Saudade
3 Parece até que você viu um fantasma
Marinette acordou de amanhã com a estranha impressão de ter tido um sonho meio esquisito, sobre encontrar uma garota transparente no seu quarto e ter conversado com ela. Ela balançava a cabeça de um lado para o outro tentando afastar a sonolência enquanto fazia uma pequena lista mental do que teria que fazer naquele dia. Café da manhã e checar a mochila antes de sair.Prova de inglês. Fazer a barra do seu vestido novo.Mas antes de tudo, levantar da cama.
Ela estendeu seus braços a cima da cabeça, espreguiçando-se enquanto descia as escadas. De repente se pegou olhando para a porta no chão de seu quarto fixamente, ela não tinha exatamente a certeza do porquê, mas tinha a vaga sensação de estar sendo observada enquanto caminhava do centro do quarto até a penteadeira.
Marinette suspeitara que a razão daquilo era sua mãe ter deixado a porta aberta depois de acordá-la, como já havia feito várias vezes antes — no entanto, a porta ainda estava trancada.Ela ergueu uma sobrancelha, inquieta, mas decidiu dar de ombros e continuar a rotina, soltando um longo bocejo que embaçou quase que por completo o seu espelho.
Ela tentou focar no seu próprio rosto do outro lado, estava com uma expressão cansada como se tivesse virado a noite e dormido poucas horas depois de terminar o modelo de uma roupa. Suas feições se espremeram em uma careta de desagrado como resposta a sua aparência e prontamente abaixou a cabeça para lavar o rosto.
Marinette olhou para o espelho mais uma vez e julgou que ainda deveria ter sabão nos seus olhos já que seu reflexo parecia tremular do outro lado. Ela juntou uma boa quantidade d'água na concha das mãos e levou-a direitamente contra seu rosto e piscou demoradamente, esfregando o rosto com a toalha felpuda que tirou da gaveta, então voltou a sua atenção para sua imagem mais uma vez. Porém, não era ela que a mirava de volta.
“Então, já cansou de fingir que não me vê?”
Apenas a cabeça e a parte superior do seu torço estavam visíveis,o resto do seu corto parecia ter sido absorvido pelo espelho, como se este fosse o portal de Alice. Marinette abafou seu grito com a toalha, agora ela se lembrava porque ela estava tão cansada — havia um fantasma no seu quarto e ela tinha passado a noite inteira tentando ignorar a sua presença. O que se provou muito difícil quando Marinette lavava a louça do jantar e tinha que se convencer que não havia uma cabeça flutuante na parede a sua frente lhe fazendo caretas.
Os seus pais provavelmente estavam conversando à mesa naquele exato momento sobre como a sua filha tinha um parafuso solto. Ela sentiu um ressentimento fervendo na boca do seu estomago porque afinal, toda a paciência tem seu limite.
“Quem é você, afinal? Eu não tenho nada haver contigo, pra quê grudar em mim?!”
A fantasma franziu o cenho irritada enquanto flutuava para fora do espelho, seu rosto agora estava quase colado com de Marinette que conseguiu sentir uma brisa fria lhe eriçando os pelos da nuca.
“Se eu pudesse encontrar encontrar outra pessoa mais “racional”, acredite, eu iria. Mas você foi a única que conseguiu me ver até agora e isso deve significar alguma coisa.”
“É só que isso não existe, fantasmas não existem!!Não tem como eu estar aqui conversando com uma, não pode ser real!”
A garota lançou um olhar fulminante em sua direção e Marinette engoliu a seco e todos os filmes de terror que vira em sua vida passaram como um flash durante seus olhos. Nunca era uma boa ideia contradizer um espírito. Mas ela não foi atacada, em vez disso, a fantasma cruzou os braços e quase se misturou na luz do sol que inundava seu quarto.
“Então quer dizer que você prefere acreditar que esta ficando louca, do que acreditar em mim?”
