Sangue quente.
38 Questionamentos.
Notas iniciais
Monstro...
Eu estava prestes a dar a ordem para Leonard, quando me lembrei de um detalhe importante. Quando tudo aquilo aconteceu comigo e com a Sophia, nós já erámos um pouco mais desenvolvidos.
Nós já tínhamos até personalidade e um corpo mais funcional e semidesenvolvido. Talvez esse não seja o melhor momento para atacar... Talvez eu deva aproveitar isso para estudar o desenvolvimento desses seres. E quem sabe assim eu possa descobrir um pouco mais sobre a minha espécie.
Leonard ainda me olhava assustado, ele estava esperando a ordem que ferraria a sua vida, mas o ignorei completamente, por hora esse garoto está a salvo.
Fui me sentar mais perto dos criadores para observar meus novos experimentos.
Na TV passava uma reportagem sobre um vampiro apelidado de Sr. Cicatriz. Aparentemente ele voltou a atacar algum estabelecimento que tortura os mestiços. Dessa vez ele invadiu um campeonato de rinha de mestiços, que por acaso estava sendo televisionado, mas ele nem ligou para as câmeras... bem, ele não tem com o que se preocupar, né? O rosto dele está desfigurado, não tem como identificá-lo.
O tal Sr. Cicatriz fez um belo estrago no local da rinha. Ele implantou bombas em vários lugares estratégicos, criando assim muita distração para os guardas e causando uma correria nos civis. Ele teve bastante tempo para agir, então ele matou alguns Condes aleatórios e fugiu logo depois, levando junto os mestiços que estavam destinados a lutar até a morte.
O estranho é que ele parecia estar caçando alguém. Os repórteres, os investigadores do caso e até os criadores ao meu lado não perceberam o modo que ele estava se comportando, parece mesmo que só eu percebi o modo de operação dele. O Sr. Cicatriz deliberadamente escolheu suas vítimas, ele podia ter matado muitos Condes que passaram pelo seu caminho, mas ele os ignorou completamente e atacou apenas os que ele estava focando.
—“Seph... quem será esse sujeito? Ele está realmente resgatando mestiços? Será que meu pai está envolvido nisso?” O hospedeiro olhou para o progenitor com ansiedade, o progenitor por sua vez parecia um pouco perturbado, ele até acabou fazendo um carinho na cabeça do hospedeiro de modo distraído... Será que ele também percebeu algo de estranho nesse cara da TV?
—“Não sei Ian... mas esse cara deveria tomar cuidado, ele está irritando muita gente. Irritar Condes não é uma boa ideia.” O progenitor suspirou cansado. Sinceramente eu não sei o que está acontecendo e nem me importo se o mundo está acabando lá fora, a batalha deles não é minha e se fosse, eu acabaria com ela em pouquíssimo tempo... matando todos os envolvidos, é claro.
Mas no momento tudo que me importa está dentro do hospedeiro, que continua agindo como se nada estivesse acontecendo dentro de seu corpo... Será que ele não sente que há três criaturas dentro dele roubando seus nutrientes para se desenvolver? Que bizarro!
Uma semana inteira se passou, seguimos com a mesma rotina de sempre, com tudo completamente igual e normal como sempre... E mais ninguém além de mim pareceu perceber a existências dos novos bebês.
Os apelidei de experiência 1, 2 e 3... Eu até já posso distingui-los perfeitamente.
Em questão de poder, mentalidade e físico, eles são completamente diferentes um do outro, assim como eu e a Sophia éramos, mas eles também são muito parecidos em vários pontos e aspectos... E isso os torna diferentes de mim e da Sophia.
Eu e Sophia erámos opostos, sendo assim tínhamos de ser inimigos naturais. Já esses três... bem, esses três se gostam mesmo tendo suas diferenças. Eles não se vêm como possíveis inimigos um do outro, eles se vêm como... parceiros, ele se... amam. Porque isso? Porque nenhum deles é igual a mim? Porque todos são como a Sophia?
Graças o tempo que passei analisando-os, eu posso dizer tudo sobre cada um deles.
