Satisfaction
11 Capítulo 10 - Confissões Pós-Prandiais

O jantar estava delicioso, como esperado dos dotes culinários de Mirajane. O Redfox e a McGarden apreciavam sua refeição em silêncio, ora a azulada levantava seus olhos ao homem enquanto ele não a olhava, ora o moreno o fazia enquanto a garota não o olhava, e quando seus olhares se cruzavam, ambos coravam e voltavam a encarar o prato.
Levy estava sentindo sua pele começar a esquentar, provavelmente ainda estava corada da última troca de olhares. Sentia-se um pouco zonza, e então pensou se precisaria comer mais ou menos – como comera muito naquela tarde, ficou com a segunda alternativa, terminando seu prato antes de Gajeel. Esperou-o acabar sua refeição pacientemente, observando a mobília da sala de jantar.
Praticamente todos os móveis daquela casa eram de uma madeira grossa e escura, quase negra. A mesa na qual tinham seus pratos apoiados e alguns recipientes de porcelana abrigando o jantar, possuía sua superfície completamente de vidro. A toalha de renda branca dava um ar delicado àquela mobília até mesmo rústica.
— Subirei tomar meu banho agora, para que você não se deite muito tarde. – o moreno se pronunciara, e a azulada então notara que o mesmo havia concluído sua refeição. Logo lembrara-se de ver a governanta albina ir com baldes escada acima minutos antes, provavelmente encher a bacia para que o patrão pudesse banhar-se.
A jovem McGarden não sabia ao certo como deveria proceder, mas algo dentro de si a impulsionava a querer ficar mais perto do Redfox – e cada vez mais rápido – a partir daquele dia. A atração parecia inevitável, e sabia que ele também lutava contra a mesma. O momento que tiveram em seus aposentos invadiram sua memória pela primeira vez desde o ocorrido, sentindo vontade de sentir-se daquela forma novamente.
— Eu irei também. – Levy disse, com a voz firme. Estava corada e com o olhar no pescoço de Gajeel, sentia seus olhos rubros a analisarem de cima a baixo, procurando encontrar uma outra desculpa a não ser aquela a qual estava pensando. Afinal, era tão notável assim que a vontade de ambos era mútua?
Sem questioná-la, o moreno dera de ombros e recolhera os pratos e levara à cozinha – a exemplo da azulada, quando fora jantar em sua casa. Sem encará-la, seguiu para a sala de estar, logo começou a subir as escadas e adentrando seu quarto, tendo consciência dos passinhos apressados da garota para acompanhá-lo. O caminho fora rápido, silencioso e um tanto tenso.
Ao entrarem no cômodo, Gajeel agiu como se Levy não estivesse presente, virando-se para a mesma e começando a se despir. Normalmente o faria no banheiro, mas em seu íntimo desejava provocá-la, como uma forma de teste. Não tivera Magnólia inteira, mas tivera toda sorte de mulheres que os cassinos e bailes ofereciam, e precisava saber se a sua baixinha agiria de forma equivalente àquelas desesperadas por falso amor e afeto, que aceitavam esmolas em troca de noites de “amor”, sem dar-se valor algum.
É claro que ela não é assim, pensara, mas seu instinto masculino não pôde deixar de testá-la.
Após estar somente de ceroulas, olhou de canto por cima do ombro e encontrou a McGarden de costas para si, sentada na beirada da cama, com uma postura impecavelmente ereta. Sua audição pôde captar a respiração descompassada que a garota possuía, o movimentar controlado de seus ombros desnudos para disfarçá-la. Sorrira brevemente por sentir-se desejado pela azulada.
Prestes a abrir a porta do banheiro, ouviu seu nome ser chamado por aqueles lábios que tomara horas atrás, detendo-se.
— Gajeel? – Levy mantinha-se de costas para o Redfox, sua voz estava um pouco trêmula.
— Sim? — perguntara em resposta, virando-se para a mesma, um tanto receoso. Nunca a vira falar daquela forma.
— Nós… Precisamos conversar. – a azulada suspirou, relaxando um pouco os ombros. – É algo… Muito sério e delicado…
Um nó formou-se na garganta do moreno ao ouvir tais palavras. O tom da McGarden era um tanto pesaroso, até mesmo amargurado. O que ela teria a contar de mais sério e delicado que sua doença, afinal? Percebendo que a garota não falaria até ele estar sentado ao seu lado, assim o fez, sentando-se na ponta da cama e preparando-se para qualquer que fosse a confissão que Levy faria.
— Sou todo ouvidos. – disse em resposta, apoiando os cotovelos nos joelhos.
A menina hesitara por uns momentos, abrindo a boca diversas vezes para falar e detendo-se antes mesmo de proferir sequer uma vogal. A cada hesitação o Redfox ficava cada vez mais preocupado, começando a suar frio conforme o tempo passava. Não, não podia ser o que ele estava pensando.
— Nós… Bem… Eu… Não acho que seja só da minha parte, e… Depois de hoje, creio que pude ter uma certeza. – ela falaria sobre eles? Manteve-se em silêncio, esperando-a concluir sua fala. – Eu… Não posso manter certos segredos com você, Gajeel.
— Que segredos? Está tudo bem se não quiser comentar sobre certas coisas comigo. – o moreno tentou parecer o mais despreocupado possível, dando de ombros, mas Levy sentiu seu tom tenso, virando seu tronco para olhá-lo nos olhos.
— Este é o tipo de coisa que não posso esconder de você. É o tipo de coisa que vim escondendo há tanto tempo, tanto tempo… – a McGarden suspirara. – Eu… Tinha quinze anos, minha mãe deixara-me dormir na casa de uma de minhas amigas de infância, Erza, e ela e Lucy levaram-me a um… Bordel, perto da casa dela.
— Espere, Lucy Heartphilia, filha do Conde Heartphilia? – Gajeel mal pareceu ouvir o resto da frase, Levy limitou-se a assentir e prosseguir sua narrativa.
— O bordel se chamava Phantom Lord, não era de alto nível, como esperado de Erza, que vai aonde tem bebedeira e festa. – suspirara. – Deu que, mesmo contra a minha vontade a princípio, comecei a beber com Lucy e a flertar e até dançar com alguns homens que estavam ali presentes. – a azulada dera um sorriso torto, como se reprovasse sua atitude.
Voltando a prestar atenção nas falas ditas pela garota, o Redfox sentiu seu sangue gelar em suas veias ao ouvir o nome “Phantom Lord”. Era o bordel que mais frequentara em toda a sua vida, até migrar, recentemente, ao Fairy Tail, aonde as coisas eram mais “sadias” e leves.
— Após alguns minutos de música e dança incessantes, acabei aos amassos com um homem, não muito mais velho que eu, atrás das cortinas do palco… E, aquele homem fez coisas…
O peito de Gajeel começara a apertar e uma raiva descomunal vinha crescendo dentro de si. Não, não podia ser, não com ela.
— Lembra-se de quem era? — o Redfox rosnara entredentes. Levy não precisava dizer mais nada.
Suspirando calmamente e contendo algumas lágrimas nos olhos, a garota dos olhos castanhos os fez se encontrarem aos semicerrados vermelhos, ardendo em uma ira crescente. Gajeel estava a ponto de ir atrás do desgraçado, qualquer que fosse, para ensinar-lhe algumas lições de homens de verdade.
— Aquele homem… Era você, Gajeel.
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