Satisfaction
17 Capítulo 15 - Coma Sazonal

Gajeel aguardara, da forma mais paciente possível, até a segunda-feira para intrometer-se na residência dos Cheney e usar de seus “direitos” sobre Levy. Como trabalhara no sábado, isto lhe dava um dia a mais de folga na semana e, consequentemente, tempo para cuidar da azulada, que a àquelas alturas já estaria quase desmaiando.
Após dois dias de envio de sua carta, fora contatado por Gildarts, um antigo conhecido seu e de seu pai, homem de negócios que “vendia de tudo um pouco”. O mesmo viajava por todo o continente e conseguia desde tapeçarias, alimentos a remédios de todo tipo e para qualquer coisa, basicamente, era um mercante solitário. Sua filha, Cana Alberona, administrava um pequeno estabelecimento na periferia de Magnólia com alguns de seus “achados” que estavam a venda.
Em sua carta de resposta, o homem de quarenta e poucos anos contava que conseguira injeções com extrato de pâncreas, de uma região afastada do continente, nos limites da fronteira. O médico que estava fazendo tal experimento vinha sendo perseguido por usar de cães para as pesquisas, então dera toda sua pesquisa e seus materiais a Gildarts sem pensar duas vezes. Pelo que o velho homem dissera, quando um paciente se encontra em coma após vários dias ingerindo açúcar demasiadamente, precisa de apenas uma injeção daquela para recuperar-se em até vinte e quatro horas.
Como velhos amigos, o Clive fizera um preço camarada ao Redfox, que consistia em vinte moedas de ouro e dez de prata. Ainda não estava acostumado a usar jewels – a moeda local, então decidira cobrar com o dinheiro universal. A encomenda chegara naquela tarde, consistia num baú revestido por couro de tamanho mediano, dentro do mesmo, continha vinte seringas preenchidas com uma substância transparente e, aparentemente, leitosa. Dentro do baú encontrava-se um bloco de gelo parcialmente derretido. Afinal, o tal extrato de pâncreas precisava ser mantido em temperaturas baixas.
Alguns minutos após o recebimento de seu produto, um envelope marfim fora jogado por baixo de sua porta, selado com uma cera lilás. Gajeel suspeitava sobre seu remetente, e logo rasgou o papel que envolvia o conteúdo, um convite formal para a cerimonia de noivado de Rogue Cheney e Levy McGarden, obviamente na residência Cheney, na terça-feira às quatorze horas.
Rosnando em frustração, o moreno contentou-se em apenas agir no dia seguinte.
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O jardim estava muito bem decorado – para a estação. Os troncos e galhos secos das árvores estavam envoltos por faixas brancas de um tecido transparente, alguns vasos com as flores do outono se encontravam distribuídos pelo local para dar algum ânimo ao cenário marrom e laranja – somente a grama permanecia num tom verdejante.
Os criados tiveram o capricho de – além de mover a grande mesa de carvalho da área de serviço, com capacidade para vinte cadeiras ao seu redor, para a parte dos fundos do jardim – cobrir a superfície de carvalho com uma toalha de cetim de tom amarelado e distribuir, com maestria, a louça artesanal de prata – a relíquia que estava na família Cheney há mais de três gerações.
Levy tivera a ajuda de Lucy – sua amiga que, mesmo morando em Magnólia, ficaria na casa da família do noivo da McGarden até sexta-feira, enquanto Poluchka, sua governanta e de sua mãe, ajudava a mesma alguns cômodos de distância. Para a ocasião, a loira ajudara a garota a escolher seu vestido – um modelo rosa envelhecido, ótimo para eventos mais casuais e ao ar livre, e prendera os cabelos azulados da amiga com uma faixa da mesma cor do traje, porém adornada com pequenas pérolas em suas extremidades.
— Não acredito que mal o noivado fora anunciado e já estamos neste nível. — a McGarden mais nova suspirara, enquanto ajudava a Heartphilia a abotoar as costas de seu longo vestido azul e branco.
— Oh, Levy, não fique assim. — Lucy tentara confortá-la, fazendo um biquinho. — Pelo menos você poderá ver o Gajeel! — um sorriso tomou conta dos lábios da mais alta.
— Se ele vier, você quis dizer… Ah, Lucy… É bem provável que ele tenha ignorado o convite e decidido me esquecer logo…
— Pare com esse drama, agora! Parece até que esqueceu do que ele lhe escreveu em resposta, menina pessimista! — a loira ralhara, pegando a azulada pelos ombros, procurando – com sua falsa braveza – encher a amiga com determinação e otimismo.
— Certo, certo, confesso que ando com os sentimentos a flor da pele nestes dias em que estou aqui. Para quem já viu e viveu tantas coisas num lugar… Abandonar as raízes assim, a força, é complicado. — Levy suspirara por uma última vez, ajeitando os cabelos com as mãos e procurando erguer a cabeça. — Vamos, é certo que os convidados já estão chegando.
