Sassy
1 Capítulo 1
Segunda-Feira; 8h56min.
Alyss passou o lápis nos olhos mais uma vez e deu um meio sorriso em frente ao espelho para ver o resultado. Seu rosto possuía uma maquiagem pesada e escura, seu cabelo preto e cacheado destacavam seus olhos azuis — quase cinzas. Sua roupa era uma camiseta branca, uma jaqueta azul colada ao corpo e uma calça jeans azul escura.
— Vamos logo, Alyss! — Aaron gritou, apressando-a.
— Você poderia se acalmar? — Pediu, saindo do carro. — Você é tão impaciente, Aaron. Isso é falta de...
— Não ouse terminar a frase — ameaçou, travando o automóvel
e se dirigindo até Selina.
Alyss levantou as duas mãos em um sinal de rendimento.
— Não está mais aqui quem iria falar — ela riu e pegou uma garrafa de água na bolsa. — Cadê o Derek?
— Ele vai chegar um pouco tarde hoje — Selina informou, chegando no fim da conversa.
— Por quê? — Alyss perguntou, sentando em um dos bancos da entrada.
— Noite difícil... — Aaron respondeu, sorrindo maliciosamente. — Se é que me entende.
Selina riu e sentou-se ao lado da amiga.
Selina e Aaron eram muito parecidos, não eram gêmeos, mas tinham traços que lembravam um ao outro. Selina tinha cabelo loiro e olhos verdes escuros, uma estrutura mediana e um corpo magro, já Aaron tinha cabelo castanho escuro, olhos azuis e tinha um corpo atlético — devido ao treinamento de futebol.
— Preocupada comigo, princesa? — A voz de Derek soou atrás de Alyss, assustando-a. — Você sabe que eu odeio quando você me chama assim, Thompson — provocou, abrindo um sorriso caviloso.
— Thompson não, Aly — pediu, choramingando. — Quando você me chama assim parece estar com raiva.
— Quando você me chama de princesa parece um gay — retrucou, gargalhando.
— Você quer que eu te prove o contrário?
Alyss contorceu o rosto em uma careta.
— Não, recuso a oferta — respondeu. — Obrigada.
— Sou homem demais para você?
Ela apenas rolou os olhos e jogou a mochila nas costas.
Derek não era feio, ele tinha cabelos castanhos e olhos cor de mel, um corpo magrelo e, ainda assim, bem formado. Derek, sem dúvidas, atraia olhares femininos.
— Hora de ir para aula, crianças — o porteiro gritou, atraindo atenção de todos.
— Vocês ouviram o Bob — Selina falou, empolgada. — Vamos, crianças.
— Por que ela está tão empolgada? É só aula... — Alyss reclamou, soltando um suspiro ao se levantar. — Já estou cansada dessa vida, quero pular para a parte que eu estou rica.
— Falta pouco, princesa — Derek disse, passando o braço ao redor do ombro dela. — Selina está interessada em Michael Clifford, eles têm aula juntos no primeiro horário.
— Mentira! — Selina defendeu-se. — Eu só quero ser amiga dele, seu idiota.
— Não é o que dizem... — Aaron deixou a frase no ar propositalmente.
— E o que é que dizem? — Perguntou, cruzando os braços e parando na frente deles.
— Nada, Selina — respondeu Alyss. — Eles só estão curtindo com sua cara.
Selina bufou, irritada e correu até a sala de aula.
— Eu já vou, tchau — Alyss se despediu e entrou na sala. Seu olhar vagou por algumas cadeiras até chegar em alguma disponível, que era a do lado de Kylie Horn. A aula começou e Alyss se permitiu a prestar atenção aos quinze primeiros minutos, mas depois apoiou a cabeça na mesa e cochilou. Trinta minutos depois, fora acordada pelo toque e uma mão a balançando.
— Olá — Kylie cumprimentou, sorrindo.
— Oi? — ela guardou as coisas na mochila e saiu, andando ao lado de Kylie. — Vamos especificar as regras, ok? Você presta atenção, anota e faz as atividades e eu fico em silêncio dormindo.
