Savant
2 A Colina de Woodshire
Quando eu era criança, em uma das pequenas colinas que ladeavam os campos do pacato condado de Woodshire, uma coisa muito estranha aconteceu. Eu tinha apenas dez anos naquela época, mas eu me lembro de cada detalhe como se tivesse acontecido ontem. Nós vivíamos em uma fazenda, herança de família, não muito distante do vilarejo. Meus pais estavam visitando a cidade grande naquele dia, e no grande casarão estávamos somente eu, meus avós, a cozinheira gorda e a criada. No dia anterior, a criada servira um chá com bolo de limão que minha avó ganhara de uma amiga do vilarejo, meu avô nos contou algumas velhas histórias de peixeiro e a cozinheira, em um momento de descuido ou de loucura, quebrara um ovo dentro do cesto de roupas. Fomos dormir cedo, como fazíamos em todos os sábados do verão, eu em minha camisola de algodão e vovó em seu calção.
Lembro-me que na manhã seguinte acordei com um grito longínquo. Alguma mulher desesperada corria pelo condado pedindo por socorro aos berros (depois eu soube que era a mãe de um amigo de colégio, louca de pedra) com uma criança correndo ao seu lado. Levantei-me assustada, calcei os sapatos de feltro e desci as escadas para me deparar com vovó a passos rápidos em direção à porta da frente. Não muito a frente, um aglomerado de pessoas seguia do vilarejo para o meio das colinas ao norte da nossa fazenda, com expressões de susto no rosto e com pás e podões em punho. Vovó me disse para ficar dentro de casa, quase gritando, mas minha teimosia e curiosidade me levaram também para fora. Vovô, curioso como eu, pegou-me pela mão e, juntos, seguimos com a população.
Pequenos montes e colinas separavam o condado e o vilarejo do restante do mundo, como uma muralha, e algumas árvores e pequenos bosques despontavam em verde naquela época do ano. Aquela área me era muito conhecida, pois eu me lembro de sair para brincar com o resto das crianças do vilarejo depois das aulas matinais. Porém, nunca vira tanta gente aglomerada por lá ao mesmo tempo. Antes mesmo de me perguntar o motivo de tanto alvoroço, de longe pude ver. No topo de uma das colinas, ao lado de uma árvore tão grande e verde, uma porta imensa havia surgido. Seu tamanho ultrapassava o da grande árvore. Parecia ser feita de algum material reluzente, pois estava refletindo a luz do sol daquela manhã. Era uma visão tão magnífica. Conforme chegávamos mais perto da colina, pude ver que ela era toda ornamentada, do topo á sua base, com belas figuras humanas torcidas e também com o que pareciam ser animais que eu não conhecia.
Eu percebi que alguns olhavam maravilhados para a imensa porta, boquiabertas de surpresa, ao mesmo tempo em que alguns semblantes deixavam transparecer apreensão. Eu estava curiosa, me perguntando como aquela grande estrutura havia chegado até ali, porque na manhã anterior a colina era somente mais uma dentre muitas. Lembro-me que minha avó nos alcançara em algum momento, dando a chance para que meu avô me deixasse em sua companhia e fosse sozinho analisar aquela porta de perto. Com ele também foi o padeiro Gordon, o açougueiro rechonchudo, um carpinteiro do vilarejo e também o Padre Atkins. Eu nunca gostara muito do padre Atkins, ele se achava o dono da verdade, bem como o governante do vilarejo. O prefeito há muito morrera e a população decidiu por não eleger ninguém, apesar de o irmão do prefeito (seu vice) ainda usar o prédio da prefeitura como moradia.
