Save Me From Myself
3 Chegada.
Notas iniciais
Vesti umas calças de ganga preta e a camisola preferida do meu irmão, da mesma cor, que me ficava super larga. Surpreendentemente, a camisola ainda tinha o cheiro dele. Provavelmente isso devia-se ao facto de eu guardar a roupa dele que vestia no seu roupeiro, junto com as suas roupas todas, onde o seu cheiro ainda estava muito presente. Era eu que fazia a limpeza do quarto dele, desde que ele morrera, e não deixava ninguém lá entrar. Estava tudo igual ao que estava no dia em que fomos àquela maldita "reunião/festa" de ricos. Não tinha deixado ninguém mudar a disposição do quarto ou tirar as coisas dele de lá. Só tinha medo que, quando eu estivesse lá no colégio, eles fossem tirar tudo de lá, para se livrarem de vez do meu irmão. Fui até ao seu quarto e tirei as camisolas dele que gostava mais do seu roupeiro e fui guardá-las numa gaveta vazia que tinha no meu armário. Voltei ao quarto do meu irmão e tranquei a porta, guardando a chave dentro da mala onde iam as minhas roupas. Será que tinha metido as bebidas na mala? Sim... Tenho a certeza que sim... E as camisolas do meu irmão? Não sei. Abri a mala para confirmar e, sim, estava lá tudo. As bebidas e as camisolas do meu irmão. Fui até à gaveta no armário, onde tinha posto as outras camisolas, e fiquei ali a olhar para elas. Ainda era estranho pensar que ele nunca iria voltar a vesti-las...
- Menina Valerie? — Disse uma das empregadas à porta, sobressaltando-me.
- Que foi? — Perguntei com maus modos.
- D-Desculpe, menina. Só vim avisar que os seus pais disseram que está na hora de ir para o colégio. — Disse ela, a medo.
- Tá. Agora desapareça daqui. — Respondi torto. Quando ela se virou para ir embora, arrependi-me e chamei-a. — Oiça, desculpe. Assustou-me. Já para não falar que esta história de ir para um colégio interno não está a ajudar em nada a deixar-me simpática. Desculpe. Fui incorreta e você não tem culpa nenhuma. Na verdade, nenhuma de vocês tem culpa de nada. Desculpe ter descarregado em vocês.
- Não faz mal, menina. Mas veja se consegue melhorar lá no colégio. O menino Kieran gostava da menina simpática e sóbria que você era. Não deixe essa menina desaparecer por completo. E tire esses piercings. Você fica muito mais bonita sem eles. — E com isto, ela sorriu-me e saíu, deixando-me sozinha no quarto.
Olhei-me ao espelho e apreciei os meus piercings. O meu primeiro piercing, o que fiz na língua dois dias antes de irmos para aquela merda que matou o Kieran, brilhou quando eu abri a boca. Sorri ao lembrar-me de como eu quase esmagara a mão ao meu irmão com medo da dor. Ele gozara comigo o dia inteiro por causa disso. O segundo, no nariz, tinha-o feito no primeiro aniversário da morte do meu irmão, numa espécie de homenagem à sua paixão por piercings. E o terceiro... bem, o terceiro, na sobrancelha, fizera-o só para irritar os meus pais. Eles não paravam de dizer que eu era um caso perdido como o meu irmão e que nunca iria alcançar nada. Bem, se ser como o meu irmão era mau, eu queria ser um caso perdido para sempre. Pelo menos ele tinha sonhos e lutava por eles sendo sempre o mesmo, o miúdo querido, simpático e excelente amigo que era e não um cabrão frio e sem escrúpulos como o meu pai se tornara quando começara a subir na carreira. E depois havia um último piercing que quase ninguém sabia da sua existência... no umbigo, só que o meu estilo gótico não me permitia mostrá-lo a não ser quando ia à praia, o que era raramente. Sempre quisera fazer um, mesmo antes de... vocês sabem...
Acordando destes pensamentos, peguei nas fotos que tinha na parede com o meu irmão e meti-as dentro da mochila junto com o meu caderno onde escrevia as minhas histórias e com a minha caixinha onde guardava os meus anéis, os meus colares e as minhas lembranças dele, peguei nas minhas malas e saí, trancando a porta atrás de mim. Respirei fundo e desci em direção ao inferno.
- Finalmente! Sabes a má impressão que dá chegar atrasada no primeiro dia?! — Resmungou o meu pai já no carro. — És uma irresponsável! Tal e qual o teu irmão!
- Uau, a sério, pai? Não se cansa de criticar o Kieran? — Perguntei, metendo as malas na bagageira e entrando no carro.
- A culpa não é minha se vocês saíram os dois uns incapazes. Nem sei como é que são meus filhos. — Respondeu.
- Deixe estar pai, nós também não sabemos. O Kieran, por acaso, morreu sem descobrir, eu cá ainda estou a tentar perceber. — Disse-lhe com desdém.
- Valerie, fala bem ao teu pai e deixa de ser mal educada. Não foi assim que te criámos. — Ralhou a minha mãe fazendo-me má cara.