A experiência 1 é inteligente... Talvez até mais inteligente do que eu e a Sophia erámos nessa mesma época. Ele tem apenas uma semana de existência e já sacou que eu estou aqui fora e que represento perigo para ele e para os irmãos. Ele parece saber as minhas intenções, mas até agora ele não tomou nenhuma medida contra um possível ataque da minha parte.
Fisicamente ele não é grande coisa, seu desenvolvimento é lento e seu corpo ainda não tem muita funcionalidade. Seus órgãos ainda estão em formação, assim como os seus membros. O seu coração e o seu cérebro são os únicos órgãos mais bem formados. Acredito que ele não será muito forte fisicamente, mas sua inteligência será difícil de se combater.
Ele já sabe que está dentro do hospedeiro e já o ama e o admira acima de tudo. Ele também já reconhece a voz e a presença do progenitor, ele até o considera um grande protetor... talvez seja por isso que ele ainda não tomou nenhuma providencia contra mim, ele deve acreditar na proteção do progenitor. Ele também tem sentimentos por Leo, apesar dele saber que não há uma ligação consanguínea entre eles.
Aposto que se ele for a experiência que sobreviverá aos meus testes, será fácil torná-lo meu inimigo, vou precisar apenas ameaçar a vida dos criadores.
A experiência 2 é forte, resistente e rápido... Fisicamente ele é o mais bem desenvolvido, tendo um corpo quase completo e funcional. Acredito que ele seja muito mais adaptável a situações estremas do que eu e a Sophia novamente.
No entanto, apesar dele ser o mais bruto e ter mais poderes com relação ao físico do que os outros dois, ele é o mais sentimental dos três experimentos... Posso sentir que ele tem um grande carinho pelos irmãos e um grande senso de proteção e de dever para com eles. E por causa desses fatores, ele é capaz até mesmo de se prejudicar pelos irmãos. Ele sabe que é o mais forte e que por isso pode roubar mais nutrientes do hospedeiro do que os outros, mas ele não faz isso, pois sabe que irá prejudicar aos irmãos... Que burro, ele poderia facilmente matar os outros dois e se tornar ainda mais forte, mas ele não o faz... Porque isso? Ele poderia já ter o dobro do tamanho e força que tem agora, mas ele está se prejudicando pelos outros.
A experiência 2 ainda não tem noção do mundo ao seu redor, ele não sabe que existe um hospedeiro e um progenitor o tempo todo ao seu lado. Quero só ver qual vai ser a reação dele quando descobrir.
As experiências 1 e 2 são perfeitos, mas se eu tiver a oportunidade de recriar exatamente tudo o que aconteceu comigo e com a Sophia, eu espero que esses dois se fundam assim como aconteceu conosco. Mas acredito que diferente de nós dois, eles não iram brigar pelo controle do corpo. E isso me trás tantas perguntas... Se eles podem se gostar e podem ser iguais na questão emocional... porque eu e a Sophia erámos diferentes? Porque eu nasci assim? Porque não tem mais ninguém como eu?
Perguntas e mais perguntas se acumulam na minha cabeça, devo estudar isso mais a fundo, pois isso pode me ajudar a entender o meu real motivo de existir.
Ah... ainda falta a experiência 3, né? Afff... eu nem deveria perder meu tempo com esse, mas lá vai.
A experiência 3... bem, esse já deveria ter morrido, não vejo nada de poderoso nele, na verdade, ele é tão fraco que parece doente e seus irmãos sabem disso, mas ao em vez dos outros dois se aproveitarem disso para mata-lo e assim roubar o pouco de poder que ele tem, os outros dois cuidam e o ajudam a sobreviver.
Já percebi que os dois primeiros doam parte de suas forças, nutrientes e energias para o terceiro, acho que se não fosse por isso, ele já teria morrido. Porque eles gastam energia com esse ser moribundo? Aposto que esse terceiro nem vai chegar a sobreviver aos meus testes e se sobreviver por ajuda dos outros, ele vai morrer no parto. Não entendo porque gastar energia com esse ser patético.
Aposto que ele é totalmente humano ou talvez seja um mestiço como o hospedeiro. E o fato dele estar dentro do ventre com dois seres diferentes está minando suas chances de sobrevivência, mas eu não me importo com ele, a experiência 3 não é importante para os meus planos futuros, então quanto mais cedo ele morrer, melhor.
