Santuário Dos Condenados
16 Capítulo 16 - A VIEW TO A KILL
Notas iniciais

“Dizem que, no exato instante da morte, um filme das nossas vidas passa com a rapidez de um flash...”
Caronte viu-se como um menino, novamente. Era como se protagonizasse um filme antigo em tons de vermelho-sangue e cujas cenas se passavam em câmera lenta...
Um dia ele fora ingênuo e alegre, desprovido da perversidade que agora norteava cada ação e desejo. Um dia... Quando ainda desfrutava do amor materno e não precisava dividi-lo com o amante bêbado que espancou sua mãe até a morte.
Por isso se tornara policial, para erradicar a maldade no mundo, para impedir que outros sofressem a mesma perda. No entanto, descobrira dentro de si um abismo de ressentimentos e crueldade, um abismo faminto que se comprazia em aliar-se com aqueles que odiava para submetê-los ao castigo merecido. No fim, ele se tornara tão vil quanto aqueles que jurara combater e depois de cruzar a linha tênue que o separava deles, não havia como voltar atrás.
Não houve tempo de rezar, pedir perdão ou até mesmo expressar seus últimos pensamentos. Primeiro, o entendimento, segundo, a escuridão e então... Sua amante, a Morte, veio buscá-lo...
Fim de jogo.
A bala perfurou Caronte bem no centro da testa, fazendo-o oscilar, violentamente, para trás. Um buraco circular adornado com fumaça e pólvora formou-se de imediato, enquanto o cérebro era estilhaçado e saía pela nuca, deixando um rastro de pele, osso, carne e sangue na parede.
— Kardia, não! – gritou Dégel.
O grego voltou-se sem expressão de arrependimento.
— Sem essa de piedade com este escroto. Era só uma questão de tempo. Eu já tinha avisado ele e ele já tava enchendo o saco. E, além do mais, fui misericordioso, ele merecia uma morte menos rápida e mais dolorosa. – falou Kardia guardando a arma na cintura.
Dégel balançou a cabeça. Caronte estava morto, os olhos abertos e vidrados, o corpo ainda exibindo seus últimos estertores. Mesmo que não concordasse com a violência e as regras daquele lugar, sabia que o grego estava protegendo-o e que, naquela situação, não havia como exigir dele outro tipo de ação.
À sua maneira, Kardia mantinha a segurança de todos, ali. Ele não hesitava, era violento, mas ainda assim, era capaz de amar intensamente e buscar justiça. E eu o amo... Pensou o médico, constatando que seus sentimentos para com o grego haviam se tornado mais fortes e inabaláveis, mesmo perante o fato que acabara de acontecer.
— Venha para a sala de desinfecção. – disse Dégel com um tom de voz cansado.
Kardia olhou para Albafica e Asmita, os dois quietos. Não sabia quem eles eram e nem queria saber. Quem lhe interessava era Dégel, mas ele estava ligado àqueles dois, então tinha que maneirar. Mordeu o lábio, antes de falar:
— O diretor me deixou vir aqui, disse que o trabalho de vocês é importante. Que tipo de trabalho é esse? Esses caras... Eles parecem saídos de um filme de terror.
— Acompanhe Dégel e ele te explica. – falou Asmita.
O grego concordou e Dégel se preparou para a enxurrada de perguntas que não vieram.
Kardia tocou o rosto do médico, parando próximo do lábio cortado. O olhar profundo encontrou os olhos cansados de Dégel, aqueles olhos violáceos que brilhavam intensos, sempre que ele atingia o orgasmo... Pensou, enquanto sentia arrefecer os sentimentos de raiva, algo que só era possível quando estava junto do médico. Naquele momento, sentiu que o amante já tinha passado por poucas e boas naquele lugar. Não seria certo pressioná-lo com perguntas. Era tudo muito simples, tinha gente morrendo e era preciso sair dali. As divagações científicas, ele deixaria a cargo do médico. Ele, Kardia, precisava traçar um plano, pois pelo que presenciara, não seria fácil varrer toda aquela sujeira para baixo do tapete...