A voz dela era rouca e parecia se arrastar pelo ar com dificuldade antes de chegar aos seus ouvidos, ela parecia estar magoada.Pela primeira vez em todo aquele tempo, a garota transparente pareceu humana e não uma fantasia. Marinette sentiu uma fisgada em seu coração.
“Olha, não quis dize-”
“Eu fiquei presa por tanto tempo! Tanto tempo que eu não sabia mais o que era eu e o que era aquela caixa.Eu esqueci do mundo, eu esqueci de mim! Eu estava tão sozinha.”
Ela se encolheu ainda mais perto da janela e por um segundo Marinette temeu conseguir o que queria — que ela pudesse realmente desaparecer. Ela erguei lentamente uma das mãos, queria chamá-la e então, mordiscou o lábio inferior ao perceber que não sabia qual era o nome dela.
“Eu sei que eu não deveria estar aqui. Eu deveria estar em outro lugar, mas ainda sim, isso não muda nada.”
“Mas o que eu posso fazer para te ajudar?” Marinette fitou seus pés, dedos tamborilando levemente contra o carpete “Eu sou uma garota normal, eu não sou médium nem nada...É a primeira vez que eu vejo…”
Ela hesitou em suas palavras quando a fantasma voltou a se aproximar, suas marias-chiquinhas complementando o seu movimento através do quarto como um longo véu.
“...Alguém como você.”
“Bem, você falar comigo já é o suficiente por enquanto” ela sorriu melancolicamente.
“Ok...” confirmou, ainda um pouco sobrecarregada por toda aquela situação. “Eu acho posso fazer isso.”
A fantasma assentiu e se deixou flutuar pelo teto do quarto, fornecendo um pouco de espaço pessoal para a sua acidental anfitriã. Perto das janelas, ela parecia uma bolha de sabão contra o sol de verão — luzes difusas flutuando no ar, mais cor do que forma. Marinette caminhou até o armário para pegar uma muda de roupa as cegas e parou de se despir no meio do caminho, bochechas ruborizadas, agora estava mais consciente do que nunca que havia outra pessoa ali além dela.
A garota bagunçou a franja, ainda tendo problemas para assimilar aquilo e jogou as roupas de qualquer jeito em cima do biombo antes de se esconder atrás dele. Todo aquele silêncio estava começando a ficar desconfortável e Marinette discorria desesperadamente dentro do sua cabeça atrás de tópicos para conversar com um fantasma.Algo lhe dizia que o clima não era uma boa ideia.
“Então…” falou, enquanto procurava palavras dentro de sua boca “ De onde você é? Qual é o seu nome?”
Um silêncio ainda mais perturbador seguiu a sua fraca tentativa de diálogo e Marinette quase se arrependeu de ter perguntado.
“Eu...venho da caixa?”
A reposta veio em forma de interjeição, como se ela estivesse confusa com as informações e esperasse que a outra pudesse lhe confirmar se era verdade o que dizia ou aquilo era uma piada feita por um fantasma com um senso de humor questionável.Marinette ficou em séria duvida entre as duas opções.
“Bem..sim.” ela não podia dizer que a fantasma estava errada naquele quesito “Mas tipo, antes disso?”
“Eu...não sei.”
“Você não sabe?!” Marinette passou a camisa pela cabeça, fazendo sua voz sair abafada.
“Não tenho a menor ideia” confessou.
“E o seu nome?”
Em resposta a menina apenas soltou um longo e confuso “eh”.
Surpresa,Marinette abriu o biombo com força em um movimento desajeitado, tendo que segurá-lo para impedir que caísse perto do seu manequim. Ela mal podia acreditar no que tinha ouvido.
“Eu pensei que fantasmas tinham tipo uma, sei lá, missão pendente que eles tinham que resolver para poder…” ela não conseguiu achar melhor terminologia “...Passar dessa pra melhor?”
“Eu sei, eu sei!” exclamou ela, provavelmente tendo passado horas a fio pensando exatamente nisso “Eu tenho alguma coisa pra fazer, eu sei disso!”
