Sanguinem Locker

1 I - Pendulum



Escuro. Um enorme borrão negro com pontos brancos desfocados, oscilando lentamente, como vaga-lumes.

Devagar começo a ver mais nitidamente uma enorme janela à minha frente, ela mede a mesma altura que a parede, mas há um enorme corredor que a cerca pelos lados, está tudo tão mal iluminado...
Reparo que estou deitado, praticamente largado no piso frio do salão. Minha cabeça dói... Como dói, sinto uma pancada após a outra à medida que meu coração bate, estrondosamente forte, posso sentir o pulsar dolorido em cada veia de meu corpo. Tento me levantar, apoiando-me sem sucesso na beirada da janela, no curto período de tempo em que tento me levantar minha visão embaça e estremece, caio sentado. Merda. Devo ter sofrido uma lobotomia, essa dor não para e... Não sei onde estou. Não sei onde estou. Não sei como vim parar aqui, pensando bem não me lembro de nenhum passado, não... Não me lembro de nada! Levo alguns segundos tentando encontrar em algum lugar da minha mente qualquer informação, qualquer que fosse que me ajude a lembrar de algo, forço-a e penso, não sei meu nome, não sei quem eu sou... Merda, merda, merda!

Certo, com essa dor não conseguirei me lembrar de nada, se lembrar. Tudo de que menos preciso agora é ficar estressado. Esforço-me depois de um tempo e consigo me arrastar até a beirada da janela e sento-me nela, fitando o vazio horizonte, percebo uma vaga luz emitida por uma pequena porção de estrelas, estou no alto e há uma neblina densa que me impede de ver o chão e qualquer outra coisa à frente. O vidro da janela não emite nenhum reflexo. O único som que ouço é o de minha pesada respiração, ambos os lados do corredor se estendem a uma vasta e macabra escuridão, há uma parede oposta à janela, feita de tijolos cinza e envelhecidos. Tenho três opções: vou para a direita, vou para a esquerda ou fico aqui e espero que a dor me mate, todas as opções me parecem igualmente ruins. Seja qual for a direção que eu escolher , não irei enxergar nada, tenho que decidir na sorte, a esquerda me dá uma estranha sensação de regressão, então vou para a direita.

Concentro-me na respiração por alguns minutos, então começo a caminhar lentamente, ainda desequilibrado. Não há nenhuma claridade que machuque meus olhos, mas quando saio do alcance da luz da janela um calafrio percorre minha espinha, repouso minhas mãos, uma na lateral do cotovelo oposto e noto que está um frio, palidamente mórbido. Depois de alguns minutos esbarro em algo sólido e movediço no chão, tomo uma decisão idiota, me agacho e tento desvendar o objeto com as mãos, é quase oval e tem duas profundidades redondas e um furo no meio, pode ser um coco... Ou um crânio...Não quero nem mesmo imaginar qual a probabilidade. O escuro começa a ficar muito agoniante, olho pra trás e o pequeno ponto de luz da janela é quase imperceptível, a cada segundo fica mais difícil calar todas as perguntas em minha cabeça, até que enxergo um pequeno ponto luminoso à minha frente, ele fica maior e maior a cada passo, noto que é outra janela, exatamente igual à primeira, por que diabos um corredor é tão grande e tem um intervalo tão espaçoso entre uma iluminação e outra?

Continuo andando, agora em velocidade quase média, em pouco tempo encontro outra maldita janela, a mesma janela com uma borda quase dourada com detalhes floridos que já vi outras duas vezes, algo está errado, este lugar é muito imenso, se foi abandonado foi por um motivo muito bom. Ando mais ligeiramente e novamente, enxergo de longe outro ponto brilhante... Não é possível. Corro e examino a janela, devo estar perdendo algum detalhe, não, a janela é minuciosamente igual às outras. Sinto uma facada de desespero e corro, quando passo pela quinta janela não paro, continuo a correr, mais rápido, quase em pânico. Vejo mais uma janela e fica quase impossível ignorar a dor. Quando chego ao lado da sétima janela desabo, minha cabeça ainda dói e minha respiração está muito pesada.
Cacete, não acredito que estou andando em círculos, isso deve ser algum tipo de enigma. De repente sinto uma pontada na cabeça, ainda mais forte que as outras, acompanhada por um irritante zunido, logo penso, estou mal... Não tenho forças para quebrar essa janela, e mesmo que o fizesse ainda há a chance de eu cair no mar ou em um desfiladeiro. Se continuar andando sem rumo só morrerei mais cedo, mas que outra opção eu tenho? Levanto-me cambaleando e sinto uma raiva profunda que desce do meu coração ao meu pé, e chuto a parede de tijolos à frente, que instantaneamente cospe uma onda de poeira em mim, droga... Por que fiz isso? Meu pé dói e meus olhos coçam por causa da poeira, espera, há algo escrito na parede com tinta vermelho-escura, num tom macabro de sangue seco:

