Quando Marinette abriu a porta no topo das escadas, ela não esperava se deparar com várias caixas de papelão empilhadas no chão quase a impedindo de entrar no quarto. Sua mente começou a compor diversas teorias no pequeno espaço de tempo em que ela levou para se esgueirar pela entrada e jogar sua bolsa na cadeira da escrivaninha. Um arrepio lhe percorreu a espinha ao se deparar com a pior das possibilidades:

Mudança.

“Mãe?” ela chamou ainda meio sem saber o que pensar “...Mãe?”

Do andar superior, ela ouviu os passos que sua mãe deu da cozinha até a base da escada. Apenas a voz dela subiu os degraus.

“O que aconteceu, Mari?”

“Q-Que caixas são essas aqui em cima?”

Ainda apreensiva, como se tocar na caixa fosse uma sentença para sua teoria se tornar realidade, Marinette manteve uma distancia de meio braço ao se aproximar e notou que todas estavam embaladas e quase estourando com todo o conteúdo que abrigavam. Ela olhou ao redor e depois de verificar que todos os seus pertences ainda estavam no lugar de costume, suspirou aliviada — tudo estava ali, na bagunça de sempre.

“Oh, é mesmo. Eu quase esqueci!” sua mãe apareceu pela porta no chão e cruzou os braços sobre o batente “Sua avó esta se mudando da casa antiga e ela achou que não seria justo vender as minhas coisas sem permissão, então ela mandou tudo para mim.”

A mulher riu levemente, apoiando o rosto com uma das mãos.

“Apesar de eu ter dito que não tinha problema se ela se desfazasse de tudo. Ah...A sua avó nunca me escuta.”

Marinette tirou a poeira do topo de uma das caixas com uma das mãos abrindo um caminho limpo na tampa onde havia algumas coisas escritas em chinês mas a única coisa que reconheceu foi o nome da sua mãe e o número 15. Esfregando a sujeira da mão em seu jeans ela pensava se mães não escutando as filhas direito era algo que passava de geração para geração na família Cheng.

“Ok, mas eu quis dizer: o que elas estão fazendo aqui?” e para dar melhor enfase na pergunta, gesticulou ao seu redor — o ambiente do seu quarto.

Sabine meneou com a mão.

“Achei que você não ia se importar, meu amor. Você sabe como o espaço lá embaixo é apertado.”

Marinette cruzou os braços e comprimiu os seus lábios na forma de um beicinho emburrado. Aquilo parecia mais um código para: “assim que as coisas vão ser, então nem tente discutir”, coberto de açúcar e confeitos metafóricos pra não soar tão imperativo.

“Além do mais” ,concluiu ela ainda sorrindo, “Eu achei que você ia gostar de dar uma olhada antes de eu passar no brechó amanhã, eu sei como você gosta dessas coisas ‘vintage”

Sabine falou a palavra entre risinhos, como se o termo fosse uma coisa maluca que sua filha tinha inventado, enquanto Marinette sorriu revirando levemente os olhos. Sua mãe era tão adorável as vezes.

“Pense nisso como uma caça ao tesouro” a mulher disse no que descia as escadas.

Sabine não precisava mais convencê-la. Os olhos da garota brilharam quando ela ouviu a palavra “vintage”.

“Sim, Sim, Capitão.” respondeu Marinette se debruçando sobre a escrivaninha atrás de alguma ferramente que pudesse usar.

Marinette olhava pensativa para a maior caixa ao seus pés — a que tinha escrito Sabine e o número quinze, enquanto fechava e abria a tesoura vermelha como se esta pudesse acompanhar o ritmo de seus pensamentos.

“Já que essas caixas não vão sair daqui até amanhã, melhor tirar algum proveito disso” ela pensou.

Na verdade, toda aquela empreitada vinha se mostrando mais divertida a cada caixa aberta. Na primeira haviam várias roupas, em sua maioria vestidos, blusas e saias. Marinette respeitou as decisões de moda que sua mãe adolescente tinha feito, todas as peças eram charmosas e não aquele estilo exageradamente colorido dos anos 90 — apesar de que na época, as pessoas deveriam ter achado que ela tinha um gosto um tanto quanto simples para roupas.

Marinette estava tão entretida experimentando as roupas, vendo quais funcionavam com o seu guarda-roupa atual e quais precisavam de alguns ajustes — que não notou seu quarto se transformando em uma tormenta de tecidos amassados. Apesar de ter começado com um simples sistema de organização, em algum lugar entre a segunda e a terceira caixa, as pilhas de roupas se misturaram entre a cadeira e a escrivaninha.Decidiu que deveria ser mais cuidadosa quando uma camisa embolada quase derrubou o seu monitor.