E assim, ambas de braço dado, as garotas atravessaram o grande corredor – que mais parecia uma longa sala – em direção ao jardim dos fundos, a parte mais bonita da propriedade. Lucy, a herdeira Heartphilia, estava belamente trajada com um vestido azul e branco, de saia armada e mangas bufantes, deixando boa parte de seu colo exposta e valorizando seus grandes seios com um decote em V. Os cabelos loiros estavam presos num coque alto e duas mechas de cabelo emolduravam seu rosto, a pele levemente bronzeada, junto de seus olhos de um castanho vívido, lhe davam um ar saudável.
Já Levy, bem, ela não estava se importando se estava exuberante ou não e tampouco se agradaria a alguém naquela tarde. Mesmo assim, a baixinha das madeixas azuis não poderia estar mais bela e delicada, tal como as rosas cor-de-rosa que dominavam o local naquela estação. O vestido todo tinha rendas metodicamente costuradas em formato de flor em todo o vestido, os poucos babados no mesmo e seu decote discreto lhe deixavam com um ar recatado e doce.
— Lucy… Não estou sentindo-me muito bem… — a azulada sussurrara para a amiga, apoiando-se melhor no braço da mesma.
— O que está sentindo, Levy? — a amiga perguntara em prontidão, encarando a outra ao seu lado.
— Não estou conseguindo ficar sobre minhas pernas… Sinto que logo desmaiarei. — dito isto, houve uma breve variação na voz da McGarden, como se a mesma estivesse sendo sufocada.
— Não seja tola, eu mal apertei o seu esparti… Levy?!
A Heartphilia mal teve tempo de concluir sua frase que a garota já estava, desacordada, ao chão.
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A impaciência já deveria ser adotada como segundo nome por Gajeel, segundo sua governanta – Mirajane, porém, naquele momento, deveria ser seu primeiro nome. Havia chamado seu cocheiro há dez minutos e o homem não havia aparecido ainda. Andava de um lado para o outro do lado de fora de sua casa, com a albina e sua pantera macho lhe observando.
— Acalme-se, sr. Redfox, daqui a pouco abrirá um buraco no chão. — a Strauss suspirara, cansada de ter de ficar tanto tempo em pé aguardando o cocheiro para a partida de seu patrão.
— “Acalme-se”. — Gajeel rosnara fazendo uma voz fina. — Enquanto aquele incompetente está fazendo sabe Deus o que, a Levy deve estar passando mal o suficiente para estar quase desmaiando lá. Aliás, se é que já não desmaiou.
— Se as coisas estão realmente sendo como ela disse na carta, a pobrezinha não durará até o verão. – Mirajane balançou a cabeça em negação.
— Vire essa boca para lá, não estou levando isto comigo a toa. — o moreno ralhara, abrindo o casaco e mostrando duas seringas cobertas no bolso interno do mesmo. – Espero que ela esteja bem, pelo menos até eu chegar.
— Ali! — a albina gritara, apontando ao cocheiro, que acabara de surgir na carruagem negra em frente às escadas. – Boa sorte, Gajeel. — desejara ao jovem patrão, que apenas assentiu e desceu apressadamente os degraus, entrando no veículo sem sequer perguntar ao homem o porquê do atraso.
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Os dezenove convidados estavam em comoção com o desmaio da noiva, que permanecia desacordada nos braços da amiga nobre, Lucy Heartphilia. Elevínia tentara abanar a filha e dar-lhe água, sem sucesso – nunca sabia o que fazer quando a mesma desmaiava, às vezes passava dias desacordada, mas já fazia seis meses desde seu último coma.
— O que está acontecendo com ela? — Rogue Cheney, o noivo, aproximou-se e perguntou por mera cordialidade, apesar de admitir estar preocupado com a ex-amiga de infância. Alguém desmaiar sem causa aparente não era normal, ainda mais quando não haviam causas como calor excessivo e espartilho justo.
— Provavelmente é o diabetes dela. Precisaremos de um médico. — a McGarden mais velha colocou a mão na testa da azulada desacordada, constatando que a mesma estava, ainda, quente.
— Afastem-se.
Uma voz forte e autoritária surgiu no local, atraindo a atenção dos ali presentes. Lucy pôde constatar, pelos relatos de Levy, que o dono da voz era ninguém menos que seu amante, Gajeel Redfox.
— Sr. Redfox! — Elevínia surpreendera-se ao ver o tutor que designara para sua filha aparecer em momento tão oportuno.
— Conhece este homem? — Reywards, até então neutro na situação, surgiu, disposto a barrar o suposto “penetra”.
— Sim, e, na verdade, meu pai, conhecemos. — o fato de Rogue ter-se manifestado causou surpresa em Lucy, Gajeel e até mesmo seu próprio pai. — Foi o homem que salvou Levy no baile do Conde Jude Heartphilia.
— E seu tutor, designado pela sra. McGarden, para ajudar com o controle, administração e tratamento de sua doença. — o Redfox completara, afastando o braço do Barão Cheney de sua frente. — Afastem-se, por favor. — pediu mais uma vez, respirando fundo para não mandar todos ao inferno.