"Plenum non procedit"

Essa merda está em latim, não faço ideia do que signifique, mas é um avanço, esfrego a mão na escrita para remover a poeira e noto um rastro de sangue seguindo o movimento de minha mão, em alguma hora acabei me cortando, ótimo. Examino a ferida e está bem pior que um corte aleatório qualquer, o sangue escorre da lateral da minha mão até o meio do antebraço, como isso aconteceu? Não devo ter percebido antes por causa da tontura, que situação ridícula, talvez realmente seja melhor que fique aqui para morrer. Apoio-me na parede com a mão que está sangrando, e em alguns segundos a parede literalmente se joga pra trás, me fazendo cair de joelhos e abrindo uma nova passagem.

Deparo-me com uma grande escada, vagamente iluminada por uma luz avermelhada do andar acima, não sei se fico contente por ter achado uma "saída", pois realmente não faço ideia de onde esteja. Subo os degraus, feitos do mesmo tijolo que a parede, um por um, não posso cair aqui. Afinal, o que poderia significar aquilo escrito na parede?

. . .


Quando termino de subir a escada chego a algum cômodo parcialmente iluminado por janelas, mesmo assim continua escuro, a luz das estrelas não se propagava muito. Pelo visto estou em uma biblioteca, a sala tem estantes de livros organizadas em fileira, uma na frente da outra e um espaço atrás do conjunto, que não consigo enxergar, as estantes são feitas de uma madeira velha e seca, quase cinza, e os livros emitem partículas de poeira que são vagamente notadas quando são atingidas pelo feixe de luz avermelhado das janelas. Passo pelo lado das estantes e vejo o espaço atrás delas, há uma grande mesa com papéis em cima e algumas cadeiras ao redor, toda a decoração de móveis tem a mesma aparência, dou alguns passos e reparo que na cadeira do meio há uma pessoa.

Congelo por um instante e volto para trás da estante mais próxima, abafando a respiração com uma mão. Mas que merda, mesmo que não seja um psicopata, não tem como eu chegar assim sem parecer suspeito. Viro o rosto e observo pela extremidade da estante a cadeira, não tem ninguém ali, não é possível que agora eu esteja alucinando, eu realmente não- De repente vejo um vulto ligeiro à minha frente interrompendo imediatamente o pensamento, uma garota aponta em minha direção algo afiado que aparenta ser um punhal, com uma escrita na lâmina e por reflexo me jogo na estante atrás de mim, com as mãos levantadas a altura do peito.

- Não dê nenhum outro passo! Quem é você e o que faz aqui?! –Cospe a garota.

Não consigo pensar em nenhuma resposta, na verdade não tenho nenhuma resposta, só consigo pensar no quanto minhas mãos tremem.

- Vou ter que te forçar a responder?!

A garota grita alto, giro a cabeça para os lados em pânico, minha língua está travada. A garota abaixa o punhal e o segura acima da cintura, talvez um bom sinal. Acho que minha expressão revela que estou mais assustado do que ela.

- Como assim não sabe o que está fazendo em um lugar como este? Está perdido?

Continuo sem conseguir falar, mas é óbvio, nem meu nome eu sei, como saberia o que diabos eu estou fazendo aqui?

- Hein!?

Balanço a cabeça para cima e para baixo desta vez, indicando que sim, ainda com as mãos levantadas e trêmulas.

- Droga... Como vou saber se posso confiar em você?

Não consigo pensar em uma resposta. Meu coração bate forte. Olho para a garota, ela é bonita, não consigo notar nenhuma cor naquele ambiente, seu cabelo está preso em um rabo de cavalo, ela está com um vestido um pouco curto, uma capa com um capuz, que se prende abaixo de seu pescoço e vai até a cintura de suas costas, braceletes e botas que vão até seu joelho. De repente ela pousa a lâmina gelada do punhal em meu pescoço e os símbolos nela brilham.

- Você vem comigo, mas se tentar qualquer gracinha...

Ela aperta o punhal contra meu pescoço e os símbolos brilham mais intensamente.

- Entendido?

Minha cabeça está presa contra a estante e a lâmina, fecho os olhos e levanto a mão na altura dos ombros, a garota remove o punhal e anda em direção à mesa, espera alguns segundos e anda para a esquerda do salão.

- Vamos, tem uma porta ali.

