precisa de uma arma maior.

— Para quê? — ele me encarou com um olhar suspeito.

— Todo semideus precisa de armas, oras.

— Mas eu já disse que tenho a adaga.

— É, mas e se te atacarem com uma lança, por exemplo? Uma pequena adaga não pode contra uma lança.

— Está bem — ele bufou.

Quando chegamos, ele escolheu uma espada. A lâmina, de bronze celestial, óbvio. O cabo era de madeira, revestido de couro. Uma espada comum.

— E agora? Por que quis que eu escolhesse uma arma?

— Para te treinar.

— Por que tem que ser você?

Aquele cara estava me tirando do sério. Imagina se eu fosse Clarisse? David provavelmente seria um saco de ossos agora.

— Por que eu sou líder do chalé de Ares, e como você é filho dele... Você é mesmo filho de Ares certo? — perguntei querendo provocá-lo.

— Sim!

— Então vamos voltar para a arena! O acampamento será atacado com freqüência, e você precisa estar em condições de se defender.

— Eu não sobrevivi na batalha de hoje? — replicou. Que cara impertinente.

— Ora, vamos logo! — e segurei-o pelo braço, o levando até a arena.

Chegando lá, nos posicionamos e falei para ele me atacar. Defendi facilmente, mas seus golpes eram até bons.

— Cuide mais da defesa! Não mova a espada assim! — eu dizia.

Milagrosamente ele não retrucou nem deu má resposta. Simplesmente fez o que eu disse. Talvez enquanto eu lutava, não era alguém com que se pudesse ter a coragem para discutir e/ou receber ofensas.

Ao término do treino, ambos estávamos cansados.

— Você luta de uma forma estranha. — observei.

— Será porque eu nunca estive aqui antes?

— Não é disso que estou falando. Para um filho de Ares, seus golpes são meio que... Pacíficos.

— Aonde quer chegar? — ele se levantou, indo embora. — Não preciso provar para você que sou filho de Ares.

Ele fez um aceno com uma das mãos e um cão infernal apareceu de repente, atirando minha espada contra o chão.

— O que Hades está acontecendo? — perguntei tentando me livrar do cão.

— Você me atrasou. Essa é a sua punição. — ele disse friamente indo em direção à casa grande.

Esse cão infernal parecia muito aquele que David supostamente havia matado. Isso significa que ele aparentemente trabalha com os monstros.

E o que ele faria na casa grande? Oh não! Clarisse e o bebê estão lá!


Notas finais
Até o próximo