Savior.
1 Prologue.
Notas iniciais
Ao sentar-se em sua carteira, observava orgulhosamente a folha de papel que estava a sua frente, com um poema que sua querida professora havia pedido para os alunos. Katarina colocaria em plano mais uma de suas ideias para atormentar a vida de Carmille Johns. Carmille Johns, sua madrasta. Carmille Johns, sua professora. Carmille Johns, sua inimiga.
– Então, pessoal! – disse Carmille animadamente, olhando para cada um de seus alunos, mas focando o olhar especialmente em Katarina – Vamos apresentar os poemas agora, e eu vou escolher aleatoriamente...
Todos começaram a reclamar em uníssono na sala. Idiotas, Katarina pensou, revirando os olhos.
– Vamos começar agora gente. Silêncio! – após isso, seus olhares focaram-se em Kat. A garota a encarava como se pressentisse que seria a primeira, e assim foi. – Katarina, pode vir recitar seu poema?
– Eles podem apresentar primeiro, mas muito obrigada pela consideração – ela respondeu ironicamente, satisfeita ao ouvir as risadinhas que tomavam conta da sala.
Carmille revirou os olhos para Kat como se ela fosse uma criança, e um brilho de raiva lampejou nos olhos de Kat.
– Estou mandando você vir.
– Tudo bem, fã – disse Kat, levantando-se e andando graciosamente até a frente da sala.
Carmille olhou repulsivamente para a garota enquanto ela se postava próxima ao quadro negro. Kat pigarreou antes de começar, parando apenas por alguns segundos para encarar todos na sala com um olhar ameaçador.
– Bem, este se chama Noites Atormentadas – ela anunciou, antes de começar:
Nestas noites atormentadas
Nestas noites mal dormidas
Escondo-me nas malhas
Escondo-me nas fitas
Mas há uma luz
Há uma rima
Há um verso
Batatinha quando nasce se esparrama pelo chão
Você não é minha mãe, mas se compara a um cão.
– Katarina Bluwin! – Carmille disse, em um tom alto que jamais usara na sala de aula, assustando todos os seus alunos. Mesmo assim, a única reação provocada em Kat fora um sorriso sarcástico – Você está expulsa da minha aula. Pelo resto do ano!
Kat deu de ombros, nem ao menos tentando disfarçar a vitória em sua expressão.
– Mas o poema é uma liberdade de expressão... – ela começou, afinando a voz e a tornando inocente, que de repente se pareceu com a voz de uma das garotas que se sentava na primeira carteira de uma das fileiras.
– Você sabe muito bem o que está acontecendo aqui. Eu sei do seu jogo, Katarina.
– Ah, Carmille – Kat disse, fingindo um suspiro desanimado – Eu avisei que você deveria mandar eles primeiro – murmurou, gesticulando para os alunos do resto da sala. Alguns protestaram, outros prendiam a risada, outros estavam avermelhados devido à excitação de uma quase briga dentro da sala.
Mal sabiam de onde isso tudo havia começado, Kat pensou, chacoalhando a cabeça, sem tirar do rosto a expressão vitoriosa.
Carmille saiu da sala, não sem antes parar na porta e lançar um olhar mortal à Katarina, que a retribuiu com um beijo mandado no ar.
– Vamos para a diretoria – ela disse firmemente.
Kat não se abalou, ao contrário, sentiu o coração bater forte contra o peito devido à forma que as coisas estavam saindo da monotonia. Saiu atrás dela e, quando ambas estavam no corredor que levava para o caminho da diretoria, começou a dar alguns pulinhos atrás de Carmille e cantarolar uma música mentalmente.
– Pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela janela... – cantou, soprando um riso baixo com o próprio som que a voz fazia quando puxava o R. Katarina morara há alguns anos com seus avós em um lugar que as pessoas costumavam falar cantado, puxar o R. Sua voz ainda era melodiosa quando conversava, mas o R era o mais notado pelas pessoas.
– Pode parar com isso, Katarina. Não estou com humor para ouvir sua voz – disse Carmille, friamente.
Kat arqueou as sobrancelhas, surpresa pela frieza na voz de sua madrasta. Decidiu dar adeus para a vozinha meiga, hã.