Ela só notou que o tempo havia passado quando estava com dificuldade para achar a ponta da fita adesiva no topo das caixas, seu quarto estava iluminado apenas pela ultima penumbra da tarde e a luz fraca de um poste que sempre piscava. Ela correu até o interruptor e voltou a sua atenção para as caixas menores, haviam papeis de carta meio amarelados e livros com as capas um pouco machucadas e várias fitas cassete com nomes de musica manuscritos.

Marinette suspirou, ela quase desejou ter um toca-fitas para ouvi-las apesar de poder facilmente pesquisar as músicas na internet, havia coisas que nunca mais poderiam ser recuperadas naquelas caixas, como o tempo que a sua mãe tinha levado para gravar aquelas músicas ou a razão pela qual cada faixa era escolhida e o motivo pelo qual uma fita quase nova com o título “padaria” estava dentro de um estojo plástico, intocada. Ela pensou se estava mesmo tudo bem em se livrar de tudo aquilo.

“Marinette, o jantar ‘tá na mesa!”

A timbre da voz de seu pai lhe fez interromper seus pensamentos, ela guardou a “fita padaria” dentro da caixa antes de se levantar e descer as escadas. Seu plano era era sentar na mesa o mais rápido possível, porém algo a deteve no meio do caminho.

“Wow, Mari que vestido novo é esse?” falou sua mãe divertida no que o seu pai assobiou de leve.

Marinette desceu os últimos degraus da escada com a mesma classe que uma mocinha de um filme em preto e branco na sua impactante cena de apresentação e rodopiou ao chegar no pé da escada, concluindo com uma jogada de cabelo e pose dramática.

“Gostaram? É a ultima moda.” e riu “1990.”

“Ah amor, você sabe do que isso me lembra?”

E a garota chegou no seu lugar a mesa bem a tempo de ver o sorriso manhoso nos lábios da sua mãe e as bochechas coradas de seu pai. Ele tossiu de leve, limpando a garganta como se fosse iniciar um conversa séria.

“Mari, a gente já te disse alguma vez…” ela se inclinou na direção para ouvir melhor “Sobre o dia em que a gente se conheceu?”

A menina revirou os olhos e se voltou para jantar. Seus pais sorriam um para o outro quase brilhando, como se estivessem cobertos por algum tipo de glittler mágico da nostalgia.

“Acho que essa semana ainda não, a ultima vez foi terça passada.”

“Sabine estava usando esse vestido e de repente começou a chover” — eles escolheram ignorar a constatação da filha.

“Sim, e o Tom estava distribuindo amostras grátis de sonho do lado de fora da padaria e eu estava correndo tão apressada que…”

“BAM! Ela esbarrou em mim com força total!”

Seu pai havia mimicado a onomatopeia tão alto que a mesa e o jantar todo estremeceu, o arroz de Marinette saltou do garfo antes que ela pudesse abocanhá-lo, ela soltou um suspiro cansado enquanto sua mãe levava as mãos ao rosto, seus lábios formando um pequeno “o” — como se o grande terror de ter doces ao chão estivesse acontecendo agora, diante de seus olhos.

“Ai, foi sonho pra tudo quanto era lado...na calçada, na rua.”

“Meu pai me deu uma baita bronca” e ele fez uma pausa para comer um pedaço de brócolis “ Nem esperou sua mãe sair de la, nem nada”

Sabine afagou o braço de seu marido, pesarosa, como se a briga tivesse acontecido a cinco minutos atrás. E então, num piscar de olhos sua mãe pareceu ter quinze anos de novo, virou para Marinette e disse, de uma maneira defensiva:

“E foi por isso que eu tinha me oferecido para fazer alguns pra repor o que eu tinha feito.”

Marinette observou seu pai pelo canto de olho, ele estava de braços cruzados e franzia o cenho, levemente insultado como se alguém tivesse acabado de lhe dizer que seus pães do dia estavam amanhecidos.

“Mas é claro que eu não podia deixar ela fazer isso, imagine!”

“Então, eu resolvi fazer alguns na minha casa e levar pra ele no outro dia!” sua mãe parecia borbulhar de felicidade apenas de lembrar da situação “Eu tinha que me desculpar, mas ai eu pensei, aquele rapaz faz essas coisas todos os dias, eu com certeza não vou fazer um bom o suficiente!”

“Mas ai, ele comeu numa mordida só e disse: “Nossa, o seu pai é padeiro?’” Marinette começou a contar a história, sabendo de cor todas as sentenças que seus pais usavam.

“Não, na verdade eu aprendi sozinha.” a menina fazia eco com a de sua mãe.

