Sardas ao luar
1 Sardas ao luar
Notas iniciais
‘Foi o firewhiskey de Slughorn,’ Tom pensava consigo mesmo enquanto observava os colegas tomarem café da manhã.
A bebida era tão, mas tão culpada, que Abraxas não parecia expressar nenhum reconhecimento pelo que havia acontecido na noite anterior enquanto se ocupava em encher o seu prato com ovos e bacon, tagarelando com Canopus sobre alguma tarefa de Trato das Criaturas mágicas. Quando o loiro ergueu o rosto e encontrou os seus olhos, perguntou algo sobre alguma criatura (algum tipo de dríade), ao que Riddle apenas deu de ombros e resmungou um ‘não sei, procure você’. Os outros rapazes riram e fizeram piadas sobre como Tom não conseguia ficar acordado até muito tarde sem ficar de mal humor no dia seguinte.
Não era culpa dele que o sono veio apenas quando faltavam duas horas para acordar. Sim, o encontro do Clube do Slug estendeu-se um pouco mais do que o usual, acabando por volta da meia noite, mas foi culpa de Abraxas que Riddle tivera aquela insônia. Abraxas e suas ações impulsivas e suas mãos que não sabiam ficar quietas e...
Tom trancou o maxilar enquanto tentava pensar na redação de Astronomia que teriam que entregar naquela noite.
***
Malfoy realmente devia ter a cabeça muito fraca para bebidas mágicas, pois não parecia se lembrar de nada do que havia acontecido. Durante todo o dia, nenhuma palavra sobre a noite anterior saiu da boca do loiro e tudo parecia normal, como se fosse um dia qualquer com aulas e tarefas e Atlas Avery os irritando por coisas triviais.
Quando a aula de Astronomia chegou, Tom agradeceu silenciosamente por ter sido colocado para trabalhar com Dorea Black. A menina era quieta e inteligente, estava decidida a terminar aquela redação o mais rápido possível para ir dormir. Se Riddle terminasse rápido, poderia correr para o dormitório da Sonserina e evitar uma longa caminhada ao lado de Abraxas. No entanto, a sua distração (mais uma vez, culpa de Malfoy) o fez errar alguns cálculos e acabou por fazer com que ele e Dorea ficassem meia hora a mais na Torre de Astronomia, depois que todos haviam voltado para as suas casas.
A professora não demorou mais que alguns minutos para enxotá-los para fora da torre quando o trabalho foi terminado e Dorea, pobre Dorea, lhe desejou um rápido boa noite e então partiu para as masmorras da Sonserina com passos apressados. Tom, sabendo que o dano já estava feito e suas horas de sono, já prejudicadas, apenas suspirou e começou a descer a escadaria da torre lentamente, aproveitando o silêncio.
‘Abraxas não devia ter feito aquilo,’ ele pensou, enquanto passava pelo vitral de uma bruxa de cabelos cacheados e olhos claros com um corvo enorme no ombro.
Tom parou, um pé pairando sobre o próximo degrau, e se amaldiçoou. Ele ainda estava pensando na noite anterior. Aquilo não devia estar acontecendo. A última vez que teve a mente ocupada por outra pessoa daquela forma fora quando tinha onze anos e conheceu o fantasma da Dama Cinzenta. Claro, a situação era completamente diferente: ele era uma criança, ela era uma garota e... bom, estava morta. Agora Tom Riddle tinha quinze anos e o causador de toda aquela angústia era Abraxas Malfoy, muito vivo e muito homem para o seu gosto.
“Está tudo bem, Tommy?”
Riddle não conteve o xingamento rude demais para as pobres orelhas puro-sangues da Sonserina quando perdeu um degrau e tropeçou, apenas não rolando escada abaixo por ter se segurado no corrimão de metal. Ele estreitou os olhos ao ver Malfoy parado lá embaixo, aqueles olhos cinzentos o observando com cuidado.
“O que está fazendo aqui?” ele perguntou, empertigando-se e arrumando as alças da mochila nas costas. Não se deu o trabalho de virar o rosto para olhar o colega quando chegou ao seu lado.
“Esperando você. O que aconteceu?”
“Dorea e eu nos confundimos com alguns cálculos,” ele respondeu.
“Oh. Bom, deu para colocar em dia alguma leitura.” O loiro ergueu um livro e Tom revirou os olhos ao ver o título.
“Literatura trouxa de novo?”
“Você sabe que eu gosto.” Malfoy deu de ombros, abrindo a bolsa e guardando o volume velho de Moby Dick ali dentro. “Já leu?”
“Já.”
Os passos ecoavam de um jeito quase fantasmagórico pelos corredores vazios. A certa altura, Riddle se permitiu olhar o outro, mas logo se repreendeu. Na noite anterior, os cabelos de Abraxas também pareciam mais claros do que o normal sob a luz da lua que se embrenhava pelas janelas e seus olhos, brilhando mais do que o necessário. Quando o loiro percebeu estar sendo observado e virou o rosto, Tom se odiou por sentir-se corar.