— Não precisa dizer nada. Sei que não faria mal a ninguém, mesmo que a pessoa merecesse. Você é bom demais pra isso. O que me leva a pensar que o grande diretor fez a merda toda e agora quer que vocês limpem tudo. Esse é outro que eu tenho de dar cabo de uma vez.
— Não, Kardia. Chega de mortes! Minos pode ter errado em muitas coisas, mas não acredito que ele seja de todo mau e precisamos dele para reverter essa loucura. Talvez, no início, ele tenha tido boas intenções quanto a funcionamento deste lugar e depois, tudo foi saindo do controle. Nem tudo se resolve matando!
— Meu avô dizia que “de boas intenções o inferno tá cheio”. E inimigo a gente mata, sim, e acaba de vez com a história.
Dégel tocou o ombro de Kardia.
— Não temos tempo de discutir isso agora. Vamos para a descontaminação, não temos muito tempo. Enquanto encaminho os procedimentos padrão, eu conto tudo o que deseja saber. É preciso que você saiba o que está acontecendo.
0000****0000****0000
Havia um silêncio inédito na Ala B. Alguns prisioneiros falavam baixo, outros aproveitavam para dormir. Aiacos estava em pé, analisando tudo. Viera à Hornos para cumprir uma missão que o tornaria o chefão da Cozinha do Inferno, ao menos era isso que Hades o fizera acreditar.
Poder total, imunidade nas ações... A oferta fora tentadora, mas para Aiacos, o prazer maior seria acabar com Kardia, o grego maldito que atrapalhava as suas transações e era considerado quase um deus.
Tocando a queimadura em seu rosto e relembrando como tudo acontecera, Aiacos apertou com força as grades e gritou:
— Guarda! Guarda!
Os outros prisioneiros viraram as cabeças. Máscara da Morte foi o primeiro a ficar atento.
— O que esse filho da puta está tramando...? – falou o italiano.
Afrodite abraçou o amante por trás, encostando o queixo em seu ombro.
— Não sei, mas boa coisa não é. Sem Caronte para respaldá-lo, ele tem que ir atrás de outro. – disse o loiro.
— Kardia ainda não voltou. Isso não cheira a boa coisa. – disse Máscara da Morte.
— Também acho, mas o que podemos fazer? – falou Afrodite suspirando.
— Vamos ficar espertos. – respondeu Máscara.
Em sua cela, Milo estava inquieto e também prestava atenção nos gritos de Aiacos. Já se passara um bom tempo que destruíra o localizador em seu corpo, certamente Camus e os outros estariam agindo. Porém, o lock down faria com que Minos impedisse qualquer visita. No entanto, sabia que o ruivo pensaria em algo, porque sua inteligência era inquestionável. Camus era o tipo de agente que conseguia destrinchar os casos mais difíceis, graças a sua capacidade de controlar as emoções e usar de uma lógica própria que sempre o guiava na resolução de problemas.
— Pode parecer estranho, mas eu até prefiro o lock down. Assim não temos que topar com esses caras. — disse Jabu.
— Não se sinta assim, tão seguro. Fica esperto. – respondeu Milo.
Jabu olhou para o companheiro de cela e, em seguida, deitou-se na cama e cobriu os olhos com o braço.
— Você acha que vai dar mais alguma merda? Eu estou cansado, com a garganta doendo e os olhos ardendo, ainda. Preciso dormir um pouco.
Milo olhou para Jabu e balançou a cabeça.
— Ok, durma um pouco, eu fico vigiando.
Ao término da fala de Milo, Jabu já estava dormindo, mesmo com os gritos de Aiacos que continuava chamando os guardas.
— Ei, cala a boca, seu imbecil! – gritou um prisioneiro.
— Não adianta chamar o papaizinho que o Caronte se fodeu!- gritou outro.
Aiacos chutou a grade e nada aconteceu. Foi aí que ele teve uma ideia para chamar a atenção, olhou para o seu companheiro de cela, Wang, e encaixou um mata-leão, fazendo-o desmaiar. Após, pegou um lençol e improvisou uma corda com ele, amarrando-o no pescoço do companheiro e pendurando-o nas grades. Segurou-o, enquanto o estapeava, fazendo-o acordar e perceber que estava com o corpo levado há alguns centímetros do chão. Com os olhos arregalados, o homem viu Aiacos soltá-lo e começou a espernear sob o olhar perverso do seu chefe.