— Obedeçam, por favor! — a loira manifestara-se, com os olhos prestes a derramar lágrimas caso a amiga continuasse naquele estado.
Mesmo aturdidos pelo apelo da jovem Heartphilia, os convidados, os Cheney e Elevínia afastaram-se de Levy e Lucy, abrindo caminho para o moreno passar e ficar de frente a elas, de joelhos. Pegando e desencapando uma das seringas que estavam em seu bolso interno, Gajeel pôs-se a subir a saia do vestido de Levy, porém foi interrompido pela amiga da mesma, que batera em sua mão.
— O que está fazendo?!
— Eu preciso injetar isso em algum lugar, não preciso? — o Redfox ironizou, contendo a irritação.
Sem outras interrupções, erguera a saia até deixar suas coxas completamente expostas e, apertando com dois dedos sua lateral, inseriu lentamente a agulha em sua pele enquanto empurrava o mecanismo que fazia o extrato de pâncreas ser absorvido por seus tecidos e logo seu sangue. Com a expressão séria e até carrancuda com a qual chegara, Gajeel abaixou o vestido da azulada e pedira uma permissão silenciosa para Lucy para poder pegar Levy de seus braços, a mesma assentiu. Sabia que não havia alguém melhor para cuidar de sua amiga que o próprio homem que a amava.
— Ela precisará de repouso nas próximas horas, até acordar. Onde posso deixá-la? — levantando-se já com a McGarden desacordada em seus braços, o moreno perguntara, sem ter sido questionado sobre a substância a qual injetara nela minutos atrás.
— Deixe-a em meu quarto, é mais próximo daqui. — o primogênito dos Cheney se manifestara, fazendo o Redfox lhe dirigir um olhar torto. — O levarei até lá.
Limitando-se a assentir, Gajeel pôs-se a seguir Rogue por entre o jardim dos fundos até adentrar na residência novamente. Passaram por poucos corredores e lá estavam em frente a uma porta branca, esculpida com a enorme figura de um dragão. Adentrando no cômodo, com a luz da tarde iluminando seu interior pela janela aberta, o moreno depositou, gentilmente, a azulada na cama com as cobertas esticadas.
Sem dar-se conta de que a estava observando por tempo até demais, tratou de disfarçar olhando para outro lado, arrancando um riso contido do Cheney.
— Sabe, Redfox. — o mesmo começou, de braços cruzados, encostado em seu grande guarda-roupa. Gajeel estava de costas para si, admirando a vista dos campos de propriedades vizinhas pela janela, com os braços para trás.
— Sim?
— Eu sei que tem um caso com a Levy. — tal afirmação fez o Redfox gelar por alguns instantes, mas não deixou sua insegurança aparecer sob o olhar do outro. O que causava-lhe confusão era o tom sereno que usava. — Não, isto não me incomoda nem um pouco desde que nosso noivado foi decidido além das nossas vontades.
— Aonde quer chegar com isto, Cheney? — Gajeel procurou manter-se indiferente ao assunto que foi tocado por Rogue.
— Somente quero que entenda que não me importo. — mesmo sem estar sob o olhar do moreno, o rapaz deu de ombros. — Podem continuar com o que quer que seja que vocês tenham, apenas peço que evitem demonstrações de afeto muito explícitas em público, afinal, ainda somos noivos e não quero levar apelido de corno até tudo isto acabar.
Aquela conversa estava boa até demais para ser verdade. Como advogado, Gajeel procurou qualquer resquício de cinismo ou de mentira nas palavras de Rogue, o que não achou. Talvez, no fim das contas, o Cheney não fosse tão digno de seu desprezo assim.
— O que me intriga, na verdade, é o fato de tê-la tentado agarrar no baile do Conde Heartphilia e ter deixado seus colegas quase a agredirem. Realmente me custa a acreditar que você não se importa com nada depois do seu comportamento.
— Então ela te contou… — Rogue esfregou a nuca, desconcertado. — Confesso que fico… Bem, não há explicação para meu comportamento quando fico bêbado, apenas posso me desculpar.
— Não me entenda mal, Rogue. É difícil para mim acreditar em você quando causa tanto medo em Levy. — Gajeel virara-se, encontrando a figura um tanto amargurada do rapaz de cabelos negros e presos.
— Deixemos conversas sobre o passado para depois. Estou falando do presente. Dou minha palavra de que não desejo causar mal nem a Levy nem a você, muito menos a pretensão de casar-me com ela. Eu também tenho alguém que não quero abrir mão por um casamento forçado.
O olhar determinado e franco de Rogue fora o suficiente para Gajeel não questioná-lo mais, apesar de ainda manter um pé atrás em relação ao primogênito dos Cheney. Trocaram apenas um aceno de cabeça, algo mais que suficiente para encerrarem aquela conversa.
— Bem, algum de nós têm de entreter os convidados, e como ela está desacordada, o papel é meu. Quando ela acordar leve-a de volta. — Rogue disse, retirando-se de seu próprio aposento, deixando o Redfox e a pequena McGarden a sós, propositalmente.
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