Sangue quente.
5 Subindo de status.
Notas iniciais
Ian...
Tenho medo do que estou me transformando, acho que perdi toda a minha sanidade, não tenho mais noção de tempo, quase não consigo mais pensar racionalmente, tenho nojo de mim mesmo, mas ainda estou aqui, ainda estou vivo de alguma forma, ainda estou me agarrando à vida com todas as minhas forças.
Estou sobrevivendo dos ratos que consegui capturar, nunca pensei que ia me rebaixar tanto a esse nível, nunca me imaginei em uma cela escura e imunda comendo algo tão asqueroso, mas minha fome é tamanha que já superou a barreira da minha mente, não existe mais nojo ou asco, aquilo é carne e carne é tudo o que preciso.
Minha vida é um inferno na terra, devo estar vivendo aqui nessa cela há mais de três semanas, todos os dias ou noites, eu não sei... já disse que não tenho noção de tempo, eu sou levado para o quarto daquele sádico, às vezes ele me bate e me tortura, às vezes ele me estupra e às vezes ele me faz beber o sangue dele para ser receptivo às suas investidas, nesse momento eu já nem me importo mais... beber o sangue dele é uma das coisas que ainda me mantem vivo, mas a minha regeneração, força e rapidez quase não funcionam mais, estou no limite. Às vezes ele exagera tanto, que eu demoro muito para melhorar e isso é o pior, parece que a dor nunca vai embora.
E para completar tem o maldito vampiro de cabelos castanhos, ele me odeia sem nenhum motivo aparente, ele parou de me dar comida e água já faz uma semana, a última bandeja de comida, ou melhor, de lixo que ele trouxe esta apodrecendo aqui no chão. Ele gosta de me arrastar pelos cabelos e me beliscar, atualmente ele está até me batendo. Eu posso jurar que ele sente prazer em me ver definhando aos poucos nessa cela.
Às vezes sinto que ele esta do outro lado da porta me farejando, tenho medo... isso é muito arrepiante, ele aparece sempre que estou dormindo, sinto sua presença do outro lado da porta e começo a rezar para que ele vá embora, mas ele fica lá, parado, só me farejando, eu me sinto encurralado por um monstro que vai me devorar a qualquer momento, eu sinto que é isso que ele quer, ele quer entrar aqui, rasgar o meus pescoço e secar a minha veia.
Eu não aguento mais, eu vivo um estresse diário, ninguém devia viver nessas condições, eu sou um ser vivo... eu tenho sentimentos, eu sinto dor, fome e frio. Eu respiro assim como eles, eu tenho direitos!
Ouvi os passos do vampiro de cabelos castanho, ele estava vindo me buscar, eu já estava acostumado ao ritual que viria a seguir, ele me levaria para tomar um banho, ou melhor, para ser escaldado vivo com água fervente, assim que eu me livrasse de toda essa imundice da cela que fica grudada em minha pele, ele me arrastava para o quarto de Sephiron.
Hoje não foi diferente, eu aproveitei o momento do banho para tentar tomar água, já que o vampiro de cabelos castanho não me dava mais nem água de balde de limpeza, sei que no início eu tinha nojo daquela água cheia de sabão e sujeira, mas depois que a sede apertou... eu disse pra mim mesmo “Dane-se tudo!” Agora a água podia ser da privada, eu ia beber sem reclamar e ainda ia agradecer feliz.
Fui atirado para dentro do quarto de Sephiron e lá estava ele deitado sobre sua cama confortável e quentinha, eu estava tão exausto! Eu só queria poder dormir ali uma vez, só uma vez e então eu morreria feliz em meu sono.
–“Venha cá!” Chamou Sephiron dando batidinhas na cama ao seu lado, ele estava lendo um jornal tranquilamente, me aproximei obedientemente e ele estranhou isso, ele não havia conseguido me domar ainda, eu continuava a lutar e me negar a obedecê-lo, então era de se espera que ele erguesse uma sobrancelha pra mim, agora que eu estava obedecendo tão passivamente assim, mas a verdade era que eu não estava obedecendo ele, eu simplesmente queria descasar meu corpo dolorido naquele colchão de luxo dele.
