Notas iniciais
Eu não sei fazer notas, anyway. The Virgin Suicides e "Tramas do entardecer" foram os alicerces dessa estória. Pense nisso como uma ficção com uma dose de realidade exagerada. Não entendeu? Eu tbm não me entendo. O link da playlist tá nas notas finais.


Mais um daqueles fins de tardes monótonas, dezoito horas, as nuvens aparentavam algodões doces para alguns, mas para Clítia eram as mesmas nuvens que os Deuses Gregos pelejaram suas batalhas e se desmancharam nos braços das suas amantes.
Peregrinando entre porcos disfarçados de homens na antiga viela, ela conhecia aquele caminho tão bem, que sequer se lembrava quando passara por ali pela primeira vez. O violão nas costas doía, mas ela não se deixava empedernir, era um pequeno sacrifício que valia a pena por uma paixão cálida. De vida vazia, aquilo era quase como uma religião para ela. O ritual se consistia em sair do curso e ir direto a quadra do lado da escola, apertar os magros dedos na cerca de malha, inclinar o joelho no concreto da parede e observar atentamente seu Deus, belo Ravi, digno de adoração.

Quando os raios de sol do fim do dia acariciavam seu rosto pálido, ela inclinava a cabeça para trás e fechava os olhos em êxtase, como se isso a deixasse mais próxima de Ravi. Infelizmente, o garoto não percebia o desespero mudo do outro lado da cerca, nem sobre o efeito que ele causava nela. Clítia adorava a pele cor de oliva dele, o corte de cabelo estilo pompadour, ou como ele parecia um integrante de banda indie dos anos 2000 vestido com jaqueta de couro preta.

A sofreguidão rompeu ainda alguns meses antes, durante uma festa infantil morna, assim como todas são. Numa casa com luminosidade ensombrada com aparência de sufocação, na sala de visitas onde as crianças corriam e a família havia ornamentado a mesa do bolo com os mesmos enfeites do ano anterior. Ela se sentou plenamente no sofá, trajada de negro, entediada. Com batom uva nos lábios e glitter nas pálpebras foi quando ela viu ele, não pela primeira, mas pela quarta vez e se apaixonou. Em outros tempos, Ravi surtiria nada no âmago de Clítia, mas naquele instante ele estava diferente, parecia ter crescido, o rosto estava mais largo e tinha a expressão de um homem. Só o nariz era um pouco grande, nada que atrapalhasse sua beleza peculiar. Quando ele passou eclipsando as paredes descascadas, (pintadas de rosa pastel pela última vez em 2010) ficando embaixo da escada coberta de azulejos azul-marinho, ela se deu conta que queria passar o resto da sua vida com ele.

Eles trocaram apenas duas palavras. Na verdade, apenas ela trocou.

“Trouxeram-me já” ela disse. Tocando o copo de plástico com refrigerante espumando. A velha, avó do Ravi, mandou-o buscar para a garota um copo, mas a tia dela já havia-lhe dado antes, não tinha sentido ficar com dois copos. “Pode levar” ela continuou, ele sorriu timidamente e olhou para ela, as pontas dos seus dedos se encostaram levemente. Isso doeu tanto, o fato de ele voltar a cozinha e jorrar o refrigerante na pia, ela não queria fazer ele se sentir estúpido. Clítia desejou de todo coração que Ravi se permitisse cair no sofá ao lado dela e conversasse sobre as coisas. Mas sobre o quê? Ela não tinha nada de interessante para falar, a timidez a fazia se ver como uma poça d’água, rasa e pequena. A festa decorreu e acabou. Durante o processo sem nenhuma tentativa de flerte ou aproximação. Apenas aquela troca de olhares que durou milésimos de segundos, mas perdurou décadas na alma de Clítia. Desde então, a imagem de Ravi nunca mais saiu da mente de Clítia.

A tristeza de Clítia vinha de muito antes, das zombarias escolares, do isolamento social. No fundo ela acreditava que alguém jamais a amaria por sua aparência e estranheza, as pessoas pensavam que ela tinha algum problema mental, não entendiam que ela era só uma garota triste com falta de confiança cansada da vida.