A fantasma se aproximou dela no tempo de uma breve pestanejada. Marinette recuou um par de passos, quase esbarrando no biombo atrás dela. Um pouco nervosa, ela observou a outra levar a mão ao queixo, pensativa.
“Eu só não sei o que é.”
“Uau, não dá pra ficar mais fácil que isso.”
“Não, eu vou lembrar! Eu só precis-” ela parou subitamente de falar ao prestar atenção em Marinette “...Essas roupas são minhas?”
Marinette olhou para baixo afim de verificar o que ela estava usando. Na maioria das vezes, ela passava algumas horas da noite anterior montando um conjunto para usar no dia seguinte mas levando em consideração a corrida mental contra o fato fantasmagórico a sua frente, ela não teve tempo, logo, acabou pegando uma muda de roupa sem prestar muita atenção. Uma jaqueta leve preta, blusa branca e um short jeans — era isso. Ela se voltou para a fantasma a sua frente e era exatamente assim que estava vestida, tirando a transparência.
“Onde você achou isso?” indagou quase que agressivamente.
“Acho que estava dentro de uma das caixas, eram coisas da minha mãe.” Marinette se recordou de juntar as roupas do chão antes de dormir e de as enfurnar dentro de seu guarda-roupa de maneira aleatória. “Talvez, fosse a moda..?”
“Mas ela tinha os brincos…” falou erguendo uma sobrancelha “ Você acha que pode ser coincidência?”
Marinette tocou em ambos os brincos com as pontas dos dedos e começou a retirar o do lado direito, queria vê-los mais de perto como na noite passada. A fantasma pareceu engasgar com alguma coisa e rapidamente levou suas mãos contra o braço da outra, afim de parar sua ação antes que fosse tarde.Mas, como já havia acontecido antes, ela atravessou o corpo completamente e a outra garota estremeceu.
“O que aconteceu?!” perguntou espantada, o brinco direito na palma de sua mão.
“Eu...não sei” respondeu, olhando para suas mãos, genuinamente confusa “Eu achei que se você tirasse os brincos...alguma coisa ia acontecer comigo.”
Silêncio.
“Como se eu fosse sumir ou coisa assim...”
Ela lentamente ergueu os braços e a outra pareceu querer interromper a ação novamente, mas deixou com que ela retirasse o brinco do lado esquerdo mesmo assim, o que de alguma forma parecia ser um processo doloroso — era como se Marinette estivesse observando uma criança prestes a levar uma injeção, onde a antecipação da dor era mais agonizante do que a injeção em si. Porém, quando mostrou os brincos na palma de suas mãos a outra menina pareceu curiosa, como se algo não estivesse certo. Mas o alivio em seus olhos, era inegável.
“Bem, já podemos tirar essa preocupação da lista.”
A fantasma suspirou longamente como se a ponderar. Marinette se questionou brevemente se aquilo era meramente um reflexo de hábitos antigos ou se fantasmas realmente conseguiam respirar.
“Eu queria que você continuasse usando os brincos.” pediu e Marinette podia jurar que viu algo como um rubor surgir nas bochechas dela “Eu sinto que a minha presença meio que se liga a eles e bem...eu ia me sentir melhor se…”
“Sem problemas” assentiu enquanto colocava os brincos novamente.
“Ei, você acha que...a gente pode conversar com a sua mãe sobre mim?”
O coração de Marinette deu um salto de pavor, mas antes que pudesse responder, um chamado subiu as escadas do quarto e a puxou para a realidade como o alarme de um relógio.
“Marinette, vem tomar café! Vai acabar se atrasando!”
Ela não morreria tão cedo.
“Quando eu voltar do colégio a gente vê isso” ela respirou profundamente “Eu também preciso me preparar um pouco antes de conversar com a minha mãe sobre a minha colega de quarto fantasma.”
