Notas iniciais
Eu não revisei demais essa fic porque toda vez que fazia acabava recomeçando, então me perdoem se houver erros de digitação ou fraseamento~ não hesitem em me corrigir se notarem qualquer coisa! Espero que gostem dessa introdução ao meu universo ♥

O dia estava quente.

O sol brilhava alto no céu, e a árvore jovem e a brisa suave pouco faziam para aliviar a sensação. O ar abafado soprava em seu rosto e ele sentia o suor se acumulando sob a camisa social e a calça escura que vestia, e que, pela primeira vez possivelmente em semanas, começava a se arrepender de ter vestido naquela manhã.

E como se não bastasse, havia algo estranho no ar. Algo que o inquietava, o que não era de seu feitio.

Apesar disso, o parque gramado vibrava com vida. Crianças corriam e brincavam, e uma menina e um menino corriam alegremente ao lado de um labrador que até sentado seria mais alto que elas. O senhor franzino e grisalho que parecia ser o dono do animal sentava-se à sombra de uma das outras árvores esparsas, divertindo-se com a cena, e jovens e adultos caminhavam e conversavam entre si aonde quer que Si Woo olhasse.

Ele olhou ao redor mais uma vez, passando os olhos pelos rostos das pessoas. Depois de estar procurando por algum tempo sem sucesso, ele tentava bolar novos planos de ação em sua mente, mas nenhum lhe ocorria. Normalmente, seu sentido era suficiente para encontrar aqueles que procurava, mas hoje por algum motivo ele não estava sendo de nenhuma ajuda. Era como se algo o estivesse entorpecendo, mas o quê?

Ele não sabia se queria descobrir.

Em meio a esses pensamentos, sua mão deslizou para o bolso de trás da calça e puxou um pedaço de papel dobrado. Desdobrando-o à sua frente, ele passou os olhos novamente pela fotografia, embora a imagem ainda estivesse fresca em sua mente.

O garoto na imagem não devia ter mais que dezesseis anos. Seus cabelos eram castanho-claros e rebeldes, e tinha olhos azuis brilhantes e cheios de vida.

Respirando fundo, Si Woo dobrou a foto novamente.

— Com licença?

Surpreso, ele virou-se. Ao seu lado, apenas parcialmente na sombra da árvore, uma jovem o olhava. Ela nem alcançava a altura de seu ombro, e ele tinha que inclinar a cabeça para olhá-la de volta.

— Sim? — ele respondeu. — Posso ajudá-la em alguma coisa?

— Na verdade, eu ia perguntar a mesma coisa — a garota replicou, com um sorriso um pouco incerto. — Você está procurando alguma coisa? Eu sou aqui da cidade, talvez possa te ajudar. Se for algum lugar pra beber alguma coisa, tem um bebedouro público logo ali, seguindo na direção do prédio…

Si Woo encarou-a por um momento, um pouco confuso. Percebendo isso, a garota falou de novo.

— Ah, é que eu já me perdi muito na vida, então achei que tinha reconhecido… bom, deixa pra lá. De qualquer forma, está bem quente, então espero que pelo menos a dica sobre o bebedouro possa te ajudar em algo! — ela disse, ajeitando o cabelo atrás da orelha em um gesto que tinha um traço sutil de nervosismo.

Seus cabelos pareciam ser castanho-claros, devido à cor que ele via na raiz, mas o resto dele puxava mais para um dourado e mal alcançava a altura de seu ombro. Seus olhos eram escuros, e naquele momento brilhavam bastante ao refletir a luz forte do sol ao seu redor.

Si Woo pensou por um momento.

— Na verdade, estou procurando uma pessoa — ele disse, finalmente, e estendeu-lhe o papel. — Você já viu esse garoto por aqui?

A garota desdobrou-o e olhou-o por um longo momento.

— Não, não que eu me lembre — ela respondeu por fim. — E acho que me lembraria, com um rosto assim. Mas posso ficar de olho — ela devolveu-o o papel, que Si Woo prontamente guardou novamente no bolso. — É seu sobrinho ou algo assim?

— ...Não exatamente. — Si Woo respondeu, evasivo.

A garota olhou-o com um pouco de desconfiança por um momento. Si Woo devolveu o olhar, sem saber o que se passava em sua mente, mas logo ela pareceu chegar a uma conclusão e a desconfiança dissipou-se.

— Bem, qualquer que seja o motivo de está-lo procurando, tenho certeza de que logo vai se resolver. — ela disse, dando de ombros. Puxou um celular que parecia estar enfiado na barra da calça e desbloqueou-o. — Vou pedir aos meus amigos para ficarem de olho também. Onde posso encontrar você se conseguirmos?

Si Woo não tinha planejado ficar por mais de um dia, então não estava estabelecido em nenhum lugar. Talvez seu carro ficasse estacionado, se resolvesse fazer a busca a pé, mas não era certeza. Ele tentou pensar em algum ponto de referência.

Percebendo a dificuldade, a garota estendeu-lhe seu aparelho.

— Então, me passe seu telefone. Assim posso mandar mensagem qualquer coisa — ela sugeriu.