— Mas...
— Sempre funciona — ela piscou e abriu o armário, trocando os livros. — Não se preocupe.
— E o trabalho?
Alyss revirou os olhos. Qual era a dificuldade de entender as regras?
— Que trabalho? — rosnou.
— Sobre... — hesitou. — Relação sexual.
— Ah, isso — riu com desdém. — Se tem uma coisa que eu aprendi, é que na prática sempre é melhor.
Kylie deu um sorriso sem graça e apertou o caderno em seus braços contra o colo.
— Alyss — chamou. — Eu sei que você tirou notas boas em biologia, mas...
— Não foi mérito meu — sussurrou e se aproximou da menina, prestes a contar-lhe um segredo. — Eu dormi com o professor.
A boca de Kylie formou um perfeito “o”.
— Eu estou brincando — gargalhou, jogando a cabeça pra trás.
— Ah — sorriu. — Bem, eu quero fazer esse trabalho e espero que você ajude porque você parece um pouco experiente...
— Vou tentar levar isso como um elogio — brincou. — Podemos marcar qualquer dia.
Antes que Kylie respondesse, Alyss deu as costas e foi até a sala de Selina.
14h21min. As duas garotas espreitaram-se na parede, tentando passar despercebidas. De fato elas não eram discretas, mexiam a cabeça como se alguma bala perdida pudesse acertá-las.
— Se acalma! — Alyss repetiu.
— Eu não devia ouvir você, sabia? — Selina reclamou.
— Para de tagarelar, parece o seu irmão — comparou. — Dois irritantes, deveriam agradecer por me terem como amiga.
— Cala a boca, vão nos pegar!
— Me explica como alguém que bebe e fuma ilegalmente debocha da policia, mas tem medo de ser pega matando aula? — ironizou, provocando-a.
— Eu devia matar você, Clayes.
— Não, você não conseguiria — Alyss brincou e puxou Selina pelo braço. — Vamos ficar escondidas atrás daquela árvore e depois vamos para a terceira aula.
— Alyss... — choramingou. — Eu preciso de nota.
— E eu de dinheiro — zombou. — Mas como o mundo não é bom...
— Você é uma abusada, princesa — Derek falou, chegando atrás delas. — Vocês deveriam falar um pouco mais baixo, escutei vocês da grade.
— Calado, Thompson — provocou.
— Clayes...
— Thompson...
— Você não cansa nunca de provocar?
— Nem um pouco — sorriu. — É meu combustível pessoal.
— Tocante — ironizou, sentando ao lado das meninas. — O que temos para hoje?
Alyss e Selina se entreolharam e sorriram.
20h37min.
A bebida desceu queimando a garganta de Alyss, mas ela não se incomodou. Em momento nenhum sentiu seu corpo demonstrar um sinal de dor. A rua onde estavam era assoada pelo escuro, a única iluminação ali era o farol do carro.
— É melhor irmos agora. — Aaron avisou, caminhando até o automóvel.
— Mas já? — Selina reclamou. — Vamos tomar só mais uma.
— Eu disse agora, Selina — seu tom era calmo, porém, um pouco alto.
— Eu só pedi por mais uma. — Selina falou rudemente.
— Você já bebeu o suficiente — disse, pegando-a pelo braço. — Vamos. Agora.
Alyss não argumentou o ato desnecessário, apenas jogou a garrafa de vodka no chão e entrou no carro. Sentia-se cansada demais para qualquer suspeita de confusões.
— Alyss? — Derek chamou, sentando-se ao seu lado e fechando a porta do carro.
— Eu.
— Você está bem? — Aaron perguntou enquanto mudava de estação na rádio. — Ficou um pouco calada hoje.
— Estou guardando palavras e juntando paciência pra entrar no inferno. — Ela falou, pondo as mãos na testa e deitando-se sobre o colo de Derek.
— Você pode ficar na minha casa... — Selina sussurrou. Todos ali sabiam que era um assunto delicado para a menina, então tentavam ser os mais cautelosos possíveis.
