Sangue quente.
33 Adeus...
Notas iniciais

Sophia...
Tentando respirar sem me engasgar com o caroço que se formava na minha garganta, eu encarei meus pais enquanto uma difícil decisão se estendia à minha frente.
Eu era tão jovem... não era justo que a decisão de vida ou morte do ser que me colocou nesse mundo estivesse em minhas mãos... Isso era cruel e até imoral. Porque eu tinha que passar por algo assim?
Porque eu tinha que por na balança a vida de alguém que eu amo? Sendo que do outro lado da balança estava a vida de milhares de inocentes?!
Porque eu não podia ser um bebê normal? Crescendo aos poucos, aprendendo coisas novas todos os dias. Tendo os meus pais como meus guardiões e pilares?... Mas não, a vida pra mim não podia ser assim tão fácil... e nem a minha morte seria algo rápido e indolor, mas era algo necessário para o bem de todos.
Tata gemeu ao se remexer na cama, ele parecia incomodado, acho que as feridas estavam doendo. Isso me partiu o coração... não era justo que ele estivesse sofrendo. E minha demora em decidir só tornava isso mais doloroso pra ele. Eu tinha que tomar uma decisão e tinha que ser logo.
O mundo ou meu Tata... Quem merece viver?
Droga... Como eu posso colocar a vida de uma única pessoa acima da vida de milhares? Como?
O certo a se fazer é salvar o mundo... não é? Então porque essa decisão me parece tão errada? Porque isso dói tanto?
Olhei o rosto de meu Tata, ele era puro, ingênuo e inocente... Porque ele tinha que morrer? Porque as pessoas boas nesse mundo pagam um preço alto pelas maldades das pessoas ruins? Isso não é justo.
Eu tive tão pouco tempo nesse mundo, mas esse pouco tempo foi o suficiente para que eu visse muita dor e destruição... Isso seria o suficiente para me fazer considerar a destruição do mundo, mas por sorte, não foi só isso que eu vi nesse mundo... eu também vi muito amor, carinho, altruísmo e sacrifício. Eu vi o quão bom as pessoas podem ser... meu Papai é a prova disso... então quem sabe ainda há esperança para o meu outro lado.
Eu gostaria de acreditar nisso, eu quero apostar todas as minhas fichas no amor. Quero acreditar que eu posso mudar o mundo para melhor. Quero acreditar que eu posso trazer meu irmão para o lado bom, mas eu sei que apenas acreditar em uma ideologia não adianta nada.
Meu outro eu tentava se manifestar e mexer comigo, mas eu não ia deixá-lo vir à tona agora. O tranquei com todas as minhas forças em minha mente, eu não ia deixar ele me atrapalhar agora nesse momento crítico.
Era agora... eu tinha que tomar minha decisão, matar ou não meu Tata... e para isso eu não poderia deixar meu irmão tomar as rédeas da situação. Apesar de que dar essa escolha para ele seria mais fácil pra mim... Pois a decisão dele, seria só dele... eu poderia seguir minha vida acreditando que essa morte não estava em minhas mãos e sim nas dele, mas não... eu tinha que ser firme agora.
Discretamente, tentando não acordar Tata, eu o mordi. Minhas presas se enfiaram em suas veias e então eu vacilei na minha decisão.
Bastava eu simplesmente injetar uma alta dose do meu veneno mais potente nele e... tudo acabaria, seria rápido e indolor para ele.
Enchendo-me de coragem, injetei algo nele.
Mas não foi meu veneno, eu não podia matá-lo... então injetei um antidoto para o meu veneno e uma parte de minhas habilidades de cura. Fiz o mesmo processo com Papai e o Leo. Eles não acordaram, eu consegui ser rápida e silenciosa.
Tomei a decisão de salvar meu Tata... Eu sei que isso podia ser a decisão errada, mas eu não conseguiria descansar em paz tendo a morte dele em minhas mãos.
Voltei a olhar o rosto contorcido de dor do meu Tata e percebi que eu era fraca... Eu nunca conseguiria tirar a vida dele com minhas próprias mãos, assim como eu não poderia esperar ele morrer de forma natural pelo meu veneno.
Eu sei que eu estou sendo egoísta ao pensar somente nos que eu amo e me esquecendo dos milhares que provavelmente irão sofrer quando Tata trouxer a esse mundo outro monstro como eu... mas eu não consigo deixar a razão falar mais alto do que meu coração. Afinal de contas... eu fui feita para amar.