Deitei-me ali e relaxei, ah... isso era tão bom, minha costas quase cantavam um aleluia depois disso, era tão quentinho que o sono tomou conta de mim, era quase impossível me manter acordado.
Mas meu momento de paraíso durou pouco, Sephiron largou o jornal e rolou para cima de mim.
–“O que foi? Finalmente se redeu e resolveu me obedecer como deve ser?” Ele perguntou separando minhas pernas e se enfiando entre elas.
–“Vai se foder!” Respondi sentindo meus olhos piscarem de leve, mas então ele se enfiou dentro de mim rudemente e a dor me despertou.
–“Olha essa sua boca suja, eu planejava ser bonzinho com você hoje, mas você já chegou me xingando, merece ser castigado!” Ele me falou investindo fundo dentro de mim.
–“Me deixe... eu não posso nem morrer em paz!” Reclamei tentando afasta-lo de cima de mim.
–“Morrer? Você não vai morrer!” Ele riu disso como se fosse uma piada.
Não respondi, porque eu deveria gastar energia batendo papo com ele? O que ele estava fazendo doía, mas eu podia ignorar a dor e simplesmente me deixar vagar em minha mente... não sei exatamente quando isso aconteceu, mas desmaie.
...
Sephiron...
O corpo dele relaxou em baixo do meu, ele havia desmaiado e eu nem havia começado ainda, o que havia de errado com ele? Era para ele estar se recuperando durante o dia em seu quarto. No folheto que recebi do governo, dizia que se o mestiço tem oito horas de sono, comida e água o suficiente, você pode brincar com ele todas as noites sem perigo de matá-lo.
Eu até havia me dado ao trabalho de mandar um de meus servos ir compra carne de primeira para ele, sabia que ele era carnívoro e precisava de carne, achei que com essa alimentação de qualidade ele teria mais forças pra brincar mais vezes de pega-pega comigo, mas ele estava a cada dia mais fraco e sem energia.
Será que fui enganado? Pelo que eu saiba o governo esta em crise, será que começou a vender seus ratinhos de laboratório com falsas promessas de que eles podem resistir mais que um humano?
Perdi toda a vontade de fodê-lo, que graça tinha quando ele não reagia? Eu não me importava de foder um escravo humano quando ele estava desmaiado assim, mas com o Ian...não, com Ian era diferente, ele tinha algo a mais! Eu gostava de interagir com ele.
Larguei seu corpo inerte e chamei meu servo para levá-lo de volta aos aposentos dele.
...
Ian...
Algo estava doendo no meu pescoço, algo estava doendo muito mesmo, despertei com essa dor terrível e descobrir que meus piores pesadelos desde que conheci esse vampiro de cabelos castanhos estavam acontecendo, ele estava sugando o meu sangue e a dor era pior do que quando Sephiron fez isso, me debati em seus braços e ele me segurou mais forte, quase estava quebrando minhas costelas com aquela força, eu tentei gritar, mas ele tapou a minha boca e ao mesmo tempo meu nariz, não sei se foi acidental ou intencional, mas agora eu estava sufocando também.
Merda, eu já estava fraco e no limite entra a vida e a morte e esse monstro vem ferrar ainda mais minhas chances de sobreviver, tentei lutar de novo, mas ele conseguia me subjugar com facilidade, agora tudo fazia sentido, ele estava me deixando sem comer para me enfraquecer, esse era o seu plano desde o início, talvez ele fizesse isso com todos os escravos de Sephiron, ele fazia Sephiron acreditar que seus humanos morriam de exaustão, mas era ele quem os leva a essa exaustão, ele parava de alimentar e quando o humano já estava definhando ele fazia isso e como o humano definhava aos poucos na frente de Sephiron ele nem percebia que estava sendo engado por um de seus servos.
Manchas negras começaram a aparecer em minha visão, eu me sentia caindo em um longo túnel, até que tudo ficou negro.
Quando despertei estava no meu quarto/prisão de novo, mas agora nem conseguia me mover, mal conseguia erguer um braço sem sentir todas as minhas forças se acabarem, agora eu não podia nem caçar um rato para recuperar minha energia! É parece que esse é o fim, vou morrer nesse lugar podre como um ninguém.
