Saudade

3 Um Pub Qualquer


Notas iniciais
Olha eu aqui. Não acredito que uma one vai mesmo virar uma long. Vamos ver o que acontece. Vou sentar, escrever e espero que vocês me façam companhia. Espero que gostem. Desculpe por qualquer erro. Boa leitura.

Me desprendo dos braços do espanto e me movo para a entrada do meu prédio de tijolos vermelhos. Prédio com várias janelas iguais, cortinas iguais e moradores iguais. A singularidade não cabe aqui. Tateio meu jeans molhados procurando minha chave do bolso direito. Uma sombra com mechas vermelhas me assunta e eu solto um gritinho histérico.

— Ela é bonita.

Meu coração ainda está disparado e eu não tenho certeza se foi pelo susto ou pelo “encontro”. Eu deveria estar usando esta palavra? Acho que não.

— Quem? – Finjo que não sei de quem ela estava falando. Estou torcendo que ela não tenha visto meu momento utópico.

— A Regina. Era ela no carro não era?

Por que todos têm uma ótima percepção, menos eu?

— Por que você acha que era ela? – “Tudo bem, Emma. Pode parar de achar que as pessoas são burras”.

— Porque você não conseguia sair do carro. Estava encarando com um olhar psicopata. Nunca te vi assim, então só pode ser A mulher de Casaco. Foi desconcertante sabia?

O sorriso debochado de Ruby deveria me envergonhar, mas só me sinto acolhida. Devolvo com meu melhor sorriso acanhando.

— Era ela.

A felicidade que Ruby demostra me preenche e eu só posso agradecer por tê-la na minha vida.

Não sei ao certo há quanto tempo conheço essa morena chata e implicante que eu chamo de melhor amiga. Ela sempre esteve por perto. Me lembro do caminhão de mudança estacionando na porta da casa vizinha. Meus olhos de criança se animaram por estar olhando um monstro motorizado. Eu segurava meu urso com um olho de botão e o apartava tentando me sentir segura. Uma garota de longos cabelos castanhos desceu de um carro azul logo atrás e sorriu pra mim com esse mesmo sorriso debochado de hoje, se aproximou e disse oi. Foi assim que nos tornamos amigas. Com um simples Oi. Foi meio bobo, simplista demais, eu sei. Mas não conheço alguém que eu ame mais além dos meus pais.

Quando eu decidi largar tudo e me mudar para Boston, ela não pensou duas vezes e veio comigo. As vezes a chamo de cão de guarda, sempre ao meu lado, cuidando de mim em meio aos meus romances fracassados e minha conta zerada.

Lembro do dia em que ela deu um soco na cara do Killian – o vizinho do 202 – Ele falou alguma coisa que não consegui ouvir. Só escutei um baque forte, um gemido e quando me virei, ele estava caído com o nariz sangrando, Ruby estava dizendo.

“Nunca mais fale isso para uma mulher, principalmente pra ela. ”

Ele quebrou o nariz dele.

Hoje nós três nos damos bem. Eu normalmente sozinha, Killian e Ruby com suas mulheres. Os dois tem uma disputa particular, eu não me intrometo muito.

É engraçado pensar nos dois agora.

Eu fui bombardeada por “Onde’s”, “Quando’s” e “Por que’s” enquanto tentava subir as escadas, procurando abrigo no apartamento 204. Não consigo responder cada questão na mesma velocidade que sou perguntada. Estou absorta demais com o dia ou com meus 2 minutos.

Quando finalmente terminamos a infinidade de degraus até o segundo andar – os degraus não acabavam com Ruby me atormentando — encontramos um Killian bêbado, com seu cabelo impecável, seus olhos azuis, segurando sua jaqueta de couro sobre o ombro, brigando com uma fechadura inocente.

— Kill, a Emma chegou de carona com a Mulher de Casaco – Claro que Ruby não poderia espera até o dia seguinte.

— O QUE? – Interessante como os olhos caídos de uma bebedeira deram lugar para os olhos arregalados pela surpresa. – Você pegou a Mulher de Casaco, Ems?

Resolvi ignorar a pergunta e só entrar, preciso de um banho quente, estou molhando demais para explicar. Meus amigos ficaram no corredor especulando o que aconteceu dentro daquele carro, podia ouvir os cochichos e risadinhas dos dois quando entrei no banheiro. Pude ouvir a palavra “amassos” quando passei pela a porta.