Agora Papai, Tata e Leo eram imunes ao meu veneno. Não só isso, agora os três tinham uma pequena parcela do meu poder de cura... se meu outro eu os atacasse, eles teriam uma chance maior de sobreviver... Pelo menos enquanto esse meu poder durar no corpo deles.
Logo uma batalha entre eu e meu irmão se iniciaria. E eu provavelmente perderia para ele agora que estou enfraquecendo. E meu irmão com certeza tomará o controle do meu corpo depois disso, mas agora já é tarde... eu tomei minha decisão.
Eu me sentia cada vez mais fraca... a qualquer momento tudo acabaria... Eu poderia ir lá pra fora olhar as estrelas uma última vez, mas tudo que eu queria era olhar meus pais. Eu queria ter certeza de que Tata ficaria bem. Então sentei ao lado dele e o observei. Quase que instantaneamente ele se recuperou, os ferimentos se curaram e ele suspirou em seu sono calmo. O cheiro ruim de seus ferimentos se foram e a cor voltou ao seu rosto.
Meu coração tirou um grande peso de cima dele, mas era agora... eu me sentia bem fraca... exatamente como na vez em que fui atacada pela primeira vez por meu irmão, quando ainda estávamos no ventre do Tata. Agora eu podia sentir meu irmão me puxando para a escuridão.
Eu sabia que não conseguiria resistir por muito tempo, então com um último olhar cheio de lágrimas aos meus familiares, eu me deixei cair na escuridão.
A imagem deles ainda estava gravada na minha retina quando abrir meus olhos em um lugar estranho... meu coração doía por eu não ter tido tempo de me despedir deles.
Eu só queria chorar abraçada aos meus joelhos, mas respirei fundo e olhei em volta. Esse lugar era cavernoso e escuro, a única luz ali estranhamente vinha de mim mesma. Era como se minha pele fosse florescente, ela emanava uma luz branca e pura. Mas não tive muito tempo para admirar a minha pele luminosa, logo percebi que eu estava de frente para um espelho.
Só que a imagem refletida ali tinha olhos negros e um longo sorriso cruel.... Aquilo não era um espelho, era ele... Ele estava na minha frente e diferente de mim, ele emanava escuridão de sua pele.
—“Bonito, não é? As luzes e as trevas... até que isso é poético. Quem diria que o final seria assim?” Ele se moveu na escuridão ao dizer isso, sua voz retumbava assustadoramente.
—“...” Eu não sabia o que dizer. Realmente era bonito ver a luz que saia de mim se mesclar com a escuridão que saia dele, isso só me fazia ter mais certeza de que erámos almas gêmeas... Que precisávamos um do outro.
—“Olá Maninha... finalmente estamos cara a cara, não é?” Ele falou com sorriso tenebroso em seu rosto, tremi sobre seu olhar assustador.
—“Que lugar é esse?” Tomei a coragem de falar, quem sabe eu conseguisse adiar a nossa luta o máximo possível... Quem sabe eu conseguiria mudar a mente dele e torna-lo alguém como eu.
—“Esse lugar? Acho que é algum lugar na sua mente... ou quase isso. Acho que esse é o melhor jeito de explicar o que está acontecendo aqui.” Ele olhou em volta também. Não pude deixar de notar que o lugar era enorme e estava tomado pelas trevas, a luz que emanava de mim não estava iluminando muito... e isso era assustador, isso provava o tamanho do poder dele em comparação ao meu.
—“Se isso é minha mente... porque não somos só vozes como antes?” Era estranho que minha mente pudesse se manifestar dessa forma corpórea.
—“É porque agora nós vamos lutar... e uma luta fica melhor quando podemos destruir o corpo do seu inimigo, não concorda?” Ele sorriu cruelmente pra mim.
—“Apesar de eu não concordar com você... acho que dar uma barreira física para nossa mente é o melhor que podemos fazer para entendermos essa batalha psíquica.” É mais fácil atacar algo físico do que mental. Esses corpos vão nos ajudar... mas a destruição desse corpo pode significar a destruição de nossa mente. Essa batalha será perigosa e decisiva... aqui tudo ia acabar.
—“Chega de papo sobre o aqui e o agora... vamos ao que interessa.” Ele se preparou para pular sobre mim.
—“Irmão... eu não quero lutar com você. Será que a gente não pode continuar do jeito em que estamos?” Pedi a ele, na verdade eu quase implorei a ele... eu não queria morrer, não ainda... eu queria mais um tempinho.