Mais uma longa semana passou.
As experiências estão evoluído, com exceção, é claro, da experiência 3. Ele é um inútil mesmo, não tem inteligência, força ou qualquer outra habilidade que possa destaca-lo dos outros, mas segue sobrevivendo com a ajuda dos irmãos que já tem quase o dobro do tamanho dele. Ele não passa de um pequeno parasita que está atrapalhando o desenvolvimento dos outros, eu deveria extirpa-lo logo.
A experiência 1 é mesmo muito esperto... ele está me vigiando, posso sentir isso. Ele se mantem sempre alerta quando estou por perto e já é capaz de aprender a linguagem que escuta dos progenitores, mas ele também criou uma linguagem própria para se comunicar com os irmãos, acredito que ele fez isso para me manter de fora do papo deles... espertinho, ele já está me dando problemas para lidar com ele... é assim que eu gosto! Eu quero um desafio e ele está me dando o que eu quero.
O experimento 2 acaba de perceber que existem outros seres ao seu redor além de seus irmãos, ele está simplesmente encantado com o progenitor e... parece que o idiota me acha legal, ele me vê como um irmãozão e está ansioso para aprender comigo... que idiota!
O experimento 2 já tem um corpo completamente formado, ele já consegue nadar livremente. Estou só esperando o experimento 1 conseguir fazer o mesmo para por o meu plano em prática.
Andei observando os criadores também, eles seguem em um momento super sentimental, na verdade durante as noites eu não escuto mais os gemidos sofridos do hospedeiro, somente suspiros de contentamento, o que me leva a crer que o progenitor não está mais sendo sádico com ele durante aqueles momentos de união física bizarra que eles sempre fazem antes de dormir.
Reparei que quando o hospedeiro está assim, todo feliz e contente com as caricias do progenitor, ele libera hormônios que deixam os experimentos mais... felizes e sentimentais também.
Eu já entendi que para os criadores conseguirem fazer um bebê, eles têm que estar ligados emocionalmente e não só fisicamente, mas o que acontece quando eles se unem em meio a uma emoção ambígua? Como amor e ódio por exemplo.
Será que é isso? Será que quando eu fui feito, eles não tinham carinho o suficiente um pelo outro? Então... eu fiquei do mal por causa disso, será que é isso? É culpa deles o fato de eu ser diferente? Mas porque justo eu?... Porque a Sophia recebeu a parte do carinho deles e eu não? Porque ela? O que ela tinha de melhor que eu? Porque fizeram isso comigo?
Eu... eu não queria ser assim... eu não pedi pra ser assim.
Mas isso me não importa mais... Se eles me fizeram com ódio, então eu devo odiá-los de volta mesmo. Se eles me fizeram ser assim, então eles merecem o que vem por aí.
Mais alguns dias se passaram e o idiota do hospedeiro ainda não percebeu que está abrigando em seu corpo outros seres... como isso pode ser possível? Tá certo que esses seres só têm umas três semanas de vida e são menores que um grão de ervilha, mas francamente, eles estão se alimentando por meio dos nutrientes do sangue dele, como ele pode não sentir isso?
Estávamos assistindo TV novamente, isso acabou se tornando um habito chato já que não tínhamos nada melhor para fazer.
Novamente estava passando uma reportagem sobre o cara das cicatrizes, ele tem feito uma fama e tanto nas últimas semanas, ele deve ser o cara mais procurando do momento.
Na semana passada, ele invadiu o leilão de escravos e conseguiu resgatar vários mestiços, ele foi ferido no processo, mas nem ligou... esse cara me parece interessante.
E ontem a noite ele invadiu a casa de vários Condes e os trucidou. Uma lista com os nomes dos seis Condes mortos foi passada na tela e logo o progenitor ficou inquieto e abalando.
—“Seph? O que foi querido?” Perguntou o hospedeiro ao ver o progenitor se levantar da poltrona e andar em círculos pela sala com uma expressão muito inquieta.
—“Seph... o que ouve? Qual o problema?” O hospedeiro preocupado com o modo que o progenitor estava agindo, se levantou e foi abraça-lo.
—“Ian... esses Condes...” O progenitor começou a falar de uma forma muito abalada... eu nunca o vi assim antes, o que há de errado com ele?