“Só ignore, Emma. Nota mental: Não contar aos meus melhores amigos minhas paixões platônicas”

Passei alguns segundos me olhando no espelho, tentando encontrar algo que fizesse Regina Mills me reparar. Não encontrei nada de interessante. Meus cabelos dourados comuns, presos em um rabo de cavalo mal feito, meus óculos de armação preta que não me deixavam com um ar intelectual, meu corpo esguio simples demais para receber um assovio da rua.

“Não tenho nada demais, Sra. Mills”

Suspirei uma vez e mergulhei em meu banho relaxante.

Me perdi em meus sonhos acordada, imaginei o que poderia ter feito dentro daquele carro, as palavras que deveria ter dito. Sempre me imaginava linda, sensual e irresistível. Regina não conseguindo afastar seus olhos de mim, me desejando profundamente. Me imaginava assim por não conseguir me ver atraente o suficiente para os olhos dela.

Saí do banheiro e meus amigos inconvenientes estavam esparramados no sofá da sala.

— Pode parar aí, comedora de mulheres de casaco — Não consegui conter a gargalhada. Killian é um cafajeste adorável.

— Não tem nada pra contar, Kill.

— Ah você tem sim! Por que você chegou com a Mulher de Casaco?

— Ela me viu na chuva e me deu uma carona até aqui. Quando chegamos, eu me despedi e saí do carro – Foi um bom resumo. Não preciso enfatizar os tremores, o nervosismo e felicidade por estar ao lado dela.

— Antes de sair, ficou encarado a mulher, quase peguei um babador pra ela – sempre um doce de pessoa – E um pra mim, ela é uma gata!

Ruby também é um cafajeste.

— Só me diz que você pegou o telefone dela, por favor? – Killian estava suplicando. Ele vai me matar.

— Eu não peguei o telefone dela.

— EMMA!!! – Isso foi um coro? Ruby e Killian gritaram juntos.

— Eu sei, eu sei. Eu sou uma idiota. Mas era a Regina, não consegui me mover. – Tentei dar uma explicação esfarrapada.

— Exatamente! Era a Regina! A mulher que você fala há um ano – Killian não ficou muito feliz. – O que vamos fazer com ela, Ruby?

— Estou em dúvida sobre qual tortura devemos usar – Ela começou a olhar o teto, fingindo ter pensamentos flageladores.

— Pode ser amanhã? Vocês viram a hora? Preciso dormir um pouco – tentei dispensa-los e deixar o sermão para outro dia. Preciso colocar minha cabeça no lugar.

— Amanhã, Swan. Amanhã – Killian gentilmente me ameaçou enquanto se levantava, indo para seu apartamento em frente ao meu cambaleando um pouco.

Sorri por ter ouvindo cada reclamação. Fui para meu quarto, deitei e olhei meu teto atraente. Sorri lembrando da noite, do impossível. Sorri do meu medo, dos meus arrependimentos, da minha ignorância.

Fechei os olhos tentando trazer aquele cheiro para o meu quarto. Ouvi a noite se acalmando naquela cidade agitada. Por mais que meu medo tenha me impedido, estar naquele carro me trouxe um conforto que não sentia há um mês.

Me trouxe Regina Mills.

Senti a saudade se aconchegando em meu peito. Preciso dormir, mas minha mente está agitada e não consigo sair daquele carro. Minhas lembranças trazem seu rosto e o sono se tornou tão menos importante.

A parte ruim deste encontro ao acaso, é a expectativa que começo a criar pela frase “Até a próxima”.

“Existirá uma próxima?”

“Como ela conhece meu prédio?”

Preciso parar de pensar nela, essa insistência em tocar o inalcançável é tão irritante, doloroso. Vou esquecê-la. Adormeci com seu rosto nos meu olhos fechados e com a certeza de esquecê-la.

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O sábado estava especial, meu humor estava contagiante, cheio de casacos escuros e Mercedes pretas. Minha decisão em esquecê-la sempre escorregava por entre meus dedos depois de uma noite de delírios.