— Não posso fugir, Selina — explicou. — Um dia eu terei que encarar tudo. Evitar só junta os problemas para depois. — Alyss mudou de rádio e cantava junto a música.
— O que vocês acham de um pouco de adrenalina? — Aaron deu um sorriso caviloso. A malicia naquele ato era explicita. — Ponham os cintos.
Selina e Derek atacaram os seus e se prepararam para a diversão. — Aly? — Já tinha colocado faz muito tempo — sorriu, aproximando-se de Aaron. — Agora é só enfiar o pé nesse freio, porque eu já nasci pronta.
Então, correram. A velocidade foi pra sessenta... Oitenta... Cem quilômetros por hora. O tempo era incontável, a gravidade era interrompida.
E mais nada ali importava.
20h59min.
— Podemos parar um pouco? — Alyss perguntou, arrumando-se no banco.
— Aonde? — Aaron e Derek perguntaram no mesmo tempo.
— Quero comprar algumas coisas antes de ir pra casa.
— Você não tem dinheiro — Selina acusou.
— Eu disse comprar? — ela sorriu, travessa. — Quis dizer, pegar emprestado sem devolução.
Eles pararam uma esquina antes da loja de conveniência para que Alyss descesse e continuaram correndo com um carro, ganhando tempo para ela roubar algo. Eles rodeavam o quarteirão para que não suspeitassem do carro, havia câmeras de segurança por todo lugar naquela cidade.
Alyss entrou na loja e andou até a parte de bebidas. O homem no caixa levantou o olhar até ela, mas não disse nada. As roupas de Alyss denunciavam qualquer suspeitas. A calça de couro rasgada, um par de Jeffery Cambell preto autentico feito de couro em seus pés, uma jaqueta preta pequena e uma camiseta branca do Nirvana. A beleza natural era escondida por maquiagem pesada, mas que, por um lado, destacava os olhos azuis — quase cinzas — da menina.
— Com licença — o senhor disse. — Posso ajudá-la?
— Sim — ela sorriu. — O senhor pode dizer onde fica o macarrão instantâneo?
— Segunda prateleira à esquerda — informou. — Você tem dinheiro para comprar?
Alyss parou de andar, se virou e desmanchou o sorriso por completo.
— O senhor me desculpe, mas acho que para comprar tem que ter dinheiro. Caso o contrário, não é compra e sim roubo...
Ela iria terminar a frase, mas fora interrompida por barulho de pneus.
— Mas que merda é essa... — Alyss abriu a porta da loja e viu o carro dos amigos indo embora. — Droga! — Ela chutou uma pedra e passou a mão pelos cabelos. Um resmungo baixo fez com que a garota olhasse ao redor, procurando de onde vinha o barulho.
— Malditos... — um menino disse, virando-se no chão. Ela abriu a boca e tapou a mesma com as mãos.
— Não, não, não! — falou, exasperada. — Que filhos da mãe! Ai, meu Deus!
Alyss andou até o menino e o arrastou até a calçada.
— Garoto — chamou, mas ele não respondeu. Continuou intacto. — Garoto! — Ela deu um tapa no rosto dele e ele afastou o rosto dela.
— Que droga você está fazendo? — Ele perguntou, passando a mão no lugar atingido.
— Preciso levar você pra um hospital — avisou, ignorando-o.
— Eu estou bem... — bufou. Alyss deu um tapa no braço dele e o forçou a abrir os olhos.
— Eu não perguntei se você está bem. Eu avisei que preciso levar você pra um hospital.
— Mas eu não quero ir — argumentou com a voz embargada.
— Você não está muito em posição de escolha — rebateu, pegando o celular do bolso e vendo que já estava em dezessete por cento. — Ah, ótimo, quase descarregando. Essa merda não serve pra nada mesmo — revirou os olhos e tentou mandar uma mensagem para Derek, mas estavam sem sinal. — Você não teria um carro, teria?
Ele colocou uma mão no bolso e estendeu a chave para ela.
— Está na rua de trás, é o único carro.
