Saumaurus - E os pecados Capitais
2 Capítulo 1
Era como um vulto passando rapidamente pelos corredores da escola. Um vulto moreno e careca que vinha na minha direção e gritava meu nome. Levantei rapidamente da cadeira do refeitório, olhei para Max, que estava olhando fixamente para frente com seus óculos ray-ban transparentes. Virei-me e dei de cara com meu pai parado a minha frente com cara de quem acabara de ver um fantasma.
“Temos que ir filho” dizia ele tentando parecer calmo, mesmo que não estivesse funcionando muito bem.
“Por que? O que o senhor está fazendo aqui?”
“Vim lhe buscar”.
“Agora? Pai o que está acontecendo? Para onde vamos?”
“Pra casa, Ué!” Dizia ele tentando parecer sarcástico.
“Mas ainda tenho três tempos de aula, não posso sair agora.”
“Já falei com a diretora da escola e ela liberou sua saída.”
Max olha para meu pai, que estava ficando cada vez mais pálido, afirma com a cabeça e diz pra eu ir com meu pai num tom bastante calmo, coisa que não era muito comum nele.
Concordei quando olhei para a face dos dois, que estavam bastantes nervosos, mas tentando manter a calma.
“Deve ser alguma coisa bastante importante, nunca visto eles desse jeito.” pensei
Todo mundo ao redor estava olhando para eles, eu quase não se importava mais, pois todo dia era a mesma coisa, parecia que tinham medo dele, ficavam o encarando, como se vissem a morte ao seu lado.
“O QUE VOCÊS ESTÃO OLHANDO? NÃO TEEM NADA MELHOR PARA FAZER NÃO?” gritou meu pai, quando percebeu que os estudantes os estavam encarando.
Ele me arrastava pelos corredores do colégio, como se estivessem fugindo de algo muito perigoso. Foram andando rapidamente, quase correndo, pelos corredores, chegaram no portão da escola, e quando pensava que as coisas não poderiam ficar mais estranhas, me engano, pois ficaram ainda mais estranhas quando deram de cara com o insuportável porteiro, Yúri, o tarado. Era assim que todo mundo o chamava, quando ele não estava por perto, já que ele ficava dando em cima de toda garota do colégio.
“Onde é que vocês pensam que vão?”.
Bira para em sua frente olhando aquele cabelo arrepiado cheio de gel, como se fosse um porco espinho. “Eu tenho permissão da diretora para levar o MEU FILHO embora!”
Começo a desconfiar da forma que seu pai olha para o porteiro.
“MAS ESSA É MINHA PORTARIA, SÓ ENTRA E SAI QUEM EU PERMITO!”” Se exalta Yúri.
“Pronto, isso não vai dar certo, cabeças iram rolar”.
“Filho, vai indo em direção ao carro enquanto eu converso com esse “gentil” cidadão.”
“Mas pai...” tento interferir, mas em vão, pois quando olho em seus olhos, não o reconheço, pareciam pura raiva e medo.
“Vai! Agora!” ordena ele.
Achar o carro não foi difícil, eu reconheço aquela caranga velha de qualquer lugar. Eu não entendia o motivo deles terem uma condição de vida elevada e mesmo assim seu pai insistir em faze-lo estudar em uma escola pública e andar nessa velharia móvel. Entro no carro e espero, espero, e espero mais um pouco, intermináveis 30 minutos se passam e nada do velho chegar. Então de repente ele escuta um barulho ensurdecedor, como se fosse uma pequena explosão, sai rapidamente do carro, preocupado com meu pai, decidido a ir em direção a escola mas avisto um velho careca correndo em minha direção.
“Que alivio”
“Eu mande você esperar no carro!” Diz ele esbaforido
“Que barulho foi esse? O que aconteceu?” Pergunto já quase entrando em desespero.
“Você ouviu?” Me olhando com uma cara de assustado, enquanto o suor corria pela sua careca. “Não era pra você ter ouvido!”
“Claro que eu ouvi! Acho que qualquer um no raio de 10 quilômetros ouviu.”
“Pode ter certeza que ninguém mais ouviu, agora entra no carro.”
Dirigindo feito um louco pelas ruas das Zonas Sul e Norte do Rio de Janeiro, sim nós moramos no Rio, a Cidade não tão Maravilhosa assim, mas isso não vem ao caso agora pois o que mais preocupante era o fato deles estarem a mil por hora. Ele conseguiu ir da Gávea, onde Kalu estuda, a Tijuca em tempo recorde. No caminho tento puxar assunto mas é em vão.
“Pai, o que está acontecendo? ... Pai? ... Vai mais devagar! ... Pai!?”