Ela chega à extremidade da sala e me lança um olhar ameaçador, engulo em seco e a sigo. A porta nos leva ao que parece ser um quarto muito desarrumado, com móveis cobertos e quinquilharias espalhadas por toda parte, o local está mais escuro que a biblioteca.

- Assim não vai dar...

A garota empurra a capa de sua cintura esquerda, onde há uma pequena bolsa, pega o que parece ser uma pequena bola de vidro, e profere:
"Venandi Lúmen"

Mais latim... Não sabia o significado daquilo, mas sabia que ela estava lançando um tipo de feitiço. A esfera de vidro oscilou e emitiu uma luz que cobriu todo o ambiente, o quarto era bem menor que a biblioteca, a garota estendeu a mão para mim.
- Toma, segura isso.

Eu peguei a esfera reluzente, não consigo olhar muito tempo para a luz e minha cabeça volta a latejar, ela sai e descobre os móveis, abre gavetas e limpa o pó dos objetos, como se estivesse procurando algo. Eu olho para o lado e vejo um plano oval do meu tamanho, de borda dourada e muito empoeirado, um espelho, pressiono a mão contra ele para limpar a poeira e sinto um fervor, era a mão que estava cortada.

-Merda...

- Olha só! Ele fala...

Ele? Agora que reparo, é a primeira vez que falo em muito tempo, minha voz é grossa. Passo a esfera-lâmpada para a outra mão e removo a poeira do espelho, fito meu reflexo, meu cabelo é levemente ondulado, uma franja cobre minha testa, ele é castanho claro, assim como meus olhos, que também possuem um aro azul do meio para o canto, meu tom de pele é um amarelado claro, levemente rosado, minhas bochechas e meu nariz estão sujos de poeira, estou usando um colar, uma blusa suja e uma jaqueta escura de gola alta, calças escuras, um cinto com bolsos e tênis de cano alto. Levanto uma sobrancelha, uau, sou um homem, pelo visto, pelo menos, por enquanto, esta informação eu consegui.

. . .



-Eu...
- O que?
-... Ainda não tinha me visto.
- Como assim?
Ela pareceu mais assustada do que esperei.

- Acho que... Bati a cabeça, sei lá, só me lembro de ter acordado em um corredor que dava voltas. Só.

A garota parou o que estava fazendo e veio à minha frente.

- Então você não tem ideia nenhuma do que está fazendo?

- Foi um insulto?

- O que? Olha, eu não tenho... Mas que saco, um cara com amnésia aqui só vai me deixar ainda mais perdida.

Sinto uma pancada forte na cabeça, igual às de quando acordei no corredor, caio no chão sentado e deixo a esfera cair.

-E ainda é narcoléptico!?

- Eu não tô dormindo, merda... Essa dor.

A garota agacha e empurra o meu cabelo, repousando a mão sobre minha testa, foi meio repentino, olho direto para os olhos dela, noto um belo azul acinzentado escuro.

- Não tá com febre, e não foi nenhuma pancada externa, seja o que for vai melhorar com o tempo. Vamos, levanta, a gente tem o que fazer. — Ela se levanta e estende a mão para mim, eu a agarro e me puxo para cima com dificuldade.

- A gente? — faço uma expressão dolorosa
- Imagino que você queira sair daqui, já que não se lembra de nada.

- Não sei nem sei como saí daquele corredor... — pego a bola de luz que rolou para o canto da sala

Falamos enquanto voltamos para a biblioteca e saímos pela porta do meio da sala

- Este lugar é cheio de enigmas, não tem como você ter entrado por acidente.

- No momento sei tanto quanto você.

- Então estamos mal, também perdi parte da memória, bem menos que você pelo visto.

- O-o que? Como assim?

- Não sei os detalhes do seu acidente, mas o meu foi causado de propósito, eu estava procurando algo e alguém me atingiu.

A estrutura do salão era gigante e assustadora, havia pilastras, estátuas, cortinas e uma grande escada à nossa frente que levava a sacada á um segundo andar , só conseguia enxergar portais com interiores escuros, mas não consegui prestar tanta atenção no caminho, de alguma forma eu estava um pouco familiarizado com estruturas grandes.

- Eu ainda lembro-me de algumas coisas, as vezes tenho uns flashbacks da infância e coisas do tipo, mas não lembro como e o quê vim fazer aqui.

- Então não temos ideia de onde estamos e tem alguém à solta que provavelmente quer nos matar... Isso é realmente maravilhoso.

- É sim.