— S-So...corro...!
Os outros prisioneiros viram a cena e começaram a bater nas grades. Alguns por diversão, outros para chamar a atenção dos guardas.
Milo gritou junto dos demais até dois guardas surgirem.
— Mas o que está acontecendo aqui? – perguntou um deles.
O homem, cuja expressão revelava que estava sufocando, segurava o lençol desesperadamente, enquanto Aiacos permanecia ao seu lado com o olhar impassível.
— Se afaste! – disse o guarda.
Aiacos obedeceu elevando os braços em sinal de rendição. O guarda fitou-o nos olhos, enquanto o outro desamarrava o lençol, libertando o homem cujos lábios já estavam quase roxos.
— Eu devia deixar esse idiota morrer, era um bandido a menos no mundo! – disse o guarda.
O outro concordou com um suspiro exasperado. Porém, assim que o homem foi solto, Aiacos empurrou o guarda que o vigiava e o homem salvo, também se atirou sobre o guarda que o retirara da corda feita com lençol.
O guarda empurrado por Aiacos ainda tentou usar o cassetete, mas o criminoso foi mais rápido, atingindo-o violentamente no rosto e, em seguida no estômago. Quando o homem caiu, Aiacos finalizou chutando-o no rosto, enquanto o outro guarda era agredido por quem acabara de salvar a vida.
Wang olhou dentro dos olhos de Aiacos e os dois chegaram a um entendimento. A encenação fora necessária para que ambos pudessem deixar a cela. Talvez, em outra ocasião, os papéis se invertessem, pensou Wang.
Os dois amarraram os guardas, pegando o dispositivo que abrira as celas.
Máscara da Morte os encarou, porém Aiacos olhou-o com desdém.
— Vamos começar a brincadeira... – falou Aiacos com o dispositivo na mão.
Um sorriso de escárnio distendeu os lábios do italiano.
— Eu espero que você saiba brincar, farabutto.
Afrodite olhou para o amante, intuindo que a situação ia ficar difícil. Em sua cela, Milo também percebeu que haveria enfrentamento e que seria ainda mais sério. Ele tocou em Jabu e falou baixo:
— Levante e se prepara.
— Pra quê? – devolveu Jabu, ainda sonolento.
— Para salvar a sua pele. – respondeu Milo.
0000****0000****0000
Ainda na sala de espera, Camus olhava o relógio de pulso e tentava não revelar a ansiedade que sentia. Seus instintos de agente identificavam algo no ar, uma tensão revestida dos segredos contidos naquelas instalações grandiosas, tudo orquestrado por Minos que disfarçava, agindo com uma falsa, porém muito bem construída, segurança. Podia cutucá-lo, mas decidiu não apressar as coisas. Deixaria que ele pensasse estar no comando. Havia muita coisa em jogo ali e a necessidade de saber o que tinha acontecido com Milo, exigia que mantivesse o autocontrole.
— Você está nervoso. – falou Aiolia num tom sussurrado.
— Porque diz isso? – retrucou Camus.
— Já olhou para o relógio umas dez vezes em um espaço de dois minutos
— Minos está nos enrolando. Agora, tenho certeza que algo aconteceu e ainda está acontecendo aqui.
Radamanthys também encenava um autocontrole que lhe exigia um enorme esforço. Valentine estava demorando e Minos também. Não poderia falar com seu irmão, enquanto aqueles dois agentes estivessem ali.
Como se adivinhasse que a sua falta era sentida pelo amante, Valentine retornou com a mesma expressão de indiferença no rosto. Sentou-se ao lado do juiz e sorriu:
— O diretor desta prisão fez um excelente trabalho em termos arquitetônicos. O toalete é melhor que o de muitos hotéis que conheço.
Antes que Radamanthys falasse algo, Aiolia falou:
— Será que os dos detentos são bons também?
— Bem, é claro que esta prisão foi planejada com esmero, mas ela não é um hotel para criminosos. – disse Minos adentrando a sala e respondendo à pergunta de Aiolia.
