Sarabi

2 Capítulo I - O Convite


Sarabi

Capítulo I – O Convite

A chuva ainda cai sobre a cidade Dominó, impedindo que o sol se manifeste no início da manhã. As nuvens escuras cobrem todo céu, despejando as frias gotas d’água que caem sobre a janela, o som rivalizando com o barulho do despertador. Ambos acabam por acordar o menino na cama. Os olhos se abrem, revelando as íris arroxeadas, e logo o rapaz se senta na cama, assustado. Mas não é a chuva ou o despertador o motivo de tal surpresa. É a imagem de outro rapaz, de pé no meio do quarto, a presença imponente e muito conhecida.

- Faraó?! – Yugi pergunta, não acreditando no que vê.

- Olá, Yugi. – o antigo soberano cumprimenta o amigo com um tom de voz calmo, natural.

- O que está fazendo aqui? – a emoção é óbvia na voz do duelista mais novo.

Yugi apenas observa, admirado, a figura do faraó. Pensara que nunca mais veria o amigo e agora ele estava ali, como estivera por tanto tempo. Por quê? O que estava acontecendo?

- Eu não sei. – Atem responde – Eu estava quase dormindo e então me senti tragado, como se uma força muito poderosa estivesse me arrastando para algum lugar. Quando despertei, estava aqui.

O menino na cama abre a boca na intenção de perguntar algo, mas nenhuma palavra é pronunciada. O som de batidas chama a atenção dos dois e logo a porta é aberta, revelando a figura de um senhor baixinho, mas sorridente.

- Bom dia, Yugi. – o senhor diz, erguendo um envelope na direção do neto, que o pega – Estava na entrada na loja. – o senhor sai do aposento, deixando o rapaz sozinho.

Yugi olha rapidamente para o faraó antes de abrir o envelope, em cuja frente seu nome havia sido escrito. Um pequeno pedaço de papel é puxado do interior do envelope e se revela como sendo um convite. O rapaz o lê em voz alta:

- Peço para que venha ver a nova exposição sobre o Antigo Egito no museu Dominó. Venha sozinho. – Yugi para por um momento, procurando a assinatura – Ishtar. – o nome chama tanto a atenção de Yugi quanto do faraó – Será que Ishizu sabe de alguma coisa?

- Talvez. – o faraó responde, cauteloso, o olhar preso no convite nas mãos de Yugi.

Yu-gi-oh!

- Eu vi uma reportagem sobre essa nova exposição. – Téa diz.

Na escola, reunido com os amigos, Yugi expõe a situação: a volta do faraó e o convite para a exposição.

- Mas eu não entendo. – Tristan começa – O faraó recuperou a memória. Isso o devia ter deixado descansar em paz, certo?

Yugi assente, confirmando.

- Talvez o mundo esteja prestes a ser ameaçado por algum perigo de novo. – Joey comenta, sendo repreendido por Téa – Ué, por que não? Já vimos tanta coisa nos últimos anos...

O comentário de Joey faz Yugi pensar. O mundo está correndo alguma espécie de perigo? Algo relacionado ao passado? Por isso o faraó voltou? Para salvar o mundo mais uma vez? Se pensar bem, até que faz sentido. Talvez seja para avisar sobre esse perigo que Ishizu o tenha convidado para ver a nova exposição.

Yugi suspira, olhando distraidamente para o lado, para além da porta aberta da sala, e encontrando a figura de uma garota apoiada na amurada, observando a chuva cair.

Yu-gi-oh!

O som do carro correndo sobre o asfalto molhado é um instrumento usado por ela para manter a mente longe das lembranças de sua terra natal. Os olhos azuis observam o céu cinzento e o chão molhado, forçando a mente a não pensar no céu azul, no sol forte ou na areia do deserto. Um trovão é ouvido e um suspiro escapa pelos lábios finos. Ela não quer pensar, lembrar do belo deserto e muito menos do que ele esconde. Um labirinto, a tumba de um faraó.

O carro para em frente a uma escola. Jovens uniformizados correm para dentro do prédio em uma fuga da chuva. Ela olha para o espelho do motorista, encontrando um olhar sério e escuro, marcado, de um lado, por uma longa tatuagem, a marca de uma antiga promessa. A voz grave do motorista a desperta de seus devaneios, acordando-a para a realidade que ela mesma escolheu.

- Tem certeza de que quer fazer isso? – ele pergunta parecendo pouco confiante no sucesso do plano dela.

- Deixe-me ter uma vida normal por pelo menos um dia, Odion. – ela responde, pegando a mochila e abrindo a porta do automóvel – Não precisa vir me buscar. – ela avisa antes de sair – Vou direto para o museu ajudar a Ishizu a terminar de organizar a exposição. – o motorista assente ante as palavras e ela sorri, saindo do carro e caminhando calmamente em direção ao portão de entrada.

