Santuario & Profano : Ganchos
1 1. O inicio do fim.
And now the end is near
And so I face the final curtain
My friend, I'll say it clear
I'll state my case, of which I'm certain
I've lived a life that's full
I travelled each and every highway
And more, much more than this
I did it my way
A voz rouca do homem em retalhos se faz ouvir por sobre as ruínas em forma de canto. Mais que isso, um lamento. Um martírio. Um adeus.
A arma que empunha em sua mão destra está trêmula. Sua mão sempre fora firme nestas ocasiões, mas agora o peso de sua decisão oscila em seu braço.
A chuva cai pesarosa, enfeitada com relâmpagos e trovões de todas as cores, formando um prisma cintilante no céu. Olhos mais atentos poderiam observar os cavaleiros por sobre as nuvens, mas ambos – o homem armado e o homem caído – se olham nos olhos com raiva.
O vento uiva por entre este empasse, antevendo o grito preso em uma das gargantas.
— Por quê? – sussurra o homem caído na poça de seu próprio sangue. – Eu achei que éramos amigos...
— E éramos, mas isto é maior que nós dois. Maior que tudo o que já fizemos. – o homem com enormes cicatrizes abaixa-se um pouco, ficando na altura do olhar do homem de longos cabelos avermelhados. – Saga, eu estou aqui para cumprir nosso destino.
— Você está louco, James – Saga tenta manter o olhar firme, mas sua atenção está dividida. – Você não sabe o que está fazendo... Você tem que deixa-la ir!
James apoia-se em seus joelhos e levanta-se com um movimento brusco. A chuva aperta, ficando quase impossível ver muito longe. O vento esbarra no que antes fora prédios de uma antiga instalação militar.
O símbolo desta instalação serve de berço para essa cena brutal, ficando visível apenas um grande “R” azul, já gasto pelo tempo. O homem em retalhos anda lentamente, afastando-se do homem que sangra mortalmente e aproximando-se de uma mulher em pedaços.
Um brilho azul febril desponta por entre os braços cerrados dela. E não poderia ser diferente, pois onde deveria haver carne e ossos; há ligações, cabos e metal, formando vida de uma forma distorcida.
— Afaste-se, AFASTE-SE! – Grita a mulher construída apenas de cintura pra cima. Seu choro é alto e agonizado, mas a ira em seu olhar afasta o medo que ela deveria estar sentindo. – Você não vai pegá-la... NÃO VAI!
— Ora Mikka, e o que você pretende fazer para me impedir?
— Eu... Eu... – A súplica aparente da à vez a dúvida.
— Eu... Eu.. Cale a boca garota! Você não tem ideia do que eu sou capaz.
James é rápido. Seu movimento certeiro arranca um dos braços de Mikka e alcança a esfera azulada em seu dorso. Ele arremessa o braço a vários metros de distância e chuta a mulher no rosto, calando-a em um desmaio.
Um estampido, mais alto que o som dos trovões, arrebenta o silêncio da dor. James se projeta pra frente, segurando a orbe anil a poucos centímetros de tocar o chão. O sangue verte morno de suas costas.
Atrás dele está Saga, de pé, segurando a arma recém-disparada entre suas mãos quebradas. Seu dedão direito engatilha a arma novamente, mas o gatilho fica parado em seu indicador.
— PARE JAMES! DEVOLVA NATASHA PARA ELA!
— Isso aqui – Diz James olhando de canto de olho para o ventre azulado. Por um segundo ele tem a impressão de ver a mão da criança se mexendo no fluído vital, dentro da orbe.
— Eu não quero fazer mal a ela. Ainda não. Então abaixe essa arma e saia do meu caminho.
A mão de Saga fica trêmula. Se errasse o tiro ele acertaria em cheio sua filha. A decisão pesa em seus movimentos, impedindo-o de ver os hábeis movimentos de James.
O homem em retalhos toca na tatuagem sagrada de sua coxa, as letras em aramaico antigo começam a acender-se uma a uma. Seu cérebro enche-se de pluma, o dom sagrado, e uma palavra arde em sua boca. Ele a deixa sair.
— Queime... – A palavra sai sibilante de sua boca e corre como uma serpente até o corpo de Saga. As chamas começam por suas pernas, sobem por suas entranhas e começam a consumir sua cabeça em questão de segundos.
Saga grita aterrorizado, nem mesmo o demônio que habita seu ombro pode protegê-lo. As chamas lambem cada pedaço de sua pele, trazendo a tona seus ossos avermelhados. Cada grito que sai de sua garganta traz mais chamas para seu interior, impedindo seus pulmões de aspirar e colocando a foice da morte em sua garganta.
James anda até Saga com sua filha nos braços. Ele agacha-se ao lado do corpo em chamas de Saga e sorri. Abre lentamente sua boca e finaliza a história de Saga sem misericórdia.
— Olhe bem Natasha, esta deve ser a última vez que verá seu pai vivo.
James sai lentamente, tranquilamente sob a chuva.
Regrets I've had a few
But then again too few to mention
I did what I had to do
And saw it through without exemption
I planned each chartered course
Each careful step along the by way
And more, much more than this
I did it my way
CONTINUA....
Notas finais
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