— E então, podemos ver meu irmão? – indagou Camus.
— O Dr. Dégel virá daqui a pouco. – mentiu Minos. – Enquanto isso, que tal conhecer as alas da prisão? Vamos começar pela ala A, onde seu irmão e outros profissionais são colocados.
Camus olhou para Aiolia.
— Preferimos começar pela ala dos outros prisioneiros. Se não se importa.
Minos franziu o cenho, estranhando a postura de Camus. Parecia que ele sabia que algo acontecera ali...
— Por mim, tudo bem. Só achei que gostaria de ver onde seu irmão está alocado.
— Preferimos conhecer o complexo que dizem ser à prova de fugas. – falou Aiolia.
A ênfase dada pelo agente fez Minos tensionar a mandíbula. Esses dois sabem de alguma coisa! Alguém passou esta informação. Terá sido Caronte?
— Nosso sistema é bastante eficiente, verão que os presos estão em suas respectivas celas, já que a população da ala B é de alta periculosidade.
— Eu prefiro ficar aqui, se não se importam. Estou com um pouco de dor de cabeça. – falou Valentine.
Radamanthys fitou o amante e se ofereceu para permanecer ao lado dele.
— Ficarei com Valentine, enquanto você mostra o complexo aos agentes, afinal, já fiz essa visita na inauguração.
— Fiquem em meu escritório, é mais confortável. – disse Minos.
— Obrigado. – falou Valentine.
Assim que Minos e os agentes deixaram a sala, Radamanthys encarou Valentine.
— O que houve?
— Nada. Por que a pergunta?
— Você está estranho.
— Impressão sua. – disse Valentine se aproximando de forma sinuosa. – Não se preocupe comigo, vá com eles. O diretor me pareceu tenso e ele conta com você, não é?
Hesitante, Radamanthys refletiu sobre as palavras de Valentine.
— Tem certeza que ficará bem?
— Absoluta. Vá!
O juiz se deixou convencer e Valentine provou conhecer os mecanismos emocionais do amante. Radamanthys sempre se colocava de forma protetora com Minos e subserviente com Hades. A equação era sempre a mesma...
Assim que se viu, completamente sozinho, Valentine voltou ao corredor que dava no escritório de Minos. Um guarda estava à porta, porém já recebera ordens de deixar Valentine passar. O jovem entrou e retirou outro celular do bolso interno da jaqueta que usava. Ele inspirou, profundamente e apertou uma tecla. A voz firme e feminina, ao atender àquela chamada, fez com que Valentine experimentasse o mesmo antagonismo que o levara a aproximar-se de Radamanthys. No início, era apenas parte da sua vingança. Jamais esperara apaixonar-se pelo belo juiz e nem sentir-se sujo por ter que traí-lo. Entretanto, estava feito e não havia nenhuma chance de voltar atrás.
— Já enviei o vídeo, agora é questão de tempo. – disse ela.
— Perfeito. – a resposta curta e seca não denunciava os seus verdadeiros sentimentos.
Desligou o celular, colocou-o no bolso e foi até a janela com vistas para a imensidão do mar. Agora, o grand finale! Pensou tentando esquecer que o homem que amava sofreria muito.
0000****0000****0000
Mu respirou fundo, fechou os olhos e, quando os abriu, tornou a usar seu celular, agora enviando uma mensagem de texto. Se estivesse fora da área de cobertura, assim que houvesse um sinal, a mensagem estaria disponível.
“Agente Camus, descobri que o filho do juiz Dawson esteve na casa do pai, após o acontecido. Ele estava desaparecido e agora usa o nome de Valentine. E Valentine é assistente-estagiário do juiz Radamanthys.”
—Pronto, mandei. Agora só resta esperar. – falou o perito para si mesmo e, e seguida viu-se pensando no belo agente chamado Aiolia.