—“Eu te dei uma chance... se você deixasse o hospedeiro morrer, essa batalha seria adiada.” Ele me falou sério.
—“Mas... eu não seria mais eu mesma se desistisse dos que amo.” Eu jamais seria eu mesma se tivesse que carregar o peso da morte de meu Tata.
—“Tem razão... você não seria mais você mesma... você seria algo melhor... Pois nós seriamos iguais.” O sorriso dele se ampliou.
Meu medo aumentou, ele tinha razão, eu cheguei perto de ser uma desalmada como ele, eu cheguei perto de desistir dos que amo e considerar a destruição do mundo.
—“Eu nunca serei como você... o que está acontecendo aqui é a prova disso.” Eu falei indicando tudo ao nosso redor. O fato de eu ainda ser a personificação da luz provava que eu ainda era pura.
—“Chega de papo, vamos ao que interessa.” Ele voltou a insistir e me atacou sem aviso algum, mas me desviei dele com facilidade... Na verdade foi fácil demais.
Novamente ele me atacou e como da primeira vez foi fácil fugir de seu ataque... o que estava acontecendo? Porque ele não estava me atacando pra valer? Fiquei desviando de seus golpes sem nunca revidar.
—“Se você não quer lutar, porque não desiste logo?” Ele me perguntou sorrido.
—“Eu digo o mesmo pra você... seus ataques são mais rápidos do que isso, mas você está pegando leve comigo... Por quê?” O olhei desconfiada. Ou isso era uma armadilha ou ele não queria me destruir.
—“Eu só estou me aquecendo.” Ele sorriu sarcasticamente.
Ele me atacou e dessa vez eu não desviei. Eu deixei que ele viesse pra cima de mim, só para tirar a prova de que ele realmente não estava me atacando. E como previsto ele não me bateu pra valer, o golpe dele poderia ter sido fatal, mas foi fraco o suficiente apenas para doer.
Mas essa dor me fez ter certeza de algo. Esse corpo falso é capaz de sangrar e sofrer... então somos capazes de morrer nessa forma sim.
—“Vamos Maninha... vem brincar comigo.” Ele me atacou, me defendi e golpeie ele.
Ele recuou com um sorriso feliz ao ser acertado por mim... O que ele pretende com isso?
Agora eu fui a primeira a tacar. Desferi uma sequencia de golpes, ele desviou de alguns, mas se deixou ser atingido por outros.
Tinha algo de muito errado nisso... ele queria apanhar? Ou seu único desejo era apenas brincar?
Se eu fosse ele e estivesse há tanto tempo presa aqui, eu ia querer brincar um pouco... será que é isso? Ou será que ele só quer que eu abaixe a guarda? Seja lá o que for... Eu não posso me deixar confiar nele.
Continuamos a nos digladiar, nossos golpes começaram a ficar mais sérios. Logo a possível brincadeira virou um luta séria.
Mas mesmo assim ele estava evitando me matar... eu definitivamente estava muito mais fraca que ele, mas essa batalha estava empatada... Bem, na verdade eu estava vencendo, pois ele estava se deixando ser acertado, de novo e de novo.
Finalmente consegui acerta-lo com tudo, ele caiu no chão de costas, minha mão ficou a centímetros do peito dele. Eu sabia que se eu enfiasse minha mão ali e esmagasse o coração dele, seria o fim. Eu venceria e ele desapareceria pra sempre.
—“Vamos... me mate, está é a sua única chance.” Ele disse isso com seu famoso sorriso cruel... Qual é o problema dele? Porque ele está me deixando vencer?
Minha mão seguia a centímetros do peito dele, bastava eu dar o golpe de misericórdia e tudo acabaria. Eu não teria mais um lado ruim dentro de mim, falando na minha cabeça o tempo todo... mas também eu não teria mais um irmão.
E eu seria uma assassina... igual a ele.
—“Não.” Respondi me afastando dele.
—“O quê?” Ele me olhou surpreso.
—“Eu não vou te machucar... você é meu irmão... e eu te amo no fim das contas.” Estendi a mão pra ele, como um pedido de amizade, oferecendo ajuda para levantá-lo do chão.
—“Sua idiota... deixa de besteira e me ataque de verdade.” Ele rosnou pra mim.
—“Não...” Sorri pra ele e segui oferecendo a minha mão.
—“Se me deixar vivo, eu irei te destruir... você nunca mais verá as pessoas que você ama... E eu os matarei depois disso.” Ele ameaçou sério, havia sinceridade nessa sua frase.
