Save Me
1 Im losing my only dream
Eu estava sonhando com patos ou algo parecido, e meu despertador tocou. Dez da manhã. Dois dias antes do show do Avenged Sevenfold. Eu e minha melhor amiga íamos com meus amigos mais velhos, pois para um menor de idade entrar sozinho em um show deles, tem que ter, no mínimo 16 anos. E nós ainda estávamos nos arrastados e enjoativos quinze anos. Então, meus grandes (grandes mesmo) amigos que eram os únicos avengers do meu condomínio (além de mim e de Camilla), se ofereceram para acompanhar a mim e a minha melhor amiga no show. Então íamos nós cinco: eu, Camilla, Felipe, André e João. Então, me levantei ainda cambaleante, pois devido a minha ansiedade idiota, eu havia conseguido dormir apenas 4 horas daquela noite, e fui tomar banho. E tinha que ser um belíssimo banho, pois eu ia passar dois dias na fila esperando os portões se abrirem, sem tomar banho. Argh. Tudo pelo Avenged, tudo mesmo.
Ao terminar o banho, fui até o quarto de minha mãe – que desde o dia que me dera aquele ingresso dizendo que eu não ia perder meu único sonho (Save me) era quase uma santa pra mim – e peguei toda e qualquer maquiagem preta existente naquela casa. Delineei, esfumacei, entrei em meu shorts rasgados e meu All Star de Deathbats que eu havia ganhado do Felipe, coloquei meu blusão da VU e deixei meu cabelo como estava. Eu nunca penteava aquela coisa; não precisava mesmo. Ouvi, então, a campainha tocando, alguém batendo na porta, alguém (ou alguéns?) gritando o meu nome, tudo ao mesmo tempo. Soltei uma gargalhada e corri para a porta.
- E aí, Dani das sombras, pronta para ir bater cabeça e tentar chamar a atenção do Gordo Vengeance? – Camilla riu.
- Cala boca, loira chata.
- E o cartaz, você fez?
- Sim, um pra mim e um para você, como o prometido.
Cáh me pediu para mostrar-lhe o meu cartaz. Abri-o, e mostrei. Ela sorriu devido à frase que havia nele: I just wanted a hug of only one of yours, or I’ll lose my only dream. So, please, Save me. (Eu só queria um abraço de cada um de vocês, ou perderei meu único sonho. Então, por favor, me salvem.) No cartaz de Cáh, tinha um trecho de Fiction, e o nome completo do Jimmy. Abracei Camilla, apertei a bochecha de André e sorri para Felipe. Aqueles olhos verdes dele ainda me matavam.
- Eu realmente queria meter o pé no acelerador e ir para aquela fila idiota, mas só irei conseguir fazer isso quando vocês trouxerem suas bundas para o banco do carro. – gritou João de dentro do carro. Então, corremos para dentro do carro e seguimos rumo até o local do show. E como se não bastasse, pegamos 1h30m de engarrafamento. Claro, meu Deus, nós estávamos em São Paulo. Quando chegamos, já havia umas dez pessoas na fila. Ah, droga, eu queria ser a primeira! Mas tudo bem, chegar em décimo primeiro já é alguma coisa. E outra, eu, Camilla e os meninos havíamos comprado pista Premium, ou seja, ficaríamos na frente, bem na frente do palco. Começamos a conversar com o pessoal que estava na nossa frente, e mais pessoas começaram a chegar.
Cantamos várias músicas, do A7x e de outras bandas também, comemos churros, pipoca, chocolate, tomamos refri, usamos o nojentíssimo banheiro químico do lado de fora... E cada vez mais, chegavam mais pessoas. Mais avengers. Mais sonhadores.
Quando eram dez da noite, todos nós começamos a armar nossas barracas.
- E só de pensar que vou ter que dormir com dois marmanjos na mesma barraca, já me dá um nó no estômago. Eca. Eu preferiria mil vezes dormir com a Dani em uma barraca. – Felipe me abraçou. Se ele soubesse como meu coração palpitava quando ele brincava assim... Eu acho que todos da nossa turma sabiam que eu tinha um leve tombo por ele. Menos ele, graças a Deus. Olhei para Cáh, e ela estava rindo, mas sabia exatamente o que eu estava sentindo. Aquela menina sabia de tudo da minha vida. Se ela quisesse me entregar para a polícia, ela tinha todas as provas do mundo.