Fazia muito tempo em que não se sentia atraído por alguém. Sua vida se resumia a ver além do que as pessoas comuns. Ser um CSI não era tão glamoroso quanto nas séries e, geralmente, os agentes de campo ficavam com toda a glória, enquanto os peritos eram considerados como o apoio nos bastidores. Porém, neste caso, a evolução daquela investigação dependia muito da perícia, já que a situação estava mais emaranhada que um novelo de lã nas patas de um gato. E ele, Mu, não se importava de não estar sob os holofotes. Preferia resolver os casos e ajudar a retirar das ruas, pessoas nocivas à sociedade.
Com uma inspiração profunda, Mu deu mais uma olhada nos objetos que analisara e, em seguida, deixou o local. Estava cansado e só agora notara isso. Mais uma vez, o sorriso do agente Aiolia surgiu em sua mente e ele sorriu também. Estava quase na hora do almoço e somente neste momento, ele se permitia relaxar um pouco...
Enquanto Mu decidia onde almoçar, Hades participava da videoconferência. Três chefes militares exibindo suas fardas e medalhas olhavam-no com interesse e o criminoso sorria, internamente. Já havia retirado Kardia da Cozinha do Inferno e o levado para Hornos, onde Aiacos daria cabo dele. Na sequência, os experimentos científicos que Minos fazia também estavam sob a sua mira e, de certa forma, sob o seu controle, visto que o idealismo de seu filho o impedia de ver que a intenção das pesquisas não era, exatamente, erradicar males da humanidade. Os homens que apareciam na tela eram provas disso. Eram militares dispostos a tudo para vencer a guerra contra o terrorismo, até mesmo desencadear surtos de doenças em populações, as quais não os interessavam, nem as viam como seres merecedores do dom da vida. E ele, Hades, teria a sua recompensa em bilhões de dólares e expandiria seu domínio com a maestria costumaz, acrescentando ligações importantes no governo americano e quem sabe, fora dele.
Um dos militares, chamado general Cameron o havia interpelado para saber dos resultados e agora o fitava com intensidade.
— Então, gostaríamos de saber como estão os experimentos? Quais os avanços nas amostras que enviamos?
— Acredito que logo teremos alguns resultados. Porém, os senhores sabem que este tipo de “trabalho” não pode ser apressado. As experiências em Hornos seguem um rigoroso cronograma.
— Sim, nós avaliamos isso. Mas, não temos todo o tempo do mundo e precisamos de uma prova do nosso investimento.
— E os senhores a terão. Ainda este mês farei novo contato. – disse Hades.
Os militares assentiram e a videoconferência foi concluída.
Hades inspirou fundo e pensou no resultado de tudo aquilo. Dali a algum tempo, não seria surpresa, se um grave surto de Ebola atingisse a região dominada atualmente pelo Exército Islâmico, seguida por uma intervenção militar pelos países da coalizão liderada pelos EUA, não só para dar combate aos terroristas e destruí-los, como também utilizando o pretexto humanitário de conter a doença. Vacinas e terapias desenvolvidas por um até então pouco conhecido laboratório americano com ligações com o Governo dos EUA, seria oferecido à população e o tal laboratório desconhecido e invisível ganharia bilhões de dólares vendendo medicamentos para cura e prevenção da doença no mundo inteiro. Tudo estava saindo como ele desejava. Minos lhe seria útil, afinal! Pensou ele, quando a secretária entrou com uma expressão séria e grave.
— Senhor, tem dois homens desejando falar-lhe.
Com o cenho franzido, Hades sentiu algo no ar.
— Eles têm hora marcada?
— Não, senhor.
— Então diga que marquem, não posso atendê-los agora.
— Pois creio que o senhor não tem escolha. O senhor está preso! – disse uma voz grave, assim que a porta do escritório foi aberta.
— Como? Mas que absurdo é esse?
Dohko entrou, acompanhado de Aioros.
— Temos provas que o senhor está financiando experimentos ilegais na prisão de Hornos.
— Isso é ridículo!
— Não, não é. Acabamos de captar a sua videoconferência, senhor Hades. Queria nos acompanhar. – disse Aioros.
Um olhar rápido para a secretária fez Hades descobrir que, afinal, não era imune à traição.
0000****0000****0000
Minos estava preocupado. Cada passo dado o fazia temer o que encontraria pela frente. Havia terminado com a rebelião, mas seus instintos estavam em alerta e com aqueles dois agentes em sua companhia, qualquer deslize seria fatal.