A fome é tanta, que acho que perdi de vez a sanidade... preciso de carne... qualquer carne... pode ser até... a minha carne.
...
Sephiron...
No dia seguinte mandei meu servo buscar Ian de novo, esperava que ele estivesse melhor, afinal, não feri ele no dia passado, e ainda ordenei que dessem para ele muita comida, então agora ele devia ter se recuperado, mas o que meu criado trouxe foi uma criatura que quase me fez pular da cama, ele parecia um morto vivo, ele estava tão pálido que mal dava pra dizer que ele era só meio albino, olheiras profundas marcavam seus olhos de cores diferentes, mas o mais chocante eram seus braços, ele estava mastigando sua própria carne, seus braços tinham marcas de mordidas aqui e ali.
Acho que ele estava tentando se devorar, mas a dor o impedia de arrancar um pedaço inteiro de sua própria carne, no entanto ele não desistia de tentar, ele continuava a mastigar os braços com uma expressão animalesca, o sangue dele manchava seu rosto, peito e braços.
Aproximei-me dele e ele rosnou como um cachorro rosna quando você tenta tomar dele algo que ele esta comendo. Segurei seus pulsos e afastei seus braços de sua boca, ele rosnou mais para mim e tentou me morder, ele parecia ter perdido a sanidade, o que havia de errado com ele?
O esbofeteie na tentativa de tirá-lo dessa loucura, para a minha sorte, isso pareceu ter resultado, seus olhos sem vida voltaram a ter um brilho e ele me fitou com curiosidade.
–“Ai!” Ele reclamou, sua expressão estava cansada agora, ele deixou seus olhos vagarem pelo quarto e quando ele viu a minha cama um sorriso apareceu em seus lábios ensanguentados.
Ele praticamente se arrastou para a minha cama e deitou de qualquer jeito, sua expressão provava que ele estava mesmo muito mal e quase não estava mais racional novamente.
Ele se aconchegou na cama e se escolheu, vi que ele estava arrepiado então conclui que estava com frio.
Toquei na pele dele e ele se encolheu mais, provavelmente esperando eu lhe torturar, ele estava um gelo.
–“Por favor... me deixe morrer aqui... eu não quero voltar para aquele lugar fedido e nojento... eu não quero ficar no escuro! Eu não quero morrer lá sozinho!” Ian me pediu com um olhar de cachorro abandonado, o observei sem entender do que ele estava falando.
Merda, eu não ia tocar nele assim, se eu o forçasse agora com certeza ele morreria e eu não quero isso, eu não quero que ele morra, já me apaguei de alguma forma a ele, ele é como um bichinho de estimação pra mim agora.
–“Vou chamar o meu servo pra te levar de volta, te foder assim não tem graça!” Eu já ia pressionar o botão que chamava pelo meu servo, quando Ian se agarrou a minha mão com os olhos arregalados para mim.
–“Ele não... não quero ir com ele! Por favor, só me deixe ficar aqui... por favor... você já me feriu e me humilhou bastante, ao menos me deixe ter uma morte digna e indolor... por favor!” As lágrimas rolaram de seu rosto antes dele desmaiar, chamei o meu servo mesmo assim, realmente acho que ele estava delirando.
Mas alguma coisa estava errada, eu já conhecia esse mestiço tempo o suficiente para saber que ele era orgulhoso e destemido, do que ele tanto tinha medo? Porque estava tão apavorado? Não sei o que me levou a fazer isso, mas por encargo de consciência acabei seguindo em silêncio o meu servo que levava Ian ao seu quarto.
O meu servo estava arrastando Ian pelos cabelos o fazendo quase rastejar, ele estava semiconsciente e tentava sem sucesso andar acompanhando a velocidade do servo, mas tropeçava vez ou outra e ou era chutado pelo vampiro de cabelos castanhos ou era arrastado no chão áspero e frio.
Senti um pouco de raiva por esse meu servo estar tratando Ian assim, ele era meu, somente eu podia tocá-lo assim, nunca dei permissão para servo algum tocar em meus pertences dessa forma, eles deviam zelar e mantê-los intactos, ver esse vampiro tratar Ian assim era a mesma coisa que descobri que minha empregada estava polindo a minha prataria com uma esponja de aço.
