Savior.
3 Torment Nights.
Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas.
– Legião Urbana.
Despediu-se de Amélie na saída da escola naquela manhã, não antes de ser parada pela garota que a agarrara pelo braço.
– Nos vemos no curso hoje, né? – Amélie perguntou, com um sorriso gentil emoldurado em seus lábios.
– Claro! Bem, menos na aula daquela vadia, você sabe. Fui expulsa – Kat disse, soltando uma risadinha.
Amélie revirou os olhos e ambas trocaram um beijo curto antes de se despedirem. Katarina a observou ir para a direção da casa dela com um sorriso torto, enquanto admirava sua amiga, que também era sua ficante às vezes. As pessoas não sabiam exatamente como era aquilo, mas as duas sabiam. Eram amigas que prometeram que, enquanto estivessem sozinhas, estariam juntas. Não de maneira romântica, mas de maneira amiga. Era estranho, Kat pensou, franzindo o cenho, mas dane-se.
– Dane-se o quê? – perguntou uma voz familiar atrás de si.
Assim que olhou para trás, abriu um sorriso largo ao vê-lo.
– Pai! – ela gritou, chamando a atenção de todos os estudantes que saíam ao pular em cima de Jonas com um abraço.
– Ei, garota – ele cumprimentou-a, abraçando-a em meio a um riso baixo – Já disse que não entendo você e Amélie?
Katarina revirou os olhos.
– Não somos apaixonadas e não estamos namorando, se é isso o que se pergunta todos os dias.
– Claro – disse o pai, não parecendo completamente convencido. Quando se soltaram, ele a olhou com um sorriso gentil – Vamos tomar um café?
– Como se precisasse me perguntar isso.
*
Sabia exatamente porque o pai a convidara para tomar um café. Havia mais que isso naquela frase. Tomar um café e falar sobre...
– Andei conversando com Carmille – ele disse assim que a garçonete deixara os cafés e saíra de perto.
Kat tomou um gole antes de falar:
– Vocês trocam saliva todos os dias. Claro que vão conversar alguma hora – ela resmungou, reprimindo o prazer que sentira com a quentura do café descendo a garganta dela.
– Katarina – seu pai a repreendeu, mas logo continuou: — Ela me contou sobre o episódio na aula.
– Que interessante, pai...
– Entendo que não goste dela.
– Se entendesse, não estaria aqui a defendendo – ela disse, em meio a um suspiro – Pai, chegue logo ao ponto principal da conversa.
– Por que fez aquilo? – ele perguntou, pela primeira vez em um tom sério.
Kat empurrou seus longos cabelos para um lado de seu ombro, fitando a fumaça que saía de sua xícara.
– Não têm mais importância. De qualquer forma, a diretora Roganov me colocou em uma aula com um professor e eu estou me dando bem – assim que percebeu o segundo sentido em sua frase, deu uma risada maliciosa.
Jonas fechou a cara.
– Como assim?
Ela se recompôs rapidamente e o olhou, inexpressiva.
– Ele é um professor bom e disse que sou uma aluna boa, fim de conversa.
Apesar de Jonas ter ficado meio irritado com aquilo, voltaram a conversar sobre coisas mais leves e logo ele teve que voltar ao trabalho. Despediram-se e ela continuou na cafeteria. Alguns momentos depois, sentiu seu celular vibrar.
Um e-mail.
Louis Werlch.
13:42 PM.
Como consegue ficar com esse cabelo enorme?
Kat revirou os olhos, bufando em seguida. Mas deu um sorrisinho enquanto escrevia a resposta.
Katarina Bluwin.
13:44 PM.
Já mandou o e-mail sobre as aulas, já respondi. Anda querendo falar comigo, professor?
Riu-se silenciosamente e, antes mesmo que voltasse a beber mais um do café que pedira, sentiu o celular vibrar novamente.
Louis Werlch.
13:45 PM.
Não é isso, Katarina. Mas daqui dá para ver melhor o quanto seu cabelo é grande. Que negócio é esse de falar sobre mim maliciosamente com o seu pai?
Katarina quase deixou o celular cair ao terminar de ler o e-mail. Olhou para os lados e, ao seu lado, na outra mesa, viu Louis olhando-a com um sorriso gentil – embora parecesse cansado e com grandes olheiras abaixo dos olhos.
– Filho da...
– Sem xingar as mães alheias – ele disse com certa sutileza enquanto se levantava com sua xícara e parasse em pé a frente dela – Posso me sentar?
– A mesa não é minha, a cadeira não é minha, o estabelecimento não é meu. Senta até com a bunda no chão se você quiser – ela disse, grosseiramente.
Louis soltou uma risada baixinha enquanto se sentava no lugar que seu pai ocupara minutos atrás. Parou para olhar a rua pela vitrine do café e logo a olhou novamente, vendo a expressão emburrada em seu rosto.
– Que braveza. O que eu fiz pra te deixar nervosa? – perguntou, fingindo uma mágoa na voz.
– Você nasceu – ela resmungou, fitando o olhar no café em sua xícara.
Louis sorriu novamente, dessa vez sem ironia.
– Fingirei que não ouvi.
Ficaram em um silêncio desagradável depois daquilo, um silêncio que nenhum dos dois se atrevera em romper tão depressa. Kat tomou mais alguns goles do café e, enquanto o fazia, aproveitou para reparar Louis. Ele tinha cabelos castanhos incrivelmente bagunçados e olhos gentis da mesma tonalidade. Seus lábios a fizeram sentir um calor percorrer seu corpo – um calor que não se devia ao café dessa vez – e a parte do corpo que ela via dele era levemente musculosa, embora fosse magro.