Antes de adentrar as galerias, ele acionou um dispositivo de comunicação com os guardas da ala.
— Guardas, estou acompanhado de dois agentes para uma visita.
Silêncio.
Havia algo errado. Ele podia sentir.
— Algum problema?- perguntou Camus, sem transparecer na voz que também intuía que algo estava acontecendo.
— Esperem um instante. – respondeu Minos entrando em uma pequena cabine com um telefone e painel. Ele apertou algumas teclas e esperou. O som de um bip se fez ouvir e então, ele disse, apenas uma palavra em tom baixo.
Aiolia olhou para Camus, ambos atentos e preparados. Radamanthys permaneceu em sua pose indiferente, embora conhecesse seu irmão e tivesse percebido que ele estava tenso.
Quando Minos colocou o fone no gancho, sua expressão estava mais séria que antes. Camus e Aiolia perceberam o aumento da tensão.
— Coloque-nos a par do que está acontecendo, diretor. Não é prudente esconder nada, neste momento. – falou Camus.
Minos respirou fundo.
— Problemas na ala B, estou enviando guardas armados. Por favor, peço que voltem à sala de espera.
Camus o encarou friamente.
— E eu peço que nos acompanhe, diretor. Temos que esclarecer muitas coisas.
Radamanthys posicionou-se ao lado de Minos.
— Minos é o diretor da prisão e deve estar em contato direto com seus subordinados para manter a ordem. Sugiro que nós três voltemos e aguardemos o saneamento dos problemas. – disse o juiz.
Aiolia elevou uma sobrancelha.
— Somos agentes federais e temos autoridade reconhecida. Quanto a sua sugestão, juiz, aceite a nossa e volte para o seu companheiro de viagem. Eu e Camus temos muito a conversar com o diretor Minos.
A expressão de Radamanthys se manteve, mesmo sentindo vontade de calar a boca daquele agente desde que haviam se encontrado.
— Ninguém lhes está tirando a autoridade, agente Aiolia. Porém, raciocine comigo, Minos é perfeitamente apto a resolver, mais rápido, problemas que surjam aqui, não é mesmo? – falou o juiz.
— Creio que tem toda a razão, juiz. – disse Camus. – Mas, também há de convir que estes problemas de última hora requeiram uma ação rápida e creio que podemos ajudar.
Minos encarou-os. O Santuário era o seu projeto e não permitiria que ele se tornasse uma ameaça, ao invés da solução que imaginara, quando tomara a frente da ideia revolucionária.
— Entendo a posição dos senhores, mas esta prisão está sob a minha supervisão e responsabilidade.
— Sinto muito, senhor Minos, mas não temos tempo de ficar discutindo poderes aqui. Ou o senhor nos conta o que está acontecendo ou acionaremos a intervenção total do FBI. – disse Camus, para a surpresa do diretor.
0000****0000****0000
Enquanto Asmita e Albafica começavam a limpeza naquela parte do laboratório, encaminhando os corpos para uma câmara fria, Dégel aplicou uma injeção no braço de Kardia e, em seguida, conduziu-o até a sala onde havia uma câmara de formato cilíndrico, construído de aço pressurizado para a administração de oxigênio puro.
— Entre. – disse o médico.
Kardia franziu o cenho.
— O que é isso?
— É uma câmara hiperbárica.
— Parece uma cela estilo solitária. — falou o grego.
— A câmara hiperbárica aumenta a quantidade de oxigênio transportada pelo sangue, na ordem de vinte vezes. Nestas condições, o oxigênio produzirá uma série de efeitos terapêuticos como neutralizar substâncias tóxicas e potencializar a ação de alguns antibióticos. Estou tentando minimizar o efeito da sua exposição ao vírus.
Kardia sorriu exibindo os dentes brancos e aquele olhar que fazia Dégel experimentar um calor no corpo inteiro.
— Esta câmara dá pra nós dois... Não quer ficar um tempinho lá dentro? A gente pode até transar gostoso... – falou o grego se aproximando do médico.
— Você não presta Kardia. Estamos em uma situação extremamente crítica e delicada, enquanto você só pensa nisso. – ralhou Dégel.
