Notas iniciais
E aqui está a última parte da trilogia inicial! o/ Espero que tenham gostado dessa introdução ao meu universo~

Si Woo correu os olhos pela casa, e por um momento, sentiu uma sensação estranha. Depois de alguns instantes, se deu conta do motivo; o lugar era bastante… bem, normal.

Não era particularmente espaçoso, mas fazia bom uso de seu espaço. Logo junto ao corredor inicial havia uma escadaria em L à esquerda que dava para o andar de cima, a entrada para a sala de estar à direita e, seguindo reto, eventualmente chegava-se à cozinha. Todos os cômodos tinham um estilo de casa antiga renovada, com cores não muito claras nos móveis e piso, mas a cozinha em particular era bem iluminada, com várias janelas permitindo a entrada de luz natural, e a residência em geral não era ruim. Si Woo já visitara dezenas de casas como aquelas em sua vida, e possivelmente poucas tão bem cuidadas; livros bem-organizados nas estantes pequenas, cadernos empilhados em cantos estratégicos dos móveis para servirem como uma espécie de decoração orgânica, pinturas variadas de cores vivas penduradas nos lugares onde as paredes de outra forma ficariam vazias demais, e se procurasse um pouco mais podia ver alguns exemplos de interesses pessoais como um novelo de lã com agulhas de tricô no canto do sofá ou miniaturas de RPG sobre o móvel sob a televisão.

Ele não sabia ao certo como imaginava que seria a casa de um demônio, mas aquilo certamente não se encaixava na sua visão.

— Leo está no quarto de hóspedes — Kamaria disse, se abaixando para pegar uma leiteira para esquentar a água. — O processo foi particularmente simples; ele deve acordar bem e com todas as memórias em pouco tempo. Tem preferência de marca?

Si Woo sacudiu a cabeça educadamente. Kamaria foi até o armário e pegou dois sachês de uma das caixinhas.

— O que é esse… “processo” de que fala? Tem a ver com a nova aparência do… garoto?

Mesmo com o que Nick lhe dissera sobre a cidade e sabendo que Kamaria provavelmente também era uma, Si Woo não estava acostumado a dizer a palavra “demônio” em voz alta. Até mesmo seus clientes a evitavam, preferindo termos como “a coisa” ou “aquilo”. Talvez temessem não conseguirem ser levados a sério usando uma palavra que parecia diretamente saída de um filme ou livro. Tinha lidado com muitos religiosos em sua vida, mas mesmo eles tinham dificuldade de acreditar quando cruzavam com uma das criaturas mencionadas em sua fé.

Não que Si Woo acreditasse que os demônios fossem prova da existência de um Deus ou algo semelhante, mas eles não deixavam de ser inequivocavelmente semelhantes às figuras retratadas nas histórias. Si Woo já perdera mais que algumas noites de sono no passado pensando no assunto.

— Nada relacionado a dominar o mundo e torturar pobres almas indefesas, prometo — Kamaria brincou, como se lesse sua mente. — Bom, não a segunda parte, pelo menos. Não posso prometer nada quanto à primeira. Embora eu ache que apocalipses não são bem o meu estilo estético… desculpe, acho que me empolguei.

Kamaria não parecia realmente preocupada em ter falado demais, e estava de pé ao lado do fogão esperando a água ferver com um sorriso distraído no rosto.

— O procedimento, né? Ele não é nada demais, realmente. — ela disse. — A maioria de nós tem dificuldade de encontrar um corpo quando chega a esse mundo, então acabamos nos juntando a hospedeiros em caráter temporário, mas para quem não tem experiência, pode ser difícil fazer um arranjo permanente. Criar uma manifestação física de você pode demandar muita energia, mas sem uma âncora aqui nós estamos fadados a nos dissiparmos de volta para nosso mundo, e normalmente não demora muito. É por isso que existem tantos casos de possessões por aí, se você souber onde procurar.

Si Woo assentiu, assimilando a informação.

— Então, ele e o garoto Leo…

— Sim, basicamente. Eu conheço bem as histórias sobre nós, mas apesar do que elas dizem, ser aceitos voluntariamente por nossos hospedeiros e formar laços de amizade é muito mais eficiente do que roubar um corpo. Nós podemos silenciar nossos hospedeiros por um tempo, como o pobre garoto acabou fazendo, mas isso pode ser muito cansativo e estressante depois dos primeiros dias, então você basicamente acaba tendo que conviver com uma voz muito irritante na sua cabeça para o resto da eternidade. Nunca tive essa experiência para saber, mas alguns conhecidos tiveram e eles definitivamente não recomendam.