“Cernunnos, Tommy, você precisa dormir,” disse Malfoy, rindo enquanto parava de andar e o encarava. “Está mais pálido que o normal.”
“Não estou,” o garoto falou, logo percebendo o quão infantil devia ter soado e pressionando um lábio contra o outro.
“Suas sardas ficam mais evidentes quando está pálido,” Abraxas explicou, erguendo uma mão e cutucando o nariz do colega rapidamente. “E quando fica muito tempo no sol, mas como isso é raro de acontecer...”
“Não tenho sardas,” Tom resmungou, esfregando o local onde o outro havia tocado. Ele odiava ser lembrado desse detalhe. Quando ainda era pequeno e inocente, havia importunado as funcionárias do orfanato por detalhes sobre a sua mãe, mas sardas nunca foram mencionadas. A Sra. Cole, certa vez, disse que aquilo podia ser algo herdado do pai, como todo o resto da aparência de Riddle.
“E eu não sou loiro.” O garoto encolheu os ombros e riu, antes de ir até uma das janelas e tocar no vidro com a ponta da varinha. A superfície transparente brilhou por um segundo e pareceu refleti-los melhor, como um espelho de verdade. “Olhe aí.”
Tom queria dizer que estava muito tarde para aquele tipo de brincadeira, mas Malfoy logo o segurou pelo braço e o puxou para perto do espelho. Um rosto bonito com olhos azuis claros, sobrancelhas escuras, nariz reto e lábios relativamente cheios o encarou de volta. Na pele sobre o dorso do nariz, pequenos pontilhados discretamente alaranjados ou castanhos manchavam a superfície pálida. Seu olhar se desviou para o rosto de Abraxas: elegante e jovial, com olhos cinzentos brilhantes e lábios finos. O tipo de rosto que ele esperava ver em um quadro pendurado em algum museu.
“Você é cheio de pintas, também,” Abraxas falou, tocando o lado do pescoço do outro, logo acima de uma manchinha castanha. “Dá até pra brincar de ligar os pontos.”
O dedo de Malfoy deslizou sobre a pele do garoto, indo para outro sinal acastanhado e, depois, para outro, mais próximo da gola da camisa. Tom respirou fundo e se conteve para não engolir em seco. Quando virou o rosto, o nariz de Abraxas estava perto demais do seu e um sorriso brincalhão esticava os seus lábios.
Uma parte de si, a qual Tom considerava inconsequente e inocente, ansiava por qualquer palavra sobre a noite anterior. Queria saber qual era a razão das mãos do rapaz terem se demorado tanto nas suas enquanto eles conversavam ou se era algo comum entre amigos encostarem-se um ao outro com tamanha intimidade, suas pernas praticamente entrelaçadas enquanto brincavam sobre as roupas excessivamente cheias de frescuras de Avery e Lestrange. Queria saber se os lábios de Malfoy encontraram os seus por acidente, entre uma risada e outra, ou fora essa a intenção. E se o tempo que se demoraram ali fora produto de alguma surpresa ou de vontade.
Também queria saber o que aqueles olhos cinzentos tanto olhavam em seu rosto naquele exato momento.
“Tem certeza de que está bem?” perguntou Abraxas, apesar de ter um sorriso divertido no rosto. “Está corado. Não está com febre, está?”
A mão do sonserino foi até a testa de Riddle, que se amaldiçoou em silêncio por não conseguir colocar palavra alguma para fora da boca. A pele de Abraxas parecia quente demais, ou talvez fosse apenas Tom que estava prestando muita atenção a coisas bobas.
No entanto, Tom sabia que seu rosto devia ter ficado ainda mais quente quando sentiu os lábios do loiro nos seus pela segunda vez em menos de vinte e quatro horas. Dessa vez, em algum lugar de sua mente, Riddle conseguiu notar que não havia álcool envolvido e Malfoy parecia estar tão lúcido quanto em qualquer outro momento do dia.
Quando o loiro se afastou, o sorriso divertido continuava em sua boca, assim como o brilho excessivo permanecia em seus olhos. Abraxas não falou nada, apenas empurrou o ombro contra o do outro sonserino, como o estivesse lembrando de continuar o caminho para as masmorras.
Tom permaneceu em silêncio durante toda a caminhada, mas não pôde deixar de notar que Malfoy parecia andar muito mais próximo de si, seus braço ou dedos de vez em quando roçando nos de Riddle. O sorriso, o jovem percebeu com um certo receio, não parecia mais apenas divertido. Havia algo a mais ali, algo que Tom talvez ousasse chamar de satisfação.
Fale com o autor