– Gosta de café? – ela perguntou, arrependendo-se em seguida. Que pergunta idiota.
Mesmo assim, ele não zombou dela ao responder:
– Gosto. Acho insana essas pessoas que não gostam de café.
– Concordo.
Silêncio.
– Quantos anos tem, Katarina? – ele perguntou, sem conseguir disfarçar a curiosidade em sua voz.
– Dezessete – ela respondeu.
– Não parece. Quer dizer, pela aparência parece até ter menos idade, mas...
– Minha alma é velha. Morrerá primeiro que eu – ela disse, com um sorriso sombrio.
Louis soltou uma risada divertida com o humor sinistro na voz da garota e logo ela também sorriu.
– Sobre o que vamos estudar hoje? – ela perguntou, relaxando sobre o banco.
Louis hesitou ao responder.
– Ainda estou preparando a aula.
Kat notou algo na voz dele, mas decidiu ignorar. Pegou um dinheiro da mochila e, assim que a fechou, levantou-se.
– Nos vemos à noite então, Louis.
Ele ficou surpreso ao ouvir ela dizer seu nome. Era a primeira vez que ela fazia isso. Mesmo assim, surpreendeu-se mais ainda ao ver a blusa longa do Nirvana que ela vestia.
– Gosta de Nirvana? – ele perguntou, erguendo o olhar para o rosto dela.
Ela apenas sorriu com aqueles lábios incrivelmente vermelhos.
– I’m so happy – cantarolou, atraindo a atenção de algumas pessoas para ela – Porém, não sou feliz.
Com isso, deixou-o sozinho e confuso enquanto pagava o café para ir embora.
*
Naquela noite, o calor havia voltado para a cidade de Ocean. Katarina chegou à faculdade com uma regata preta, o all star e um short rasgado, ao lado de Amélie.
– Olha ali a garota suspensa – Mike, um dos garotos idiotas de seu curso gritou para ela.
Kat sorriu ironicamente e deu uma piscadela para Mike.
– Vem ser suspenso comigo, Mike – ela gritou de volta.
Os amigos dele deram risadinhas e Mike mordeu o lábio inferior. Ridículo.
– Que convite é esse?!
– Talvez ela apenas queira transar com você, Mike – disse Amélie, entrando na brincadeira. Mike ficou ruborizado e as duas riram, mas logo foram interrompidas quando Louis apareceu no pátio.
– Meu Deus, quem é aquele? – uma das trouxinhas da sala de Kat perguntou para a outra, e Kat revirou os olhos.
Quando Louis se aproximou, ela deitou a cabeça no colo de Amélie – as duas estavam sentadas na grama do campus – e fechou os olhos, com uma expressão divertida no olhar.
– Capitu – Louis chamou, e ela ouviu as garotas se animarem atrás dela.
– O que foi? – uma delas perguntou, e Kat cruzou os braços contra a barriga para evitar a gargalhada.
Louis ficou encabulado.
– Não, é... Eu estava falando com a Srta. Bluwin.
Ela não se aguentou e começou a gargalhar, mas logo abriu os olhos e olhou Louis com um olhar cúmplice.
– Está me tratando como senhorita agora, professor? Pensei que já tivéssemos passado dessa fase.
Louis ruborizou de forma diferente de Mike. Era um rubor irritado, e Kat satisfez-se com aquilo. Era sua pequena vingança. Amélie estava confusa com tudo aquilo, mas já deveria ter presumido. Enquanto Kat levantava-se para acompanhar Louis enquanto ele falava sobre a aula que tinham que começar logo, Amélie olhou para as duas, que olhavam para Kat com raiva.
– E agora? Vão questionar sobre como a vida é terrível? – Amélie perguntou e ouviu um palavrão de uma das meninas que se levantaram e se afastaram dela. Riu consigo mesma, deitando-se no gramado.
*
Assim que Katarina saíra para ir para a segunda aula do curso, Louis apressou-se para a sala da diretora. Sabia que Melissa com certeza teria apanhado o poema de Katarina, e essa era a única coisa que faltava para que tivesse o máximo de informação possível sobre ela. Também sabia que Melissa o ajudaria.
– Licença – ele pediu.
Melissa deu um sorriso discreto a ele.
– Pode entrar, Louis.
Ele entrou e sentou-se na cadeira que ficava a frente da diretora, separando-os apenas pela mesa.
– Algum problema? – ela perguntou, franzindo o cenho com a expressão que Louis assumia.
Ele apenas suspirou.
– Queria ler o poema de Katarina Bluwin. Preciso arrumar uma maneira de me aproximar dela... Você entende, para ter uma melhor avaliação sobre...
A diretora apenas sorriu e entregou a ele uma folha de papel que era enfeitada com caveiras e a letra de uma música em Inglês. Louis agradeceu-a com um sorriso e, após conversarem por alguns instantes, voltou para sua sala.
Naquela noite, enquanto ficara esperando dar o horário de voltar para casa, decidira ler o poema de Katarina.
Nestas noites atormentadas
Nestas noites mal dormidas
Escondo-me nas malhas
Escondo-me nas fitas
Mas há uma luz
Há uma rima
Há um verso
Batatinha quando nasce se esparrama pelo chão
Você não é minha mãe, mas se compara a um cão.
Rosas são vermelhas, violetas são azuis
Aos pais você seduz
Aos outros é como um anjo
Mas eu conheço o seu demônio
Me atormenta nestas noites mal dormidas
Tira o gosto da minha bebida
O médico constatou:
Você bebe para lembrar
Mas seu esquecimento se resume somente ao fumar.
Louis pegou uma caneta preta e escreveu abaixo do poema dela.
Minha mente constatou:
Eu posso te salvar.
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