—“Me fala Seph... você está me assustando.” O hospedeiro insistiu.
—“Esses Condes, eles...” O progenitor olhou para eu e o Leo e se calou por um momento, ele pegou o hospedeiro pelo braço e o arrastou para longe de nós, mas ficou perto o suficiente para ficar de olho em Leo e por esse motivo eu consegui escutar a conversa mesmo assim.
—“Os Conde que esse cara matou no ataque a rinha, no leilão e agora esses seis de ontem... eles estavam naquela festa... entende?” O progenitor cochichou para o hospedeiro e imediatamente o hospedeiro perdeu a cor no rosto... Que festa é essa que eles tanto falam? Eu sei que tem algo a ver com o trauma do progenitor, mas eu não sei tudo sobre isso ainda.
—“Seph... oh minha nossa... o que isso quer dizer?” O hospedeiro cochichou de volta para o progenitor, ele estava tentando manter a calma, mas pude sentir uma mudança física nele, ele ficou nervoso e tenso e isso não fez bem aos três experimentos dentro dele.
—“Eu não sei Ian, isso pode significar um monte de coisas... Pode ser simplesmente uma coincidência. Ou pode ser seu pai se vingando por mim ou...” O progenitor estava mesmo muito agitado e passava as mãos pelo cabelo enquanto pensava nas possibilidades, isso também não fez bem para as experiências.
—“Ou?” O hospedeiro insistiu nervoso.
—“Eu não sei, mas isso está estranho... quem é esse cara? E o que ele está fazendo com todos esses mestiços que resgata? Quer dizer, ele pode ser um cara legal, que faz parte da revolução e que está querendo apenas libertar os escravos, mas não podemos descartar a possibilidade dele ser um vampiro ligado ao mercado negro e que está vendendo ilegalmente os mestiços ou até fazendo coisa pior com eles.” O progenitor falou tudo isso com uma expressão tensa. Porque eles se preocupam com mestiços alheios? Quem se importa se tem um ou outro mestiço sendo torturando nesse momento em algum lugar no mundo?
—“Sim, eu também venho pensando nisso, mas... será que alguém se arriscaria tanto assim para vender mestiços no mercado negro?” O hospedeiro estava respirando estranho agora, era uma mudança mínima e quase imperceptível, mas eu pude notar que ele estava meio arfante.
—“Ian, tem maluco pra tudo nesse mundo, ele pode ter outros objetivos, eu não sei.” O progenitor suspirou consternado.
—“Queria poder entrar em contato com o meu pai...” O hospedeiro ficou triste e choramingou.
—“Eu sei... eu também gostaria disso.” O progenitor fez um carinho no rosto do hospedeiro... Porque eles querem fazer contato com esse tal pai do hospedeiro? Quem é ele? E porque ele é importante?
—“Seph eu...” O hospedeiro tomou folego para dizer algo, mas de repente do nada, ele fechou os olhos e seu corpo desmoronou, por sorte o progenitor o pegou antes que ele se estatelasse no chão.
—“Ian? Ian fala comigo... IAN” O progenitor sacudiu de leve o hospedeiro nos braços, mas ele não acordou... ai droga, o que está acontecendo agora? Levantei-me junto com Leo e corremos até os dois.
—“Sr. Ian... o que foi?” Leo chegou perguntando e tentando acordar o hospedeiro que estava pálido nos braços do progenitor.
—“Tsk... Droga!” O progenitor correu para o quarto deles comigo e com Leo em seu encalço, ele depositou o hospedeiro com carinho sobre as cobertas e correu para porta do quarto, mas antes de sair, ele se virou e olhou sério para o Leo.
—“Se você fizer alguma coisa ruim... você já sabe.” O progenitor lhe lançou um olhar ameaçador e então se mandou para algum lugar, nos deixando sozinhos.
Leo me encarrou desconfiado quando subi na cama e me sentei ao lado do hospedeiro o observando melhor.
—“Não toque nele.” Leo barrou a minha aproximação e me encarou corajosamente.
—“Fica calmo Leonard, eu não pretendo fazer nada contra ele... que dizer, não ainda.” Respondi com um sorriso maldoso pra ele.
