Saudade

11 Divisor de Decisões.


Notas iniciais
Olá, cheguei com um capítulo. Vocês sabem que eu os amo e que vai tudo dar certo ne? Quero agradecer imensamente aos comentários do capítulo anterior. Foi o mais comentado e o mais lido até agora. Obrigada mesmo por isso. Desculpe qualquer erro. Não consegui reler o capítulo. Boa leitura.Bjos

Eu quero gritar, chorar, extravasar tudo dentro de mim. Não sei distinguir meus batimentos, a aceleração que sinto em cada veia. É inimaginado o que acabou de acontecer.

Estamos nos olhando e consigo ver a caixa aberta pelas linhas mergulhadas nos olhos castanhos. Ela abriu seu esconderijo de sentimentos que estavam trancafiados, e tão bem enjaulados que suas mentiras fariam qualquer um acreditar. Ela mesma acreditava. Eu sempre acreditei.

Passo a ponta dos dedos em seu rosto. Tento tocar essa realidade que fora sempre tão longínqua. Preciso acreditar na materialidade daquele rosto manchado por lágrimas. Ela fecha os olhos e eu observo a cada deslizar de dedo. Memorizo as imperfeições tão perfeitas da mulher por quem me apaixonei. Passo o dedo por seus olhos fechados, sinto as trilhas das lágrimas contidas a muito tempo.

Regina ainda está com os olhos fechados e eu ainda estou admirando minha nova verdade. Tocando o rosto que nunca, mas sempre foi meu. Tocando a pele do distante.

“Sempre esteve tão longe.”

Pego sua mão e, ainda com a ponta do dedo, sinto a pele que nunca tive a liberdade, a coragem de tentar tocar. Estou aceitando o intocável, aceitando a certeza de uma realidade que sempre chamei de ilusória, fantasiosa, improvável, inalcançável, impossível.

Posso ver esse “impossível” em minha frente. Posso tocar esse “impossível”.

Me aproximo sem receio e a beijo novamente. Busco explicações do bombardeio que sinto, busco acreditar que ela existe para mim. Seguro seu cabelo tentando a trazer para mim e uma dor me invade. Aquele dor gostosa de ter o que nunca se teve. Um desespero, uma ansiedade.

A solto e minha respiração está descompensada demais, rápida, forte. Meu corpo está cheio de algo que não consigo explicar. Não quero que passe, não quero que acabe. Quero continuar com esse desejo, quero esquecer todos os entraves que tivemos. Quero esquecer qualquer magoa que já tive e viver esse momento único. Congelado e brilhante.

Não há palavras. Não consigo me expressar olhando todo meu desejo pelos olhos dela. E em meio de um sorriso verdadeiro demais, eu ouço.

Ouço seu celular, e mesmo não sabendo quem é, penso nele. É tão imediatista minha mudança de humor. Sinto uma vontade de voltar ao transe que encontrávamos, aos vales verdes com brisas suaves, à cena com duas pessoas sem mundos.

Ela levanta rápido demais e me deixa divagar em meus delírios sozinha. Penso em como será daqui pra frente, se ela continuará a me visitar no café, no parque. Penso se continuarei conhecendo seus lugares e se ela conhecerá os meus, mesmo os meus sendo ela.

Meu lugar sempre foi ela.

Penso que estou entrando em problemas conjugais. Balanço a cabeça afastando esse pensando obscuro. Vou deixar as obscuridades para outro dia. E, seguindo essa intensão de realização, eu relembro suas palavras.

“Eu sempre te vi.”

Lembro das noites em que encarei meu teto rachado, pensando nas não qualidades que a fariam me ignorar. Agora tento pensar nos detalhes que a fizeram me enxergar. Não consigo deixar de sorrir e não consigo encontrar nada interessante.

“Ela sempre me viu.”

Ouço seus passos apressados e preocupados. Ela está apertando o telefone como se absorvesse forças. Estreito os olhos e me levanto reconhecendo aquele elevar de sobrancelha.

— Aconteceu algo?

— Me desculpe, mas preciso te levar para casa. – Ela está nervosa.

— O que houve? – Me sinto preocupada com seus problemas.

— Nada demais – me dá um sorriso tentando afastar minhas perguntas. Eu a conheço demais para isso. Passei meses observando tudo. – Podemos conversar outro dia?

Começo a desconfiar dos porquês da expulsão repentina, e meus pensamentos voltam para ele. Desisto de insistir e só aceito calada, não acredito nos meus direitos de argumentação. É a vida dela, o apartamento dela, o marido dela, os problemas dela.

Regina não se sente à vontade para compartilhar. Aceito isso evitando me entristecer.