E lá estava ela agarrada à cerca, cegamente apaixonada. Não compreendia o basquete, na verdade detestava esportes, era tudo enfadonho a ela. No seu íntimo torcia a cada cesta que Ravi fazia, e raras vezes ele parava e sorria. Clítia não sabia se era por pena ou amor.

A partida acaba. Ravi sai pelo lado contrário com os amigos, suado, bebe água numa garrafinha. Relutantemente, ela se desloca para longe da cerca e parte rumo a sua casa, a prisão que ela própria carrega as chaves. Sobe os degraus de uma casa silenciosa com número 7 desenhando na entrada, de uma biblioteca embutida no cômodo de baixo, mobilada com madeira, os livros estão em estados catatônicos, empoleirados. Quantas vezes ela implorou que a deixassem trabalhar ali, os tios nunca davam uma chance, criatura subestimada.

A cartomante, vizinha, olha pela fresta do levolor a menina entrar no quarto. Balança a cabeça em negação, ela sempre soube. Nodo norte em virgem, Netuno retrógrado, plutão na casa 8, lua em oposição a Vênus, sol quadratura em marte, Lilith e plutão quadratura. A mulher sente vontade de chorar, o destino fatal está à espreita, por que a garota insiste em viver?

Clítia tinha esperanças, turvas e impossíveis, sim, mas tinha. Um dia ela e Ravi caminhariam de mãos dadas entre as quadras esportivas, assistiriam ao show do No doubt cantando os sucessos do Return of Saturn. Ela lhe daria ósculos ele até se fartar. Ofereceria a Ravi sua virgindade e arrancaria a dele, ela sabia que ele era virgem também, sentia o cheiro. Escutando artificial sweetener, essa música lembrava alguma do Charlie Brown Jr. Clítia odiava essa banda, uma tremenda porcaria se quer saber, ela pensava. Ironicamente, era a favorita de Ravi. Clítia amava ele, porém achava-o empobrecido musicalmente. Como eu posso perder meu tempo pensando em alguém que sequer se importa com a minha existência? Ela se deita na cama. As paredes são lilases, da cor da sua aura, foi o que a vizinha disse, estranhamente, a aura de Clítia está chegando a uma tonalidade negra tão profunda quanto a noite.

“É obsessão, você o colocou num pedestal e o idealiza da maneira que a sua personalidade dominadora o deseja. Se quiser ter algo concreto com esse menino precisa vê-lo como ele realmente é, ou seja, destrua seu Deus, transforme-o em homem com os defeitos e virtudes que ele tem.” Aconselhava a cartomante. Clítia não lhe deu atenção e agora ela estava energúmena, mal sabia qual dia era, o que acontecia na cidade. “Ridículo e opressor o jeito que as luzes natalinas piscam.” Ela fala consigo mesma, na varanda observando no negrume a lua minguante e o mundo que borbulha lá fora, casas ascendendo em azuis, vermelhos e brancos. Malditas luzes, maldita paixão carnal. Sua vida é uma constante repetição, tira a gaiola, bota a gaiola, até pássaros mudam e a vida dela estagnada. Ela não aguentaria viver assim, porque todas as garotas e mulheres tinham suas liberdades cerceadas, e os marcianos não compreendem os venusianos, eles nunca fizeram questão de entender. Então ela se agarra ao amor, a uma simples ilusão difundida.

Como uma súcubos em suas fantasias íntimas, ela se apossa de Ravi em um quarto imaginário, na sua mente conseguia visualizá-lo perfeitamente, computador preto sobre uma mesinha marrom, paredes pintadas de azul miosótis, uma cama encostada no canto, bagunçada. Ela fazia o que queria com ele, então acordava com uma umidade culposa, seus dedos molhavam quando tocava lá, mas na fantasia eram os de Ravi que ficavam.

Ela passa novamente na cerca, no outro dia. A mesma coisa de sempre. Dessa vez o seu homem metade menino se aproxima dela. Clítia sente o coração palpitar nervosamente, ela podia perecer ali mesmo. “Oi, você é a sobrinha da Helena?” ele pergunta. Com o rosto tão perto dela, apenas com a cerca os separando. “Ah, sim, e você de Páris.” Ela responde resplandecente, sorrindo e sentindo-se patética. Alguém chama Ravi, ele olha para trás, é um dos jogadores, volta a Clítia e lhe dá um tchau partindo em seguida, só isso. Como ela gostaria de sufocar Eros até ele morrer.

