Saudade

26 Dizeres Íntimos


Notas iniciais
Olá Cupcakes! Eu juro que não invadi a conta da Faela. Só escrevi o capítulo porque ela me pediu (ou talvez eu tenha a obrigado a me deixar escrever. Nunca saberemos!) Eu jamais vou conseguir verbalizar o quanto eu amo Saudade e como essa fanfic é importante para mim. Eu amo cada palavrinha que a compõe e nunca mais terei a mesma sensação ao entrar em uma cafeteria. Eu gosto de acreditar que as melhores histórias fazem isso com a gente. Elas nos viram do avesso e nos levam à loucura. Nos dão uma nova visão do rotineiro e desconstroem as nossas certezas, apenas para construir novas, ou para reforçar as antigas. Também nunca serei capaz de expressar toda a minha gratidão à Rafaela. Eu amo as suas peculiaridades irritantes. Enfim, eu espero que vocês gostem. Agora que terminei o capítulo, sou um elfo livre. Um beijo, Suprema.

Fecho os olhos e aproveito a calmaria, que contrasta tanto com a turbulência que nos rodeia. Em meio à correria de uma Boston já conhecida, nós criamos uma bolha. Um lugar só nosso. Um lugar só dela. O lago a minha frente me traz lembranças que jamais serão esquecidas. Ele me mostra a construção do que nos trouxe aqui em suas águas calmas. Os primeiros dias.

Um banco que não me era conhecido. Um livro qualquer. Uma desculpa vaga. Momentos compartilhados em meio ao silêncio. Um silêncio só nosso. A nossa melhor conversa. Os domingos jamais serão os mesmos e eu fico feliz em ter certeza disso.

As palavras ditas há alguns minutos libertaram um espaço dentro de mim. Não me arrependo das revelações feitas, já não representa mais uma exposição. Eu já estou exposta a ela. Acredito que sempre estive e só demorei a perceber. Aqueles olhos verdes viam muito além do mau humor rotineiro e das respostas grosseiras. Talvez Emma tenha visto a minha alma desde o primeiro olhar. Talvez o meu desejo sempre tenha sido que visse.

O caminho de volta ao seu apartamento foi feito em meio a palavras simples, diálogos abertos e conversas sem sentido algum. Eu não preciso do sentido agora. Encaro o rosto daquela que me fez guardar um copo de café durante meses.

Quantas vezes eu conversei com aquele copo enquanto desejava conversar com ela?

Sua mão se mantém junto a minha. Ela é a única coisa que me impede de flutuar. A gravidade já não mais me prende ao chão. Ela foi anulada pela leveza da alegria que reside em mim.

Uma gota lhe molha o rosto e ela encara o céu. Mais uma gota. E depois mais outra. Eu olho ao redor, buscando por algo que nos proteja da chuva.

Emma me impede.

Encaro-a questionando o motivo. Ela apenas sorri. E eu? Eu acabo por sorrir também. Sinto a chuva molhar minha roupa e chegar à minha pele. Os pingos finos se tornaram pesados, mas eu já não me importo. Os meus dedos são entrelaçados aos dela e nossos braços se abrem para a chuva que cai. Recordo-me da chuva ter sido aquela que revelou minhas visitas secretas a essas ruas. Que me fez parar e oferecer uma carona àquela que agora me beijava o rosto molhado.

Eu, que nunca fui apegada aos dias chuvosos, agora gargalho sob a chuva. Emma virou o meu mundo de ponta cabeça, apenas para me mostrar que, talvez, esse seja o melhor lado. As gotas transparentes colorem a minha alma.

Eu me esqueço das roupas encharcadas. Me esqueço das pessoas que caminham ao nosso redor. Me esqueço de tudo o que nos rodeia. Me esqueço, até mesmo, de que existe algo que nos rodeia. Não importa. Não agora. Não mais. O seu sorriso me ganha e eu sorrio também. É difícil prender os sorrisos quando ela está por perto. Eu já os prendi por tempo demais.

Aceito a simplicidade e aprecio a beleza de um banho de chuva. A liberdade existente em cada gota que me toca. Quase não noto que já chegamos àquele prédio. O seu prédio. O prédio de tijolos vermelhos, que me abrigou durante tantos dias.

Subo os degraus conhecidos em meio a gargalhadas leves. A sua mão continua segurando a minha. A âncora que me prende ao chão. Desejo que jamais me solte. Ela busca suas chaves e eu espero. Seu rosto molhado traz bochechas coradas. Seus óculos estão embaçados pelas grotas. Eu sorrio e ela me encara atenta. Espero por um questionamento que não vem. Eu agradeço por não ter vindo. Não consigo imaginar palavras que verbalizem o que sinto ao contemplá-la. Eu criei uma rotina secreta apenas para entrar na cafeteria e vê-la. Hoje eu já não me importo em ser flagrada ao olhá-la.