Leonard saiu do meu caminho, mas ficou me olhando como uma águia, cuidando cada movimento que eu fazia, eu o ignorei por hora. E então encarei o hospedeiro, ele estava pálido e gelado, mas estava bem, acho que só desmaiou.
A experiência 1 também está analisando o que está acontecendo com hospedeiro. A experiência 2 está em pânico, nadando para todos os lados... Já o 3... bem, esse aí não está bem, acho que ele não vai sobreviver a isso.
—“Afastem-se.” Disse o progenitor que voltou trazendo um pedaço grande de carne em uma bandeja.
O progenitor ajudou o hospedeiro a comer os pedaços nojentos de carne, isso melhorou um pouco o estado dele, mas não era o suficiente, ele precisava de sangue humano.
—“Hmm... o... o que aconteceu?” O hospedeiro acordou aos poucos e olhou para todos ao seu redor totalmente perdido.
—“Você desmaiou... acho que você não tem se alimentado bem o suficiente... Desculpa isso é minha culpa, eu deveria sair para caçar mais, assim você não estaria racionando a comida.” O progenitor ficou com raiva de si mesmo... Bem, é verdade, ele deveria dar mais nutrientes para o hospedeiro, afinal ele está perdendo muito ultimamente.
—“Eu estou bem agora... não se preocupe com isso.” O hospedeiro tentou se sentar na cama, mas estava fraco demais para isso.
O hospedeiro estava querendo tranquilizar a todos fingindo estar bem, mas eu podia ver que isso era mentira, ele não está nada bem.
Desse jeito meu plano vai acontecer naturalmente e antes do momento certo. Tenho que pensar em uma forma de melhorar o estado dele.
—“Eu posso ir caçar algo... eu... eu consigo senhor Ian.” Leo se ofereceu para ir trazer mais carne... isso ajudaria, mas não o suficiente, ele realmente precisa de sangue humano.
—“Eu não sei Leo... isso é perigoso e...” O hospedeiro olhou para o Leo preocupado e depois me lançou um olhar mais preocupado ainda, acho que ele estava com medo de que eu desse um chilique por causa dos animais que precisariam morrer na caçada. Dei de ombros provando que não me importava, acho que Sophia ficaria triste com isso, mas ao perceber que isso é importante para o hospedeiro, ela deixaria isso passar também.
—“Vai logo moleque... pegue o que conseguir.” O progenitor falou rudemente para o Leo.
—“Eu não irei decepcioná-lo.” O garoto estufou o peito e saiu correndo do quarto.
—“...” O hospedeiro encarou o progenitor sem entender.
—“Desse jeito posso dar atenção total a você e não precisarei ficar de olho nele.” O progenitor resmungou para ele.
—“Afff... Seph, ele tem se comportado muito bem e...” O hospedeiro tentou defender o Leo, mas foi interrompido.
—“Tem se comportado bem porque eu estou de olho... ele é muito espertinho.” O progenitor bufou.
—“Seph...” O hospedeiro resmungou para ele.
—“Shhh.... tente descansar um pouco, eu vou preparar algo pra você com o restante da carne que temos e com alguns legumes que achamos no nosso jardim selvagem, que tal? Enquanto isso a criaturinha aqui pode cuidar de você.” Disse o progenitor que me fez um carinho na cabeça, eu não estava esperando por isso, então não desviei a tempo e fiquei surpreso com o toque inesperado... isso era estranho.
—“Isso me parece bom.” O hospedeiro sorriu para mim, ele estava feliz com a minha aproximação, ambos os criadores me lançaram um olhar carinhoso... é minha impressão ou ar ficou mais quente?
—“Durma um pouco, eu já volto.” O progenitor deu beijo na boca do hospedeiro e se mandou.
O progenitor foi preparar a comida humana como prometera e o hospedeiro acabou caindo no sono depois de uns cinco minutos, apesar dele lutar contra o mesmo para ficar conversando comigo.
Apesar da comida humana ser umas das coisas que ele necessita, isso não será o suficiente para mantê-lo bem... O problema é que ele precisa de sangue humano e pelo o que eu sei... isso é quase impossível de se conseguir atualmente.