Me sinto eficiente hoje, estou ágil, animada, com sorrisos fáceis. Um passeio de dois minutos pode mudar uma pessoa. É assim que me sinto.

Estou com a cabeça apoiada em uma das mãos, olhando a porta como uma adolescente abobalhada, lembrando de uma proximidade que nunca tive.

“Um fato: Não tenho convicções”

George deve me achar bipolar. Um dia estou em um incomodo sem precedentes e no outro transbordando felicidade.

Ele me acha estranha. Tenho certeza.

Uma cabeça castanha com grandes olhos azuis, aparece na porta. Meio corpo para dentro, meio para fora. Suspiro esperando o sermão.

“Lá vamos nós”

— Loira. Eu, você, Rubs. Hoje. Bar. 21hs. Tchau.

Killian apareceu e sumiu rapidamente, arregalei os olhos em surpresa.

— Killian!!!

— O que? – Ele novamente colocou apenas a cabeça dentro da cafeteria, ainda segurando a porta.

— Eu não posso, preciso trabalhar. – Prefiro o sermão que uma noite regada a álcool, cheia de homens inconveniente me tocando, exibindo seu peitoral cabeludo enroscados em bijuterias baratas.

— Você me deve. – Ele apenas disse, eu arqueei a sobrancelha e soltei um “oi?” surpresa pela falta de entendimento. – A mulher de casaco.

Agora eu entendia.

— Sério, Killian?

— 21hs...

Eu não posso mais tomar decisões na minha vida. Olhei para George me desculpando com um olhar infantil. Não deixaria ele sozinho, nunca deixei.

— Não se preocupe. Vá se divertir. Eu fecho hoje.

George...

Há 4 anos, decidi largar minha cidade de 10 mil habitantes e viver uma ilusão de prosperidade em Boston. Me senti caindo de um precipício. Não conseguia emprego. Dividia um quarto imundo com a Ruby e o dinheiro que juntamos por anos estava acabando. Começamos a cogitar voltar para nossa cidade com o rabo entre as pernas, exibindo nosso fracasso.

Entramos no George’s Café. Senti o calor e o cheiro, me senti em casa. Nos sentamos em um mesa nos fundos e vimos um homem de cabelo grisalho com o olhar exausto. Por impulso ou compaixão, me ofereci para ajudar. Ele me lançou um sorriso tão aberto que senti meu coração derreter.

Eu deveria agradece-lo pelo emprego, mas foi ele quem me agradeceu pela ajuda. Logo depois ele conseguiu um emprego de ajudante de cozinha para a Ruby em um restaurante chique. Ela adora cozinhar. Tenho sorte por ter a Cabelo de fogo comigo. Não sei nem cozinhar um ovo, muito menos um jantar decente que me faça ficar de pé no outro dia.

Amo o George.

20hs, preciso ir me arrumar. Me despedi do meu chefe amado com um certo peso. Não gosto de deixa-lo sozinho. Caminho preguiçosa, não quero sair. Meus amigos vão me torturar a noite inteira tentando arrumar o cara perfeito ou me empurrar uma mulher que não vou desejar.

Era sempre assim.

No final das contas, eles queriam me ver com alguém, minha solidão os incomodava, enquanto me abraçava e no fundo eu gostava. Gosto de não ter palavras entrando desordenadas pela minha cabeça. Gosto da tranquilidade que um não-relacionamento pode me dar. Gosto dos meus momentos sozinha, assim posso imaginar um relacionamento perfeito que não vou, nem quero ter, não com a pessoa ou as pessoas que esperam.

Estou fazendo o mesmo caminho de ontem à noite. Não consigo evitar as lembranças invadindo minha mente, meus olhos. Meu sorriso brota e só ajeito minha touca cinza de uma forma desajeitada.

Passo a ponta dos dedos pelos prédios que ontem, me esforcei tanto para abraçar procurando um abrigo frio.

Hoje nenhum carro me segue, nenhum vidro se abaixa, nenhum cheiro me invade, nenhum sorriso me derrete, nenhuma morena me embala. Hoje meu caminho é normal demais pra mim.

Chego em meu prédio de tijolos vermelhos e janelas comuns. Subo as escadas como todos os dias, caminho entre as portas fechadas do andar. Procuro minhas chaves sempre no mesmo bolso direito.