—“Eu sei que você é capaz de coisas terríveis, mas mesmo assim... eu não posso te ferir.” Eu voltei a sorrir amigavelmente pra ele, minha mão seguia estendida.
—“Mas... por quê? Porque você está fazendo isso?... Você foi feita para ser minha inimiga. Você foi feita pra lutar comigo e para proteger os outros de mim, como você mesma já disse.” Ele me olhou sem entender.
—“Por você eu desisto de tudo.” Aproximei mais a minha mão dele.
—“Você... você desistiria? Você desistiria de ver as pessoas que você ama... por mim?” A expressão dele ficou perdida.
—“Sim... Eu não quero ser sua inimiga... Nós somos irmãos, devíamos ser parceiros e não inimigos.” Respondi isso e fiquei surpresa quando ele finalmente pegou na minha mão e se levantou, meu coração se encheu de esperança.
—“Maninha eu...” Sua expressão era triste.
—“Tudo bem... eu te perdoou.” Estendi os braços o convidado para um abraço.
—“Maninha... sua...” Ele me abraçou meio perdido, eu fiquei muito feliz. Meus braços apertaram em volta dele.
—“SUA IDIOTA!” Ele se enfureceu e me atacou pra valer. Levei um golpe forte no estômago e fui jogada pra longe dele. Nosso abraço foi quebrado rudemente e eu perdi o senso das coisas ao meu redor, a dor me desarmou quando meu peito ferido sangrou.
—“Você desiste? Que ser mais sem importância você é!... Porque você ainda existe se não tem um objetivo?” Ele me atirou ao chão e me chutou com força.
—“Eu... só quero que sejamos amigos...” Não pude terminar a frase, pois ele me golpeou com selvageria.
—“Amigos? Amigos? Você é mesmo uma idiota! Você acha mesmo que eu vou mudar só porque você é uma imbecil e não consegue me atacar?” Ele me chutou com mais força, ele estava ficando cada vez mais enfurecido.
—“Você acha que eu vou virar seu amigo? Seu Maninho querido? Deixa de ser burra.” Outro chute forte me atingiu, eu não tinha chances de me defender.
—“Me ataque... vamos! Seja aquilo que você nasceu pra ser... seja o meu páreo.” Ele pediu me golpeando novamente, mas eu não reagi. Não importa o quanto ele me batesse e me machucasse, eu não ia devolver a ele a dor que eu estava sentido.
—“Deixa de ser imbecil, eu vou matar a todos... É ISSO QUE VOCÊ QUER?” Ele me golpeou novamente, mas dessa vez ele usou uma força descomunal, senti meu eu dessa realidade quebrar um pouco... mais um golpe desses e eu já era.
—“Ao menos defenda-se... vamos!” Ele exigiu me goleado sem parar.
—“Não vou... te... atacar... irmão.” Eu sentia minhas forças se esvaindo, se ele continuasse a me golpear assim... eu logo perderia.
—“...” Ele me olhou sério e furioso ao mesmo tempo.
—“...” Eu já nem conseguia me levantar, a dor me impedia de me mover. Não sei como isso era possível, esse corpo não era real, ele era apenas uma representação da minha mente... será que essa dor era psicológica?
—“Você me decepciona... eu pensei que teríamos uma luta pra valer...” Ele se enfureceu tanto, que nem me deu chances de respirar, seus ataques simultâneos se tornaram cruéis e fatais.
Cada golpe me quebrava mais um pouco, a dor se tornava mais terrível e o medo crescia em meu peito junto com as lágrimas que se acumulavam em meus olhos.
—“Nós não... precisamos de... motivos pré-estabelecidos pra viver... Nós podermos ser o que quisermos... Você não precisa ser mau... Nós não precisamos lutar até a morte para... ter um motivo de existir.” Tentei lhe dizer que essa história de termos nascido para sermos inimigos um do outro era bobagem, tentei mostrar a ele que podíamos escolher nossa própria motivação de vida, nosso próprio destino e aspiração... Mas ele parecia ter uma ideologia muito forte para ser quebrada apenas com palavras, acho que eu deveria deixa-lo viver para descobrir isso per si só.
—“Não me faça rir.” Agora a fúria dominava todo o ser dele. Tremi ao ver no fundo de seus olhos negros o desejo de matar.
Levei o primeiro golpe mortal pra valer, agora eu sabia que ia morrer mesmo... Havia tanto ódio e desejo de me machucar nesse golpe, que me choquei com tamanha indiferença dele em me causar essa dor.