A palavra do padre era a que valia para aqueles que iam à missa aos domingos (o que somava quase toda a população do vilarejo). Aqui e ali algumas senhoras já se encontravam devidamente vestidas para comparecer à missa daquele dia, mas como ainda era muito cedo, a grande maioria das pessoas ainda vestiam pijamas, assim como eu. O próprio padre estava metido em um roupão azul puído e corria em direção à grande porta benzendo-se com o sinal da cruz. De longe pude ver o meu avô bater com os nós dos dedos na superfície da porta enquanto o padeiro e o carpinteiro corriam até o outro lado dela para ver se lá tinha alguma coisa, mas não tinha. A porta, inclusive, não trazia nenhum vestígio de uma maçaneta. Ela havia aparecido ali sem ninguém notar, aparentemente sem produzir ruído ou barulho, e agora se impunha, reluzente, perante os cidadãos de Woodshire.
Durante longos dias o único assunto que corria de boca em boca dizia respeito à grande porta da colina. Na missa o padre Atkins adorava pregar que aquela porta era a passagem enviada por Deus para que seu Filho retornasse à vida mundana visando o que ele gostava de chamar de A Grande Salvação. As beatas adoravam a ideia de um Jesus Cristo renascido retornar para a grande expiação da raça humana, em que todos os seus pecados seriam perdoados. Meu avô achava uma balela. De minha avó só se ouvia o silêncio. As crianças brincavam de tacar pedrinhas na superfície da porta para ver se com a insistência ela se abria, mas se cansaram depois de inúmeras tentativas. Todos os dias um grupo seleto de pessoas, no qual meu avô se incluiu por livre e espontânea vontade, se dirigia até a porta para verificar se algo havia mudado ou se ela havia sumido, mas podia fazer chuva ou sol, ela continuava lá.
Não me lembro exatamente quantos dias ou semanas se passaram antes que algo de diferente acontecesse. Mas lembro-me que foi em algum dia de semana, pois eu estava voltando da escola quando comecei a ouvir um novo burburinho correndo solto entre as línguas. Tinha a ver com a porta, eu sabia, porque por mais que eu não parasse para perguntar enquanto voltava para o casarão, eu via todas as pessoas na rua apontando para as colinas e gesticulando piamente. Saí correndo até o fim do vilarejo, curiosa e com a circulação alterada. Quando cheguei até o sopé da colina, muitas pessoas já se juntavam em uma grande massa iluminada fortemente por algo que saía da grande porta, agora entreaberta. Eu tive de presumir que estava entreaberta, porque ela emanava uma luz tão intensa e brilhante ao longo de sua altura que quase não dava para ver suas extremidades.
O burburinho se tornara quase uma gritaria. Eu nunca vira o pacato povo de Woodshire tão excitado com algo. As crianças corriam em volta da colina para ver se a porta também se abrira daquele lado, mas uma delas me contara que lá ela ainda encontrava-se fechada. Meu avô e meus pais (que haviam retornado da cidade) procuravam por mim entre o desespero das pessoas enquanto eu empurrava algumas delas para poder chegar mais perto. Ali muitos estavam ajoelhados perante o milagre que presenciavam e as beatas rezavam e clamavam aos céus com os braços lançados para o alto enquanto choravam. O padre Atkins vomitava palavras tão rapidamente que até Jesus Cristo se assustaria com sua loucura se naquele momento voltasse mesmo para a vida através daquela passagem. Mas não era Cristo renascido que dali saíra.
Aquele frenesi descomunal aos poucos deu lugar a um silêncio absoluto quando todos pararam para observar o que acontecia lá na frente. A luminosidade diminuiu quase pela metade conforme a porta foi se abrindo mais e mais. A expectativa fora tão grande naquele momento que até mesmo eu senti como se meus batimentos cardíacos tivessem cessado. Notei que eu levava uma mão ao peito e a outra até a boca entreaberta de surpresa, não conseguindo acreditar no que estava acontecendo. Eu até cheguei a indagar, hoje me recordo, se não era mesmo algum milagre dos céus que Woodshire estivesse presenciando. Fosse ou não obra de algum Deus, aquela porta entreaberta deu passagem para duas silhuetas que aos poucos iam se tornando nítidas. Tudo não durou mais que alguns segundos, mas pra todo mundo pareceu uma eternidade. Eram duas pessoas que de lá saíram. Duas mulheres. O silencio foi preenchido novamente pelo burburinho anterior, mas os clamores e rezas foram substituídos por um bate-boca generalizado. Quem eram aquelas mulheres? O que queriam? De onde teriam surgido? Eram algumas dos questionamentos que surgiram.