Talvez sangue de mestiço seja um bom substituto, mas pode não dar certo... droga, o que eu faço? Eu não quero perder essa chance de ter um inimigo. Preciso fazer algo e logo.
Pensei em todas as minhas possibilidades. Sair à noite para procurar outra cidade aqui perto e então pegar sangue de um mestiço qualquer, era a opção mais inteligente no momento, mas eu teria de esperar até de noite e esse tempo todo poderia ser decisivo para a recuperação das experiências.
Bem... eu tenho um pouco de sangue humano correndo em minhas veias, querendo ou não isso faz parte de mim... Eu poderia tentar doar ao hospedeiro um pouco, eu só precisaria concentrar em uma parte especifica do meu corpo e pronto, nesse lugar estariam as minhas células humana. Mas a pergunta é... eu devo fazer essa boa ação?
Bem... pelo meus experimentos... eu faço isso.
Concentrei-me no meu braço esquerdo e separei minhas células. As células humanas se reagruparam todas nesse braço e as células vampiras ficaram no restante do meu corpo. Nesse momento eu sou um tipo de criatura com um braço humano... Interessante, a cada dia aprendo mais sobre as minhas capacidades.
Fiz um corte no braço e dei o líquido que brotou do ferimento ao hospedeiro, ele bebeu por reflexo e por sorte não acordou. Imediatamente eu vi melhora no estado dele, sua cor voltou e seu coração acelerou, os experimentos também sentiram melhora e se acalmaram.
Afastei meu braço dos lábios do hospedeiro e deixei as células vampiras voltar ao braço, desse jeito logo o ferimento fechou. Pronto, posso relaxar agora.
—“Obrigado” Uma voz soou em minha cabeça.
—“Sophia?” Por um minuto me arrepiei e me assustei com a possibilidade, quase me animei com isso, mas logo percebi que não era ela... era a experiência 1... Ele descobriu um modo de falar telepaticamente comigo?
Hmm... Tecnicamente eu podia falar telepaticamente com a Sophia quando estávamos dentro do ventre do hospedeiro e sem usar nenhum tipo de poder especial... Era tipo uma ligação que tínhamos. Então provavelmente o fato de eu ser geneticamente compatível com esses três, me torna capaz de poder falar com eles também... interessante.
—“Não me agradeça, você sabe que eu só fiz isso porque tenho planos que quero cumprir no futuro, não sabe?” Respondi telepaticamente para ele... ou ela, eles ainda não possuem sexo.
—“Sei de suas intenções e... peço que repense nisso. Diferente do que aconteceu com vocês, nenhum de nós aqui dentro está disposto a tomar vantagem sobre o outro. Se o pior acontecer, iremos juntos para o outro lado.” Recebi a resposta da experiência 1, nossa ele já entende muito bem essa linguagem... e aprendeu mais rápido do que eu e a Sophia.
—“E como você sabe o que aconteceu comigo e minha irmã?” Isso me surpreendeu, na verdade isso me assustou... como ele poderia saber dessa coisas?
—“Estou te estudando detalhadamente desde o primeiro minuto em que percebi sua existência, assim como você vem me estudando. Eu já li sua mente, já estudei seus poderes, já senti suas angustias e medos... sei o porquê você quer fazer isso conosco, mas você não vai ganhar nada ferindo mais de seus irmãos... Ou por acaso você já se esqueceu do arrependimento que sente por ter se livrado da sua irmã?” A experiência 1 me falou isso de forma superior, ora... quem ele pensa que é?
—“Não... queira...” Me atrapalhei por um minuto e reformulei o que eu ia dizer.
—“Não pense que você é mais esperto que eu... você... você não vai conseguir me manipular, eu sou o mestre na manipulação.” Rebati isso com raiva, não acredito que me atrapalhei antes... droga!
—“Mestre da manipulação? É isso que você pensa de si mesmo? Você nunca manipulou ninguém... você somente atormentou sua irmã e agora está fazendo o mesmo com Leo, mas no fim a sua irmã venceu.” A experiência 1 parecia cheio de convicções.
—“Ela venceu? Você é idiota? Ela perdeu, ela morreu... EU a matei.” Essa experiência estava despertando a minha ira.