- Oh, e então por causa disso mandam-me para um colégio interno pra me meter na linha e... Como é que foi que você disse? — Fingi pensar um pouco. — Ah, já sei! Só sairei de lá quando for digna de ser vossa filha. Uau, parece que passarei o resto da minha vida lá.
- VALERIE, TEM RESPEITO POR NÓS OU EU JURO QUE PÁRO O CARRO E DOU-TE UMA TAREIA! — Gritou o meu pai exaltado.
- Como tem feito sempre que me encontra de ressaca? E diga-me lá, pai, quando é que isso resultou? — Revirei os olhos arrogantemente.
- Valerie, aconselho-te a calares-te e a meteres os fones nos ouvidos antes que piores as coisas para ti. — Disse a minha mãe.
E eu assim fiz, não porque ela mo "aconselhou" mas porque não os queria ouvir mais. Podem achar que sou mimada mas a verdade era que eles nunca estiveram lá para mim. Nem antes do acidente que matou o Kieran, nem depois, quando me tornei uma alcóolica. Desde os meus 14 anos que bebia. Idade estranha para começar a beber, não é? E querem saber o pior? Eu chegava todas as noites a casa perdida de bêbeda e só um ano depois é que os meus pais descobriram que eu bebia e que era uma alcóolica. Mesmo assim, nunca estiveram lá a falar comigo, a tentar perceber o porquê de eu ter começado a beber. Disseram apenas "está a ficar igual ao irmão" e ignoraram. Subitamente, arranjaram solução para o meu problema: o colégio interno. Diziam que eu não era digna de ser sua filha. Esqueciam-se do pormenor que a culpa do Kieran estar morto era deles. Se eles não nos tivessem obrigado a ir àquela merda de ricos, ele ainda estaria aqui comigo. Dava por mim a pensar, muitas vezes, como seria se o meu pai não tivesse virado o carro e o camião tivesse batido de frente no nosso carro, matando os meus pais e não o meu irmão. Será que eu seria feliz se isso tivesse acontecido? Uma coisa era certa: eu não seria alcóolica se isso tivesse acontecido.
- Chegámos. — Disse o meu pai, friamente, olhando-me pelo espelho retrovisor.
Saí do carro e tirei as minhas coisas da bagageira.
- A partir daqui estás sozinha. Eu e a tua mãe temos uma reunião daqui a meia hora e não nos podemos atrasar. Porta-te bem. — Disse o meu pai. E o cínico ainda teve a lata de me dar um beijo na testa como se fosse um pai muito cuidadoso. Claro, a minha mãe seguiu-lhe o exemplo, provando que as aparências importavam mais do que qualquer outra coisa na vida deles.
Peguei nas minhas coisas e fui até ao edifício que tinha escrito em letras bem grandes "SECRETARIA E GABINETE DO DIRETOR". Aquele colégio era sinistro. Parecia um castelo daqueles dos filmes de terror. Ainda assim, tinha o seu encanto. Ou então era o meu lado gótico a falar.
- Boa tarde. Eu estou inscrita aqui e acabei de chegar... Gostaria de saber o meu quarto... — Disse à rececionista que era uma mulher gordinha, de pele enrugada, cabelos brancos e com uns óculos pretos na cara. Devia ter 60 anos ou mais... — O meu nome é Valerie Stark.
A mulher começou a remexer em papéis e, ao fim de alguns minutos, entregou-me alguns, com um sorriso.
- Tens aí um mapa da escola, o teu horário, o código do teu cacifo, a lista de professores e... — Ela remexeu numa gaveta. — Aqui tens a chave do teu quarto. Vais ter uma companheira de quarto, espero que se dêem bem! Boa sorte.
- Obrigada.
E saí, sem querer dar mais conversa à mulher. Era impressionante como os meus pais nem se dignaram a ir ver onde eu ia dormir nem se ficaria em boas mãos. Não admira que eu fosse tão má em casa. Com uns pais assim, não havia maneira de ser simpática. Quando o Kieran era vivo, eu era simpática e responsável, assim como compreensiva e divertida. Mas ele morreu e eu fiquei sozinha a aturar as merdas deles sem qualquer apoio de fora. Subitamente uma imagem dos meus amigos Castian e Chloe — os meus dois únicos amigos de casa — veio à minha mente. Eles sempre me apoiaram e, depois da morte do meu irmão, eles tentavam manter-me sóbria por uma semana... Claro, eles só podiam passar os dias comigo e, então, à noite eu bebia para compensar porque não aguentava mais a dor. Ainda assim, eles nunca pararam de tentar. Será que eles me iriam visitar ao colégio? Eles não se foram despedir de mim... Provavelmente os meus pais não deixaram. Eles não queriam que se soubesse que a agora-única-filha deles ia para um colégio interno "redimir-se" e não iriam permitir que os meus melhores amigos fossem despedir-se. Só espero que eles me venham visitar...
