—Como não foi convidada? — Ele parecia não entender – Todas as jovens foram!

—Bom, parece que não todas. – Digo meio incomodada com o rumo da conversa, sem conseguir olhá-lo nos olhos.

CAPÍTULO 5

Vi que ele estava triste, então esbarrei em seus ombros e disse:

—Não se preocupe. Vai ficar tudo bem. – Sorrio. – Há sempre um ano seguinte. Mas devo admitir que será uma pena não ir ao baile. Seria divertido poder, ao menos por uma única noite, sair do mundo em que eu vivo para um cheio de pessoas bonitas e vestidos balançando ao som da música. E a orquestra da Academia.... Dizem que é uma das mais perfeitas. Seria simplesmente um sonho poder ouvi-la, mesmo que por apenas algumas horas. – Digo jogando meu tronco no chão de braços abertos, permitindo-me sonhar acordada mais uma vez.

—Eu poderia avisar que você iria, e então eles te deixariam entrar. Poderia fazer isso para você se me dissesse seu nome. –Diz ansioso, segurando minha mão e olhando em meus olhos.

—Eu... É melhor não. – Digo triste, retirando minhas mãos das suas.

“Se ele soubesse.... Ah se ele soubesse que eu não passo de uma faxineira, uma escrava em minha própria casa, sob o poder da mulher que deveria, supostamente, cuidar de mim...” não pude evitar o caminho pelos quais foram meus pensamentos. Afinal, de certa forma ele é parte da nobreza, mesmo sendo o Caçador Real. Ele havia me confessado que era amigo pessoal e íntimo do príncipe noites atrás, que caçava para ele e com ele. O próprio príncipe. “Como alguém de tal estirpe, poderia algum dia realmente se interessar por mim? ” Eu era bonita sim, não minto. Mas ele merecia muito mais, alguém a sua altura. A verdade, é que eu simplesmente não pertencia a um mundo de realeza. Assim como ele não pertencia ao mundo das vassouras e panos de limpeza.

Ele merecia mais do que a filha de uma meretriz. É um nobre e merecia alguém tão nobre quanto.

—Bom, onde posso te encontrar amanhã então para te entregar seu convite? -Inqueriu sem desistir.

Relutei. Era simplesmente muito arriscado dizer algo a essa altura.

—Estarei muito ocupada. – Essa foi a melhor resposta que pude encontrar sem que precisasse mentir.

—Por favor, vá. Deixarei os guardas sob o aviso que espero uma dama, pergunte sobre mim e eles lhe deixaram passar.

—Obrigada pela gentileza, mas acho melhor não.

— O convite está de pé caso mude de ideia.

Depois de mais algum tempo, segui para casa. Ele me acompanhou até a borda da floresta dessa vez, ainda cabisbaixo, parecendo verdadeiramente chateado com a possibilidade de que eu não comparecesse.

O caminho foi extremamente frio e silencioso, cada um perdido em seus próprios pensamento. A noite não foi muito diferente.

Dizer que dormi pouco naquela noite seria eufemismo. A verdade é que não consegui pregar o olho, minha cabeça girava em torno da cena de horas atrás e do pedido do Caçador para que comparecesse ao baile. Portanto, quando Alice chegou na loja e disse que eu parecia um zumbie, não me surpreendi, apenas suspirei pesarosa. Minha aparência deveria estar ruim mesmo, afinal, eu me sentia como se estivesse de ressaca mesmo sem ter bebido uma única gota de qualquer tipo de bebida alcóolica.

—Não dormi bem essa noite – contentei-me em responder.

—Isso eu já sei. O que eu não sei é o porquê. Vai me dizer?

A curiosidade em sua voz era tão perceptível que ali mesmo eu soube que mesmo que não quisesse, ela pegaria no meu pé o dia todo para que lhe falasse, portanto seria melhor dizer logo e nos poupar o trabalho.

—O Caçador me convidou para o baile. Disse que queria que eu fosse e deixaria os guardas da entrada sob aviso da minha chegada caso eu aceitasse o convite. Eu disse que não.

—E porquê? – Sua voz soou tão incrédula que podia jurar que ela quase se sentiu pessoalmente ofendida mesmo que a recusa não tivesse sido direcionada a ela. –Você poderia dançar com ele a noite toda ao som da orquestra da academia! – Continuou, cada vez mais empolgada – Poderia ver o príncipe de perto, sem contar que um baile seria o lugar ideal para contar a ele sobre você!