“Porque nossa, você parece um sonho HA HA HA!” ela até engrossou a voz para mimicar a risada rouca do seu pai.

Eles fecharam os olhos, perdidos no momento daquela lembrança e ainda rindo se deram as mãos. Marinette se pegou imaginando se todos os casais conseguiam contar uma mesma história em uníssono ou se eram apenas os dois que possuíam essa habilidade especial, ela até que tentou, mas não conseguiu conter um sorriso.

“Nossa mãe e você caiu nessa cantada?”

Ela falsificou uma voz de desagrado que encaixou direitinho com o cômico diálogo exagerado.Seu pai ergueu um sobrancelha e estufou o peito, lhe mostrando um polegar positivo.

“Bem, não foi tanto a cantada, foi só que ele falou aquilo de um jeito tão bonitinho, ele até gaguejou!” ela bebeu um gole de água antes de acrescentar “Falando nisso, e aquele menino?”

“Que menino?” perguntou Tom curioso entre uma mordida e outra.

Marinette sentiu suas bochechas pegarem fogo e lançou um olhar fulminante de sua mãe para o seu pai e vice-versa.

“MAMÃE!”

“Ah, você sabe amor, aquele loirinho…”

Ela se levantou da mesa com rapidez como se a sua cadeira tivesse acabado de lhe dar um choque elétrico.

“MENINO??QUE MENINO??EI, ACABEI DE LEMBRAR QUE EU TENHO MUITAS CAIXAS AINDA PRA VER...ENTÃO, COM LICENÇA!TCHAU!”

Sabine pendeu a cabeça, sinceramente ponderando a razão pela qual a sua filha tinha se estasiado tanto ao ponto de sair correndo escadas a cima e fechando a porta embaixo dela com força. Tom se aproximou dela como estivesse pronto para ouvir o melhor boato de Paris.

“Que menino?”

Tom sem duvidas precisava treinar os seus sussurros porque a sua filha lhe ouviu do andar de cima, onde ela percorria o quarto como um furacão virando porta-retratos e retirando posters e fotos coladas na parede que lhe desmentiriam. Porque sim, havia um menino. Mas conhecendo seu pai, ele iria convidá-lo para tomar um chá da tarde só para mostrar fotos embaraçosas dela na infância e ela não queria passar por esse vexame tão cedo, já que final, nem ela própria havia se apresentado direito.

“Você prometeu mãe, prometeu que não ia dizer!” ela dizia baixinho, quase troteando o caminho até o armário.

Porém, na sua distração e desespero para apagar as provas de sua quedinha pelo garoto da sua sala, seu pé esbarrou numa das caixas entreabertas. Marinette aterrissou com força contra o chão junto com outras roupas e objetos, os posteres amorteceram o impacto contra seu rosto.

“Caixa estupida!Caixa estupida!” ela murmurava com raiva, como se a caixa pudesse lhe retrucar.

Marinette sacudiu as pernas para tirar algumas roupas que haviam caído por cima dela e que a impediam de levantar. Ela mancou os passos restantes até o armário tentando não pisar em nenhum dos objetos esparramados e depositou todos os posteres que estavam em seus braços lá dentro.

Enquanto observava a adicional bagunça espalhada sobre o chão ela deixou escapar um gemido de desgosto.

“É melhor eu dar um jeito nisso aqui antes que ela vej-”

Antes que pudesse completar sua frase, seus olhos se depararam com uma caixa turquesa que tinha lhe passado despercebida — provavelmente estava no fundo da caixa em que tropeçou — ela estava quase nova e na tampa letras garrafais lhe avisava: “Não abra.” Ela hesitou, como se de alguma forma as palavras escritas por sua mãe décadas atrás ainda contassem como uma restrição atualmente, mas resolveu abrir mesmo assim.

Marinette não tinha a menor ideia do que esperava encontrar dentro da caixa, mas ficou um pouco decepcionada. Depois de tirar o papel de forro do caminho, ela apenas encontrou três peças comuns de roupa que não lhe chamaram tanto a atenção em comparação a uma pequena caixa em formato de coração que ela abriu, desta vez, sem cerimonias.

Ela encontrou um par de brincos pretos, não pareciam ser tão caros mas estavam guardados em uma caixa almofadada como se fosse o maior dos tesouros. Marinette não sabia dizer se gostava deles ou não. Tirou o acessório da caixa e segurou cada peça o mais próximo possível de seus olhos, tentando encontrar a razão pela qual sua mãe os tinha guardado com tanto zelo por tanto tempo.

“Bem, eles parecem normais.”

Valor sentimental, talvez?