Se amorenando na janela, anoitece na solidão. Rasgando o véu da ocultação, ela põe-se a investigar minuciosamente no computador da biblioteca todas as particularidades de Ravi. Ela descobre em quem ele votou, isso a deixa triste, ele defendendo fervorosamente aquele desprezível. Assim ela acompanha a vida dele virtualmente, imaginando cada história daquelas fotos, ela gosta dela ou de outra? O que ele faz nos seus momentos de lazer, se inteirando de cada informação tentando captar a personalidade do garoto. Uma música cafona do RPM começa a entoar sozinha no rádio.

Não sei se é caça ou caçadora

Se é Diana ou Afrodite ou se é Brigite

Stéphanie de Mônaco, aqui estou

Inteiro ao seu dispor (princesa)

Assustada, ela vai até a origem do som. No andar de cima, em meio ao breu e a luz da lua atravessando o vidro da janela, a morte brinca com um girassol e segura uma foice na outra mão. “Por que agora?” Clítia lamenta. “Oh, querida, eu estive à sua procura por tanto tempo.” Ela responde girando a flor de um lado ao outro. “Não é justo, esta é a Era de Saturno.” Clítia insiste. “Sim, e você não viverá tempo o suficiente para aproveitá-la.” Diz a morte cruelmente. A janela abre-se sozinha trazendo uma jorrada de vento para a biblioteca. A criatura joga o girassol no chão, ergue a foice indo em direção a garota. Clítia corre, corre pela sua vida, seja lá qual for. A coisa persegue Clitía pelo cômodo, a morte poderia capturá-la se quisesse, mas a teatralidade e tensão formada pelos humanos nessa hora era de um deleite maravilhoso para ela. “O que temos aqui é um ser humano egoísta que só pensa em si mesmo, alheio ao entorno, voltado para dentro.” Zomba. “Eu tenho tanto para viver e descobrir, por favor, me dê alguns anos. Eu não quero ser uma das 72 virgens.” Clítia implora escondendo-se entre as estantes com a besta flutuando por toda sala. “Você teve todo o tempo do mundo, criança. Agora acabou.” Sentencia. Clítia chora e sabe que é verdade. A besta pega-a levantando-a até a altura da janela, suas cortinas ao som do vento dançando como fantasmas, segurando a garota pela cintura, a morte toma posição fraternal, num momento ela sente compaixão. “Não tema, o lugar para onde você vai é muito melhor do que esse, você fará parte da vida, não será invisível em meio a multidão.” Conforta. “E Ravi? Como posso ir a algum lugar sem ele?” Clítia interroga. “Por que você ainda dá ênfase a essas coisas terrenas?” Pergunta tristemente a morte. “Eu me agarro…” Murmura a menina desnorteada.

Se comparecendo daquela alma amargurada, a morte se incorpora em Ravi. O cabelo pompadour, os dedos magros, a roupa esportiva, alto e com sorriso ingênuo, a tez de indiano, estava tudo lá. Essa foi a única vez que Clitia ficou feliz, passando as mãos ao redor da nuca e acariciando o seu cabelo, chorando lágrimas que nunca chorou antes. Ele sela os lábios nos dela e fala suavemente. "Vocês ficarão juntos sim, na Era de Aquário." O rosto dela se empalidece, trazendo uma feição estúpida ao descobrir uma surpresa desagradável. Ravi solta seus braços e Clítia flutua, leve feito pena, o garoto volta a ser morte. Clítia olha para o céu repleto de estrelas, o céu que ela jamais acordará para completar outra vez, seus planetas regendo signos com promessas tão mentirosas. Ela cai, cai, como nos sonhos... Até se partir na rua lá embaixo.