Continuei o seguindo em silêncio, o servo chutou Ian bem forte quando ele não conseguiu acompanhar sua velocidade e desistiu de andar se sentando no chão, eu realmente estava com vontade de chutar esse vampiro agora.
Descemos para o subterrâneo, que estranho... eu não sabia que os aposentos dos meus escravos ficavam nesse lugar! Bem faz sentido, eles são meus prisioneiros mesmo.
O vampiro puxou Ian pelos cabelos e o forçou a ficar de pé e então cravou suas presas no pescoço de Ian que tentou gritar, mas teve sua boca tapada pela mão de meu servo. Meu sangue ferveu, esse puto estava bebendo o meu estoque de sangue, ele deveria estar se alimentando daquele sangue falso nojento e não do meu provedor.
Ian foi jogado em um calabouço e a porta foi trancada, esperei o vampiro que com certeza seria despedido após receber muitas chibatadas muito bem merecidas ir embora e fui até a porta, abri e me deparei com a cena mais grotesca e escrota de todas.
Não foi nesse lugar que imaginei que Ian estava sendo colocado, dei ordens claras que queria que ele ficasse confortável, não esperava uma suíte de luxo para ele é claro, ele não passa de um escravo, mas achei que ele tinha ao menos um colchão velho e duro, talvez até cheio de bolor, mas pelo menos tivesse algo para descasar, o chão do lugar me dava náuseas... e nem queria saber pra que servia o balde.
Porque estou tão chocado com esse lugar? Se fosse outro escravo meu que já morreu, será que eu me importaria? Acho que não, eles não passavam de animais sujos, acho até que esse era o ambiente perfeito para os humanos imundos, mas o Ian... não, o Ian era mais que um escravo agora, ele havia sido promovido para bichinho de estimação e não se trata um bichinho de estimação assim, entrei na cela para pegar Ian e pisei em uma bandeja de... com certeza aquilo não era comida... posso não conhecer muito da comida humana, mas sei reconhecer lixo quando vejo.
Parece que mais alguém vai ser demitido depois disso, seja lá quem é o responsável por preparar a comida dele, vai pagar caro por isso! Então, deve ser por isso que ele não esta se recuperando, ele não esta recebendo o que precisa para funcionar como deve.
Peguei Ian e o atirei sobre o meu ombro, vou deixa-lo no meu quarto como ele pediu, ele parece gostar da minha cama, o levei de volta e o coloquei sobre os lençóis, ele se encolheu em uma bola, tremia levemente, o cobri, se ele morresse agora, ele seria o meu primeiro escravo a ter uma morte confortável, calma e serena.
Bem vamos aos castigos dos meus servos, vaguei pela minha mansão até descobrir onde o vampiro de cabelos ondulados estava, vou fazer com ele a mesma coisa que ele fez com Ian, o peguei desprevenido e lhe dei um golpe na cabeça, foi fácil desmaia-lo, eu entendo muito de artes marciais, conheço os pontos do corpo que faz qualquer um cair na hora.
O arrastei até a sala e chamei o meu servo de confiança James, ele era o meu mordomo, seu trabalho era o de receber minhas visitas e cuidar para que a casa não entrasse em colapso, ele esta a cima de todos os meus outros servos, todos tem de respeitá-lo e seguir as ordens dele quando não estou em casa e o mais importante, é ele quem drena e dá um fim na vida de meus escravos.
–“James, tenho um pra você!” Atirei o vampiro de cabelos castanhos ondulados aos pés dele.
–“Senhor?” Ele me olhou sem entender.
–“Quero que drene o sangue dele, não todo, só o suficiente para ele ficar fraco como um humano! Ah... e quero ver o procedimento!” Ordenei sério ao meu mordomo pasmo.
–“Mas, senhor... ele é um...” James começou, mas eu o interrompi.
–“Sei que ele é um vampiro, não pretendo beber o sangue nojento dele, ele é só um servo que peguei descobrindo ordens e quero que ele seja castigado!” Respondi perdendo a paciência.
–“Sim, senhor!” Respondeu James arrastado o corpo do outro.
Essa seria a primeira vez que eu veria o procedimento de drenagem, nunca liguei para saber como faziam isso.