Pegamos nossas coisas e saímos. Ela mais apressada do que eu. Seu desconforto é aparente. Entramos na caixa metálica com musiquinha chata. Passo pelos carros chiques como à horas atrás. Entramos em sua Mercedes preta e ela dirige.

O silêncio que sempre me confortou estava perturbador. Sua mão girava rápido pelo volante em curvas fechadas. Estava com pressa em me deixar. Não penso nos motivos para não insistir na pergunta. Pode ser pela falta de direitos em invadir sua privacidade ou pelo medo da resposta. Estou estando impedir que toda a magia que senti ao estar com ela se evapore.

Hoje, eu prefiro apenas guardar aqueles beijos.

Não consigo aproveitar o “tour” como das outras vezes. Seu desconforto me incomodava e não posso fazer nada. Minha inutilidade também me incomoda.

Viramos a esquerda e tenho a impressão de ter visto alívio rente as rugas de preocupação. Meu peito arde por uma pequena pontada de descarte, rejeição. Estou fantasiando, eu sei. Só tenho medo que seu arrependimento surja e não tenhamos mais momentos reveladores. Momentos de total entrega, ao menos da parte dela.

Ela freia bruscamente, me sinto jogada para fora do carro por um olhar confuso. Eu assinto me sentido triste e abro a porta. Sinto sua mão me segurar com apreensão da mesma forma que fiz na cafeteria.

Vejo o mesmo olhar triste que dei a ela mais cedo e uso a mesma frase.

— Você precisa me deixar ir.

Diferente de mim...ela me solta. Suspiro pela decepção e desistência, olho para baixo.

— Desculpe. – Sua voz está fraca, cansada.

Não consigo dizer nada. Ela me soltou e esse gesto significou mais que aparentava. Eu sinto sua soltura como uma batalha perdida. Estou sendo egoísta, compreendo isso, mas...

Só quero ser escolhida.

Minhas pernas estão pesadas se negando a entrar no prédio que não quero estar. Quero estar em um dos trezentos andares espelhados. Meus passos são arrastados e não escuto a partida do carro. Olho para traz, ela está me olhando presa em decisões que tenho medo de pensar.

Balanço a cabeça assentindo algo que não sei, apenas tentando mostrar meu apoio por uma atitude necessária mesmo desconhecida. Mostrando que estarei aqui quando voltar do caminho espinhoso. Ela não precisa me contar seus espinhos, precisa apenas saber que estarei aqui para ajudar a apara-los.

Move os lábios que beijei em um “Obrigada” com total significado.

Entro no prédio de tijolos vermelhos devagar. Aproveito os metros entre o silêncio e o interrogatório. Ao passar pelos corredores diários, minha mente se bagunça por conversar ou não. Por desabafar ou não, por ser questionada ou não.

Piso no segundo andar, o corredor está curto para minhas necessidades de pensar. Paro na porta do número 204, seguro a maçaneta com força, paro pensando em minhas opções.

Um minuto inteiro passa e eu a giro. Ruby está sentada no sofá lendo um livro que é meu, me olha e percebe algo de errado.

— O que foi?

— Eu preciso da minha melhor amiga.

Ela não diz nada, levanta e me abraça. Aquele abraço carinhoso, acolhedor, necessário. Aquele abraço “Curador de coração partido”.

— Me conta.

Conto sobre a visita no café, a espera, a lágrima, o fugir do trabalho, o carro, o apartamento, as conversas abertas, a confissão, o beijo, a ligação e a fuga.

Minha amiga de mechas vermelhas escuta cada frase calada ou quase calada. Sorriu comigo ao ouvir sobre o apartamento e se assustou comigo ao ouvir sobre o beijo. Vejo sua vontade intensa em gritar, esbravejar, opinar, mas se contem. Sabia que eu precisava desabafar, arrancar todas as vozes engasgadas a muito tempo, todos os fantasmas morenos que me habitam.

Ruby me deixa esbravejar, xingar, me confundir e qualquer coisa que eu precisa nessa noite nublada, misturada por horas reluzentes e ligações obscuras. Eu sinto medo. Eu estava em um quarto cheio de expectativas por algo que pensei nunca alcançar. Regina me arrancou deste quarto, e agora estou no meio de uma sala branca sem enxergar os caminhos que seguirei. Sem ver portas, janelas ou saída das várias possibilidades. Estou cega pela claridade que me mostrou e não sei o que acontecerá.

O desconhecido sempre nos assusta. O não saber, a ignorância sobre o amanhã. A ansiedade no apenas esperar.

Após uma hora de desabafo. Tomo um banho pensativo e preocupado. E diferente das minhas várias noites, essa será ainda mais longa.

*****************************************************************

Passo cinco dias inteiros sem qualquer notícia. Ela não volta, não se senta na mesa do outro lado da avenida. Não passa apressada pela porta do meu trabalho às 17:05.