Alyss ajudou a levantá-lo e colocou o braço dele ao redor do seu ombro. O menino — com muito esforço — tentava andar, mas acabava mancando e se rastejando.
21h12min.
— Ah, meu Deus! — Ela gritou, surpresa. — Seu carro é um Bugatti! Você é bilionário? Só pra você saber — ela sussurrou. — Eu estou solteira.
— Muito engraçada — ele deu um sorriso irônico e se apoiou na porta do passageiro. — Meu pai trabalha numa firma de carros, não tenho ideia do que ele faz lá, mas o que quer que seja, me dá vantagens.
— Seu pai é casado? — brincou, destravando as portas do automóvel.
— Minha mãe morreu já faz quatro anos — ele suspirou.
— Ah, sinto muito — lamentou.
Ele balançou a cabeça em sinal de que não tinha nenhum problema e eles entraram no carro.
— Qual o hospital mais perto daqui?
— Berkeley Vale Private Hospital — falou, repousando a cabeça no vidro.
— É o hospital mais caro de todo o país... — falou, indignada. — Só acrescentando: Estou solteira e a procura de caras como você.
— Ricos?
— Não — negou. —, que são atropelados no meio da rua.
— Não é tão difícil de achar depois da meia-noite. — Ele deu um sorriso e logo depois um resmungo. — Meu maxilar dói.
— Já estamos chegando... — mentiu. Não estavam nem na metade do caminho, mas o que ela diria? “Eu não sei dirigir e estou um pouco nervosa, dá pra deixar essa dor de lado e ajudar um pouco?”? Definitivamente, não. Opção negada.
21h24min.
— Eu não acredito que você fez isso — ele riu.
— Podemos chamar um táxi e depois buscamos o carro, que tal? — Ela sugeriu, mordendo o lábio ao ver o estrago que causara no pneu.
— Quanto tempo pro hospital?
— Acho que três ou cinco minutos — deduziu.
— Vamos andar, então?
— Você é muito legal, sabia? — Ela falou, saindo do carro. — Vai tentar me fazer acreditar que você é bom e depois me sequestrar?
— Na verdade, não — assumiu. —, só estou sendo legal porque preciso de ajuda, senão eu tentaria dormir com você e depois te deixaria sozinha tentando descobrir o que fez noite passada.
Ela gargalhou e lançou-lhe um olhar irônico.
— Gostei de você — falou. — E só pra avisar, o único lugar que eu deixaria você me pegar seria naquele Bugatti maravilhoso.
— Adicionarei isso na lista de lugares para dormir com alguém.
— Se isso foi uma indireta, você precisa melhora-las.
Eles viraram a esquina e viram a placa do grande hospital. Assim que conseguiram entrar — sem menor esforço da parte do menino —, Alyss gritava por ajuda.
— Senhorita, vamos leva-lo e você vem comigo, tudo bem? — Uma mulher de estrutura mediana instruiu.
— O.K.
21h30min.
— Qual é o seu nome?
— Alyss Clayes — respondeu, sentindo-se incomodada. Odiava hospitais.
— Idade? — perguntou, anotando na ficha.
— Dezessete.
— Relação com o paciente?
— Nenhuma.
A enfermeira analisou a garota novamente e lançou-lhe um olhar confuso.
— Nome do paciente?
— Moça, me desculpe, mas eu não sei nada sobre aquele garoto, eu saí da loja e ele estava no chão.
— Por que ele estava lá?
— Foi atropelado... — sussurrou a última parte, pensando nos amigos.
— Algum documento?
— O carro dele está a algumas quadras daqui, pode ser que tenha algo lá.
— Familiares?
Alyss mordeu os lábios para não dar alguma resposta rude, ela apenas revirou a cabeça e abriu espaço entre os pés.
— Eu já disse — respondeu. — Não o conheço.
— Muito bem — suspirou, vendo que não conseguiria nenhuma outra informação. — O paciente está sendo consultado, deverá ter alguma resposta sobre ele em minutos.
