Satélite
1 Capítulo Único
Notas iniciais
PS: Ignorem os erros gramaticais, não sou formada em letras e também não decorei todas as regras da nossa língua. Obrigada!:)
Já passava das 3h da madrugada quando ele invadiu meu quarto, ainda me pergunto como foi possível entrar sem que nenhum dos meus encantamentos denunciá-lo. Talvez fosse o fato de que até a magia saber que algumas pessoas são mais importantes que segurança, ou apenas o sangue falando mais alto.
— Eu sei que está tarde... – Suas palavras foram sussurradas sobre mim. Meus olhos ainda estavam entrando em foco.
— O que está fazendo aqui? – Perguntei com a voz rouca e confusa. – Você não estava no Egito?
— Shiiiu... – Ele tampou minha boca. – Tem algo em minha cabeça que não poderia esperar.
Fiquei esperando a continuação da explicação, mesmo que tivesse certeza de que ele havia respirado muita poeira e estava alucinando.
— Não poderia enviar uma coruja? – Questionei colocando uma blusa de frio por cima da camiseta com que dormia.
— Não! A vida passa sem aviso, não quero esperar o momento certo, não quero me agarrar ao esperado, e não queria esperar até o natal. Vamos! – Ele me puxou.
Existem alguns tipos de abraços que nunca podem ser superados. Abraços que são nosso lar. Eu tenho três abraços assim: o da minha mãe, o da minha avó e o dele.
— Para onde vamos? – Questionei já sabendo que iria com ele para todo e qualquer lugar.
Em um piscar de olhos aparatamos e quando voltei a piscar reconheci o lugar. O quartinho no topo da escada, o ultimo, cheio de tralhas velhas, de cobertores empoeirados, de fotos antigas nas paredes.
— Estou cansado de ignorar toda a distancia entre nós. – Ele pegou em minha mão esquerda e me puxou de volta para o meu lar.
Não sei o que me fazia me sentir tão bem em seu abraço. Poderia ser os vários centímetros a mais de altura que ele tinha. Poderia ser o cheiro de alcaçuz que sempre estava em suas roupas, ou apenas o fato dele sempre ter estado disponível quando eu mais precisei.
— Vamos trancar a porta atrás de nós. – Ele falou sorrindo.
— Não vão nos encontrar... – Eu sorri de volta.
— Faça todo mundo esperar. – Ele finalizou me fazendo girar em uma dança sem música. – Enquanto dançamos neste quarto.
Uma verdade sobre nós: Nunca precisamos de música mesmo.
Uma mão dele em minhas costas e a outra segurando firmemente minha mão, passos confusos pelo chão velho levantando fumaça, a poeira resolvendo bailar conosco.
Eu sabia o que aquela dança significava.
Saudade.
Saudade tão grande que não caberia em palavras, que não aguentaria esperar até o natal. Saudade que dizia “vamos lembrar daquele dia?”. E eu o que poderia fazer? Eu simplesmente lembraria.
— Não vou deixa-la ir até o amanhecer. – Ele suspirou em meu ouvido.
— Eu não iria a lugar nenhum, mesmo que você me mandasse ir. – Sorriu.
Poderia dizer a ele o quanto sinto que ele é o meu mundo, minha casa, para onde eu posso voltar depois de um dia ruim, para onde voltaria depois de uma vida ruim. Poderia dizer que se eu puder apenas ser o seu satélite já bastaria. A lua é um satélite e ainda assim é a mais admirada pelas pessoas? Eu sempre irei guia-lo para a melhor escolha, mesmo que essa escolha não seja por mim.
Mas não digo nada apenas encosto minha cabeça eu seu peito. Seu coração me diz que sim. Me diz que posso ser seu satélite. Na verdade seu coração me implora, seja meu satélite.
— Vamos dançar nesse quarto, como se hoje fosse nossa única noite. – Ele diz me abraçando mais forte.
Quando amanhecer ele voltará para o Egito, para os estudos, e para as aventuras. Ficaremos mais cinco meses falando por cartas, mais cinco meses sentindo falta um do outro, falta dos abraços e das conversas no telhado.
— Você se lembra? – Ele questionou. – Quanto tempo deve ter passado?
— Acho que uns sete anos. – Respondo sabendo exatamente do que ele fala.
— Aquela canção dizia que não podemos viver sem alguém. – Ele cantou um trecho, sua voz baixa e rouca. – Agora sei exatamente o que isso significa.
Tínhamos 17 anos quando corremos para o mesmo quarto que tio Rony tinha passado a infância e adolescência, nos trancamos lá e ficamos dançando a noite toda. Era a nossa despedida, viajaríamos na manhã seguinte. Eu para fazer um curso, e ele para sua aventura, conheceria o mundo. Nunca mais teria parada.
Rodopiávamos sem cansar. Riamos e fazíamos planos. Escreveríamos todos os dias, como se fosse um diário só que enviaríamos um para o outro. Conquistaríamos o mundo, o amor, a vida. Esqueceríamos o beijo do ano anterior. Deixaríamos nos apaixonar por outras pessoas, mas sempre saberíamos para onde voltar.
— Não acredito que os dias se transformaram em anos. – Ele disse finalmente me soltando e sentando em um sofá encostado em uma das paredes descascadas. – Odeio ver os momentos desaparecerem.
— Não estão desaparecendo. – Digo me agachando em sua frente. – Estão apenas envelhecendo, se transfigurando. De momentos à memorias.
Minha cabeça se aconchega em sua mão e assim ficamos por alguns segundos. Relembrando em silencio.
— Dance comigo ao redor da lua. – Digo me levantando.
— Você e eu durante todas as noites. – Ele também se levanta voltando a me tomar em seus braços.
Ficamos girando em silencio enquanto a escuridão deixava que a luz do sol voltasse a brilhar. Não precisamos falar nada. Nunca precisávamos.
Aparatamos de volta ao meu quarto.
Um sorriso. Um abraço.
— Nos vemos no Natal. – Ele sussurrou.
Um beijo na bochecha direita.
Um beijo na testa.
Um aperto na mão que significava mais do que qualquer palavra.
Um aperto na mão que era uma promessa.
— Hugo... – O abracei com toda a força. Meu lar estava indo embora mais uma vez.
— Lily... – Ele também me abraçou. E eu sei que o lar sempre volta, ou nós sempre o achamos e voltamos para ele.
Ele desapareceu.
Dou um giro em meu quarto.
Danço sozinha.
Sei que a saudade agora pode ser controlada.
— Eu vou ser o seu satélite. Digo voltando para a cama. – E você sempre será o meu lar.
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