Ela anotou em um pequeno post-it amarelo uma nota para se lembrar de perguntar a sua mãe sobre eles no dia seguinte e grudou no topo da caixa em forma de coração. Se eles fossem assim tão importantes, talvez ela nem os vendesse — provavelmente iria querer os brincos de volta.Marinette os fitou mais uma vez, eles refletiam a luz branca de seu quarto, pareciam os olhos de um filhote pidão, quase como se de fato suplicassem, por favor, não nos deixe aqui sozinhos.

A garota segurou um deles perto do lobulo de sua orelha e sentiu como se estivesse fazendo algo errado, como roubar os biscoitos de chocolates do mostruário da padaria porém, assim como no caso dos biscoitos, ela não conseguiu controlar o seu impulso. E chegou a conclusão que uma vez nas orelhas, eles eram muito bonitos e até complementavam a cor do seu cabelo, mas ainda sim, os brincos não eram seus, estava quase os tirando quando ouviu alguém dizer:

“Nossa, quando foi que eu cheguei aqui? Eu estava no escuro e dai…”

Marinette se virou lentamente em direção da voz e se beliscou com força no braço para ter certeza que não estava delirando, quando percebeu que ainda a via e escutava, começou a acessar a informação aos pedaços.

Primeiro, havia uma garota dentro do seu quarto. Segundo, era uma garota desconhecida.Dentro de seu quarto.Falando sozinha.

Adicionalmente, ela era transparente.

Marinette conseguia ver o contorno e cores das roupas que ela usava mas tudo parecia ser banhado com uma estranha luz azul, além disso ela ainda via nitidamente a parede rosa seu quarto com os espaços vazios dos posteres através dela.Uma garota transparente dentro do seu quarto e Marinette conseguia ver através dela, a garota ainda estava falando mais ela não conseguia absorver nada do que a outra estava dizendo. E antes que ela pudesse terminar de processar o que estava diante dela, a garota transparente virou na sua direção e as duas gritaram o mais alto que podiam.

A garota a sua frente parecia ser feita do ar condensado que alguém exala quando respira durante o inverno, porém estranhamente mais sólida e ao contrário da fumacinha, não estava desaparecendo. A garota chegou mais perto e Marinette percebeu que podia enxergar todas as feições no rosto dela, até mesmo as pequenas sardas em suas bochechas.

“Você consegue me ver??! Eu não acredito, faz tanto tempo!! E pensar que eu estava quase desistindo!!”

A garota tentava de todas as maneiras conter a sua emoção, seus cabelos longos presos em duas maria-chiquinhas flutuavam ao seu redor independente do fato que todas as janelas estava fechadas e não havia nenhuma corrente de vento passando entre elas e Marinette se perguntava porque o seu corpo parecia estar paralisado.

“Nossa,eu estou tão feliz!! Eu nem consigo...Eu tenho tanta coisa pra dizer!! Mas, MAS EU PRECISO MUITO DE UM ABRAÇO AGORA!!”

Ela veio em sua direção como uma brisa rasante e tal qual, passou completamente atravessada por ela, deixando apenas um calafrio que percorreu lhe dos pés a cabeça para contar a história. A garota flutuou por cima de Marinette, dando uma cambalhota no ar, como se o quarto tivesse sido lançado em gravidade zero e voltou a encará-la.

“Ops, foi mal. Eu me empolguei um pouco, isso deve ter sido muito esquisito pra você. Foi esquisito até pra mim!”

Nesse momento, Marinette lhe virou as costas e começou a marchar em direção a sua cama.

“Você não está aqui!”

“Ei, eu já pedi desculpas, não precisa me ignorar também!”

Marinette levou suas mãos aos ouvidos e a menina flutuou atrás dela.

“Eu não estou ouvindo nada.” — disse levantando a voz.

“Nossa, que pessoa madura você. Então, porque ainda esta me respondendo?”

“Ninguém esta aqui. Eu estou com muito sono e estou ouvindo coisas. Isso não esta acontecendo.Não.Nadinha.Não mesmo.”

Ela repetia para si mesma como se fosse um mantra, talvez mais algumas vezes e ela conseguisse acreditar. Subiu a escada de dois em dois degraus até chegar sua cama, onde se cobriu até a cabeça com o cobertor, fechando os olhos com força e sussurrando várias vezes a palavra “não”. Então, sentiu um frio lhe subir a espinha, como se um vento de dezembro tivesse acabado de sobrar embaixo de sua coberta, ela abriu um dos olhos para encontrar a menina lhe encarando.

“Pss, você sabe que esse negocio de se esconder embaixo do cobertor não funciona, né?”

E quando sua mãe lhe perguntou o porque de estar gritando, Marinette respondeu que ela tinha se assutado ao ver uma aranha subindo pela sua perna.

Notas finais
Uuh, vamos começar esse plot! :D