—Contar a ele sobre mim? Está louca?! Porque eu faria isso? Além do mais o príncipe não me importa e posso dançar com ele outro dia.

—Ora, Ella, você não me engana. Sei que acabou se apaixonando por esse caçador misterioso. Não entendo porque vocês dois mantem essa história absurda de não dizer seus nomes, obviamente não adiantou nada. Essa é a sua chance! O amor e o romance vão preencher todo o salão. Além disso, o palácio é um belo cenário para uma declaração de amor. E tem a Academia, que estará tocando a noite toda. Vai ser divertido. – Disse me olhando com aqueles olhinhos brilhando como um filhotinho de gato perdido na rua e com medo da chuva. Era de dar dó.

—E minha madrasta? Sabe que não vai concordar, provavelmente vai me empurrar um mundo de coisas para fazer. Sem contar que minhas irmãs não podem me ver na festa, se não, eu nem sei o que elas são capazes de fazer comigo em casa!

— Simples! Ela vai antes de você, o baile é de máscaras nos três dias e elas só são retiradas à meia noite, então você só precisa sair antes disso que ninguém vai saber que é você. Sem contar que eu estarei lá para te dar cobertura caso seja preciso. – Parou por um instante- Já as tarefas, acho que tenho a solução para isso. – Sorriu maliciosa.

Ponderei por um tempo. Se desse tudo certo, de fato seria um momento que nunca esqueceria. E apesar de tudo, tinha que admitir que estava apaixonada pelo caçador, e dançar por toda a noite em um baile com ele seria simplesmente... estupendo. Três noites em um palácio, dançando com ele ao som da orquestra. Valeria o risco.

—Tudo bem, então. Eu vou ao baile. – Desisti – Mas se tudo der errado, não vou hesitar em voltar para casa.

—Claro! – Concordou empolgada – eu mesmo te ajudo caso seja preciso.

Acordei animada. Como diria meu falecido pai, sonhos são desejos que o coração faz, e eu daria um jeito de realizar o desejo do meu coração para hoje. Eu iria ao baile. Sorrio em constatação ao que, para mim, já era um fato. Encontraria o Caçador hoje, e dançaremos ao som da Orquestra.

Levantei-me sem conseguir parar de sorrir.

“Vestido! Preciso de um vestido para o baile! ” Pensei, me sentindo estúpida por esquecer deste detalhe tão evidente.

Saio do quarto em busca das mulheres, se conseguisse pegar logo as minhas tarefas, logo poderia ir em busca do que vestir para a ocasião. No entanto, para a minha alegria, elas haviam acordado mais sedo que eu e de acordo com o bilhete pregado a geladeira, já estavam em um SPA e só voltariam para vestirem seus vestidos e então sair novamente.

Sem conter toda a minha felicidade, me ponho a procurar por todo o meu armário separando cada vestido que eu tinha para experimentá-los. O primeiro era branco, tinha pequenas manguinhas rendadas nos ombros e era justo até a cintura, todo rendado até se encontrar com a leve saia. Mas ele era tão antigo que tinha manchas amareladas por todo ele.

Logo provei o segundo. Dessa vez vermelho, cheio de pedrarias. Ou era, quando eu tinha muito menos peito, agora o fecho nem mesmo fazia seu trabalho, emperrando antes de chegar a metade de seu caminho, se eu desse um espirro, estouraria lantejoulas e pedrarias por todo o salão do palácio. Seria o mico do ano.

O terceiro.... Basta dizer que me fazia parecer um poodle com sua saia e mangas felpudas. Eu me lembrava dele, havia sido obrigada a usá-lo na festa da minha formatura. Minha madrasta literalmente perguntou qual era o vestido mais barato do meu tamanho para a vendedora, acontece que, por algum motivo que mal posso compreender, ninguém havia se interessado por este aqui. Sim, estou sendo irônica. Ele deve ter ficado no sótão da loja por anos e foi quase empurrado para a primeira troncha que o aceitasse, ou seja, eu. Preferiria ir de jeans e tênis que usá-lo alguma outra vez.

Frustrada, sentei-me ao chão em meio aos tecidos no quarto. Bufei, jogando o tronco para traz, deixando que a cerâmica fria o acomodasse.