- Ah, amorzinho, me dê pelo menos uma oportunidade de conquistá-lo. Vamos dormir de conchinha! – Aquela piada tinha que vir do João. Ele era tipo o ba dum tsss da turma.
- E eu vou ficar de vela? Claro que não! – André ria.
- Você pode participar também, gato. Até as meninas podem. – João deu uma piscadela para mim e para Camilla, que respondemos com um ‘Urgh’ sincronizado.
E então, as piadas foram rolando, as barracas se montando, as pessoas indo dormir, e, finalmente, chegou nossa vez de recuarmos para nossas barracas. Os meninos em uma, eu e Camilla em outra. Nós duas rapidamente apagamos, claro. Tinha se passado apenas um dia, mas estávamos exaustas. E eu repetia: Tudo por eles, tudo pelo Avenged.
O calor tomava conta de mim. Olhei para o lado e Camilla já tinha se levantado. Vadia. Ela prometera que iria me acordar assim que acordasse. Ouvia todo mundo gritando o coro de Gunslinger, então saltei para fora da barraca. Felipe havia conseguido um violão de não sei de onde e não sei com quem (e eu tinha certeza que aquele não era o violão dele), mas ali estava ele, lindo, e tocando.
- Bom dia, Feia Adormecida! – gritou Camilla pra mim.
- Shiu! – eu fiz. Eu queria ouvir cada acorde que Felipe tocava.
Fiquei ali, em silêncio, ouvindo, enquanto Cáh me passava água, escova e pasta de dente, uma barrinha de cereal e uma lata de Coca. Tomei meu “café do meio dia”, escovei meus dentes, e me sentei perto dos meninos e de Cáh. Então, ele começou a tocar Dear God. No meio da introdução, para minha surpresa, ele parou, sorriu para mim, e disse:
- Dá pra você me ajudar aqui? Minha garganta ta meio dolorida, sabe como é...
- Er... Eu? – respondi.
- Nãããão, Danielle, minha avó! – Camilla gritou ao meu lado. E depois, sussurrou ao meu ouvido – Vai logo, sua idiota.
Com meu coração palpitando na beira da garganta, sentei-me ao lado de Felipe, que logo reiniciou a música, um tom mais alto, claro. Cantamos, rimos, comemos comida gelada, brincamos o dia inteiro, mas a ansiedade fazia o tempo se arrastar, e parecia que aqueles portões nunca iam se abrir.
Finalmente eram meia-noite. Todos estavam recuando para as suas barracas, e no dia seguinte a mãe de André vinha pegar as barracas, as mochilas, para não termos que carregar peso durante o show.
Eu estava dentro de minha barraca, às três da manhã, segundo meu relógio, sem conseguir dormir, e imaginando como seria o show.
Ouvi alguém bater na “porta” da barraca, e depois ouvi uma voz me chamar.
- Dani? – Felipe sussurrava. Corri para abrir a porta, e ele segurava um pote de Nutella, com duas colheres na mão.
- Você ta querendo me engordar no meio da noite? – apontei para a Nutella, e ele riu.
- Só queria conversar. Eu não to conseguindo dormir, e eu tinha quase certeza que você estava acordada. Eu to errado?
- Não, não – dei uma risadinha nervosa -, eu estava acordada sim. Ansiosa para o show, sabe como é, não é?
- Claro, claro.
Ficamos conversando um bom tempo. Eu já estava empanturrada de Nutella e Coca, quando paramos de rir de alguma piada sobre o pacotão do Matt, e ficou um silêncio sem fim. Felipe me fitou com seus olhos cor de esmeralda, chegou mais perto, ajeitou uma mecha dos meus cabelos pretos, fez cafuné na parte raspada e roxa da direita, e sem eu perceber, meus lábios estavam colados aos seus. Nossas línguas estavam em um combate interminável, e então, me vi com falta de ar. Empurrei Felipe carinhosamente, e respirei loucamente. Ele riu de minha falta de ar.