Igual demais.

Encontro uma morena de mechas vermelhas no meio da sala com uma cinta-liga vermelha, olhando uma montanha de roupas jogadas no sofá.

— Não me pergunte, eu nem quero ir. – Não deixo ela perguntar que roupa usar.

Vou direto para o quarto e escolho a primeira roupa que eu encontro. Calça jeans, camiseta branca, jaqueta vermelha. Jogo tudo na cama junto com uma calcinha que posso jurar que minha avó compartilhava do mesmo gosto.

Vou para o banheiro com minha cara de poucos amigos, mesmo meu humor estando ótimo. Vou tentar fazer Kill e Rubs se sentirem culpados por me arrastarem em um sábado à noite.

Que frase estranha. Sábados à noite deveriam servir para isso. Para se divertir com os amigos e tentar encontrar alguém agradável e disponível no meio de uma multidão desinteressante. Sábados à noite para mim significavam, leitura, filmes ruins e baldes de pipoca.

Adoro os sábados à noite.

Saio do banheiro depois de mais minutos que deveria. Ruby está pronta.

Calça de couro preta, blusa bege – que por sinal é minha — casaco preto e um salto que desconfio ser maior que minha coxa.

Killian sentando ao lado dela. Calça jeans, camisa social grafite e sua jaqueta de couro surrada.

— A disputa vai ser boa hoje. – Não posso deixar de instigar um pouco a competição de quem pega mais mulheres.

Ruby com seu cabelo maravilho, olhos azuis desconcertantes e um sorriso que faz qualquer hétero se desnortear.

Killian com seu olhar cafajestemente sedutor, seu sorriso irritantemente atraente e sua lábia que faz qualquer samaritana se entregar depois de algumas horas.

E eu...

Eu sou a Emma.

Chamamos um taxi e fomos para um Pub qualquer. É um Pub inglês. Um lugar até agradável, um pouco escuro. Estava cheio e minha vontade de estar em casa apareceu sem ser convidada.

“Será que já está na hora de perguntar se já posso ir embora?”

Me perguntei depois de 5 minutos naquele lugar.

Nos sentamos em uma mesa com bancos acolchoados, um tom de marrom envelhecido. Kill foi ao bar e voltou com 3 canecas de cerveja. Começamos a beber.

Bebemos, bebemos bastante e a noite começou a melhorar. Nada como uma boa dose de álcool no organismo para deixar tudo mais colorido. Recebíamos cantadas descaradas e riamos mais com tudo aquilo. Killian estava tentando ganhar uma garota do bar que ele provavelmente levará para cama e não ligará no dia seguinte, como sempre.

Estava divertido, não posso negar.

Ruby ficou séria e começou a encarar alguém.

— É aquela. – Foi a única coisa que ela disse e eu soube que ela havia encontrado a “pretendente” da noite.

Se levantou e jogou seu andar sensual na cara de todos do lugar. Os homens observavam seu deslizar, imaginando as mudas que vestia por debaixo de toda aquela roupa sexy. Eu sorri.

“Coitados”

Eu comecei a olhar curiosa para saber quem seria a mulher que ganhou a atenção da minha amiga linda.

— Nossa! – Foi a única palavra que consegui proferir quando a vi. Linda, ruiva, olhos cristalinos. – Nossa!

O encontro dessas duas será explosivo. Corei por imaginar a cena.

A ruiva encontrou os olhos da Cabelo de fogo, sustentou o olhar, sorriu a fitando dos pés às mechas vermelhas, eu pensei.

“Ponto para Ruby”

Quando estava a 2 metros de se encontrarem, Ruby parou e eu estreitei os olhos.

“O que aconteceu?”

Me ajeitei no banco marrom tentando entender. Meu coração parou por alguns instantes. A saudade gritou em minha cabeça, em meu peito e percorreu todo o meu corpo, levando qualquer ser do lugar. Todo o barulho sumiu. As pessoas sumiram e eu posso jurar que ela se aproximou da ruiva em câmera lenta.

Sussurrei.

— Regina....

Notas finais
É isso aí, gente. Espero que tenham gostado. Por favor, comentem e me deem a opinião de vocês. Se não tiverem gostando, eu mudo tudo. É só comentar. Até a próxima. Bjos