Chegando em casa ele vai direto para o seu escritório e se tranca lá. Vou vai para o meu quarto e tento descansar, mas tendo a sensação de que está sendo observado, além disso, tudo que aconteceu no dia até agora me deixara muito confuso, me fazendo não conseguir dormir. Então tento liga para Max para saber como as coisas andam na escola.
“O que você está fazendo? Era pra você estar com seu pai!” Ele fazendo com que ele começasse a se arrepender de ter ligado.
“O senhor estresse me trouxe pra casa e se trancou no escritório.”
“Espera que eu já estou chegando.” Ele desligou o telefone sem nem ao menos dar a oportunidade de perguntar o porquê dele estar vindo para minha casa.
“Filho, você vai precisar mudar de escola.” Aparece meu pai, igual a uma múmia na porta do meu quarto, com uma mochila na mão.
“Finalmente! Então, pra onde eu vou?”
“Uma espécie de reformatório.” Diz meu pai, jogando a mochila na cama e acabando com a única notícia boa do meu dia.
“O que? Isso só pode ser brincadeira! Cadê a câmera? Silvio Santos pode sair, já descobri a pegadinha!” Falo rindo, mas acabo trocando o sorriso por uma expressão mais seria pelo olhar do meu pai e percebi que ele não está brincando.
“Max já está lá em baixo te esperando, ele vai te explicar tudo no caminho.”
Quando desci as escadas vi Max, sentado no sofá verde musgo e distraído vendo Hora de Aventura.
Quando ele percebe sua presença, desliga a televisão e me olha atentamente descer da escada.
“Como você chego aqui tão rápido?”
“Isso não importa.” Olhando através de seus óculos para mim. “Entra no carro enquanto eu falo com seu pai.” Fala desviando o olhar para meu pai.
“Não! Eu tô cansado de ninguém me explicar o que está acontecendo! Só saio daqui quando me explicarem tudo!” Grito com eles e percebo que ambos ficaram assustados, algo em minha voz os fez ficarem realmente espantados, mas eu não voltei atrás, querendo uma explicação. “Anda! Alguém me explica o que está acontecendo aqui!”
“Bira, já está na hora dele saber. Você não pode protegê-lo pra sempre.”
“Eu sei Max, mas você bem sabe que eu não posso falar isso, pelo menos não aqui.”
“Então se despeça do seu pai, temos um longo caminho até São João de Meriti.”
“Que diabos de lugar é esse? E mesmo assim, não saio daqui sem uma explicação!”
“Eu já disse que te explicarei quando estivermos em outro lugar”
Fico assustado quando Max me olha por cima dos óculos.
“Tenho um amigo lá que pode nos ajudar” Diz virando-se para meu pai.
“Confio em você.”
Bira nos acompanhou até o carro, e quando entrei e fecha a porta me surpreendi ao ver o motorista. Ou melhor, motoristas.
“Que isso Max!?” – Grito em desespero.
Paralisado ao ver aqueles pés peludos e uma mão preta flutuando, eu a minha cabeça lentamente, como se fosse um filme de terror, para Max perguntando o que era... aquilo. Max me olha como se fosse um erro ele ter dito aquilo em voz alta, e quando percebo aquela mãozinha esta beliscando seu rosto tão forte, mas tão forte que parece que estão enfiando uma agulha imensa no seu rosto.
Dou um grito tão alto, que parecia que as janelas do carro iriam trincar. Virando para Max de novo e vejo que ele está rindo, apenas o ignora e volto a atenção ao meu pai que estava me olhando pela janela do carro com a mesma cara de preocupado.
E do nada ele sai da janela e vai para a frente do carro, colocando as duas mãos pra frente e sussurrando alguma coisa, e quando percebo o carro está sendo coberto por um manto amarelo que logo desaparece.
Olho para Max sem entender direito o que acabara de acontecer, que está olhando para frente como se aquilo que estava acontecendo fosse a coisa mais normal do mundo, bato em seu ombro olhando pra ele perguntando o que foi isso que aconteceu.
“Feitiço de proteção.” Responde ele como se aquilo fizesse o maior sentido do mundo.
Ele vê que eu estou com cara de quem não estou entendendo nada dá de ombros e diz que depois me explica. Dou de ombros também.
Meu pai aparece na janela do carro novamente, olha em meus olhos, onde posso ver que a única coisa que reflete lá é medo, nunca virá meu pai ter medo de algo.
“Vocês têm que ir agora! Não temos mais tempo. Prometa pra mim Max que vai cuidar do Kalu.”
–Pode deixar seu Bira.
Meu pai me puxa e dá um beijo na minha testa, após, dá um sinal para os seres motoristas que andem, assim deixamos meu pai para trás na casa.
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