Saudade não tem tradução
1 único
Mais um dia tornava-se noite e o acauã cantava seu canto triste e esquisito naquela vila esquecida por Deus.
Da porta de casa, Zoro suspirou.
Chegava a ser cômico pensar que alguém que se comunicou a vida toda por bufos e resmungos havia se transformado em um que agora levava o dia a base de suspiros saudosos.
Tudo graças a um certo loiro maldito.
A vida do jovem de cabelos esverdeados mudou completamente quando permitiu se apaixonar por Sanji, seu amigo de infância, e que não morava tão longe de sua casa, até porque parecia que vivia num dos mundos do Pequeno Príncipe, onde com meros passos você consegue dar uma volta no planeta.
Na verdade, Zoro estava sentindo na pele que seu mundo era mesmo pequeno, quando acordava e não via sombra daquele tarado em algum lugar. Havia se habituado com o cheiro de tabaco misturado a colônia, um odor que sempre sentia quando ele estava envolvido em seus braços. Naqueles dias que não o via, por Sanji ter viajado para capital a fim de passar as festas do final do ano com o seu pai, esse pensamento de que seria muito pequeno se não o conhecesse, impertinava sua mente.
Não era um rapaz de pensar muito, mas tinha que admitir que aquele sobrancelhas ao seu lado o ajudou a crescer espiritualmente. O sorriso cínico de quem gostava de tirar sarro dele, também o ajudou a se tornar mais esperto. Detestava as implicâncias e os inúmeros apelidos que Sanji lhe dava mas, lá no fundo gostava do som de sua risada.
Não ouvia “marimo” há um bom tempo. Na verdade, por todo aquele mês de dezembro. Cruzes, não tinha noção do quanto era carente.
‘’Quem dera se ele tivesse passado mais uma vez com sua mãe em vez do pai.’’ — Pegou-se murmurando baixinho enquanto observava a ave de rapina finalmente pegar sua presa. O loiro vivia dizendo que ele e o animal eram muito parecidos.
‘’É um bicho quieto e agourento feito você Marimo . Acho vocês estranhamente bonitos também. Esse ar de perigo que atrai a gente sabe ? ‘’ — Era o que o magrelo falava em meio a uma risadinha sem vergonha , como se quisesse elogiar mas fosse muito orgulhoso para isso.
Riu ao se lembrar disso, “ar de perigo”? Pois o que atraia Sanji a ele era o total oposto, na verdade, ao lado dele se sentia seguro. Não tinha como se sentir diferente quando o outro sorria tão espontaneamente e era sempre gentil.
Zoro tinha certeza que se tentasse simular um de seus sorrisos ia assustar mais que a cruz o diabo.
Talvez por serem muito parecidos em alguns pontos e bem diferentes em outros, que aquela relação se complementava. Como Yin e Yang, e na sua escuridão havia um feixe de luz, que estava presente na sua vida desde que conhecera certa criança franzina e de sobrancelhas enroladas brincando de bola sozinha.
A noite tornou-se fechada e quando Zoro percebeu , achou melhor entrar e cuidar da vida. Tinha outros afazeres além de ficar pensando naquele maldito afinal. Refletia que aquela era uma tarefa árdua pois, Sanji estava presente em todas as partes da sua rotina. Desde a manhã quando se encontravam no caminho para o colégio e o loiro distribuía suas marmitas na hora do intervalo , até a tarde quando este o acompanhava do dojo para casa , onde frequentemente desviavam do caminho e entravam no canavial. Nesses momentos , o jovem Roronoa sentia na pele a mão do afeto do loiro. A brisa que vinha espalhando o cheiro doce da cana caiana. O mesmo doce que sentia nos lábios de Sanji.
Talvez parar de pensar nele fosse difícil demais e ele devesse desistir.
O dia amanheceu com sua mãe o acordando para ajudar na faxina da casa. Era véspera de ano novo e a família receberia os parentes que vinham de longe descansar naquele ‘’ lugar tranquilo e natural ‘’. Zoro sempre revirava os olhos ao ouvir aquilo. Se gostavam tanto de natureza porque não se mudavam para lá? Mania de gente da cidade achar que dois dias no mato vai ser suficiente para alguma coisa.
Tirou a renda da naftalina, forrou as camas e a mesa com os ‘’ panos de festa ‘’ . Varreu a casa com vassoura fina e até ajudou a mãe a coser uma cortina branca nova para a sala de estar. E apesar de toda essa trabalheira , não conseguiu deixar de pensar em Sanji. Ria em momentos aleatórios imaginando o que o outro diria ao ver o rapaz que tanto gostava de chamar de fedorento e bagunceiro ajudando a mãe a costurar.
No amiudar do dia , a campainha tocou e Roronoa imaginou que eram os parentes chegando. Porém, abrindo a porta seus olhos se arregalaram ao cruzar com aquele olhar azulado que conhecia tão bem.
— Sobrancelhas você voltou ?! — disse mal conseguindo conter a alegria e num rompante pulando em cima daquele corpo esguio.
— Não recebeu minha carta idiota? Eu disse que voltaria para passar o ano novo contigo. — Sanji respondeu naquele ar irritadiço que escondia de forma bem pouco convincente seu carinho.
— Não recebi. Você disse que só voltaria em janeiro.
— Tive que voltar . Aquele velhote tava me deixando maluco! Além disso , — completou num tom levemente mais baixo — Eu estava morrendo de saudades de um certo musgo imbecil.
O rapaz apertava os olhos com força, enquanto tentava conter todo seu constrangimento por admitir que sentia falta de Zoro, mas viu que não deu certo quando escutou a risada alta — e que sentia muita falta — do Marimo dizendo o tempo todo que ele estava mais vermelho que tomate. Era esquisito namorarem e ainda não conseguirem se expressar da forma que se sentiam. Durante os dias com o velhote de merda, Sanji tentava conter aquele sentimento e dizia para si mesmo que nunca sentia a falta de ver um certo par de olhos castanhos. Insistia que era saudades da mãe ou a alegria de rever seu pai, mas aos poucos compreendeu que não.
Sentia saudades de Zoro.
Porque assim como acontecia com o Marimo, também acontecia com ele. Roronoa era o seu feixe de luz e se existisse a possibilidade de ele não se perder e não encontrá-lo jogando bola sozinho, aquela mudança nos fatos faria Sanji pequeno também. Seu horizonte seria menor que aquela cidade bucólica. Era engraçado pensar que encontrara o amor de sua vida justamente ali.
— Se eu soubesse que tu voltaria hoje teria comprado uns foguetes pra gente soltar juntos. Lembra que fazíamos isso quando éramos crianças ? — O garoto de cabelos verdes perguntou tirando o loiro de devaneio.
Sanji riu antes de responder
— Não seja por isso , vamos comprar e chamar Luffy , Nami e Usopp. Se a gente der sorte, o narigudo queima a bunda neles de novo. — Completou e Zoro riu daquela lembrança pensando que queria mesmo soltar foguetes. Precisaria da ajuda dos amigos para fazer uma fogueira também e até uns balões, quem sabe. Agora que Sanji estava ali consigo , seria capaz de fazer uma festa completa, tornar aquele Ano novo um verdadeiro São João que era a comemoração favorita do rapaz de olhos azuis.
Uma festa bonita e sincera feito o amor daqueles dois.
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