Alyss pensou se deveria ir embora, passou, no mínimo, dez minutos ponderando sobre seu ato. Não teve nada a ver com aquele acidente e já tinha feito sua parte levando-o para o hospital. Ela se levantou e caminhou até a porta de saída da recepção. Assim que saiu, pôde ouvir alguém pigarreando atrás dela.
— É... — Ele hesitou, escolhendo as palavras certas, provavelmente. — Obrigado.
— Não tem o que agradecer — ela deu um sorriso. — Foi tudo pelo Bugatti.
— Claro que foi — ele deu um sorriso sem graça e mostrou o braço enfaixado. — Só ganhei alguns arranhões.
— Não perguntei como você estava.
— Eu sei.
Eles ficaram em silêncio por um tempo, apenas parados em pé um em frente ao outro. Cinco ou dez minutos se passaram, não souberam dizer, mas a cada segundo, uma eternidade incômoda se passava, uma experiência extremamente desconfortável. — Meu nome é Luke Hemmings — ele disse, criando uma onda sonora nos ouvidos da menina.
— Alyss — falou apenas seu primeiro nome, fazendo Luke arquear as sobrancelhas.
— Eu posso levar você pra casa em forma de recompensa por você ter me trazido aqui... — sugeriu, pegando as chaves do carro.
— Seu pneu furou graças a mim, lembra? Não vou esperar aqui até que arrume algo, eu pego um ônibus — respondeu.
— Você tem dinheiro?
Seus olhos pularam, como se nenhuma órbita os segurassem. O globo ocular poderia ser facilmente visto por completo, o olhar nervoso da menina era perceptível e criava uma cena engraçada na mente de Luke.
— Eu vou andando, então.
— Uma carona não iria matar você.
— Não, não iria.
Luke balançou a cabeça, confuso.
— Então...? — Ele incentivou, esperando uma resposta. — Se você acha que vou abusar de você... — Ele parou e analisou todo o corpo da garota, mordendo o piercing do lábio inferior. — Pode estar um pouco certa... Mas não hoje. Só estou sendo gentil, e você poderia agarrar essa chance.
Alyss jogou a cabeça para trás e deu uma risada nasalada.
— Obrigada pela oferta e a incrível oportunidade — ela começou. — Mas não.
— Bem, eu tentei.
Luke saiu do hospital com as chaves do carro rodando entre seus dedos e ela se retirou um pouco depois. Com toda certeza iria para casa a pé, mesmo sendo tão tarde da noite. Um Bugatti passou correndo por ela e seu queixo caiu. Os pneus recém trocados do carro de Luke saíram arrastando-se pelo asfalto da rua, criando um som irritante aos ouvidos de Alyss.
Terça-Feira; 12h05min.
— Nem ouse falar comigo. — Alyss disse rudemente à Selina, que apareceu em seu lado.
— Me desculpe — pediu. Ao menos parecia sincero. — Eu falei para não irmos, mas Derek disse que não seria bom se as câmeras nos gravassem. Não queríamos ter deixado você lá.
— Mas deixaram.
Alyss se sentou em uma mesa no meio do refeitório e mordeu um pedaço do seu chocolate.
— Não fique com raiva de mim... — ela pediu com a voz arranhada e chorosa. — Eu faço qualquer coisa se você voltar a falar comigo agora.
— O.K. — Pronunciou com desdém.
— Hum, então posso contar para você o que houve ontem...? — Perguntou, incerta sobre a resposta.
— Sim.
— O.K! — disse, animada. — Michael perguntou se eu estou livre na sexta-feira!
Alyss não demonstrou nada. Simplesmente encarava seu chocolate como se ele fosse o único presente ali. Suas feições eram despreocupadas e não se mostrou feliz ou triste pela amiga.
— Você não vai, certo? — Perguntou. Por um lado, Alyss sabia que exigira demais de Selina ao fazer esta pergunta, mas não queria passar o dia de amanhã sem ninguém. — Digo, sexta-feira já é amanhã e combinamos de ir à festa, lembra?
Selina fez algumas feições exageradas com o rosto, um misto de surpresa e decepção. Alyss não sabia bem se existia uma denominação para aquele ato.