Segui James até uma outra parte do subterrâneo de novo, entramos em uma sala que francamente, cheira a morte, o lugar era frio e admito, dava medo! Se os humanos fossem seres racionais que entendessem as coisas e tivesse sentimentos, acho que eu teria pena deles nesse momento, era realmente como entrar em um abatedouro.
O lugar era todo de pedra rustica, o que dava ao local um ar frio e sombrio. Havia uma maca de metal frio no meio da sala e uma máquina aterradora ao lado da maca, nas paredes também haviam ganchos, cutelos e outros equipamentos asquerosos, eu sabia que depois de mortos os meus escravos eram esquartejados e sua carne era dada aos cães, mas ver o material que usavam para fazer isso era realmente... arrepiante.
James jogou o vampiro sobre a maca, e então prendeu seus pulsos, tornozelos e cabeça com as tiras de couro que a maca possuía, logo ele pegou uma mangueira ligada à máquina com uma agulha grosa na ponta e a cravou na veia aorta no pescoço do desacordado, ele apertou um botão na máquina que começou a sugar o sangue dele, o vampiro gemeu e se debateu mesmo estando inconsciente, James então mexeu na maca e ela se inclinou, a cabeceira dela rebaixou e isso deixou o vampiro de cabeça para baixo.
–“Quanto tempo esse procedimento leva?” Perguntei meio enojado com que estava vendo.
–“Para matar um humano? Leva uns cinco minutos, para deixar um vampiro fraco como o senhor deseja... deve levar uns vinte minutos, Senhor!” Respondeu James calmamente.
–“Quando terminar aqui, quero que leve ele para a cela no calabouço onde ficam os meus escravos, quero que o deixe lá por três semanas sem sangue para beber!” Ordenei ao James que fez uma reverencia, confirmando que entendeu a ordem, agora esse vampiro ia sofre exatamente o que Ian sofreu, mas não ia morrer, precisa de bem mais que isso para matar um vampiro.
–“Quem cozinha para os meus escravos, você sabe?” Perguntei antes de me retirar daquele lugar.
–“Sim, senhor!” Respondeu James.
–“Dê cinquenta chibatadas e depois demita, seja lá quem for!” Ordenei e novamente James fez uma reverencia.
Voltei para o meu quarto e vi que Ian ainda estava vivo! Ah, ele é realmente resistente, vou tentar salvá-lo, afinal, agora ele é meu cachorrinho.
Fui à cozinha, eu sabia que tinha carne na geladeira, pois havia mandado comprar para Ian, o que eu não sabia era porque ela não estava sendo dada a ele, quando deixei bem claro que era para ele.
Abri a geladeira e procurei a carne, havia um bom pedaço em uma bandeja, mas e agora? No folheto do governo não explicava se os mestiços preferem crua ou cozida, na verdade aquele folheto não explicava nada direito! Vou experimentar dar a carne crua, afinal ele é meio vampiro, deve gostar de sangue.
Voltei com a bandeja e uma vasilha de água, para o quarto.
Peguei primeiro a carne, era um bom pedaço, havia talvez uns dois quilos ali, peguei aquela coisa nojenta e asquerosa pela ponta dos dedos, credo... não sei como alguém pode comer isso... parece uma maçaroca molenga e gelada, o cheiro é muito ruim... acho que é porque meu corpo não foi feito para gostar disso! Ergui aquele negócio nojento sobre o rosto de Ian, tá, agora eu não sei como faze-lo comer... será que seria melhor picar em pedaços menores e jogar na boca dele? Será que ele vai conseguir engolir?
Eu estava divagando sobre como seria a melhor maneira de alimentá-lo quando do nada ele deu bote na carne, ele arrancou um bom pedaço da carne e a mastigou antes de engolir, seus olhos se abriram e ele me olhou.
Devo dizer que estou um pouco assustado com a voracidade com que ele se atracou a comer o restante da carne após roubá-la de minha mão, se você já viu um lobo comendo deve conseguir imaginar a cena com perfeição.
O barulho da carne rasgando ao ser puxada pelos dentes dele era de arrepiar, ele devorou a carne inteira em segundos, seus olhos me fitaram com vivacidade, quase dava pra ver um brilho predatório em seus olhos, admito... era lindo, assustador e excitante ao mesmo tempo.