Si Woo encarou o celular. Tinha se deixado levar pela prontidão da garota em ajudar, mas será que essa era mesmo uma boa ideia? Ele não gostava de envolver pessoas comuns em suas tarefas, mesmo que só nas caçadas. Nunca se sabia o que podia acontecer.

Depois de um momento de hesitação, ele estendeu o celular de volta pra garota.

— Pensando bem, acho que não há necessidade. — ele disse. — Não é nada urgente, e não quero incomodar.

A garota inclinou a cabeça para o lado, sem pegá-lo.

— Tem certeza? Santa Laura pode ser uma cidade pequena, mas ainda tem bastante gente. Se você não tem uma forma de contatá-lo, pode demorar um pouco pra conseguir achá-lo sozinho.

Si Woo hesitou de novo. Não poder contar com seu sentido realmente era uma grande desvantagem, e era fato que as chances de esbarrar com aquilo por acidente mesmo em uma cidade pequena eram mínimas. Ele nem sabia onde começar a procurar, e aquilo provavelmente estaria em constante movimento, o que complicava as coisas ainda mais.

Qual fora a última vez em que uma de suas tarefas tinha acabado em um incidente? Ele tentou se lembrar, mas nenhuma situação em particular lhe veio à mente; ele costumava ser bastante cuidadoso, e tinha décadas de experiência.

A garota ainda o observava.

Finalmente, ele tornou a retrair o braço. A tela do aparelho já estava no menu de adicionar contato. Ele hesitou no que colocar no espaço do nome e acabou digitando simplesmente “pessoa do parque”. Ela certamente deletaria o contato em breve de qualquer forma.

Assim que terminou, estendeu novamente o celular para a garota, que dessa vez recebeu-o de imediato. Ela passou os olhos pela tela, salvou os dados e tornou a guardá-lo na barra da legging.

— Bem, acho que é isso. Assim que conseguir alguma informação, eu te aviso! — ela disse, sorrindo. — Boa sorte na sua busca!

— Obrigado — Si Woo respondeu simplesmente.

Com isso, a garota virou-se e começou a se afastar na direção dos limites do parque. Porém, depois de alguns passos, ela parou de repente, como se lembrando-se de algo, e virou-se.

— Ah, é! Talvez você queira ir procurar na praça depois — ela disse. — A maioria das pessoas que chega aqui passa por lá em algum momento. É meio que um ponto turístico… de certa forma — ela sorri. — Bom, vou indo! Boa sorte de novo!

E dessa vez, ela não tornou a se virar.

.

A praça estava muito mais fresca que o parque, provavelmente por boa parte de seu terreno estar na sombra das árvores bem mais abundantes.

No centro do lugar, uma fonte de pedra branca era rodeada por quatro brancos do mesmo material. Caminhos de pedra se estendiam dali até os limites externos da praça por sobre o gramado, mas era possível ver trilhas na terra onde as pessoas preferiam ignorá-los e em vez disso optavam por caminharem ou sentarem-se na grama nua.

O lugar estava quase tão movimentado quanto o parque, mas isso não era a única coisa que fazia Si Woo pensar que seguir o conselho da garota tinha sido uma decisão acertada. O que quer que fosse a estranha energia que ele tinha sentido quando chegara à cidade, ela era ainda mais forte ali, e se havia algo que ele sabia com certeza era que aquele tipo de concentração atraía todo o tipo de coisas. Não era surpreendente que fosse considerado um “ponto turístico”, mesmo em uma cidade pequena e desconhecida como aquela.

Se aquilo ainda não tinha passado por ali, certamente passaria em algum momento. Ficar ali e esperar era provavelmente sua melhor aposta.

Depois de trinta minutos, nada tinha acontecido. O que não era surpreendente; trinta minutos não era muito tempo, e ele estava acostumado àquele tipo de coisa. A maior parte de seus trabalhos envolvia mais observação do que qualquer outra coisa, pelo menos até a parte final.

Tocando casualmente o medalhão através de sua camisa, ele resolveu sentar-se em um dos bancos próximos à fonte para continuar a espera. O calor ali não era tão intenso quanto em outros lugares, mas ele não costumava trabalhar àquela hora do dia, ainda mais em espaços abertos, e estava começando a sentir os efeitos da exposição.

O frescor dos respingos e da proximidade de uma fonte d’água era sensível. Si Woo suspirou, desabotoando a gola da camisa para respirar. Suor escorria de suas franjas e sob seu rabo de cavalo castanho-escuro, e ele considerou prender seu cabelo em um coque em vez disso. Depois de mais vinte minutos, acabou cedendo, mas suas franjas eram curtas demais para prender junto, então teve que se contentar em ajeitá-las atrás das orelhas.

Trinta minutos depois, as pessoas na praça começavam a se dispersar. Algumas provavelmente voltavam para seus turnos de trabalho, outras para a universidade pela qual ele passara no caminho até ali, e outras possivelmente para algum lugar mais fresco e tranquilo para se recuperarem do calor veranil do lado de fora.

Mais vinte minutos se passavam quando Si Woo finalmente viu um relance de seu alvo.