As mulheres nos observavam com olhos interessados, como se nos examinassem lá de cima. De súbito tive uma surpresa ainda maior quando percebi que elas eram muito altas, mais altas que uma pessoa comum, pois a porta não era tão grande para elas como parecia para nós. Elas apontaram para nós e trocaram olhares e algumas palavras entre si enquanto todo mundo assistia. Estavam vestidas de uma maneira tão engraçada, pude perceber. Não usavam vestidos, mantas ou vestes comuns, nem mesmo calçavam sapatos ou sandálias. Estavam vestidas com uma roupagem bastante clara, de um branco azulado, que percorria o corpo todo como uma peça única que envolvia os pés e as mãos e subia até o tronco, terminando em um aro preto que circundava o pescoço como um colar. Seus cabelos caiam soltos pelos ombros, mas tinham uma coloração tão estranha que eu não soube definir. Eram de uma cor que eu nunca havia visto com meus próprios olhos; os fios pareciam alternar entre o branco, o azul e o lilás e eram tão intensos que pareciam emanar uma luminosidade própria.
O vilarejo de Woodshire, tão assustado, continuava a assistir àquela cena sem ousar sair do lugar, porque as duas mulheres começaram a conversar. Elas falavam baixo, bem próximas entre si, gesticulando e apontando para nós e para a porta. Uma delas levou a palma de uma das mãos até a superfície da porta, que havia se fechado, e sem nenhuma tentativa de empurrá-la voltou o olhar para a companheira, que parecia estar apreensiva. Novamente lançaram olhares para nós, mas não mais com interesse, mas com temor. A outra começou a observar bem onde estavam, olhando para o horizonte que ia além das pessoas, em direção ao vilarejo e à fazenda. Continuaram apontando, dialogando e gesticulando, até que o padre Atkins, cansado daquela pantomima e visivelmente abalado por não se encontrar frente a frente com o seu salvador, resolveu quebrar seu silêncio. De onde eu estava pude ver que as duas mulheres reagiram com cautela perante a aproximação do padre, que começou a falar. Ele perguntava quem eram elas e o que queriam, mas elas pareciam não entender.
A visão do padre Atkins ao lado das duas fora no mínimo interessante. Ele estava entre os mais altos dos homens do vilarejo, mas sua estatura quase não alcançava o torso daquelas altas e belas mulheres. Eram tão grandes e estranhas que até pareciam pertencer a outro mundo. E foi assim que ficaram conhecidas pelo povo de Woodshire durante o tempo em que lá permaneceram. Depois que desceram do alto da colina, aparentemente impossibilitadas de voltar para dentro daquela porta misteriosa, elas se alojaram na fazenda de minha família. Lembro-me de ver minha avó fazer gestos tentando comunicar-se com as duas. Elas pareciam pedir por algum lugar em que pudessem permanecer por um tempo, pois faziam os gestos clássicos de quem come com um talher e de quem dorme. Minha avó, olhando para cima, em direção a suas cabeças e olhos, conseguiu fazer com que entendessem que aquele grande casarão perto da colina pertencia a ela e que lá elas poderiam ficar. As pessoas não desgrudaram a atenção daquelas duas enquanto elas se locomoviam, pois seus grandes passos somavam quase três passos de uma pessoa comum. Demorou cerca de três dias até que o acampamento que montaram do lado de fora da fazenda se desfizesse. As pessoas queriam ver como viviam aquelas mulheres, o que faziam, como se comportavam.
