Durante toda a vida eu abusei da minha ingenuidade tanto quanto outras pessoas o fizeram. Enquanto eu vivia e fingia não ligar para o resto, acabei me afundando em um mundo tão sombrio quanto o que eu ignorava por medo. Com o tempo, as pessoas em quem eu confiava foram levadas com suas datas de validade e eu fiquei por mim mesma. Sozinha na escuridão por tanto tempo que nem consigo me lembrar. Mortais entravam e saiam de minha vida com uma velocidade irrelevante e eu continuava intacta, tanto física quanto psicologicamente. Vagando sem saber pra onde ir ou o que fazer, apenas seguindo em frente pelo caminho mais gelado que se pode encontrar.

Depois de algumas décadas, apesar de não saber o porquê, acabei aceitando o fato de ser imortal. Após inúmeras tentativas de suicídio, eu me conformei. Como meu metabolismo impede que eu tenha a aparência de uma pessoa da minha idade, é muito fácil passar despercebida pela multidão, mas, mesmo assim, continuo a me mudar de cidade à cidade graças aos magníficos zeros contidos na conta bancária.

Sem familiares, sem amigos. Se alguma coisa eu aprendi com a imortalidade foi a não me apegar a ninguém. Mortais, além de terem a sede incontrolável de se sentirem melhor que os outros, vão embora cedo demais. Há dias, muitos deles, que me sinto bem por não me parecer nem um pouco com os humanos. A alegria de alguns é observar a infelicidade dos outros, analisar a dor de sua própria espécie como se não fizesse parte desta, acompanhar a miséria de longe e não fazer nada a respeito para impedir. Mundanos são sádicos, sujos, egoístas. É como se se alimentassem de energias negativas.

Eu agradeço por não ser uma humana, mortal. Mas até descobrir o que e porque sou, prefiro apenas não ser nada.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.