Mas mesmo assim, eu nem conseguia ficar zangada com ele por estar morrendo, aceitei a dor e o meu destino. Pois se eu reagisse e matasse meu irmão, as consequências iriam me perseguir para sempre.
Correntes se enrolaram em meu corpo, elas eram controladas por ele, acho que elas eram uma extensão do corpo dele. Eu não tentei lutar contra elas, apenas me deixei ser capturada. Lá no fundo eu ainda tinha fé no meu irmão, afinal, ele era minha outra metade... ele não me destruiria, não é?
—“Sua tola... Você não serve nem pra ser corrompida... Eu tentei te salvar, mas você não quis ser ajudada, então... Morra.” Ah, o que ele disse agora fazia todo o sentido... ele queria que eu matasse o Tata e que eu tentasse matar ele, só para me corromper, só para eu deixar de ser esse ser de luz... era esse o plano dele. Ele não ia morrer com os meus golpes fracos, mas se eu deixasse o desejo de matar me dominar, logo eu seria exatamente como ele.
As correntes começaram a apertar com força, eu me sentia sufocar... e a certeza de que ele tinha sim a capacidade e o desejo de me destruir... me deixou em pânico.
—“Irmão... por favor... não faça isso...” Implorei em meio à dor.
—“Depois que te destruir, eu irei matar os outros e seguir meu caminho de destruição... e tudo isso será sua culpa.” Ele sorriu e as corretes começaram a se afundar em minha pele de forma dolorosa... Droga, eu fui ingênua, eu acreditei que meu irmão pudesse ser bom... mas ele é como eu... Eu não posso ser má, assim como ele não pode ser bom.
Agora o arrependimento e o medo pelos outros me sufocava junto com as corretes que quebrava meus ossos.
—“Irmão... piedade... por favor.” Implorei com medo... por favor... alguém faça ele parar... alguém o pare antes que ele destrua tudo que eu mais amo... eu já nem me importo de morrer, mas não quero que os outros paguem o preço pelo meu erro.
—“Seu erro foi acreditar que eu te daria piedade Maninha... mas você errou feio, eu não sou como você, eu não pararei até te ver morrer.” Ele sorriu sinistramente.
—“Por... f-favor... e-eu... te imploro...” Minhas lágrimas transbordavam sem parar.
—“Implore o quanto quiser... não mudarei por você.” Ele gargalhou e a escuridão ao nosso redor aumentou, eu demorei a perceber que era porque eu estava apagando.
—“Pa...pai... T-Tata... L-Leo... me perdoem... Adeus.”
...
Monstro...
—“Pa...pai... T-Tata... Leo... me perdoem... Adeus.” Essas foram as últimas palavras dela, antes das minhas correntes esmagar o corpo dela e transforma-lo em um pó branco e luminoso... Fiquei um pouco irritado por não haver sangue e tripas para todo lado, mas até que isso era bonito... Esse era um lindo e figurado final para a vida pura dela.
O brilho do pó que dançava no ar aos pouco se apagou e a escuridão tomou conta do lugar. Finalmente eu estava sozinho e era dono desse corpo, mente e alma... Finalmente eu poderia ser o que nasci pra fazer.
—“Adeus Sophia.” Sorri antes de finalmente tomar o controle desse corpo.
Meus olhos se abriram, eu estava sentado na cama, entre o hospedeiro e o progenitor.
Os encarei com ódio e o desejo por sangue e morte me dominou. Agora seria tão fácil matá-los, eles nem saberiam o quê os atingiu. Bastava um único golpe e adeus para esses três idiotas.
Me preparei para mata-los, mas então meu corpo inteiro latejou de dor... Droga, esse corpo está mesmo muito ferrado, eu exagerei naquela batalha contra os vampiros do barco e feri muito esse corpo mole de bebê... E pra piorar a Sophia doou um pouco de nossa habilidade de cura, isso tornou a minha recuperação mais lenta ainda.
Droga... acho que terei que adiar o assassinato desses três. Isso seria a coisa mais Inteligente a se fazer no momento. Pois com eles vivos, eu teria três escravos cuidando de mim e fazendo as minhas vontades sem que eu tenha que me esforçar para controla-los.
Eles vão me manter seguro e alimentado enquanto me recupero. No entanto assim que eu recuperar as minhas forças, eu irei destruir cada um deles e então partirei em busca de mais destruição, sim... isso vai ser muito bom. Obrigado por me dar tudo de mão beijada Sophia.
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