Enquanto parte da mente de Si Woo sentia-se ainda mais estranha por ouvir uma demônio falando com tanta naturalidade sobre coisas como possessões, ele se surpreendeu ao perceber que os argumentos que ela lhe apresentava eram bastante válidos.

Finalmente, a água do chá ferveu, e Kamaria encheu duas canecas para eles e colocou os sachês de chá. Ela puxou um bando para si ao lado de Si Woo e sentou-se.

— Mas como o garoto tinha um corpo quando saiu? — Si Woo perguntou. — Se fazer manifestações físicas é tão difícil… — mais uma vez, Si Woo surpreendeu-se com as palavras que saíam de sua boca. Que conversa era aquela que estavam tendo!

— Bastante difícil, sim, e potencialmente difícil o bastante para te mandar direto de volta pra casa — Kamaria assentiu com a cabeça, enfática. — Mas não impossível. Menos ainda com um bom instrutor, e menos ao quadrado aqui em Santa Laura. A cidade possui energia mais que o suficiente para pegarmos um pouco emprestado, e eu aprendi uma ou duas técnicas em minha existência mortal aqui. Só lhe dei um empurrãozinho e algumas dicas.

Então, Si Woo tinha deduzido corretamente. A’garath agora tinha um corpo físico. Provavelmente criado por ele mesmo a seu gosto, a julgar pelos comentários das garotas mais cedo.

Si Woo mexeu seu chá com a colherzinha.

— Essa forma física… ela dura pra sempre? Ou você tem que recriá-la de tempos em tempos?

— Hmm. Essa pergunta já é um pouco mais complicada. Não posso dizer que respondo com cem por cento de experiência — Kamaria admitiu. — A impressão que tenho é que a forma não se desfaz por padrão, mas pode acontecer em alguns casos. Se você usar energia demais, se machucar demais, ou estiver em uma área com uma falta de energia particularmente significante. Nesses casos o ideal é criar um novo corpo ou achar um novo hospedeiro o mais rápido possível. Sobretudo nesse último caso; é bem fácil perder o controle de si mesmo quando o ambiente ao seu redor está tentando te assimilar, e daí para aparecer de volta em casa são dois pulos.

Si Woo assentiu devagar novamente.

Então, algo lhe voltou à mente.

— Mas se o procedimento foi simples, por que o garoto humano está… — desacordado? De cama? Si Woo não sabia. Tampouco sabia por que começava a se referir a eles como “garoto” e “garoto humano” em vez do contrário.

— É só um efeito colateral menor. Ele teve o corpo possuído e a mente silenciada por dias. Deve acordar em breve, e não terá nenhum tipo de sequela. — Kamaria tranquilizou-o.

As palavras de fato tranquilizaram Si Woo. Ele conhecia Kamaria havia menos de uma hora, mas acreditava no que ela dizia. Suas palavras e gestos soavam sinceros, e as garotas humanas confiavam nela sabendo do que era.

Si Woo tomou um gole do chá. Não era ruim. Na verdade, era bem decente. Ele apreciou o gosto e o aroma por um momento, e então percebeu que Kamaria o encarava.

— O que foi? — perguntou.

Kamaria encarou-o por mais um momento antes de responder.

— ...Não seja muito duro com o garoto, sim? — ela inclinou-se suavemente em sua direção, debruçando os braços na mesa. Sua voz também era suave, compassiva. — Ele cometeu um erro, mas é bem jovem, até para os nossos padrões, e inexperiente de acordo. Ele chegou a um mundo desconhecido sem saber o que fazer e se assustou com uma situação desconhecida. Ele não é um mal garoto, e não fez nada com más intenções.

Si Woo encarou-a de volta por um longo minuto, em silêncio. O olhar de Kamaria não era agressivo, mas se sustentava com determinação. Finalmente, ele suspirou.

— Eu sei. Eu… percebi isso. — durante a sorveteria. Depois. No começo tinha sido difícil de processar, mas no fundo ele sabia que só fora tão difícil porque a discrepância entre sua expectativa e realidade era tão clara. — Só estou aqui para levar o garoto humano de volta para casa.