—Não posso ir ao baile assim, parecendo o animal de estimação de alguma madame. — Lamentei para mim mesma, de repente desanimada.

Joguei minha cabeça para trás, ao faze esse movimento, meus olhos captaram uma modesta caixa, escondida no fundo do armário. Era o vestido da minha mãe. A única lembrança que me restara dela.

Retirei a caixa branca dali e a abri, apoiando-a em meu colo. Após três camadas de um papel extremamente fino, também branco, eu o vi. Nunca tinha de fato parado para analisa-lo, mas ele era realmente bonito. Tinha uma saia relativamente cheia, todo rendado, de cor creme. As alças eram apenas de renda e cobriam o decote reto, o colo, os ombros e se espalhava até o cotovelo. Ao vesti-lo, notei que ficou quase perfeito em mim. Ela tinha a minha idade naquela época, me lembrei. Eu sou apenas um pouco mais baixa que ela, ao que parece. O vestido cheirava mal, devido aos anos e anos em que ficara guardado e pinicava levemente, devido a antiguidade do tecido, mas após uma lavagem ficaria quase perfeito. Não era muito adequado, mas serviria com certeza se colocasse algumas camadas de anáguas na saia, fizesse uma nova barra com renda e retirasse a manga. E se achasse algum brinco ou colar, ficaria ainda melhor, constatei novamente animada.

Sem conseguir conter a felicidade e alívio que me inundara naquele momento, me permiti imaginar como seria a noite. Os chocolates, o bolo, os doces, os petiscos, o interior do castelo. Suspirei com tal pensamento. Por alguns momentos, pude ouvir a música, sem resisti, cantarolei enquanto rodopiava simulando a dança que teria com o Caçador, dentro do espaço escasso que meu quarto permitia.

Retiro o vestido e guardo-o novamente na caixa. Vou fazer a limpeza da casa, e qual a minha surpresa quando encontro o quarto das irmãs totalmente revirado. Os cabides de seus armários estavam vazios pois todas as peças se encontravam forrando o chão. Começo recolhendo todas e as guardando em seus lugares, depois vou para os assessórios, no entanto, enquanto fazia meu trabalho, vejo debaixo da cama uma fita rendada. Eu me lembrava dela, Anastácia reclamou algo sobre ela ser fora de moda dias antes, quando discutia com sua mãe sobre o que usaria com seu vestido. Ao lado dela, estava o colar de pedras brancas e brilhantes da Drizella. Ela também havia reclamado dele quando exigia um colar novo para o baile.

Segurei-os, pronta para coloca-los na caixa de joias de suas donas. No entanto, paro no meio do caminho. Elas já não queriam eles mais, mas a fita era realmente bela, e ficaria bem na barra do vestido. Já o colar, poderia desfaze-lo e bordar as pedras no colo, daria um belo efeito de brilho e Alice me ajudaria com certeza.

Com isso em mente, guardo-os em meu bolso e termino os afazeres ali indo em seguida ao quarto de Lady T. Este não estava em situação melhor, mas por ser a bagunça de apenas uma pessoa, e em geral se concentrava ao closet, foi bem mais rápido colocar tudo em seu lugar. Porém, quando me virei para sair dali, senti meu braço bater e empurrar algo, ouvindo segundos depois o baque de algo que acabara de ir de encontro ao chão.

Olhei para baixo.

Havia esbarrado em sua caixa de joias, esparramando tudo pelo chão. Reorganizei tudo e parti, contente que a primeira parte já havia sido feita. Na varanda, coloquei as roupas para lavar e fui atrás da vassoura. Seria uma manhã longa, pensei comigo mesma.

Quando chegou o horário de ir para a loja, coloquei a caixa do vestido, a fita e o colar na cesta da bicicleta e fui em direção ao trabalho. Abriríamos mais tarde a loja hoje, já que Alice também tinha levado parte da manhã para fazer a unha e tudo mais que achou necessário. De acordo com ela, só deixaria os cabelos e maquiagem para fazer a noite, assim não estragariam no decorrer do dia. E quem disse que ela se importou no atraso que isso acarretaria a loja? Ela estava animada de mais com “O” acontecimento de pelo menos das últimas três décadas para se importar com isso. Não pude deixar de rir desse pensamento, a baixinha estava mesmo animada com tudo o que envolvia o aniversário do príncipe.