— Eu... Bem, pensei que... — Selina hesitou e deu um longo suspiro. — Terá outras festas, mas talvez eu e o Michael...
— O que o Aaron disse sobre isso? — questionou, interrompendo-a.
— Ele é meu irmão. Ficou com um extinto protetor estranho, mas depois disse que estava tudo bem por ele se eu tomasse cuidado.
— Tudo bem pra mim, também.
Selina deu um abraço apertado em Alyss e se retirou da mesa, indo até Michael. Provavelmente dando a confirmação que precisava para o encontro de sexta-feira.
— Boa tarde.
— Não enche, Derek — Alyss pediu, bufando.
Derek abriu um sorriso no canto dos lábios e se sentou ao lado dela.
— Não fica chateada, princesa... — pediu, fazendo uma voz infantil.
— Chateada é pouco.
Ela colocou o último pedaço de chocolate na boca e lambeu o dedo indicador.
— Vocês deixaram um garoto para que eu cuidasse! — acusou, irritada.
— Mas ele ficou bem.
Ela jogou a cabeça para trás e riu, descrente sobre o que ouvira.
— Depois que eu o levei para o hospital... Até alguém com coma alcoólico na maioria das vezes se recupera depois de ser levado ao médico. Não é, Derek?
— Só foi uma vez, você nunca vai esquecer isso?
— Você quase morreu.
— Mas não morri.
— Assim que mesmo não querendo, me deixaram lá — Alyss rebateu, seca.
— Aly, meu amor... — Derek disse com a voz carinhosa. — Não seja rancorosa, isso faz mal pro seu coração gelado.
— Eu não ligo — ela fez menção de se levantar e Derek pegou a mão dela em um ato involuntário.
— O.K! — Ele disse, derrotado. — Me desculpe, isso não vai se repetir.
— Acho bom — ela disse com uma pose superior e ele deu um sorriso, observando-a mandar um beijo pra ele.
A sexta-feira chegara tão rápido quanto fora anunciada junto a festa. Os alunos estavam ansiosos e frenéticos até demais, a maioria das meninas conversavam sobre as roupas que iriam e os meninos contavam nos dedos quais e quantas garotas pegariam. Alyss apenas pensava em uma coisa: bebida grátis.
Diferente do que todos imaginavam, a tarde passou mais rápida do que se pôde imaginar, algumas pessoas chegaram antes para marcar presença e outras chegaram atrasadas. Alyss — é claro — foi uma delas.
A rua estava movimentada, muitas pessoas — não só adolescentes — dançavam do lado de fora da casa, a maioria, bêbada. A música era alta e retumbante, mas, ainda assim, era possível ouvir o ressoar dos saltos da garota contra o asfalto. Ela arrumou sua jaqueta antes de ser notada e adentrou à festa. O cheiro alcoólico impregnava toda a atmosfera. A nicotina também se mostrava presente, mas a bebida escondia quaisquer resquícios de drogas. Todos os olhares se viraram para a garota e algumas cabeças se esticavam para olhar quem estava ali no meio da multidão. Exatamente onde ela estava. Apenas ela.
Alyss continuou andando, ignorando comentários e olhares alheios.
— Ei, linda — uma voz masculina sussurrou e Alyss abriu um sorriso, virando-se para o rapaz. — Qual é o seu nome?
— Encrenca — ela riu e analisou o garoto de cima a baixo, logo depois, fazendo uma careta em reprovação. — E é encrenca boa demais para você.
— Não se faça de difícil — ele beijou toda a extensão do pescoço dela e Alyss bufou. Bêbado, completamente bêbado. — Vamos...
Ele cambaleou para frente dela.
— Idiota — murmurou, saindo da sala.
A pose de durona de Alyss encantava muito homens, ela era irresistível e o seu jeito original e único era encantador. As respostas que saíam da boca dela chegavam a serem impressionantes devido a tamanha audácia. Claro que alguns garotos tentavam, em vão, alguma coisa com Clayes, mas por vontade própria, a mesma negava, sem nem pensar duas vezes. Talvez bêbada ainda pudesse beijar algum menino, mas raramente se lembra no outro dia. Então, basicamente, não conta... Certo?