Kamaria assentiu com a cabeça, agradecida.

— Bom, essa hora não há de demorar muito. Devíamos ir para o quarto assim que terminarmos aqui — ela disse.

Si Woo concordou com a cabeça, e tomou mais um gole de chá.

.

Como já esperava, Melissa e Maria não estavam na despedida. Ele não as vira mais depois de se separarem na frente da casa de Kamaria.

Nicole, no entanto, fizera questão de estar ali. Kamaria já tinha retornado à sua casa — dissera que Leo provavelmente se sentiria incomodado com a presença de uma desconhecida da casa na qual estivera desacordado por quase uma hora -, então Nick e Si Woo eram os únicos próximos a Leo no momento.

A’garath estava de pé um pouco mais longe. A tensão entre os dois garotos era palpável, e Si Woo percebia sua intensidade em cada olhar que trocavam. Trocavam, pois os dois evitavam olhar nos olhos um do outro.

— Se sentir qualquer coisa estranha, você tem meu telefone — Nick disse para Leo. De fato, ela tinha lhe dado um papel com seu número antes de chegarem ali. — Mas provavelmente não vai acontecer nada, então não se preocupe.

Leo assentiu distraidamente. Não parecia prestar total atenção ao que diziam, sua mente ainda pairando em outro lugar. Parecera meio desconectado desde que acordara, mas Kamaria garantira que era só um efeito temporário e passaria antes que chegasse em casa.

Quando sentiu que Nick tinha terminado de dar seus avisos, Si Woo gesticulou com a cabeça na direção de seu carro.

— Pronto? — perguntou.

Mais uma vez, Leo demorou um momento para reagir, e então assentiu.

Si Woo destrancou as portas do veículo com a chave e sentou no banco do motorista, prontamente colocando o cinto de segurança. Leo entrou logo depois no banco do passageiro e fez o mesmo, pensativo.

Do lado de fora, do outro lado da rua, Nick tinha se aproximado de A’garath, e os dois observavam-nos, ela com um ar de despedida alegre, ele com a mesma tensão silenciosa de Leo.

Si Woo olhou os dois por um longo momento, e então deslizou o olhar de volta para Leo, onde permaneceu por outro longo momento.

Tinha sido contratado para encontrar o garoto e levá-lo de volta. As sutilezas do trabalho não eram sua responsabilidade. Ainda assim, Si Woo se viu falando.

— Você tem certeza disso? — perguntou a Leo.

Leo ergueu os olhos para ele, sem entender.

— Não quer se despedir? — Si Woo reformulou a pergunta. — Vocês eram amigos, não?

Ele sabia tão bem quanto qualquer outro que a situação não era tão simples, mas não sabia outra forma de expressá-la. Leo se sentia traído por ter o corpo roubado, e A’garath se sentia culpado por roubá-lo. Só porque um erro fora cometido por acidente, isso não o tornava menos um erro.

E Leo não estaria errado em nunca mais querer falar com A’garath. Mas, de alguma forma, Si Woo sentia que esse não era o caso.

O garoto olhou novamente para A’garath. Sua expressão imediatamente passou da distração pensativa à mágoa, clara e simples.

— ...Tenho certeza. — Leo disse, por fim.

Si Woo encarou-o em silêncio por um momento.

— Vamos logo — Leo disse então, em um tom de resmungo. Si Woo suspirou. Se o garoto não queria fazer nada a respeito, ele não estava na posição de obrigá-lo.

Ele girou a chave, e o motor do carro começou a roncar sob eles. Si Woo conferiu a marcha e começou a dar ré para manobrar.

Quando já estava bem-posicionado, Nick lançou-lhes um último aceno de despedida, ao que Si Woo retribuiu. A’garath e Leo permaneceram em silêncio.

Finalmente, começou a andar. Aquela cidade tinha quase todos os quarteirões quadrados e não muito grandes, então logo chegaram à esquina e Si Woo diminuiu a velocidade para ver se não vinham carros de nenhum dos dois lados. Pacientemente esperou passar o que vinha vindo da direita, e tornou a apertar o acelerador…

— Espere!