—“Não, você não a matou, ela se entregou daquele jeito porque não podia te ferir. Mas ao te poupar e ao se entregar... ela te venceu, ela tirou de você a coisa mais importante para a sua existência. E você sabe muito bem que as coisas não existem sem um oposto. Não existe luz, sem escuridão, não existe amor sem ódio... Você é um ser incompleto e por isso não tem utilidade nesse mundo, é por isso que você está tão desesperado procurando qualquer coisa que possa te parar ou que possa ser seu oposto, porque você quer ser completo de novo... Você quer voltar a existir.” A experiência 1 disse isso calmamente e isso me irritou ao máximo.
—“CALA A BOCA! CALA ESSA MALDITA BOCA SE VOCÊ NÃO QUER SOFRER COM O MEU PLANO NESSE EXATO MOMENTO.” O ameacei com toda a minha fúria.
—“...” Ele se calou... acho bom mesmo.
—“Maldito, não pense que sabe das coisas, você não sabe de nada... você nem nasceu e talvez nem chegue a nascer.” Eu disse isso tentando me controlar, mas isso era verdade, essa coisa... não sabe nada da vida ainda e já quer dar uma de superior pra cima de mim?
—“É... eu ainda não sei muito sobre o mundo aí fora, mas ao te estudar, eu posso tentar evitar que a história se repita. Estou cuidado dos meus irmãos e eles estão cuidando de mim também. Você nunca vai conseguir recriar o que aconteceu com vocês, porque somos diferentes de vocês, mas quer saber de uma coisa?” A experiência 1 seguiu falando, ele está mesmo querendo morrer antes do previsto.
—“O quê?” Acabei caído na armadilha de questiona-lo... maldita curiosidade.
—“Você também é nosso irmão, então... porque você não se une a nós?... porque você não toma como motivação de vida a nossa proteção?” Fiquei sem reação ao ouvir isso.
—“Não diga besteiras... não seja tolo, eu nasci para destruir. Eu só quero alguém que possa me dar um pouco de diversão e me ofereça resistência ao meu poder.” Rebati isso com convicção.
—“Isso é o que você pensa... mas você vai mesmo deixar algo tão estupido te definir?” Me senti um pouco sacudido quando ele me disse isso... acho que a Sophia já me disse algo assim.
—“...” Ora porque que eu estou batendo papo com esse projeto de... seja lá o que ele for... Dane-se o que ele pensa, ele não entende nada mesmo... não vou ficar aqui perdendo o meu tempo tentando faze-lo entender como as coisas funcionam.
Levantei-me e dei as costas para o hospedeiro, eu vou procurar algo melhor pra fazer.
—“Eu te dei uma chance... pense nisso um pouco... Afinal, você mesmo se questionou o porquê você é assim. Você disse que não queria ter nascido assim... Estamos dispostos a te dar amor, assim como os criadores estão... você só precisa dar uma chance pra eles. Eles não sabiam que você ia ser assim por culpa de sentimentos incertos no passado deles... tente perdoa-los. E... dê uma chance pra nós também... por favor, irmãozão.” A experiência 1 disse isso e finalmente se calou. Quanta besteira ele falou, francamente eu não vou mesmo com a cara dele, acho que a experiência 2 deve ser melhor, espero que seja o 2 quem vai sobreviver.
Outra semana se passou em um ritmo lento e entediante... droga! Eu não vou aguentar messes dessa loucura.
Leonard voltou naquele mesmo dia com variados tipos de carne, ele conseguiu pegar vária presas de pequeno e médio porte e isso o fez subir um pouco no conceito do progenitor.
O progenitor também conseguiu bastantes legumes e frutas no jardim e isso deu um ânimo a mais ao hospedeiro, que agora tem um apetite descomunal. Ele está realmente comendo por quatro agora.
E o mais interessante é que desde que ele começou a comer comida humana, a experiência 3 vem demonstrando uma grande melhora. Acho que ele é realmente um humano ou no máximo um mestiço mesmo, por isso necessita de comida humana para se recuperar.
Eu também tive muito haver com a melhora do hospedeiro, já que passei a ir a diferentes cidades atacar diversos mestiços durante a noite. Eu fazia o hospedeiro beber o sangue deles enquanto dormia, por isso ninguém sabe das minhas aventuras noturnas.