Chegamos á frente de uma parede com várias portas, ela abre a última porta da esquerda pra direita, que está mais perto da escada. O quarto é surpreendentemente iluminado por várias outras esferas luminosas, grudadas ao teto, ele é maior que o quarto da biblioteca, há uma cama, uma mesa grande com livros, frascos com líquidos misteriosos e joias aparentemente antigas, pingentes, colares e anéis, também há uma mochila grande no canto do quarto, ao lado de uma cômoda com uma penteadeira.
- Entendi... Você é uma cleptomaníaca.

- O que?

- Pra que tudo isso?
- Estou aqui... Há, acho que já faz dois dias, juntei tudo de útil que encontrei aqui.

Pego um objeto redondo e prateado em cima da mesa, ele é cheio de detalhes pontudos em relevo.

- Sim, realmente estamos bem perto de sair daqui...

- "Rite Malakar!"

Que diabos, demorei muito pra notar, essa garota sabe fazer feitiçaria, achei que só existissem magias inúteis, tipo fazer bolas de vidro brilhar e fazer paredes se moverem, até que a bola caiu da minha mão e começou a se expandir e contorcer, até se tornar uma criatura de metal redonda, do tamanho de uma melancia com quatro patas e uma boca monstruosa, parecido com um Golem pequeno ou coisa do tipo, ele rosnava e mostrava os dentes afiados de metal para mim.

- BRUXA!

- O termo correto é augura clériga.

Clériga... Em um instante me lembrei, eram seres poderosos, podiam conjurar feitiços tanto para o bem quanto para o mal, tipo curas e pragas, dependendo de qual deus fossem devotos.

- Clériga...

- Mas ainda estou na minha fase de Suggestio.

- Que?

- Ainda não me jurei para nenhum deus.

- Boa sorte... — Fiz uma expressão confusa.

- Obrigada, mas e você. — Ela se senta na cama enquanto eu a observo de costas para a mesa. — Qual o seu no...

-...

- Ah, perdão, eu sou Gya. — A garota abre um aparente sorriso, estende a mão e eu a cumprimento.

- Nome interessante.

- É um apelido, meus pais me chamaram de Guilhermina, eu não gosto do nome, mas acho bonito, é o feminino de Guilherme, que significa protetor.

- Tocante.

Gya me analisa por um tempo, é desconfortante o jeito como o olhar dela é julgador.

- O que foi?

- Estou pensando em um para você.

- Um o quê?

- Um apelido, oras, não posso ficar perto de alguém sem nenhuma identidade.

- Me senti ofendido...

-Shh!

-...

- Você me lembra a... Anael

- Como o anjo?

- Sim.

- De onde você tirou isso?

- Não sei, estava lendo um livro sobre quando você apareceu na biblioteca, acho que combina.

- Então estamos presos em um lugar colossal, sem memória, com um maluco querendo nos matar e você estava lendo livro de angelologia?

- Ele estava listado como um dos sete arcanjos, provavelmente um dos guerreiros mais seletos, acho que ajuda saber sobre essas coisas.

- Certo.

- Allen, perfeito. Hey! Como lembrou disso?

- Disso o quê?
- Que Anael é um anjo. — Essa me pegou de surpresa, nem eu notei a lembrança chegando, acho que as memórias devem estar voltando aos poucos.

- Não faço ideia.

- Certo, então vá tentar dormir, você precisa, tem um quarto ao lado. — Ela jogou uma bola de vidro para mim. — Quando quiser que acenda diga "Venandi Lúmen", e "Nox" para apagar.

-... Entendido. — Acho que realmente não é uma hora pra contestar as práticas arcanas, dormir me parecia uma ideia excelente.

- Então, boa noite, Allen. — Gya me fez um sorriso cansado, quase malicioso.

- Boa noite. — Era estranho falar com alguém de maneira tão formal, como se aquela situação não fosse um problema.

Saí do quarto e fechei a porta, não reparei muito no ambiente ao redor, só que já tinham se passado horas e o brilho da noite estava do mesmo jeito, havia uma porta enorme, feita de madeira à frente do corredor, mas não me parecia uma boa hora pra sair. Entrei no quarto ao lado e proferi as palavras: "Venandi Lúmen", imediatamente o globo de vidro brilhou e iluminou o quarto em um tom de claridade médio, tem o mesmo tamanho que o quarto de Gya e os mesmos móveis, porém sem penteadeira, ao invés disso tinha um grande espelho, parecido com o que vi no armário da biblioteca, só que quadrado. Olhei para meu reflexo e limpei a poeira de meu rosto, sem cerimônia, minha cabeça ainda dói, deito-me na cama e tento pensar em alguma coisa, mas tudo que consigo é "QUE PORRA ACABOU DE ACONTECER NAS ÚLTIMAS 5 HORAS?".
- Nox! — A esfera se apaga, não demorou um minuto para que eu desacordasse.