Marinette abriu a porta no chão e já estava quase de saída quando a viu meneando com as longas madeixas de seu cabelo, parecia esperar por algo. Ela tinha o olhar de um filhotinho no meio da chuva.
“Você quer ir comigo?”
Ela sorriu e não disfarçou seu entusiamos ao se desvencilhar de Marinette, flutuando em direção as escadas.
“Só pra constar, eu iria mesmo se você não me chamasse.”
A garota tentou conter uma risada.
“Eu nem disse nada.”
“Falando sozinha, amor?”
A voz de sua mãe fez com que algo estalasse dentro de Marinette. A fantasma estava perante ao seu ombro e olhava para a mulher do outro lado da bancada da cozinha com curiosidade, ela estava esperando o café ficar pronto, vigiando a cafeteira de perto como se isso a fizesse ir mais rápido. Ela ficou um pouco aliviada ou perceber que Sabine parecia não perceber o corpo translucido que flutuava em cima da mesa de jantar, mas ainda sim, sentiu que não poderia correr o risco de ter que explicar aquela situação maluca tão cedo, ela mal tinha começado a aceitar tudo aquilo, ela precisava de mais tempo.
“Mãe, eu acho que eu vou pular o café hoje. Eu como alguma coisa na escola!”
“Ora, não diga besteira Brid-”
Antes que pudesse completar sua frase, o som de porcelana se espatifando contra o chão tomou conta do ambiente, por um segundo Marinette pensou que fosse por causa da fantasma mas os olhos atônitos de sua lhe atravessam completamente. O espanto, era causado por ela,sua filha de carne e osso, em pé na cozinha.
“Mãe..?” disse enquanto se aproximava com cuidado em sua direção, ela nem piscava “Você esta bem?”
Sabine balançou a cabeça como se tentasse afastar algum pensamento absurdo, piscou duas vezes e pareceu voltar a si, mas a sua respiração era pesada. Ela massageou as têmporas, se voltando para a realidade que era a xícara de porcelana estilhaçada aos seus pés.
“Desculpa Mari, você me assustou um pouco. Parecia muito...Parecia muito com…”
Marinette novamente se conscientizou das roupas que usava e se virou para a fantasma apenas para perceber que ela a encarava de volta. Ela apontou para a mulher meneando a cabeça com movimento sutis em sua direção, não que precisasse se preocupar em não ser vista. A garota respirou fundo e começou a se aproximar de sua mãe, mesmo não estando preparada, aquela era a melhor oportunidade que teria para começar o assunto.
No entanto, foi Sabine que iniciou o interrogatório.
“Onde conseguiu essas roupas?”
“Estava em uma das caixas. Elas são suas, né?”
A mulher franziu o cenho irritada, como se estivesse se punindo em silêncio.
“Os brincos também?” indagou quase que ignorando a pergunta da filha.
Marinette assentiu enquanto sua mãe abaixava a cabeça, sua respiração estava se tornando descompassada e a garota sentiu um aperto em seu coração.
Por favor. Não chore, não chore.
“Você que que eu tire?” falou, prontamente com as mãos na abertura da jaqueta.
Sabine apenas balançou a cabeça em negação.
“Você ia me chamar de alguma coisa naquela hora? Parecia um nome.”
Ela sentiu um vento frio em volta de seu pescoço e notou um par de mãos transparentes sob seus ombros, como que se desse uma confirmação de que estavam segundo pelo caminho certo. Depois de alguns momentos sem resposta, Sabine inspirou longamente e se abaixou para recolher os cacos de porcelana, prontamente seguida pela filha.
“Você parece tanto com ela, que eu realmente me assustei.” ela notou como os olhos de sua mãe estavam pesados com lagrimas interrompidas “Vamos limpar isso aqui e eu te conto tudo.”
“Tudo sobre o que?”
Ela sorriu calidamente.
“Sobre a minha irmã, Bridgette.”
Marinette ouviu nitidamente uma interjeição de surpresa vinda de suas costas.
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