Mas eu ainda me surpreendo por ninguém notar a existência das experiências ainda... será que eles só vão perceber quando a barriga começar a crescer? Bem, acho mais provável que eles descubram quando eu colocar meu plano em prática. E isso deve acontecer ainda essa semana.
Desde aquele dia eu não consegui mais ter contato com a experiência 1, não conversamos mais, mas ele tem batido muito papo com seus irmãos, no entanto, infelizmente usando sua linguagem secreta. Sempre que estou perto de decifrar o código e entender o padrão da conversa, ele muda alguma coisa e isso torna a conversa deles impossível de ser decifrada e interpretada... Droga!
Quer saber... acho que está mais do que na hora de por meu plano em prática.
Era noite, estava quase no horário de irmos deitar. Estávamos todos na sala, de frente para a lareira, lá fora o tempo estava ficando cada vez mais frio. A televisão estava ligada e o progenitor estava na sua poltrona assistindo o noticiário.
O hospedeiro estava ao lado da lareira se esquentando e Leo estava sentado no chão alisando com seus dedos as tramas do tapete caro... Era agora.
—“Leo... tenho uma ordem pra você.” Falei telepaticamente com ele.
Leo pulou de leve com isso, fazia tempo que eu não o perturbava, na verdade desde que descobri sobre as experiências, eu não tenho mais mexido com ele.
—“Quero que você soque com todas as forças a barriga do hospedeiro.” Dei a ordem mentalmente e me acomodei melhor no sofá para assistir tudo de camarote.
Leo me lançou um olhar apavorado quando seu corpo começou a se mover para cumprir a ordem. Ele relutou contra isso, tentando se afastar do hospedeiro e isso causou um tremor em seu corpo que lutava entre seguir a ordem e fugir.
Leo foi dando passos cambaleantes em direção ao hospedeiro, que aproveitava o calor das labaredas do fogo. Leo estava a cada segundo mais perto. Ele estava a três passos... dois passos... um passo.
—“Oh, Leo querido... está com frio? Quer se esquentar comigo?” O hospedeiro abriu os braços o convidando para um abraço, Leo encheu os olhos de lágrimas enquanto lutava contra a ordem que fazia seu braço se mover para preparar o soco.
De repente o inesperado aconteceu, Leo olhou para o fogo na lareira e pulou nele enfiando suas mãos nas chamas.
O caos se instalou depois disso, Leo gritou de dor, o hospedeiro entrou em pânico e o progenitor correu para segurar Leo e o tirar da lareira.
—“QUAL É O SEU PROBLEMA MOLEQUE?” O progenitor gritava para o garoto que agora tinha as mãos em carne viva e isso para um vampiro era algo muito ruim.
—“SEPH... AI MEU DEUS... O QUE EU FAÇO?” O hospedeiro entrou em pânico e se agitou em total desespero tentando fazer algo para aliviar a dor de Leo que estava aos berros nos braços do progenitor.
Mas que merda... Porque ele fez isso?
Leo seguia gritando de dor e se debatendo nos braços do progenitor, mas ele abriu os olhos e me encarou com raiva.
—“FOI ELE... ESSA CRIATURA DEMONÍACA VEM ME MANDANDO FAZER COISAS RUINS... ELE QUERIA QUE EU MACHUCASSE O SR. IAN, MAS EU NÃO PODIA FAZER ISSO... POR ISSO... POR ISSO... EU ME FIZ ISSO, PARA QUE EU NUNCA MAIS POSSA FERIR OUTRO SER A MANDO DESSA CRIATURA DESPREZÍVEL.” Leo falou isso aos berros apontando pra mim como pode com seus dedos em carne viva. O progenitor e o hospedeiro me encararam de forma estranha... o ar ficou mais frio ou é impressão minha?
Droga... eu não sabia que o desejo do Leo de proteger o hospedeiro era maior que o pacto de sangue que tínhamos.
Acho que ao dar essa ordem de ferir o progenitor, Leo lutou com tudo que tinha e preferiu se se alto mutilar ao cumprir a ordem. A dor deve ter sido tamanha que ele chegou ao ponto de conseguir quebrar todas as minhas ordens anteriores... Ele conseguiu contar a verdade sobre mim... O que vai acontecer agora?
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