Sanidade
1 (In)Sanidade.
Notas iniciais
Espero que gostem!
Perfeição.
A mais maldita das palavras. Perfeição. Dor! Sofrimento! Destruição! Sim, sim, isso é perfeição! A minha tormenta começou antes mesmo da minha consciência manifestar-se nesse corpo.
“Gênio!”. “Magnífico!”. “Esplêndido!”.
Toda a vida, estas palavras foram-me vociferadas. A cada obra que eu pintei. A cada poema que compus. A cada mármore, granito ou madeira que esculpi!
Chega! Tolices infinitas, preenchidas com verborréia.
Por que ninguém entende? Como ninguém percebe? E tornam a me azucrinar com suas demências, como cachorros vira-latas que abanam as caudas ao menor sinal de atenção e comida!
Nenhum material é o suficiente! Nenhum material é perfeito!
Exceto o que acabei de descobrir. Sim, os anos que passaram a minha frente e eu nunca havia percebido! A plasticidade! A solidez! A superfície quente e macia, depois fria e rígida! A melhor das ceras, o melhor dos mármores, ah! Jamais serão comparáveis a este novo material. Agora sim, serei digno de tais elogios, pois minha obra será digna e perfeita, será a derradeira obra – a minha mais amada obra. Única.
Confesso que a primeira que modelei me deu muito trabalho. Ainda era inexperiente ao manipular esse novo material, e por Deus, como ela se mexia! Não ficou um milésimo próximo ao resultado que imaginei. Entretanto, fora um bom começo.
A segunda eu testei dopá-la com vinho antes. Assim que me pareceu pronta, aproximei para retirar o que precisava. Ela gritou bastante quando o fiz, e este foi meu segundo erro, ela ainda não estava pronta. Num ataque de descontrole, despejei a quantia final do vinho goela abaixo. Ela engasgou e acabou por falecer, e foi nesse momento sublime – a pele, ainda quente! Perfeita! – que arranquei todo aquele ébano magnífico e natural que recobria seus músculos. Descartei o que não tiraria mais proveito, e guardei com todo cuidado, numa solução que desenvolvi com a morte da primeira... nova obra.
A terceira tinha as proporções corpóreas perfeitas. Busto, cintura, quadril. A face, coitada, lhe era de uma feiura horrenda, mas como não a utilizaria de todo modo, apenas admirei e calculei o quanto de força precisaria para cessar-lhe a vida. Não foi preciso muito.
O pescoço pareceu-me tão fácil de quebrar. O ruído foi um estalar transcendental.
Com um bisturi, extirpei-lhe a pele, mas precisei de uma serra para decapitá-la – o que me demandou certo tempo, admito. Especialmente por eu ter que acertar as vértebras cervicais corretas, numa precisão cirúrgica que por sorte adquiri. Costurar a pele da primeira na segunda nova obra foi uma das tarefas mais difíceis que experimentei. Estava um pouco rígida, como couro fresco, mas graças a minha solução ainda estava maleável.
Qual não foi o meu sorriso quando a pele voltou a se aquecer quando em contato com os músculos, com o sangue e gordura daquela infeliz! Eu estava imundo, fedendo a morte, mas ah! Ela, minha obra, estava quente, viva, como no toque da mais sombria (ou seria vital?) das mágicas!
Talvez por isso Deus, em seu tédio celeste, tenha criado a vida, porque não há nada mais revigorante do que sentir um corpo frio e inanimado despertar, lascivamente, com o calor da vida!
Faltava-lhe o final, a cabeça – com rosto, cabelo e mente. Mais importante do que a harmonia física que deveria portar, a última candidata deveria possuir os pensamentos atrativos. Pensamentos, ideias, pois é lá que a alma reside, e é lá que minha obra será concluída. O último detalhe antes da lapidação final.
Eu já tinha planejado quem seria: minha doce prima Madeleine. Crescemos juntos e seu espírito independente sempre foi sua maior qualidade. Suas respostas sempre foram rápidas e vorazes. E como todas as senhoritas independentes, sua inteligência ímpar, de raciocínio rápido afastavam os homens, o que lhe conferia certa melancolia – sempre disfarçada de força.
Madeleine, Madeleine. Eu te amaria, se eu não desprezasse sua face imperfeita, seu corpo assimétrico, sua pele muito branca... E sua alma indócil. O homem se apaixona pela fúria, mas ele nunca pode amar o que não pode domar, minha querida Madeleine.
Ao fim de todo processo, lá estava, minha obra máxima.
Ela não estava perfeita. Seriam as linhas que usei para curtir as partes? Não... Não eram.
Seria a proporção da terceira nova obra? Claro, aquelas ancas largas me deram trabalho, e...
Não... Não eram.
O que? Por quê? Por que minha obra não tinha vida? Tinha tudo perfeito, ela era perfeita! Foi criada à minha imagem – que eu idealizava – e à minha semelhança – que eu almejava – então, por que minha obra não exprimia vida?
A alma! Mas como, se a mente de Madeleine estava ali? Toda a sua energia e espírito... Mas minha obra não tinha alma! Como? Como obter a dádiva de Deus, seria eu tão imperfeito a ponto de não conseguir a perfeição? Não!
Não... Eu era. O problema era óbvio. Para ter vida, é preciso ter uma alma. Para se ter alma, é preciso ter uma janela onde esta possa entrar em contato com o corpo mórbido e ali adentrar...
Naquela noite, me contemplei no espelho, e esta foi a última imagem que vi. Os meus olhos azuis – pouco importa a cor – que cintilavam pelo luar, e oh!
Peguei o bisturi.
Primeiro tive medo.
Estava suando frio. Um suor frio que não me subiu a espinha em nenhum momento em que moldei aquelas novas obras. Respirei fundo. A mão direita, tremula, covarde, foi dominada pela esquerda, colérica, que adentrou-me a órbita saltando o primeiro glóbulo.
Por horas eu pude vivenciar uma centésima parte da dor que infligi àquelas infelizes almas. Por horas me arrependi do que havia feito.
Por horas, eu tive orgulho do que havia feito.
Uma risada histérica tomou conta de meu ser, e consegui repetir o procedimento com a segunda órbita ocular. Guiado basicamente pelo instinto, consegui encaixar a minha parte, minha alma, nas órbitas vazias da Perfeição.
Ouvi sua respiração. Macia, como a de um gato manso. Então, ouvi o silêncio.
Ao final, ela bramiu um grito.
Ela me abandonou na mesma noite que a concebi.
Fale com o autor