– Hmm, Carmille... Abrindo as asinhas? – perguntou retoricamente, mas parou assim que notou que estavam ambas paradas na frente de uma sala. Uma mulher baixinha e magra, com cabelos ruivos, olhou para Kat como se ela fosse alguém a ser temido. Bem, de certa forma ela estava certa.
– Diretora Roganov – Carmille a cumprimentou, voltando à mesma voz monótona e entediante de sempre. Kat revirou os olhos – Queria falar sobre essa aluna com a senhora.
Ih, a diretora, Katarina pensou, encolhendo os ombros.
– Tenho 27 anos, Carmille, não precisa me chamar de senhora. Sem formalidades – disse com certo cinismo, e Kat teve que se controlar para não abrir um sorriso. Imediatamente gostara da diretora – O que está havendo?
– Perdão, diretora. Bem, essa é Katarina Bluwin. Está fazendo o curso de Letras, e eu sou uma das professoras. Mas ela simplesmente não me respeita. Ela faz ao contrário tudo o que eu peço, e eu acabei de dar uma suspenção a ela para o resto do ano. Não estou mais conseguindo. Queria que a senh... Você assinasse a suspensão.
– Diretora, posso falar algo? – Katarina pediu, ficando séria de repente.
A diretora a olhou e afirmou com a cabeça, franzindo o cenho.
– Admito tudo o que fiz, mas esse curso é a minha vida. Sou uma das melhores alunas, pode perguntar a qualquer professor. Não posso ser suspensa de uma das aulas, eu...
– Não a aceito mais em minha classe – Carmille a interrompeu, com a voz de repente tornando-se fria novamente.
– Bem, não tem mais professores aqui na faculdade? – Katarina perguntou, inclinando a cabeça para o lado como sempre fazia quando indagava sobre algo.
A diretora olhou para as duas por um tempo, ponderando sobre o que poderia fazer. A verdade é que sabia sobre Katarina Bluwin. A primeira garota a passar no curso de um ano para auxiliar as pessoas em Letras. Também sabia sobre a situação na família dela, embora nenhuma das duas – Katarina e Carmille – soubessem que ela tinha noção. Entretanto, não falou nada. Não tinha uma bela solução para isso, mas...
De repente, a ideia veio em sua mente como o acender de uma lâmpada.
– Katarina, tem algo que eu possa fazer por você – ela disse gentilmente para a garota, que havia esquecido completamente o sarcasmo de outrora.
– Que coisa? – perguntou, um pouco rude.
A diretora sentiu vontade de sorrir, mas apenas deu uma piscadela para Katarina.
– Temos um recém-formado aqui na faculdade. Ele era um de nossos melhores alunos. Agora tem uma sala para ajudar as pessoas que tem dificuldades, e também dá aulas para os alunos que são suspensos por algumas semanas. Ele pode se tornar seu professor.
Um brilho acendeu o rosto de Katarina e, ignorando completamente o fato de Carmille estar ali, se aproximou da mesa da diretora, com um sorriso torto estampado em seu rosto.
– Pode mesmo fazer isso por mim? – ela perguntou com a mesma voz melodiosa, rindo-se de si mesma mentalmente por isso.
– Posso! Mas precisa me prometer de que vai se comportar bem com ele.
– Eu prometo – ela murmurou, com um sorriso gracioso.
O que ninguém ali esperava era que a garota cruzava discretamente os dedos ao fazer aquela promessa. Não sabia quem esse velho era. E se ele fosse um daqueles velhos ranzinzas que só dessem valor aos livros clássicos? Não que ela não adorasse os livros clássicos, mas não os idolatrava como os professores que conhecera ao longo da vida – como se clássico fosse o ápice e o resto fosse resto.
Mas, se ele não fosse um desses – o que era impossível – com certeza seria alguém implicante que a trataria como uma garotinha de seis anos ou sabe-se lá o quê. Se ele a tratasse de alguma maneira que não gostasse, não teria como manter aquela promessa. Se comportar bem com ele.
Eu nunca me comporto, ela pensou, enquanto agradecia a diretora e ignorava a expressão odiosa de Carmille em direção a ela.
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