Todos os dias uma delas ia até a imensa porta no topo da colina e realizava o mesmo gesto que vimos no dia de sua chegada: espalmava uma das mãos na superfície da porta sem pressioná-la, e voltava para a fazenda com uma expressão triste no rosto. Eu deduzi que aquilo significava sua tentativa de abrir a passagem de volta para o local de onde vieram, mas as tentativas só se mostravam infrutíferas. Nós convivemos com aquelas duas durante três exatas semanas. Durante esse tempo eu não perdi oportunidades de conhecê-las melhor. Eu as observava, maravilhada, enquanto comiam, dormiam e conversavam. Pude reparar que os olhos daquelas duas eram muito diferentes e definitivamente não pertenciam a humanos. Eles eram grandes e ligeiramente estreitos, a coloração também era uma que eu não soube reconhecer. Suas fisionomias eram muito parecidas; se passariam por gêmeas se não fosse um traço aqui e outro ali os responsáveis por diferenciar uma da outra. Até hoje me lembro o quão belos eram seus rostos. Nariz esguio, boca pequena. Seus hábitos também eram muito diferentes, apesar de precisarem comer e dormir como nós. Elas não precisavam tomar banho, não trocavam os trajes estranhos, não exalavam odor algum e pareciam não necessitar de mais do que uma refeição por dia.
Em certa ocasião, após perder o medo inicial que eu sentia em sua presença, tentei me comunicar com elas, porque até então somente minha avó o fazia (a criada, não apareceu para trabalhar durante o tempo em que ficaram em nossa casa). Do escritório de meu pai roubei alguns papeis e canetas, materiais estes que elas pareciam conhecer, porque souberam usá-los muito bem. Lembro de ter escrito meu nome em uma folha enquanto apontava para meu próprio peito, pronunciando as sílabas pausadamente. Ambas souberam pronunciar e pareciam entender que aquela era eu. Elas repetiram o processo, mas escreveram em uma caligrafia tão fina e simbólica que não pude compreender. E apesar de dizerem seus nomes logo após terem escrito, também não fui capaz de pronunciar. A língua que falavam era tão corrida e sem pausas que o meu ritmo humano não deu conta de acompanhar. Com certeza eram de outro mundo. O que elas falavam não era inglês, espanhol ou francês. Nem mesmo lembrava o latim. Na escola a gente aprendia algumas palavras desses idiomas, mas quem me disse que não falavam nenhuma delas foi o meu avô.
Em Woodshire algumas pessoas haviam deixado de viver uma vida que girava em torno das mulheres do outro mundo. A rotina no pacato vilarejo retomava o ritmo usual conforme os dias se desdobravam, mas muitos ainda estavam descrentes. O padre Atkins começou a ministrar missas diárias logo depois do surgimento das duas e passou a pregar que elas eram frutos do pecado, enviadas pelo demônio através da boca do inferno. Pelo jeito A Grande Salvação teria de esperar. Alguns ainda iam até os portões da fazenda perguntar como estavam as mulheres; os mais curiosos faziam perguntas mais diretas, mas todos só queriam o bem das grandes senhoras. Elas não fizeram mal algum para a minha família, e sou convicta de que o período em que permaneceram na fazenda foi o mai estranhamente agradável que eu pude presenciar enquanto lá vivi. Era tão fascinante conhecer uma cultura desconhecida através dos comportamentos e ensinamentos dos próprios nativos! Lembro-me de ter desejado que ambas sentissem o mesmo depois de partirem.
Ao final da terceira semana um último acontecimento serviu para fechar aquele ciclo da vida de Woodshire. Os garotos da escola brincavam ao redor da famosa colina quando viram o reaparecimento daquela intensa luminosidade que escapara por entre as folhas da grande porta da primeira vez que ela se abrira. Eles gritaram de emoção e dois ou três foram correndo chamar seus pais, tios e avós para ver que a porta se abrira novamente. Pude escutar os gritos de dentro do casarão e imediatamente soube que algo estava acontecendo. Vovó correu com meu avô aos calcanhares, querendo mais uma vez presenciar um novo fenômeno fantástico proporcionado por aquela porta. Ao descer as escadas, dei com as duas mulheres assustadas, uma olhando pra cara da outra e após para a minha cara, como se estivessem se perguntando o que estava acontecendo. Gesticulei para que me seguissem e também parti para fora da fazenda, em direção à colina. De longe elas puderam perceber do que se tratava, pois, por mais que eu estivesse à frente e não visse a expressão em seus rostos, consegui ouvir os suspiros e risos de alegria que elas soltaram.