- O... que... foi... isso? – consegui dizer em meio a minhas puxadas desesperadas de ar.
- Um beijo. – ele concluiu, passando seus lábios pelos meus snakebits. – Um beijo que e já queria ter lhe dado há muito tempo. – ele sorriu para mim, e senti seus olhos verdes esquentarem minhas bochechas.
- Caramba. – foi só o que eu consegui dizer.
- É. – ele respondeu, e me beijou novamente.Quando deram cinco e meia da manhã, eu e Felipe fomos dormir. Eu, entrando em minha barraca, sorrindo timidamente para ele. Ele, jogando um beijo e dando uma piscadela para mim. É, eu pensei, o dia de hoje irá ser longo. Longo e feliz.
- Dani... DANI CARAMBA! – Camilla me balançava, tentando me acordar. A primeira coisa que pensei ao ver o desespero dela foi que os portões haviam se aberto, e que tinha dado tudo errado.
- MEU DEUS, OS PORTÕES, QUE HORAS... QUE HORAS SÃO? CAMILLA!
- Calma! Os portões ainda estão fechados, bobinha. É que eu estou tentando te acordar a séculos, a mãe do Andre já está ai para pegar as barracas.
- Que horas são? – perguntei confusa.
- Quatro e meia da tarde. – Cáh sorriu para mim.
Pulei da barraca, fui escovar meus dentes e refazer minha maquiagem, que – graças a Deus – Cáh havia trazido.
A mãe de André levou as barracas e todo o bagulho a mais que nós tínhamos trazido, e oh Jesus, já eram cinco da tarde! Faltavam exatamente duas horas para os portões se abrirem, e três para o show começar.
- Faltam três horas... – olhei para Camilla.
- É – ela sorriu para mim.
Eu estava a três horas de distância do meu sonho. Ah, três horas. Eu estava definitivamente viajando, quando senti alguém me abraçar por trás, e voltei à realidade.
- Oi – Felipe disse, me beijando na bochecha.
- E aí? – eu me virei para poder envolver seu pescoço com meus braços.
- Sabe Camilla – gritou André -, eu acho que está rolando um clima por aqui...
- Sabe que eu também acho? – Camilla concordou.E então a zoação comigo e com Felipe começou.
Eu estava apreensiva. Faltavam quinze minutos para os portões se abrirem. Felipe tentava me acalmar com seus beijos, mas não conseguia. Piadas não tinham graça, as coisas não tinham cor. Eu precisava passar por aquele portão. Dez minutos. Cinco. E então, os portões se abriram. Eu, Cáh, Felipe, André e João nos demos as mãos, e corremos. Corremos como se alguém estivesse morrendo, como se fosse o fim do mundo, como se correr fosse a última saída para um problema enorme. Corremos, corremos. Eu estava com falta de ar, mas pensei Que se foda, e continuei correndo. Chegamos bem na frente do palco. Conseguimos. Agora era só esperar começar. Agarrei mais forte meu cartaz. Tinha que dar tudo certo. Em uma vida de quinze anos de azar intenso, uma coisa pelo menos tinha que dar certo. Houve o show de abertura de meia hora de uma banda que eu não me recordo o nome. Eu não me recordava nem o meu. Todos estavam curtindo a boa música, e eu só conseguia pensar em uma coisa: eu, abraçando o Matt, o Johnny, o Brian, o Arin... O Zacky. A banda de abertura se retirou, o pessoal do apoio começou a organizar a bateria, as palhetas, os microfones... Acho que vi de relance os irmãos Berry, mas só acho. E então, tudo escureceu. As luzes apagaram. E começou a introdução de Nightmare. Todos estavam loucos, gritando, e antes, eu pensei que essa fosse ser minha reação. Mas eu apenas estava ali, olhando, esperando eles entrarem, parada, de boca aberta. E então, o show começou. Percebi que tudo havia valido a pena. Dormir no chão, almoçar barras de cereal, ficar sem banho, usar banheiro químico, ficar com