Com a imagem fixada em sua mente como que impressa, ele não precisou de meio segundo para reconhecê-lo pela silhueta, mesmo de longe como estava. Conseguiu reprimir seu instinto de se levantar de imediato e em vez disso contentou-se em observá-lo por alguns momentos, examinando a situação.

A figura do garoto parecia indecisa se deveria agir casualmente ou se esforçar para não ser notado, alternando-se entre um andar incerto e encolher os ombros para hesitantemente olhar ao redor. Si Woo já imaginava que ele soubesse que tinha sido descoberto, e aquilo era mais uma evidência disso. Era a única explicação para sua fuga súbita logo no dia em que ele fora chamado à casa, e não em qualquer momento antes.

O sorriso do garoto na fotografia voltou novamente à mente de Si Woo. Ele não o deixaria escapar novamente.

Depois de alguns momentos, Si Woo casualmente levantou-se do banco, e ainda mais casualmente pôs-se a caminhar, tentando aparentar não ter uma direção fixa enquanto mantinha-se atento aos movimentos da figura. Outra vez seu alvo olhou ao redor, e estranhamente Si Woo teve a sensação de que ele não só tentava perceber se tinha sido descoberto, mas que, assim como si próprio, procurava alguma coisa.

Si Woo franziu o cenho. O que ele poderia estar procurando? Teria algo a ver com a fonte da energia que permeava aquele ambiente? Se fosse isso, ele teria que impedí-lo antes que o encontrasse, o que quer que fosse.

Si Woo apertou o passo, começando a encurtar a distância entre os dois. Por um momento, a figura lançou um olhar em sua direção geral, e ele se deteve, mas ele não pareceu notá-lo, e o olhar logo tornou a desviar-se. Si Woo apertou o passo novamente.

Então, algo em sua fisionomia mudou.

Si Woo seguiu seu olhar para tentar identificar o que ele tinha visto. Ele parecia estar olhando para algo perto da fonte, mas de onde estava, Si Woo tinha dificuldades em identificar o quê. A figura do garoto começou a andar naquela direção, e Si Woo fez o mesmo, tomando cuidado para manter uma distância segura.

Então, ele as viu. Duas garotas estavam sentadas no banco do outro lado da fonte e conversavam entre si sobre alguma coisa. Uma era mais alta e esguia, com cabelos curtos e escuros tingidos de um vermelho desbotado, enquanto a outra era mais baixa e tinha cabelos castanhos compridos presos em um coque.

As duas não pareceram notar a figura que as olhava até ele se aproximar e dizer algo. Nisso, as duas viraram para olhá-lo, um tanto surpresas ou curiosas com a abordagem.

Si Woo sentiu seu corpo se retesar em alerta. Segundo sua experiência, uma interação com aquele tipo de criaturas não podia trazer nada de bom. Ele não gostava de fazer seu trabalho em lugares abertos, onde pessoas comuns poderiam ver o acontecido e descobrir a existência de algo que mudaria suas vidas para sempre, mas o faria se fosse preciso.

A figura do garoto trocou algumas palavras que Si Woo não conseguiu ouvir com as duas garotas, a alta e esguia em particular, e em um certo momento ela levantou-se para respondê-lo, apontando para um ponto na direção geral da rua.

Então, em um movimento repentino, o garoto segurou a mão da garota entre as suas e exclamou algo, fazendo-a se sobressaltar.

Nisso, Si Woo tomou uma decisão. Sem se importar em ser notado, ele se aproximou a passos largos do grupo, puxando o medalhão de baixo da camisa e segurando-o em sua mão. As palavras em latim saíam de seus lábios com a familiaridade de alguém que já as entoara centenas de vezes e com a confiança de alguém que sabia o que estava fazendo.

O efeito foi imediato. A figura do garoto foi percorrida por um tremor intenso e seu rosto empalideceu. No susto, ele soltou a mão da garota, que arregalou os olhos com a visão.

Então, ela olhou ao redor, e seus olhos se fixaram nos de Si Woo.

Antes que ele processasse o que acontecia, a garota colocou-se entre ele e o garoto, erguendo as mãos em um gesto preocupado.

— Espere, não é o que você pensa! — ela disse, aflita.

A garota mais baixa também notara o que acontecera, e logo se juntou à amiga bloqueando a visão de Si Woo.

Surpreso e confuso, Si Woo sentiu as palavras que lhe eram tão conhecidas lhe escaparem. Aquilo não costumava acontecer, e ele demorou um momento para decidir como deveria reagir. Porém, antes que pudesse recomeçar a entoar, ele ouviu uma voz familiar atrás de si.

— Ah, moço do parque!

Ele virou a cabeça para olhar por sobre o ombro. A garota de cabelos dourados de mais cedo sorria para ele, carregando duas casquinhas de sorvete em uma mão e mais uma na outra.

Então, ela olhou para os outros atrás dele, e compreensão cintilou em seu olhar.

— Ah, parece que você conseguiu encontrar o seu não-sobrinho, afinal! — ela inclinou a cabeça para o lado, divertida. — Parece que é hora de termos uma conversa.