— Ruby e Killian devem ter saído com Zelena. — Eu sinto a minha pele gelada por baixo das roupas encharcadas.

— Ela comentou algo sobre sair com eles. — Deslizo os dedos pelos fios úmidos de meu cabelo.

— Espero que Zelena os faça voltar ao normal. — Sua jaqueta vermelha é colocada sobre o encosto da cadeira e ela se vira para mim.

E o tempo para.

Eu espero. Não sei o que fazer além de esperar. A minha respiração descompassa e eu nem ao menos entendo o porquê. Espero que tudo volte, que os movimentos retornem, que alguém descongele o espaço. E ela continua a me encarar, com aqueles olhos profundos que me oferecem o oceano. Eu desejo mergulhar.

Um passo é dado à frente e eu pisco. Estou presa em um sonho.

Ele se chama realidade.

O seu indicador me toca o rosto, reproduzindo o caminho de uma gota perdida. O seu olhar me invade e eu permito. É tarde demais para não permitir.

Eu estou exposta.

Seguro sua mão, apenas como um incentivo para que não saia dali. Eu não quero me separar do seu toque. Eu não quero que acabe. Me acomodo em nossa realidade sonhada. O seu toque me causa arrepio desconhecidos.

Eu não quero que acabe.

Selo os seus lábios molhados. As suas gotas se misturam as minhas. Somos peças tão distintas de um quebra cabeça. Nós nos encaixamos. Nós nos tornamos uma só.

Ela me toca. A sua delicadeza característica me faz sorrir. Ela retribuí. O beijo é findado e eu me permito encarar os seus olhos. Aqueles olhos e aquele olhar.

Emma.

Toco a sua pele clara, com a hesitação de quem caminha pelo desconhecido ainda que o destino seja de seu desejo. Ela desliza o casaco por meus braços e ele cai ao chão. Recordo-me do apelido que me foi dado durante tanto tempo. Emma ainda me desarma com sua sutileza.

Ela me encara, com os olhos de quem hesita em percorrer aquele caminho. Eu retribuo o olhar com a concessão de quem está disposta a descobrir os detalhes do desconhecido. Do novo. Do inédito.

Ainda que me fosse costumeiro, seria desconhecido. Seria novo e seria inédito.

Pois é ela. É Emma.

É a mulher que decorou meu humor por meio de pedidos. Que aprendeu sobre mim com olhares rápidos. Que me desvendou por completo. Que me ganhou com sorrisos que nunca eram retribuídos, ao menos não externamente. Hoje eu retribuía.

Retribuía e me sentia plena em fazê-lo. Os seus movimentos sublimes despiam-me o corpo e ganhavam minha alma. Eu não tenho medo. Eu desejo seguir.

É Emma e, por ser ela, eu estou aqui.

Os passos não contados nos levam ao quarto que já me é tão familiar. Eu sinto sua cama abrigar-me o corpo, sinto o seu olhar sobre mim. Ignoro a euforia que reside em meu interior. Eu desejo a calma que está em seus olhos verdes. A peculiaridade de cada detalhe.

Ela me beija.

Um beijo que já me é conhecido, mas que sempre traz algo novo junto de si. Hoje ele traz a descoberta. Toco sua pele clara, adentrando a regata úmida. Ela interrompe o beijo e cola sua testa a minha. Os seus olhos estão fechados. Eu fecho os meus. Posso sentir o seu sorriso e me permito espelhá-lo. Estamos em um lugar só nosso.

Emma se ajoelha e seus olhos me contemplam, com a delicadeza de um inseto prezo ao âmbar, ela me toca a pele com seus lábios quentes.

O meu interior queima com seus toques.

Eu desejo queimar.

Permito-me dançar ao seu lado, descobrindo os passos de uma coreografia que me é desconhecida. Não me importa. Deixo que me guie. Não há medo, não há dúvidas. Eu vejo a clareza das certezas que me unem a ela. Eu sigo junto a Emma, certa de que ela estará ao meu lado durante todo o caminho percorrido.

Eu sinto a reciprocidade vestida em toques sutis. Toques que me ganham o corpo, que me invadem o ser.

Estou encantada pela descoberta do novo. Apenas porque a descoberta do novo é com ela.

— Emma.

Os seus olhos buscam os meus e eu busco por seus lábios. Eles são tão familiares e tão novos. As suas mãos desvendam o meu corpo, o seu olhar revela a minha alma. Eu estou exposta e a sensação é incrível.