insônia... Tudo. E percebi também, que ali, nada mais me importava. O frio, as pessoas me empurrando, os braços do Felipe na minha cintura. Nada me importava. Eu estava ali, a alguns metros de distancia dos verdadeiros amores da minha vida. Dos meus ídolos. Quando vi que Matt ia parar para ‘conversar’ conosco, cutuquei Felipe, que logo me colocou sentada em seus ombros. Abri meu cartaz, o ergui e pensei: seja o que Deus quiser.Matt olhou para mim. Eu sorri. Ele mandou o Zacky – MEU DEUS, O ZACKY – ler o meu cartaz. Zacky leu, riu, e disse: “Você quer um abraço da gente?” Eu assenti apreensiva. Para minha surpresa e total felicidade, Matt mandou os seguranças me ajudarem a subir, dizendo “Nós não vamos deixar você perder seu único sonho, ok?”. Ah, aí sim eu gritei um OH MY FUCKING GOD, quando os seguranças vieram me pegar na beirada da grade que corta a multidão bem no centro. Eu estava do lado esquerdo, é claro. O lado que o Zacky ficava.Deixei o cartaz com Cáh, que gritava “sua vaca sortuda” para mim, e subi no palco.
É incrível, parece que não existe ninguém além de você e eles ali. Parece que eu não estava enxergando a multidão que ali havia. Não pensei duas vezes, e fui, timidamente, agarrar a – sim, enorme – cintura de Zachary. O braço da guitarra dele estava me machucando um pouco. Perfeito, eu esperava que ficassem marcas. Eu ia adorar marcas da guitarra do Zacky em mim. Então, soltei Zacky e olhei dentro de seus olhos. Então, ele disse um “oi” para mim. Finalmente eu percebi que era real, que eu estava abraçando Zachary James Baker, que eu estava em um show do Avenged Sevenfold, que meu sonho havia se realizado. Não consegui me conter, ou conter minhas lágrimas. O jorro de declarações que veio meio enrolado da minha garganta era a coisa mais verdadeira que eu já havia dito em toda a minha vida. “Eu amo vocês, vocês são minha vida, obrigada por tudo, eu amo vocês, eu amo vocês... Ah, eu estou chorando, droga. Desculpe-me, eu te amo Zacky, ah!”. Matt, todo fofo, percebeu que eu estava em um ataque convulsivo de lágrimas, e me abraçou, por cima do abraço de Zacky. Depois, vieram o Johnny e o Brian, e por último, com sua timidez, chamado por Matt e por mim, Arin. Eu estava em um abraço coletivo com o Avenged Sevenfold. Eu estava no meu paraíso particular. Eu nunca estive melhor na minha vida, e tudo o que eu conseguia fazer era chorar e dizer que amava cada um deles.Finalmente, consegui me controlar, e Matt perguntou meu nome.
- Danielle – respondi, rindo e enxugando as lágrimas que haviam ali. Rir; era isso que eu devia fazer! Aquele era o momento mais feliz da minha vida, e eu estava chorando? Poupe-me.
Eu ainda estava agarrada no Zacky, mas soltei-o e fui abraçar cada um deles, e agradecer. Matt perguntou se eu estava feliz, e eu respondi que eu poderia morrer que eu morreria muito bem, que eu não precisava de mais nada nessa vida. Mas como nada nessa vida são apenas flores, eu ouvi os acordes iniciais de Second Heartbeat, que definitivamente não fazia parte da playlist daquela turnê. Abri meus olhos, e me apressei para desligar o despertador do meu celular. Claro, era apenas um sonho. O sonho mais intenso e mais lindo que eu já havia tido na minha vida. Senti um nó no estômago e uma frustração por não ter sido real. Meus olhos se encheram de lágrimas, dei um soco na parede e me levantei para mais um dia idiota da minha vida idiota. De uma coisa eu tinha certeza: eu iria lutar até o fim. Pois eu faria tudo por eles. Tudo pelo Avenged.
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