Finalmente encontrei o meu quarto, depois de desistir de tentar orientar-me pelo mapa que me haviam dado, e entrei. Estava vazio. Será que a minha companheira de quarto também era nova e ainda não tinha chegado? Que se lixe, eu fico com a cama ao lado da janela. Meti a mala junto à minha nova cama e colei as minhas fotografias com o meu irmão na parede em cima desta. Decidi que iria arrumar a minha roupa mais tarde. O meu único medo era que alguém aparecesse e me mexesse na mala, encontrando, assim, as minhas bebidas. Eu não ia aguentar sem as bebidas...
Nesse momento, uma rapariga de cabelo preto corrido, olhos cor de esmeralda e pele branca entrou no quarto. E depois ficou ali em pé, a olhar para mim com receio. Já me tinha habituado. Desde que fizera o piercing na sobrancelha que as pessoas me olhavam assim.
- Ouve, vais ficar aí a olhar para mim com medo ou vais apresentar-te? Não é por mal mas isto de sermos companheiras de quarto não vai resultar se não falarmos. — Tentei ser simpática. Claro que falhei redondamente. Estava tão habituada a só conviver com os meus pais que já não sabia ser simpática com as pessoas. Não, eu tinha de voltar a ser quem era, a menina que o Kieran adorava.
-Claro, desculpa. Sou a Deborah, mas podes chamar-me Deb. Não me chames Debbie, é horrível. — Ela riu. Parecia simpática. Não era o Castian ou a Chloe mas era simpática. Pelo menos isso! Pensava que ia calhar com uma cabra qualquer.
- Sou a Valerie, mas podes chamar-me Val. Nunca me chames V. Só o meu irmão é que me chamava isso. — Avisei. — És nova aqui?
- Oh, não. Na verdade, estou aqui há dois anos. A minha companheira de quarto foi-se embora e eles decidiram mudar-me de quarto, sabe-se lá porquê. Seja como for, vais gostar do colégio. Não é assim tão mau desde que te mantenhas longe da Amber e das cabras das suas amigas, para não lhes chamar pior. — Sorriu amargurosamente.
- Quem são elas?
- Oh, tu sabes... As barbies da escola. Mas vá, agora somos companheiras de quarto por isso vou-te mostrar a escola. — Disse ela e começou a puxar-me pela mão.
- Não vais buscar as tuas coisas? — Perguntei, hesitante.
- Não te preocupes, eu depois trago. Vá, vamos!
E voltou a puxar-me. Desta vez segui-a. Quando estávamos a chegar ao fim do corredor e a virar a esquina, um grupo de cinco miúdas, vestidas que nem umas barbies, veio contra nós.
- Oh, Debbie, arranjaste uma nova amiga, que bom! — Disse uma loira arruivada, ironicamente.
- Vai dar o cú pra esquina, Amber. — Respondeu a Deborah, com desprezo. — Não tens mais nenhum gajo que rodar? Não me digas que já déste pra todos!
- Vê lá como falas, ratazana. E já disseste à tua nova amiga porque é que estás aqui? Já lhe contaste que foste acusada de homicídio e vieste para aqui pra não ires pra prisão? — Perguntou a Amber, com um sorriso mesquinho.
- Amber, se não calas essa boca nojenta, juro que te meto na morgue. — Ameaçou a Deb mas, ao olhá-la nos olhos, pude ver que ela não estava a falar a sério.
- Cala-te, assassina. — E virou-se para mim. — E tu, góticazinha? Porque é que vieste para aqui? Vá, diz-nos lá. Mataste alguém? Quem foi? Os teus pais? O teu irmão?
E aí, foi mais forte que eu e cuspi na cara daquela loira arruivada. Ela não devia ter referido o meu irmão daquela maneira. Estava-me a controlar imenso para não dar um murro naquela cabra nojenta porque, honestamente, apetecia-me parti-la ao meio.
- VACA ORDINÁRIA! COMO TE ATREVES?! SABES QUEM EU... — Ela começou a gritar.
- Passa-se alguma coisa, Miss Cabrett? — Uma voz grave e profunda interrompeu a gritaria da Amber.
- Não, Diretor. Estávamos só de passagem. — Disse a Amber, fazendo um ar inocente.
- Ainda bem. Circulem, então. — Disse o homem.
O Diretor passou por nós, sorriu-me — mas porque raio é que ele me sorriu? — e foi-se embora.
- Isto não fica assim góticazinha. — Disse a Amber e foi-se embora a abanar as pernas que nem uma vadia, seguida das suas amigas, desaparecendo de vista.
As minhas mãos ainda tremiam de raiva por aquela vaca. Quem é que ela pensava que era para referir assim o meu irmão? Só queria dar-lhe um murro e matar aquela vaca. Ela devia lavar a boca com lixívia antes de falar do Kieran. Merda. Preciso de uma bebida.
Oh irmão... Tu sempre estiveste aqui pra afastar miúdas como ela de mim. Tenho saudades disso. Tenho saudades de quando as mandavas ir comer palha pra cavalos porque nós eramos demasiado bons pra elas. Tenho saudades tuas...
Notas finais
Hope you liked it. Reescrevi isto mas ficou uma merda quando comparado ao original que o Nyah! fez o favor de estragar -.- Já pra não falar que ficou muito mais pequeno que o original, puta que pariu -.- Fiz o melhor que pude, espero que gostem...
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