Regina sumiu, eu ainda estou esperando o “outro dia” para conversamos. Dias que estão longos demais. A saudade chata volta a me perturbar. Me sinto culpada por aceitar, prometi a mim que não acreditaria em momentos positivos – mas aquele foi positivo demais até para minhas incertezas. – Volto a me sentir cair no precipício de decepções. Levei tanto tempo para me sentir melhor, voltei à estaca zero, ou a uma estaca negativa que criei em minha cabeça cheia de saudade.

Começo a pensar que tenho problemas demais com telefones. Eu a vi algumas vezes, por que exatamente não peguei seu número? Minha idiotice ao mergulhar em olhos fundos me deixaram ignorante. Eu poderia tentar perguntar sobre seus problemas e fingir que seria uma ouvinte desejada.

Fico pensado nessa situação. O simples sumiço de alguém que se deseja demais. Tal sumiço nos abre brechas para suposições.

A suposição é uma droga!

Hoje é domingo e não consigo evitar em me encher de esperança. Aquele parque mudou de significado para mim. O lugar que me ajudava a esquecer, hoje só me faz esperar. Caminho tentando acreditar que a verei.

Ando pela trilha coberta de significado, vejo meu banco e ela não está nele. Me sento cumprimentando meu amigo Ted. Não consigo ler hoje. Só fico lá pensando em todos os dias que tive. Tentando encontrar sinais que nunca vi. Olhando um lago que me fez companhia, pensando o porquê dela ter se aproximado.

O que seria melhor: A aceitação da tristeza por nunca ter tido a pessoa que sempre se quis ou a desilusão por ter estado uma única vez e nunca mais estar?

Viver com a vontade de experimentar, ou experimentar e nunca mais esquecer?

Não sei o que escolher. No momento, apenas viver expectativas são mais atraentes.

O sol de domingo me mostra que ela não virá. Desisto e vou embora.

Em algum momento da minha vida eu esperei as segundas, em outros esperei os domingos, depois esperei as rotinas e agora, não sei mais o que esperar. Acho que não devo mais esperar.

Chego em casa cansada de tudo. Este domingo se tornou um divisor de decisões.

A decisão foi tomada.

Após dias reunindo o necessário para minha tomada de atitude, eu vou.

Dou passos fortes. Preciso resolver minhas questões, preciso de respostas para continuar a viver. Passar dias cobertas de dúvidas não foram o suficiente para mim.

Não estou com raiva, estou decepcionada. Eu acreditei em suas palavras e agora quero explicações. Entro no prédio grande demais. Pego o elevador. Chego no 11º andar. Caminho sem responder as pessoas que me perguntam, nem as ouço. Estou decidida demais.

Ignoro uma loira que questiona meu destino. Abro a porta sem bater, sem educação, sem cerimonias.

Regina se assusta ao me ver invadindo seu escritório.

— Sra. Mills, ela simplesmente entrou. A senhora quer que eu chame a segurança?

— Rose, saia. – Nos encaramos e não sei se é surpresa ou raiva que vejo.

— Mas Sra. Mills?

— Saia!

A mulher decidida estava ali. Séria, surpresa, preocupada. Minhas convicções estão fortes. Eu preciso conversar, eu preciso entender.

— Hoje é o “outro dia”.

Ela não fala e me sinto como mais um dos seus vários problemas sem solução. Passa a mão nos cabelos, massageia as têmporas buscando concentração.

Eu continuo.

— Por que você sumiu? – Apoia o cotovelo na cadeira e coloca dois dedos na boca que senti há mais de uma semana. Vejo seus olhos deslizarem por mim. Pensando no que dizer, pensando se sou louca por aparecer, pensando em seu arrependimento, pensando na saudade. Não sei em está pensando. – Por que não me reponde?

Ainda estou de pé, ela ainda está brava. Levanta de sua cadeira de couro com seu terninho cinza. Contorna a mesa calada. Invade meu espaço, minha respiração muda de compasso. Me esqueço da raiva. Ela tira fios de meu cabelo dourado admirando meus olhos escondidos por lentes. Começo a tremer.

Seus olhos conseguem ver a mentira que criei, ela vê antes mesmo de mim. Coloca a mão em meu rosto e tudo perde o sentido, meu corpo se arrepia como a primeira vez, sempre é a primeira vez com ela.

Regina me beija em despedida. Sinto o desespero por suas mãos. Sinto a urgência por algo que não terá mais e não consegue soltar. Eu sinto isso em cada parte de mim. E ela não precisa dizer nada. Me desprendo para dizer.

— Regina, não!

— Emma, eu preciso que você vá e que não volte mais.

Foi assim que meu corpo inteiro se quebrou.

Notas finais
Sejam delicados comigo. Não batam com muita força. Até a próxima. bjos