— Olha quem está aqui...
Alyss virou-se para ver de quem vira aquela voz e revirou os olhos ao admirar seu rosto.
— Olá, Hemmings — cumprimentou, tomando uísque. — Está na missão “caça a salvadora da minha vida”?
Luke riu e se apoiou na parede ao lado dela. — Eu moro na casa ao lado, sabia? — comentou. — Essa é a república da minha faculdade.
— Você está na faculdade? — perguntou, surpresa. — Então você não está a minha procura? — perguntou, fazendo beiço. — É uma pena, eu realmente queria uma noite naquele Bugatti.
Alyss deu uma piscada na direção dele e foi pro lado de fora.
— Festa chata... — murmurou, chutando uma lata de cerveja.
— Aposto que se ainda estivesse comigo lá dentro estaria bem entretida — disse, mordendo os lábios. — Ou no meu quarto...
— Droga, Hemmings — xingou. — Não estraga, estava tão perto de você conseguir. Mas... Quarto? Próxima vez, você pode tentar algo comigo quando falar “Bugatti”, talvez funcione.
— Acho que tenho um comprador caso eu queira vender ele, estou certo?
— O comprador, com toda certeza, você tem — falou, sentando em um banco. — Mas a venda, não. Esse bebê é caro demais para mim.
— Você pode juntar dinheiro e enquanto isso, nos encontraremos de tempo à tempo para definir quanto o venderei para você.
— Isso se chama pretexto para encontros, Hemmings.
— Não, é não!
— E você é péssimo nisso.
— Estou apurando minhas técnicas de sedução, mas já que não funciona...
Alyss revirou os olhos, bufando. — Sem drama, por favor. De quem é essa casa?
— Você vem à casa dos outros e nem ao menos sabe de quem é? Eu chamo isso de invasão domiciliar — provocou, vestindo uma jaqueta.
— Não quando a porta está aberta... — ela riu, bebendo mais um pouco. — Você faz faculdade de quê?
— Engenharia e você quer fazer de quê?
— Ainda estou em dúvida entre jornalismo e psicologia, mas tenho tempo até lá — respondeu, dando de ombros.
— Não parece muito o seu estilo... — Luke comentou, entortando a boca.
— É o que mais me atrai, até agora — falou, jogando a garrafa da bebida fora. — Preciso de vodka.
— Quer estar bêbada quando eu te levar pra minha casa?
— Você era mais legal quando estava indefeso, sabia? — brincou, soltando o cabelo.
— Eu disse, só precisava de ajuda — relembrou. — Agora eu estou melhor e meu braço faz uns trabalhos melhor do que nunca.
— Você é podre, Hemmings — reclamou, afastando-a de si. — Não gosto de você.
— O quê? — falou, fingindo uma falsa indignação. — Mas todo mundo gosta de mim, as pessoas têm abstinência de mim. Sou aquele tipo de cara que todos procuram.
— Todos você quer dizer uma garota que te liga no dia seguinte após o sexo sem compromisso achando que tem alguma chance? Você parece mesmo.
— Eu não sou um idiota, sabe? — falou, grosseiramente. — Eu também tenho sentimentos só...
— Opta por não mostra-los? — Alyss completou. — Tática impressionante. Mas já faço isso por si só.
Alyss não tinha percebido uma cicatriz acima do olho direito de Luke, não podia ser do acidente por aparentar ser velha e a luz da casa mimetizou, mas era possível ainda enxergar alguns resquícios.
— Se machucou em uma luta, Hemmings?
Luke mudou a expressão em menos de um segundo, uma expressão que se existisse alguma palavra para definir aquilo, não seria algo positivo.
— Não é do seu interesse — ele disse e saiu da casa, indo para a rua.