–“Quer água?” Perguntei erguendo a vasilha com o líquido transparente, não precisei perguntar duas vezes pare ele se sentar na cama e quase enfiar a cara inteira na vasilha, ele bebeu tudo com igual voracidade que comeu a carne.
Ele voltou a deitar na cama respirando mais rápido, seus olhos piscaram de leve, provavelmente ele estava sofrendo de letargia após comer tanto, sem me dizer uma palavra sequer ele voltou a dormir.
Em segundos sua pele do lado não albino voltou a ter sua coloração de cor de pele, as mordidas e os pequenos arranhões alto impostos que haviam em seu corpo sumiram por completo, ele estava novinho em folha.
Vou dar um descanso pra ele.
...
Ian...
Tão quentinho, tão macio, tão bom, estou cheio e satisfeito, acho que estou em casa de novo e tudo aquilo não passou de um terrível pesadelo, mas é claro que a vida não é assim tão fácil, é claro que ainda estou nas mãos de um sádico, mas se possível quero ficar assim pra sempre.
O som de páginas virando ao meu lado me acordou, abri meus olhos e vi o demônio em pessoa ao meu lado, ele estava lendo um livro grosso, tentei ler a capa.
–“Moby Dick de Herman Melville, já li!” Acabei falando em voz alta.
Sephiron me olhou surpreso com uma sobrancelha erguida.
–“Impossível! Esse é o livro mais raro e o mais caro de todos, só deve haver uns três exemplares no mundo! E eu possuo um deles!” Sephiron se gabou.
–“Eu sei, meu pai me disse que a maioria dos livros foram queimados há muito tempo atrás, foi uma das muitas medidas do governo para conseguir controlar o povo e transformá-los em acéfalos e seguidores idiotas de um sistema falho!” Falei tudo isso calmo, mas era algo perigoso de se falar, ainda hoje o governo manda e desmanda e quem é contra a eles paga um preço caro.
–“Ora, quem diria, você tem opinião política! E pelo visto tem cultura!” Sephiron saiu de sua posição sentando e encostado na cabeceira da cama e se deitou ao meu lado.
–“O que achou do livro?” Ele perguntou curioso “Não conheço muitos que já tenham lido ele, já que ele é ilegal até hoje!” Sephiron riu disso.
–“Gosto de como ele dá detalhes sobre as embarcações sempre quis conhecer o mar, e essas histórias me deixam viajar a um mundo que nunca irei!” Respondi tranquilo.
–“Você disse que seu pai tinha esse livro, isso significa que ele é podre de rico e se ele te deixava ler, significa que você era bem tratado... o que aconteceu para você parar em um leilão? Ele foi à falência?” Sephiron pareceu muito interessado de repente.
–“Eu não sei ao certo... não entendi direito o que aconteceu, parece que meu tio traiu meu pai e o denunciou ao governo... meu pai tinha muitas coisas ilegais além de mim, acho que ele foi preso!” Respondi e uma vontade incontrolável de chorar tomou conta de mim.
–“Quem é o seu pai? Um vampiro tão rico... devo conhecer, eu já devo ter cruzado com ele em alguma festa de gala ou coisa do tipo!” Sephiron fez uma careta quando falou em festa, acho que ele não gosta de socializar.
–“Joseph L. Shadowy” Era estranho falar o nome dele, eu sempre o chamei de pai.
–“Espera... J.L. Shadowy?... VOCÊ É FILHO DELE?” Sephiron se sentou na cama, chocado.
–“O que foi?” Perguntei sem entender.
–“Você só pode estar de brincadeira comigo... hahaha eu fodi o filho de um dos vampiros mais poderosos da história hahahahaha!” Ele caiu na gargalhada com isso.
–“Do que é que você esta falando?” Perguntei sem entender a reação dele, eu estava um pouco chocado em saber que meu pai era um dos vampiros mais poderosos da história, quer dizer, eu sabia que ele era muito antigo, ele me disse uma vez que conheceu o próprio conde Vlad Tapes, Príncipe da Valáquia e vulgo conde Drácula, cuja história e nome assombram até hoje a todos. E isso foi há mais de três mil anos atrás.