O grego suspirou.
— A vida é curta. Cada minuto ao seu lado é único pra mim.
Os olhos de Dégel fixaram-se no rosto viril do amado. Como era possível um homem ser tão antagônico e, ainda assim, demonstrar amor de forma tão simples e bela?
— Você é tão...
— Tão?
— Você mesmo! – disse o médico tomando o rosto do grego nas mãos e beijando-o com paixão.
Dégel não era dado a arroubos apaixonados, não quando o dever falava mais alto. No entanto, Kardia conseguia transformá-lo em outro homem, o homem que agora enroscava sua língua na dele deixando a ambos sem fôlego e excitados.
— Agora entre... – falou junto aos lábios do grego.
Kardia obedeceu, os olhos brilhando com a excitação, mas também sombrios por sentir que havia muita coisa acontecendo e que Dégel ainda corria perigo naquele lugar.
— Dégel, eu sei que você se garante em muita coisa. Mas, acho que as coisas aqui estão saindo do controle.
O médico tocou o corpo do grego com delicadeza. Seus dedos frios acariciando a pele firme...
— Você está aqui e só isso já me traz muita força.
Mordendo o lábio, Kardia suspirou e agarrou forte a mão de Dégel.
— Eu sempre estarei com você. Haja o que houver.
Quando o médico fechou a câmara, tornou a olhar na direção dos colegas e fechou os olhos, torcendo para que o perigo não se alastrasse para fora dali...
0000****0000****0000
Ao contrário da ala B, a ala A parecia um oásis, tranquila e silenciosa. Alguns presos liam, outros aproveitavam o sol pálido e a brisa fria. Kanon se sentia inquieto, enquanto Morfeus conversava baixo com Sorento. Depois de alguns minutos, Sorento tocou, discretamente, o braço de Kanon.
— Venha comigo. – disse ele, num tom baixo.
Kanon obedeceu, caminhando ao lado do companheiro que olhava para o céu nublado e claro.
— Está acontecendo algo na ala B.
— Como sabe?
— Morfeus esteve por lá e depois se socou aqui e não quis mais voltar. Conversei com ele e ele me pareceu um tanto receoso.
— O que você acha que aconteceu para ele ficar assim?
Sorento suspirou e, em seguida, mordeu o lábio inferior, ato que fez Kanon sentir uma fisgada no baixo-ventre.
— Correm boatos que o pessoal da ala B participam de experiências.
— Que tipo de experiências?
— Do tipo que precisa de cobaias vivas.
Kanon franziu o cenho.
— Você já fez parte de algum destes experimentos?
— Eu? Claro que não! Eu não sou um cientista.
— Então o que faz nesta ala? Pelo que eu percebi, a maioria aqui tem ligações com a ciência ou medicina. Você mesmo me disse que, se eu quisesse participar de algum projeto era só esperar que alguém faria contato comigo.
— Esta ala sempre contou com prisioneiros cujo histórico não seja o mesmo dos criminosos das ruas. O diretor sempre teve projetos para nós, mas isso não quer dizer que todos eles sejam científicos. Eu sou músico e ele já me procurou para organizar um sarau.
— Que crime hediondo você cometeu para vir para cá? – perguntou Kanon quase a queima-roupa.
Sorento empalideceu. A lembrança do que desejava esquecer fazendo-o sentir a velha dor em suas entranhas. Perdera um futuro promissor e um pouco da sua humanidade, porém, executara a sua vingança com a mesma maestria com que tocava seu instrumento musical.
— Matei um maestro. Um dos mais famosos da Filarmônica de Berlim. – respondeu, secamente.
Kanon percebeu o sofrimento no belo rosto.
— Desculpe, eu... não devia ter perguntado.
— Tudo bem, não vamos mais falar sobre isso.
Num ato solidário, Kanon tocou o ombro de Sorento e, mesmo que o assunto tivesse sido encerrado, o jovem músico recordou a cena que o marcaria para sempre...
