Sapatinho de Cristal
18 Capítulo 18 - O FIM, Parte 2: Lady T. e suas filhas.
—Eu não acredito nisso... Eu vou para a Escola Vitoriana de Dança e Cordas! – sussurrei chocada.
Alice, ainda ao meu lado, apenas riu.
—Vamos, está na hora do almoço. Pode ir pra casa, deixa que eu converso com os convidados e depois fecho a loja. – disse ela, ainda com vestígios de diversão em sua voz.
Eu, no entanto, mal acreditando na sorte que estava tendo logo pela manhã, apenas peguei meus pertences e me despedi, saindo da loja ainda meio boba com tudo o que já havia acontecido.
CAPÍTULO 18- O FIM, Parte 2: Lady T. e suas filhas.
No caminho para casa, levei meu tempo para observar a cidade. O cheiro de pão recém assado ainda saía da padaria, mesmo já estando tarde. Os carros e bicicletas transitavam calmamente, ao seu tempo. Passei pelo casal que ajudou em uma das minhas fugas e, mesmo que não me reconhecessem por causa da máscara e da escuridão daquela noite, sorri em sua direção e acenei.
Quando enfim cheguei, a casa estava vazia. Ainda uma bagunça, mas vazia, então estava tudo bem, isso pra mim já dava todo um sentimento de paz que nenhuma organização no mundo poderia superar se, junto, houvesse a má companhia de Lady T., Anastácia e Drizela. Joguei-me no sofá, ignorando todas as tralhas envolta e suspirei, aproveitando o momento. O silêncio ressoando em meus ouvidos como se fossem notas de uma linda música sendo retirada das cordas de um instrumento tão belo quanto meu violino. Ali, naquele momento, estava sozinha.
Mas não era solidão, era solitude.
E nunca senti tão em paz assim a anos.
E eu gostei.
Gostei mesmo quando troquei o silêncio por outra delicada sinfonia. Uma que mal me atrevia a romper, contaminar com sons invasores. Uma que, ao contrário do silêncio, não era público. Ao contrário do violino, não era o instrumentista. Dessa vez, me senti maestra. Maestra de um dos sons mais incríveis que criei. Mas o que surgia, não era melodia. Eram sentimentos. Sentimento de completude, de autossatisfação. Confiança renovada. Como se ali, naquele momento, eu fosse plena.
Não sei quanto tempo fiquei ali. Olhos fechados aproveitando o momento. Sei que só abri quando batidas soaram da porta. Ao abrir, uma Senhora bem vestida, cabelos presos em um coque justo, aparentando cerca de quarenta anos, se revelou firme na soleira.
—Olá, eu sou a Srta. Devon, do escritório de Advocacia de Davina. Vim pela Sr. Tremaine, ela está?
—Desculpe, não. – Respondi.
—É realmente importante, poderia me dizer quando ela estaria de volta?
—Sinto muito, realmente não sei te dizer. Gostaria de entrar e esperar? – ofereci, abrindo espaço para ela passar.
Srta.Devon ficou alguns minutos me observando.
—Por acaso você seria a Senhorita Ella, por acaso?
Franzi o cenho.
—Sim. Essa seria eu, sim.
—Oh, isso é ótimo. Podemos começar a acertas as coisas então enquanto espero sua madrasta. – diz ela, repentinamente sorrindo e avançando para adentrar a casa.
Indiquei onde ficava a sala, pedindo desculpas pela bagunça, com a qual ela não pareceu se importar. Ofereci-lhe algo para beber, mas ela nada aceitou. Então, sentei-me em uma poltrona, e ela logo começo a falar.
—Veja, Ella. Eu sou a executora do testamento do seu pai. Tenho tentado falar com você desde o seu aniversário de dezesseis anos para o aumento da sua mesada, como seu pai pediu em seu testamento, mas nunca consegui encontrá-la. Agora que fará dezoito em apenas alguns dias, infelizmente não vejo sentido nisso, já que receberá o valor total muito breve. Apenas mais três dias, se não estou enganada, certo?