–“Você só pode estar mentido pra mim, não tem como você ser filho dele... ele é muito... intocável para ter tido algo tão impuro como você! Não há como imaginá-lo sendo... pai, ele é quase... um deus!” Os olhos de Sephiron brilharam ao falar de meu pai.
–“Acho que alguém esta apaixonado!” É eu sei que cutuquei o ninho de vespas, mas fazer o que, minha mente às vezes não controla a minha boca, pesei que ele fosse me castigar por essa frase atrevida, mas ele simplesmente continuou a conversar normalmente.
–“É claro que não... eu sou devoto a ele, sempre quis ser tão poderoso e imponente como ele! Por onde ele passa todos se borram de medo! Um olhar dele era o suficiente pra fazer até o mais corajoso dos vampiros sair correndo com o rabo entre as pernas!” Novamente os olhos de Sephiron brilharam.
Com certeza Sephiron e eu não estávamos falando do mesmo vampiro, meu pai com certeza era um grande vampiro e sei que eu sentia uma presença assustadora emanando dele, mas não tem como ele ser tudo isso, ele é apenas... o meu pai para mim.
–“Não tem como a gente estar falando do mesmo vampiro, se meu pai fosse mesmo tudo isso... porque então ele seria preso tão facilmente... tem algo de muito errado ai!” Suspirei cansado.
–“Com certeza é de outro vampiro que você está falando, pode até ser que seu pai tenha roubado o nome desse meu ídolo só para ganhar status, tem muitos que fazem isso por ai!” Sephiron voltou a se deitar na cama e relaxou.
–“Meu pai nunca roubaria o nome de ninguém! E reze para que você esteja certo e esse seu ídolo não seja o meu pai... porque se for ele mesmo, preparasse para ter a sua cabeça arrancada por ele! Pois ele com certeza vai vir me salvar um dia!” Ameacei furioso e uma nova esperança surgiu no meu peito.
–“Hahaha, você pode sonhar, pois isso é de graça!” Sephiron debochou de mim.
O encarei zangado, mas demorei a perceber que eu estava na cama dele e sem a real finalidade que ele me colocava nela.
Ele pareceu percebe que eu estava olhando ao redor estranhando tudo, ele sorriu pra mim de um modo assustador e se virou para o seu criado mudo, pegando algo ali que não pude ver direito.
–“Me dê sua mão esquerda!” Ele ordenou e não sei por que eu fui obedecer isso, DROGA, eu tenho demência ou o que?
Ele cravou uma seringa com uma agulha grosa na carne entre o meu polegar e o meu indicador e então apertou o embolo, tudo isso em apenas um segundo, eu nem pude reagir.
–“AIII! Isso doeu... o que você me injetou?” Entrei em pânico, seria algum afrodisíaco ou alguma injeção letal? Será que ele já se cansou de mim e vai me sacrificar? Não, isso não faz sentido, porque ele ia me alimentar antes de me sacrificar?
–“Coloquei um chip rastreador em você, como esse aqui!” Ele me mostrou um negocinho do tamanho de um grão de arroz.
–“Porque isso?” Olhei para a minha mão, ela latejava, mas já estava curada.
–“Você acaba de subir de Status, parabéns, você é o meu primeiro escravo que se torna bichinho de estimação! A parti de hoje poderá andar pela casa e dormira aqui comigo!” Ele respondeu.
–“Muito corajoso da sua parte! E se eu aproveitar isso para te matar enquanto dorme?” Lancei um sorriso convencido para ele.
–“Eu tenho um sono muito leve! Se você falhar na tentativa de me matar... bem sabe que vou te castigar com algumas das minhas varras!” Ele apontou para o lugar onde ele as guardava e eu estremeci.
–“Então... agora que sou um bichinho de estimação... você não vai mais me foder né?” Perguntei me enchendo de esperança.
–“Vai sonhando... agora eu vou ter acesso a você vinte e quatro horas por dia!” Os olhos de Sephiron brilharam de forma predatória para mim.
–“Merda!” Quando eu acho que a minha vida vai melhorar, ela piora duas vezes mais.
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