Foi assim que a encontraram, sangue escorrendo da cabeça, pescoço fraturado, pernas e braços entortados, olhos abertos e um sorriso sombrio nos lábios em forma de cupido. Em uma rua tão silenciosa, apenas no alvorecer é que as pessoas notaram o corpo inerte no chão da entrada da biblioteca. Eles se juntam diante da tragédia consumada e viram seus olhos a janela aberta com as cortinas balançando, escutam pássaros cantando presos em algum quarto escuro, então passam a observar a menina morta. Não ficam horrorizados, eles já esperavam por isso há anos. "Sabia que essa esquisitona acabaria assim." Fala um deles. "Jovem e bonita, mas mórbida até para mim que tenho sessenta e cinco anos e estou com o pé na cova". Comenta a senhora da casa frente. A cartomante olha através do levolor, amassando o arcano maior da casa 13, finalmente afasta o rosto para nunca mais espiar Clítia.

Segue-se o funeral. Clítia é enterrada usado um véu negro. Todos lamentam, os dias vêm, aqueles que não tinham qualquer convivência ou passaram em raros momentos de sua vida esquecem-se dela, como se fosse névoa passageira, nem chegada a existir. Ninguém se lembrará de Clítia, não haverá homenagens em seu nome ou feitos célebres à sociedade. Sua foto não aparecerá num telão tampouco irá permanecer na mente do coletivo. Ela não era o Jim Morrison ou Amy Winehouse, o glamour de uma morte prematura só pertence às celebridades.

De costume, Ravi toma conhecimento do óbito da garota. Não achou lugar no coração para ela, estaria sendo falso com ele mesmo se o fizesse. Porém, entristece-se, melancolicamente, sentido uma angústia indecifrável de algo que ele perdera e não sabia o quê. Lembrou três meses atrás, quando ela apareceu ali e ficou colada à cerca feito uma maníaca, nunca passou pela sua cabeça que ela gostasse dele, pensava ela curtisse ver os meninos jogando, a maioria das garotas fazia isso. "Ela parecia uma daquelas feministas alternativas que são todas iguais." Relatou aos psicólogos e policiais. A família de Clítia cogitou que assim, quem sabe, questionando instintivamente aqueles que tiveram direta e indiretamente contato com ela, poderiam responder algumas das perguntas nebulosas sobre o acidente. No entanto, com o prosseguimento da investigação perceberam que Clítia prontificou-se de ocultar seus profundos sentimentos e reprimir sua personalidade, porque ninguém a conhecia verdadeiramente, e os parentes se deram conta que jamais chegariam a lugar nenhum.

Somente uma pessoa agraciou do segredo dessa paixão abrasadora e platônica. A vizinha. Foi assim que o possível impossível romance entre Clítia e Ravi se tornou popular nas bocas da vizinhança. Disse isso depois de muita insistência, sobre as sessões que ela tinha nos sábados com a garota, acendendo incensos e mandando-a escolher entre as cartas do baralho. Pois como a própria cartomante afirmou, "não é certo que se revele a terceiros a vida pessoal dos clientes, ninguém gostaria que seus segredos viessem a público." Entretanto, ao enterro batendo a porta e acreditando que sua protegida havia partido para o plano espiritual, achou que não haveria grandes problemas em trazer à tona a paixonite. "Um segredinho bobo, ela era até mais velha que ele. Eles formariam um casal bonito se os dois não fossem tão tímidos." A mulher disse mais nada, mudou-se duas semanas depois. Iria para um lugar do país onde a crença no misticismo fosse forte. Vendeu a casa e partiu, a cidade nunca soube o que aconteceu com ela.

Enquanto a Ravi, arrastado a rotina, permaneceu na continuidade terrena. Pois não havia lugar para o tédio em sua vida como na de Clítia. As vezes, quando parava para respirar, durante uma partida ininterrupta, admirava com os olhos negros a coloração rosada que as nuvens atingiam ao entardecer, vindas por detrás das serras verdejantes, agora amareladas pela estiagem. Sentia o peso do tempo perdido, mesmo tão jovem, o mundo fervilha e as coisas mudam. Antigamente o céu simplesmente escurecia ao intervalo das seis à sete horas, todavia com o decorrer dos anos, acabou-se por esse espetáculo fúcsia, violeta e laranja intermediar a chegada da noite. Um belo girassol nasceu na parte favorita da cerca que Clítia espionava ele. A planta parecia segui-lo toda vez que jogava basquete, como se a presença dela estivesse ali.