Deutsche Opernhaus, a casa da ópera alemã em Berlim. Sua apresentação tinha sido um sucesso. Os aplausos não cessavam e todos o aplaudiam em pé. Sentia-se feliz e realizado, nada se comparava ao brilho de adoração que via nos rostos da plateia. E, em sua ingenuidade, ou talvez, orgulho excessivo, não percebeu o olhar predatório do maestro Ludwing Von Bülow; achou que era, apenas, admiração. Quando tudo terminou, ele o convidou para comemorarem o sucesso. Champanhe, caviar, o melhor restaurante de Berlim... E depois de tudo, um convite para ver a música que ele havia composto, especialmente, para a sua flauta. “Vamos até o meu hotel. Quero que a veja e a toque para mim!” dissera ele.
Jamais deveria ter ido. Jamais deveria ter confiado. Mas, como prever que alguém em quem você confia faria algo tão sórdido e cruel?E como lidar com o fato que, ainda nos dias atuais, ser estuprado traz tanta vergonha e culpa que, de vítima, você passe a ser considerado o culpado de tal ato?
Ainda estava vívido em sua mente o momento em que o maestro lhe estendera a taça com champanhe:
— Ao melhor flautista de todos os tempos!
Um sorriso, mais champanhe, a mão aliciante tocando-o de forma íntima...
— Por favor, maestro. Eu não...
As palavras ficaram presas em sua garganta, uma bofetada o fez cair sobre o divã estilo Luis XV e tudo ao redor ficou desfocado e obscuro.
Usando seu corpo avantajado, Von Bülow o subjugara de modo cruel, machucando-o e violentando-o de diversas formas. Não adiantou gritar, implorar que parasse. O homem cedia lugar à besta selvagem e não havia nada que o parasse...
“Eu sempre desejei fazer isso, meu putinho...”dizia o maestro, enquanto estocava fundo e ofegava, chegando ao orgasmo. A frase dita, após sair de dentro do seu corpo ensanguentado foi a última coisa que Von Bülow fez em sua maldita vida. Perdera a conta de quantas vezes o golpeara com a pequena escultura em bronze que, em meio ao desespero, agarrara com o resto de suas forças.
Sentiu a mão encharcar-se de sangue já no primeiro golpe e, mesmo assim, continuou batendo até a cabeça do maestro virar uma massa disforme de carne, ossos e sangue. Quando o maestro caiu, continuou a ciranda macabra até que não houvesse um único som vindo daquele corpo. Estava fora de si, totalmente transtornado...
O preço pago pela morte do maestro foi alto, sua vida glamorosa terminara em Hornos, vulgarmente conhecida como Santuário dos Condenados.
— Sorento, eu...
— Por favor, não diga nada. – falou o jovem.
Kanon sabia que estava diante de um criminoso, que tudo aquilo que estava vivenciando fazia parte de um disfarce. Porém, diante da dor visível no belo rosto, algo dentro de si doeu também. Esquecendo que não devia existir intimidade entre os detentos, tomou os lábios de Sorento nos seus com delicadeza, mas também desejo.
Confuso, Sorento se afastou. Fazia muito tempo que não se sentia daquele jeito. Mas, não devia e nem podia confiar! Era o que uma vozinha no fundo da sua mente sempre gritava quando alguém se interessava por ele.
— N-Não se esqueça que isso não é permitido aqui. – disse se sentindo trêmulo.
— Perdão, mas... não pude me conter. – falou Kanon.
Sorento sorriu, um tanto sem graça, e se afastou sem olhar para trás.
Morfeus, que tinha permanecido afastado, tratou de se aproximar de Kanon ao vê-lo sozinho.
— Cuidado, novato. A beleza pode ser mortal.
—Kanon olhou-o de cima a baixo.
— Ninguém aqui é inocente. Portanto, seu aviso se torna desnecessário.
O médico sustentou aquele olhar.
— Tem razão, mas mesmo assim, tome cuidado. Nada é o que parece, aqui em Hornos.
— Começando por você mesmo, não é? – devolveu Kanon com um tom sarcástico e dando às costas para o médico.
0000****0000****0000
— E então, diretor Minos, o que vai ser? – perguntou Camus encarando o diretor. – Vai nos colocar a verdadeira situação ou vamos ter que chamar a cavalaria?
Fale com o autor