Da passagem iluminada surgira um homem igualmente alto, vestido com a mesma roupagem clara e uniforme. Seus cabelos curtos eram da mesma coloração estranha que os delas, porém levemente mais escuros. Seus olhos sorriram de alegria ao ver a silhueta das duas praticamente correndo de encontro a ele. Lembro-me exatamente da emoção que senti ao ver que o cumprimento que eles trocaram era amplamente conhecido por nós: um abraço. Eu não soube dizer se eles eram irmãos, ou pai e filhas ou mesmo mães e filho, porque aparentavam ter a mesma idade e fisionomias, embora a expressão daquela criatura que parecia pertencer ao sexo masculino fosse mais marcante. Juntos eles pareciam tão superiores! Esguios, fortes e maduros. Pareciam completar um ao outro. O homem as conduzia para dentro da passagem sem ao menos olhar para os humanos que ficavam, quando elas se voltaram para mim e minha família, convidando-nos a se aproximar. Eu não hesitei em escalar a pequena colina, mas meus pais quase me seguraram. A única que subiu comigo foi minha avó, que precisou da ajuda de outras pessoas para não escorregar na grama.
Quando chegamos ao topo, pude perceber que éramos tão diminutos frente àqueles seres! As duas se ajoelharam em nossa frente e reproduziram um gesto que em qualquer lugar devia significar a mesma coisa: levaram suas mãos até nosso peito, aos nossos corações, e em seguida espalmaram os seus próprios. Sua casa, minha casa. E vice-versa. A porta abriu-se um pouco mais e, bem de perto, eu e minha avó tivemos uma visão que até hoje permanece gravada em minha memória como uma fotografia vívida e colorida. Do outro lado da passagem, um cenário se abriu para nós: logo depois do batente da grande porta, uma estrutura prateada se estendia como um curto túnel e depois dele uma paisagem magnífica se abria. Pude ver um campo dourado infinito que ia até onde meus olhos não podiam enxergar. Uma espécie de lago perfeitamente circular se fazia presente em meio ao campo, sua superfície inalterável refletia as cores do céu, que me lembrou a coloração desconhecida dos olhos daquelas mulheres. Bem no meio daquele lago se erguia uma pirâmide de quatro lados, como aquelas que eu aprendia nas aulas do colégio. Do que elas eram feitas e pra que serviam eu nunca descobri. Aquele campo dourado, o lago circular e a pirâmide foram tudo o que eu pude vislumbrar do que eu presumi ser o mundo deles.
Eu nunca soube de onde vieram ou como se chamavam. Nem mesmo minha avó ou o padre Atkins. Nunca soubemos como lá viviam, se tinham filhos, pais, irmãos ou avós. Nós também nunca soubemos o motivo de aquele grande portal ter aparecido em uma colina no pacato condado de Woodshire. Durante os demais anos de minha vida, reuni minhas crenças e valores. Hoje só consigo imaginar e indagar as razões daquela visita superior, daquela permanência em nosso casarão na antiga fazenda, hoje em ruínas. Meus pais e avós já não são viventes. Eu mesma não me encontro em estado muito diferente. Contudo, aquelas duas mulheres ainda vivem em meu coração, onde me tocaram. Nossa casa pertenceu a elas por três semanas, mas a casa delas foi minha morada por mais cinqüenta anos. Nunca me esquecerei de suas fisionomias ou de como soavam suas vozes e seu dialeto. Passei minha vida estudando outras civilizações e culturas, mas nunca me deparei com algo que ao menos se assemelhasse a existência daqueles seres. Entretanto, quando vi aquela porta se fechar e ser consumida pela intensa luminosidade até desaparecer diante de meus olhos, eu soube que seria a última vez que ouviria falar das mulheres do outro mundo, que sumiram pra nunca mais voltar.
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