Então ele roubou os discos, desde os da Cyndi Lauper até o Utopia autografado pelo próprio Dinho, quando era ainda era um mero desconhecido e nem vítima de uma idolatria doente. Chegou furtivamente a casa dos tios da finada, pulou o muro dos fundos, entrou na sala e percorreu o ambiente procurando pelas respostas daquele silêncio ensurdecedor de Clítia. Para sua decepção, a casa não era um antro de magia negra como nas suas fantasias. Um lugarzinho alinhando, com um computador moderno, estante de acrílico e plantas de plásticos. Os tios de Clítia tinham o estranho costume de colecionar bebidas dentro da estante, a porta era feita de vidro, o que possibilita ver as garrafas protegidas por uma falsa segurança, vinhos, vodcas, champanhes que datam de épocas remotas, mais felizes, garrafas nunca abertas e experimentadas.

Entrando no quarto dela, respirou o mesmo ar que ela respirou toda sua vida. Sentiu o cheiro de incenso queimado que vinha do quintal da mulher lésbica e adentrava o quarto rudemente. Limpou os poros diante do espelho do guarda-roupa, abriu ele e saracoteou segurando um vestido etéreo como se fosse Clítia. Viu ali na mesinha poeirenta os óculos de grau que ela usava. Colocou-os, mas os tirou imediatamente, tonteando esbarrou nos discos da menina. Não soube o que se passou na sua cabeça naquele momento, apenas que precisava tê-los. Sou pior que um psicótico, puta merda. Roubando discos. Sem rodeios, ele o fez. Ninguém sentiria falta de discos tão antigos e vagabundos como aqueles. Levou também o batom uva, que ela usou no dia em que se apaixonou por ele.

Correndo entre as calçadas esburacadas, uma lembrança voltou a sua mente. Em um domingo tedioso, ele chegou na casa de sua avó com os pais e a viu ali, espalhada no sofá como nas pinturas pré-rafaelitas. As pernas longas e finas cobertas até o joelho com uma meia-calça 5/8 preta de renda, folheando um livrinho de astrologia. Ravi particularmente ficava nervoso ao interagir com o sexo oposto, (ele nunca teve uma namorada) só que aquela garota estranha o deixava num estado de excitação terrível e isso era dez vezes pior do que as outras meninas. Seus amigos diziam que não se envolviam com esses tipos de mulheres, feministas, comunistas, hipsters, "todas putas e retardadas. Eu vi isso num canal no YouTube" falava seu tio bêbado, que tinha o costume de bater na esposa.

Ele fazia tudo o que podia, infelizmente ela sempre de alguma forma o conjurava. Tentou voltar a rua, a fim de fugir dela, mas era tarde demais, ela o vira. Deixou de lado o livro que lia com tanto afinco, Ravi deu por si que se uma pessoa interrompe uma leitura prazerosa é porque encontrou algo muito mais interessante.

"Oi." Ela ainda sorria. Ele achou aquilo triste. "Oi..." Ele cumprimentou esquivo. "Posso fazer seu mapa astral?" Ravi fez que sim com a cabeça. A sina dos retraídos, ser feito de gato e sapato por não conseguir dizer não. A expressão infantil no rosto de Clítia persistiu na cabeça de Ravi por anos. Perguntou ao garoto o ano, dia, mês e horas em que ele nasceu, tirou o celular com a tela trincada do bolso e pesquisou qualquer coisa nele. Ravi não acreditava em horoscópo, muito menos que o movimento dos planetas interferiam de algum modo na sua vida ou diziam algo sobre ele, todavia deixou que ela continuasse. “Isso é ruim, Saturno e Vênus em aspecto.” Ela comentou preocupada, parecia uma profissional vendo os exames de um paciente com uma doença grave. “O que isso significa?” Ravi inquiriu demonstrando curiosidade fingida. “Que você não aceita o amor que merece…” Falou afetada. “Veja bem, Vênus é Afrodite, Deusa do amor, Saturno é Cronos e filho de Urano, estão em oposição, isso traz um aspecto tenso. O amor contra a violência.” Ela disse, e a camiseta preta pendeu do ombro revelando a clavícula ossuda e duas pintas marrons. Ravi achou aquela parte do corpo mais atraente do que qualquer outra, ela olhava para baixo, para o livro, e a caveira fumante da camiseta, símbolo do Grateful Dead, segurando um disco ria dele, enquanto a Afrodite ao lado contendo uma rosa na mão dava um meio sorriso.
Ele sentiu em últimos momentos que havia um muro entre eles, por mais que quisesse ter uma conexão, algo bem lá no fundo lhe alertava que ele nunca quebraria essa parede e captaria as angústias daquela criatura misteriosa.