— Grosso... — sussurrou. Alyss resmungou e encostou a cabeça na parede, em menos de um minuto, ela já estava na rua tentando encontrar por qual lado Luke tinha ido. — Hemmings! — gritou, tentando se lembrar onde Luke disse que morava.
Sem precisar de muito mais esforços, Alyss viu a estatueta de Luke encostada numa cerca e fumando. Sem pensar, ela andou até ele, tomou a bituca de cigarro dele, jogou no chão e pisou.
— Você é maluca? — gritou.
— Não — respondeu. — Você que é, Hemmings! Isso mata, sabia?
— Eu não me importo, caso contrário, não estaria com isso, não é?
— Nossa, Sherlock, você descobriu sozinho? — ironizou, abraçando si mesma. — Vamos sair daqui, estou congelando.
Alyss puxou Luke pelo pulso e saiu correndo sem direção.
— Para onde vamos? — Ela perguntou, parando de correr.
— Vamos para minha casa, Aly — ofereceu.
— Abusado, eu não conheço você. Então, não pode me chamar de Aly — riu. — Mas saiba que se tentar algo, eu carrego uma faca comigo e não tenho medo de usar.
— Eu gostaria de ser romântico e dizer que você me causa arrepios, mas não é do jeito bom.
— Medo de uma garota, Hemmings?
— Não seja prepotente... — sorriu. — Sabe o que eu notei?
— O quê?
— Um sotaque...
Alyss deu um sorriso sem graça e mordeu o lábio inferior.
— Eu sou Holandesa...
— O que você faz aqui?
— Eu não vou te contar, você é estranho.
— O que é melhor do que contar uma história para alguém que você nunca mais vai ver na sua vida e que não irá te julgar?
— Isso não vai rolar, Hemmings.
— Tulipa. — Falou do nada, sorrindo.
— O quê? — perguntou confusa. — Vou chamar você de Tulipa já que fui proibido de usar “Aly” e como você é da Holanda e as tulipas também... — ele riu ao ver a careta dela. — Tudo se encaixa.
— Não, absolutamente não — falou com as mãos abanando no ar. — Isso é extremamente gay — disse. — E broxante, Hemmings.
— É único para você e criativo, Tulipa — ele disse e levou um tapa no braço. — Isso dói!
Antes que Luke terminasse, Alyss pegou o celular, viu a hora e guardou o aparelho no bolso.
— Eu preciso ir — falou, exasperada. Luke arqueou as sobrancelhas, indeciso.
— Tudo bem?
— Sim, só está na minha hora — ela se virou e antes que desse um passo, perguntou: — Sabe algum ponto de ônibus ou táxi que tenha aqui perto?
— Eu posso levar você até em casa, Tulipa — sugeriu, pegando a chave do carro no bolso. Alyss revirou os olhos.
— Não precisa — falou, rápido. — Pensando bem, é melhor ir andando, perco uns quilos, economizo dinheiro, nem é tão longe...
Ela sorriu, nervosa e andou para longe.
Sexta-Feira; 23h47min.
— Aly? — Melany sussurrou, coçando os olhos enquanto descia as escadas.
— Melany — Alyss chamou, pegando a irmã no colo. — Vamos subir, pode dormir no meu quarto hoje, tudo bem?
— Promete não me deixar sozinha com a mamãe e o papai? — pediu com uma voz chorosa.
Alyss suspirou e foi até seu quarto. Ela colocou Melany lentamente na cama, tomou um banho rápido, colocou a roupa de dormir e se deitou ao lado da irmã. A mais velha cantou uma cantiga de ninar holandesa antiga até que a mais nova pegasse no sono.
— Me desculpe, Liefde.
Mesmo sabendo que não tinha culpa, sentia-se mais leve ao saber que poderia, de certa forma, proteger a irmã da mãe viciada em drogas e do pai viciado em apostas. Afinal, fora toda a perda de bens graças aos dois que tiveram que se mudar da Holanda e viver aquele inferno Australiano. A única coisa que esperava era que essa mudança para Austrália desse certo. Se ainda existisse um Deus que pudesse ajudá-la, que ele se tornasse presente — ao menos — na vida de Melany.
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