—Certo. Mas, me desculpa Senhorita Devon, não entendo. Que mesada? E que valor total? Estamos falidos, Tremaine usou todo o nosso dinheiro. É por isso que estamos aqui na Escócia em primeiro lugar.
—Como? Falidos? – perguntou, confusa.
—Sim. Me desculpe, a senhora claramente deve ter se enganado, mas não temos mais nada. Precisamos vender a nossa antiga casa e vir para esta por causa das dívidas adquiridas por minha madrasta. E eu nunca tive mesada alguma. Pelo contrário, eu trabalho aqui e em uma loja, a Fary Land, por meio período para me manter.
—Mas isso não está certo! – exclama, abrindo uma pasta cheia de papeis.
Srta Devon levou seu tempo para analisar alguns desses papeis.
Depois, voltou para mim, entregando-me dois deles.
—Veja, aqui estão. Um é o testamento do seu pai, afirmando claramente que você e suas irmãs adotivas herdariam todo o patrimônio do seu pai. Esse dinheiro deveria ser gerenciado por sua madrasta, a sr.Lady Tremaine até que você fizesse dezoito anos, sendo dispostos uma mensalidade do valor de quinhentos solares mensais para cada uma das quatro até que completassem dezesseis anos. Então esse valor aumentaria para mil para cada uma das filhas, sendo não mais gerenciados por sua madrasta mas por vocês, mantendo para a Lady Tremaine no valor fixo inicial até que completassem dezoito anos, quando sua pensão acabaria e vocês receberiam todo o valor que lhes é devido. 50% seria seu, e os outros, deveriam ser divididos igualmente entre Drizela e Anastácia. Em caso de necessidade extrema, ela poderia recorrer aos fundos das filhas biológicas visto o vínculo sanguíneo que mantem, mas jamais poderia acessar, sem seu conhecimento e permissão, o seu fundo, visto que esse vínculo sanguíneo não existe entre vocês. Ela só poderia assumi-lo em um cenário em que você fosse incapaz. É isso que dizia não apenas o acordo pré-nupcial, mas também o testamento do seu pai, os quais Lady Tremaine não era apenas ciente como também assinou como testemunha ocular do testamento do seu pai.
A sala ficou silenciosa por alguns minutos. Em minha mão pude comprovar o que a executora judicial a minha frente dizia. Ali estavam o acordo que papais fizera, bem como seu testamento. Ambos assinados por ambos, meu pai e Lady Tremaine.
—Mas, estamos falidos, como podemos estar falidos então? -perguntei incrédula, voltando a observar a Srta.Devon.
—De fato, sua madrasta está falida. Mas não a Srta. A dois anos Tremaine já havia declarado falência e, como tal, conseguiu acessar a parte que era de suas filhas. Mas ela nunca acessou a sua parte. De fato, essa casa foi, explicitamente, separada única e exclusivamente pra você pelo seu pai, estando no seu nome desde antes de seu falecimento, para garantir que você sempre tivesse o lugar onde cresceu e passou o início de sua infância.
—Essa casa é minha? – indaguei, incrédula, com os olhos arregalados.
—Claro que sim! Você não sabia?
—Eu não sabia de nada disso! – indiquei-lhe os papeis. – Nunca recebi mesada alguma. Na verdade, só recebo nos meses que trabalho limpando a casa, e mesmo assim, nem metade desse valor!
O silêncio preencheu a sala novamente. Eu podia ver as feições da Srta.Devon mudando lentamente para irritação.
—Entendo... – disse, em tom grave, claramente irritada.
Somos, entretanto, interrompidas com o abrir repentino da porta. Lady Tremaine e suas filhas adentram a casa rapidamente, conversando em alto volume, dizendo coisas como “é melhor que esteja tudo um brilho!”. Ao verem a nossa convidada, no entanto, congelaram. A Srta. Devon, no entanto, mantendo feições severas, levantou-se com toda a elegância que tinha.
—Recomendo que se sente Sr.Tremaine. Temos muitas coisas sobre as quais conversar...
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