Sanidade

4 Capítulo 4 - Inferno


Estava vivendo o pesadelo, era isso que se passava em minha cabeça naquele momento. Talvez a única coisa digna que tentei fazer em toda a minha vida, que foi salvar uma outra me colocou nessa situação. Pensei comigo em qual momento eu errei, cheguei até pensar que tudo o que estava acontecendo daria ao fato de ter levantado atrasado, também indaguei-me se o fato de ter notado aquela garota na plataforma pudesse ser o motivo. Enfim, não cheguei a nenhuma conclusão apenas divagações de uma mente atormentada, ao ponto de nem reparar que o celular estava tocando. Aquele som eletrônico que tentava se parecer com as quatro estações de Vivaldi. Encontrei o aparelho no bolso do casaco, observei a tela e vi que não reconhecia o número. Possivelmente era do escritório procurando alguma satisfação pela minha falta. Respirei fundo e atendi.

– Alô.

– Senhor Phillip Thompson? — Era uma voz rouca, falando num tom baixo, o suficiente para ser audível.

– Sim, sou eu.

– Meu nome é Roselyn Watson, sou Doutora do Centro de Repouso Saint Paul. — Eu não consegui ouvir o que ela disse após se apresentar.

Fiquei sem reação ao ouvir o nome Saint Paul. Estou muito familiarizado com o centro de repouso, logo imagens vieram a minha mente. O caminho que percorro, a rua pacta fora da cidade é muito agradável com muitas árvores, a entrada principal do centro, lembro bem, pois o velho porteiro o Senhor Smith é sempre atencioso com todos, saudando tanto quem chega, assim como quem sai, vez ou outra ele tenta puxar conversar. Os pequenos arbustos podados pelo rapaz da manutenção, que apesar de não ser tão amigável é educado raramente é visto desocupado. A recepção do centro, é protegida por uma porta dupla de vidro, que está sempre aberta no horário de visitação, e com certeza a enfermeira Sarah estará na sua velha mesa de madeira. Organizando prontuários, fazendo anotações, atendendo telefonemas, enfim fazendo o seu serviço. Os corredores internos sempre limpos, assim como a escadaria até o quarto de número dez da ala B. O quarto onde nos últimos seis anos se tornou o quarto da minha mãe.

– ...Senhor Thopson está me ouvindo? — Foi o que eu ouvi quando voltei a realidade.

– Me desculpe. — Respondi prontamente. — Estou um pouco com a cabeça nas nuvens, mas poderia repetir novamente por favor.

– Eu sei que o senhor pode estar confuso a princípio com a notícia, mas precisamos que o senhor venha até o centro o mais breve possível. Como havia dito, a senhora Amy passou por complicações durante a madrugada, e ela foi removida para a unidade intensiva. O senhor me compreende senhor Thompson?

– Sim eu entendo. — Aquilo não podia estar acontecendo. Apesar de minha mãe já estar numa idade avançada, não queria acreditar.

– Então aguardamos a sua presença, até breve.

Fiquei por um bom tempo olhando para o celular, esperando que ele tocasse novamente e mesma voz desmentisse aquilo. Porém não tocou. Eu não estava vivendo um pesadelo, estou num purgatório pagando por meus erros. Meu coração acelerou abruptamente, estava retido na administração do metrô vigiado por dois seguranças, minha mãe está na unidade intensiva do centro, estou sendo acusado de tentativa de homícidio, minha única testemunha não fala e ainda por cima perdeu a memória. Só tenho uma saída, tenho que ligar pra Emilly. Embora não nos falamos desde a última discussão a dois meses, quem sabe ela possa me ajudar. Será que a doutora também ligou pra ela? Afinal, foi ela que achou melhor colocarmos nossa mãe em um centro de repouso, ao invés de morar com ela em nossa antiga casa. Fui contra desde o principio em levar a nossa mãe da casa. A casa em que ela viveu desde que se casou com nosso pai, onde ela nós criou até que pudessemos ter nossas próprias vidas, onde ela ficou dia a dia até que nosso pai faleceu por cancêr, onde ela desejava morrer.

Estava pronto para ligar, quando dois policiais entraram pela porta.

– O senhor vem conosco.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.