Ao pisar dentro do prédio, ela imediatamente sente os olhares dos outros alunos, mas não se importa. Uma aluna estrangeira deve chamar a atenção normalmente. Não que ela realmente tenha nascido no Egito, ela apenas cresceu lá, mas em suas veias corre o antigo sangue egípcio. Uma de suas muitas heranças.

Em silêncio, ela continua a caminhar, parando em um corredor pouco movimentado, as costas apoiadas na amurada, os olhos azuis observando a chuva cair sobre o pátio. Em frente a ela, está a porta que dá acesso a uma sala, onde, por coincidência, um grupo de amigos se encontra conversando. Um garoto, o único dos jovens que está sentado, suspira e olha distraidamente para a porta aberta, venda a garota. Ele não a reconhece, mas algo dentro de si parece despertar ante tal visão.

Como se tivesse sido desconectado do mundo, Yugi observa a aluna nova, notando como o cabelo tão vermelho quanto o sangue contrasta com a pele morena e como um ar quase místico parece envolver a desconhecida. O duelista parece despertar por um momento, ao notar o espírito do faraó se manifestar ao seu lado, o olhar fixo na garota. Diferente de Yugi, o faraó sente que conhece aquela menina, que, de alguma maneira, ela lhe é incrivelmente familiar. Quando a aluna nova vira o rosto, olhando em direção ao grupo de amigos, o faraó sente como se tivesse levado um choque. Aqueles olhos azuis... Tão azuis quanto o céu noturno... Ele já os vira antes! Em algum lugar, há muito tempo atrás.

A garota, por sua vez, apenas sorri, um sorriso de canto, como se soubesse quem a observa e o que tal observador pensa a seu respeito. Ainda sorrindo, ela volta a caminhar, indo em direção à própria sala. O sinal toca, mas ela parece não se importar. A mão direita solta a alça da mochila, deixando-a cair com todo peso sobre o ombro, e segura a mão esquerda, enfaixada com um pano negro. Todos eles possuem tatuagens, marcas de um passado do qual eles não podem fugir.

Yu-gi-oh!

- Você está bem, Yugi? – Joey pergunta, tocando o ombro do amigo e balançando-o um pouco.

- Sim, estou. – o garoto responde lentamente, olhando para o amigo – Ei, Joey, você conhece a garota que estava ali fora?

- Não. Deve ser a aluna nova. – Wheeler responde.

- Eu ouvi dizer que ela veio do Egito. – Tristan comenta – Parece que a família dela se mudou pra cá ou alguma coisa assim.

- Como você sabe essas coisas? – Téa pergunta.

- Ah, você sabe. – Tristan responde, despreocupado – O pessoal fala...

Enquanto os três continuam a conversar, Yugi permanece observando o ponto onde a garota estava parada. Seria apenas coincidência o fato de o faraó retornar, ele receber um convite para uma exposição egípcia e uma aluna nova, egípcia, aparecer? Ele não consegue acreditar, passara por muita coisa nos últimos anos para acreditar em simples coincidências.

O que você acha? Yugi pergunta mentalmente para o faraó. Eu não sei, mas sinto que alguma coisa está prestes a acontecer. O antigo soberano responde e volta a mergulhar em seus próprios pensamentos. Quem é aquela garota e por que ela parece tão familiar para ele?

Yu-gi-oh!

Os passos dela vão de um lado para o outro, o olhar passando por cada peça em exposição. Ela participara da descoberta da maioria daquelas peças, encontradas nas câmaras mais escondidas da tumba do faraó. Aquelas pedras guardavam segredos do reinado e da própria vida do grande soberano, mas não era essa parte da história que a interessava. Ela queria saber sobre uma única pessoa, alguém que fora escondido com tanta paixão quanto as lembranças do próprio faraó. Não, essa pessoa é parte da vida, das memórias do faraó, só que, por algum motivo, foi completamente apagada, até mesmo dos fragmentos que puderam ser recuperados. Ela só quer desvendar esses mistérios. Não sobre o faraó, mas sobre sua rainha.

O som de alguém se aproximando faz com que ela desvie a atenção das peças em exposição para a entrada do museu. Caminhando para as portas de entrada, ela encontra um menino aparentemente perdido naquele ambiente. Um suspiro escapa pelos lábios da menina. É cada trabalho que Ishizu arruma para ela! Ou talvez seja apenas o destino se manifestando. Ela ri baixinho. Essa versão se parece muito com o discurso de Shadi. Destino. Ela não acredita nisso. Com passos firmes, ela se aproxima do rapaz, que, ao vê-la, exibe um olhar de genuína surpresa.

- Você deve ser Yugi. – ela diz e faz uma reverência – Sou Serena Ishtar e serei sua guia durante a exposição.

Notas finais
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