E com a calmaria das gotas que marcam o vidro da janela, os seus lábios visitam o meu ventre. Causam-me arrepios que resvalam por todo o meu ser. O desconhecido já não me faz hesitar. Ela está aqui, ela está ao meu lado. Emma transforma o meu lago de dúvidas em um oceano de certezas. Eu tenho certeza de que o meu lugar é aqui.

Quero ser decorada por seus lábios e tocada por ela. Só por ela. Por sua delicadeza única e sua peculiaridade. Ela encara os meus olhos e eu assinto em súplica para que continue. A intimidade do desejo nos invade. Ela me invade.

Como as águas de um rio, que percorrem caminhos calmos, eu sinto a intensidade do seu toque percorrer o meu corpo. Eu sinto as águas se tornarem mais rápidas, sinto o caminho se tornar declive. Fechos os olhos e me entrego. Não há resistências, eu deixo-me guiar. As águas se tornam rápidas demais. O meu corpo se resume a frémitos que clamam por mais.

O rio se derrama em cascatas.

E eu transbordo.

Eu mergulho no oceano dos olhos verdes que me encaram, em uma hesitação adorável que só podia ser dela.

Emma.

Seguro a sua mão e a puxo para mim. Eu preciso dos seus lábios junto aos meus. Eu a sinto em cada parte do meu corpo e eu nunca estive tão plena. Os sorrisos fáceis que me ganham o rosto não precisam ser justificados. Eu me sinto em casa.

Não por estar em seu apartamento pequeno e aconchegante, no prédio de tijolos vermelhos. Não por estar em sua cama, despida de minhas roupas encharcadas e entregue a ela.

Me sinto em casa, porque há tempos eu resido nela. Antes mesmo de saber que o meu lugar é em seus braços. Hoje eu sei.

Inverto nossas posições, apenas para ter a dádiva de lhe contemplar. Livre de barreiras. Hoje eu posso olhá-la. Encaro o seu rosto, cujos detalhes já foram decorados por mim. Nada me impede de lhe decorar. Não há olhares rápidos, nem sorrisos escondidos. Eu a vejo por completo. Vejo seu rosto corado, vejo sua pele clara. Vejo seu corpo desnudo que é tão belo. Me pergunto como a beleza pode lhe talhar com tanta fidelidade. Os detalhes que a tornam única em muito se assemelham a uma escultura. Talvez Michelangelo tenha a esculpido nos céus e a mandado para essa terra.

Tão delicada quanto o botão de uma rosa, que um dia se tornará flor.

Toco seu corpo com a ponta de meus dedos, reconhecendo os lugares dos quais eu desejo me tornar íntima. Os seus pelos arrepiados me fazem sorrir. Eu busco por eles, aqueles que me contam toda a verdade de sua transparência.

Os seus olhos.

Ela me beija, mostrando mais uma de minhas certezas. Eu transbordaria inúmeras vezes e isso me agrada. Anseio pelas formas diferentes de percorrer um caminho que já não me é tão desconhecido. Eu quero trilhá-lo com ela. Quero reconhecer os detalhes e me apegar ao novo, quero estar ao seu lado em cada descoberta. Ela estará ao meu.

Os seus movimentos me ganham mais uma vez. Ela gargalha ao ver a expectativa que não me importo em esconder. Eu a desejo e me sinto desejada. Não há barreiras.

Eu deixo que me descubra novamente. Deixo que me leve às águas daquele rio. Deixo que me derrame. Deixo que transborde. Emma me guia pela dança cujos passos já se tornaram mais conhecidos e eu anseio por aprender os diferentes ritmos. Ao seu lado, sempre ao seu lado.

Sou tomada pela leveza do momento, que é, paradoxalmente, tão intenso.

Sempre será ela.

A atendente loira do café preto, do macchiato e do cappuccino. Aquela que me fez rodar por ruas desconhecidas, apenas para acompanhar os seus passos. Que me fez guardar um copo simples carregado de simbologias secretas. Que me deu um lugar frente a um lago que era dela. Hoje, ouso dizer, ele é nosso. A mulher que me fez redescobrir a mim mesma, só para entender que havia tantas coisas desconhecidas sobre mim. Aquela que destruiu a minha zona de conforto e movimentou os meus dias. Ela movimentou o meu ser.

Emma me fez apreciar os dias cinzas.

Eu a olho, com a certeza das simplicidades. Com a certeza de que nada poderia mudar isso, não importa o tempo e o espaço.

É ela.

Sempre será ela.

Sempre será Emma.

Notas finais
Olá, Amores! Espero que tenham gostado. Obrigada pelo capítulo, Layla. Eu sou uma pessoa horrível e não respondi os comentários ainda. desculpe, vou responder. Beijos.