Si Woo tinha reflexos rápidos e não havia ninguém atrás deles, então ele conseguiu evitar mover o carro para a posição potencialmente problemática bem no caminho de duas ruas quando Leo subitamente tirou o sinto de segurança e abriu a porta do passageiro.

Percebendo que ainda não vinha ninguém atrás deles, Si Woo abriu a própria porta e ficou de pé ao lado do veículo.

Leo correu até onde A’garath respondia a um comentário de Nick, e os olhos do garoto demônio se arregalaram logo antes de ser envolvido no abraço forte.

— Eu não consigo ficar bravo com você! — Leo exclamou, enterrando o rosto no ombro do amigo. — Eu sei que devia... Você roubou meu corpo e fugiu da minha casa e preocupou os meus pais, mas… mas ainda assim, eu não consigo ficar bravo com você!

Pego de surpresa, A’garath pareceu ficar em choque por um momento. Então seu rosto se retorceu de um jeito que parecia prestes a chorar.

— Eu sinto muito, Leo… eu não devia ter feito aquilo — disse, com a voz embargada. — Eu prometi que não ia-

— Eu sei — Leo interrompeu-o, apertando-o mais em seu abraço. — Você não fez por querer. Nunca me machucaria de propósito. Você é o melhor amigo que eu tive desde que me entendo por gente!

Isso fez os olhos de A’garath lacrimejarem. Os dois continuaram abraçados por alguns minutos, nem Nick nem Si Woo ousando interromper.

Finalmente, eles se separaram e se olharam nos olhos. Na forma atual, A’garath era ligeiramente mais alto que Leo, e este tinha que erguer a cabeça para olhá-lo.

— Você tem mesmo que ficar aqui na cidade? — ele perguntou, esperançoso. — Eu podia falar com meus pais, dizer que você é um colega de escola…

— A sua mãe deve estar muito brava comigo — A’garath disse, com um sorriso triste. — Ela entra em pânico quando você se atrasa quinze minutos pra chegar em casa… além do mais, tem alguma coisa nessa cidade que eu quero entender. Tem pessoas como eu — ele gesticulou fracamente na direção geral onde lembrava ficar a casa de Kamaria. — Eu vivi com você por semanas, mas ainda sei muito pouco sobre viver como você… e eu quero aprender isso. Não causar mais problemas.

Leo ficou um pouco cabisbaixo.

— Entendo — disse, por fim. — Mas vamos manter contato, né?

— Com certeza — A’garath apressou-se em responder, talvez até um pouco demais.

Nesse momento, Nick levantou a mão de sua posição um pouco atrás de A’garath. Leo notou e olhou para ela, e A’garath seguiu seu olhar.

— Se quiser, você pode ficar na minha casa por um tempo — ela disse para A’garath. — Vai ser um pouco caro arranjar um celular para você assim de repente, mas tenho uma boa internet e você pode usar meu computador.

O rosto de A’garath se iluminou.

— Mesmo? Não vou incomodar?

— Nem um pouco! — Nick garantiu-o. — Adoro visitas. Você será uma companhia muito bem-vinda!

Leo voltou o olhar para A’garath e sorriu.

— Perfeito! Assim poderemos nos falar sempre — ele disse. — Você sabe todas as minhas redes sociais, então é só me adicionar!

A’garath assentiu enfaticamente.

— Pode deixar! Vou fazer isso — disse.

Os dois se olharam por mais um minuto, ou dois, ou três. Finalmente, Leo começou a andar novamente na direção do carro.

— Bom… a gente se fala mais tarde, então! — disse, sua voz ficando gradualmente mais alta enquanto se afastava. — E venha visitar um dia!

— Pode deixar! — A’garath respondeu à altura.

Nick acenou novamente para Leo e Si Woo, e dessa vez A’garath juntou-se a ela. Si Woo e Leo responderam o gesto.

— Pronto. Podemos ir — Leo disse então, se endireitando no banco e colocando de volta o cinto. — Desculpe pelo atraso…

— Não foi nada — Si Woo disse com sinceridade, e tornou a ligar o carro.

Em poucos instantes, as duas figuras de pé ao longe desapareceram do reflexo do retrovisor à distância, e quando o carro logo virou na próxima esquina, também ele sumiu da visão dos pedestres que o seguiam com os olhos — uma com um entusiasmo familiar como um velho amigo, e o outro já saudoso com a separação.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.