Havia ainda outra peça do destino. Sem vitrola, Ravi não ouviu os discos, nem quisera. Com o conforto da tecnologia podia escutar as músicas no celular a qualquer momento. Preferiu ornamentá-los em quadros, preservando a memória de Clítia.

Ravi amou-a por toda eternidade de dez segundos. Adormeceu no holocausto que tornou-se sua mente. Naquela madrugada ela veio, sentada na cabeceira da cama, sem os óculos e usando um vestido branco. "Eu morri mil vidas por você e vivi mil mortes." Ela disse. Ravi estava sonhando, era um pesadelo, daqueles estranhos, nem ruins ou bons, pouco assustadores, mas agonizantes. Ela manteve fixo o olhar no pôster de Shiva, Ravi também olhou para ele e viu apenas o vazio de uma religião imposta. "Você não me profanou, por sua culpa agora eu sou uma das virgens vestais!" Ela acusou. Ravi estava tendo uma febre, seu corpo pinicava e tudo que ele queria é que o dia amanhecesse. "Por que você não me deixa em paz?" Ele retribuiu. "Você vem povoando, me perseguindo durante quatro anos. " Ravi não sabia o que estava dizendo, era mais uma dessas frases sem sentido dos sonhos. Ela começou a se aproximar, esgueirando-se como uma cobra, apoiada nos braços até ficar rente ao rosto dele, paralisado, desejava gritar e ao mesmo tempo possuí-la. "Nossas vidas. Coisas mundanas. Sonhos deixados de lado. A premissa do que poderia ter sido. Você jamais saberá, Ravi. Perdeu tempo demais pensando e não vivendo." Aquilo foi uma facada no peito. Era só um sonho e ele se magoou.

Ravi empurrou-a de lado caindo em cima dela, tendo a sensação de superioridade. Prendeu os braços magros da garota com suas mãos. Ela riu e sussurrou: “meus bisavós costumavam namorar pelo buraco da parede.” Ravi no estado de ódio voluptuoso e ela falando aquelas coisas estranhas. “Foda-se menina, abre as pernas.” Ordenou colérico chutando os joelhos, lutando para que ela desse espaço, ela era dura como uma estátua, sem exercer movimento de resistência, embora Ravi tivesse dificuldade em mantê-la sob controle, na matéria dos sonhos ele não consistia força nenhuma. Clítia soltou uma risada sinistra e proclamou isso antes de desaparecer: “Quem você pensa que eu sou, Pigmaleão?”

Ravi ficou sozinho com seus demônios.

Ele acordou aturdido, suado e calorento, também envergonhando pela sujeira que deixou na cama. Abriu a janela para dissipar a sua doce e derradeira melancolia. Sabendo que um dia ele se tornaria um homem como seu pai, tios e avô, abusivo e controlador. Carregando o fardo de uma vida programada.

Um papel velho pendeu de trás do vinil da parede, dançou no ar e aterrissou no chão. Ravi pegou-o, cheirava mofo e as bordas estavam roídas, manchas de café ou qualquer outro líquido marcavam aqui e ali. Escrito nele estava:

Você está destinado ao capitalismo, uma meritocracia imaginária, a uma casa cheia de itens inúteis para preencher o vazio, meu querido. Você terá uma esposa insatisfeita e filhos infelizes. Você triunfará na sociedade. Eu estou destinada ao comunismo, fadada a Thanatos.- 23/11/1988



Notas finais
eu sou muito trouxa, mds. https://open.spotify.com/user/21a2jh6we5mvbwtgs2bgbawaq/playlist/5naFrklnIx9k9Sf9Kbzyf5?si=19gqnOrORxGkQ4DyNnjfLA
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!