Sangue e Sonhos

1 Sangue e Sonhos


Era noite, e Fluttershy dormia. E com o sono, sonho. O mesmo sonho que ela tinha todas as noites, desde que Twilight e suas amigas haviam revertido a sua crise de batponismo.

Ela podia ver um castelo a distância. O céu era um mar de estrelas... mas sem a Lua. No sonho, a lua nunca estava presente. E por algum motivo, isso era altamente perturbador.

Tudo fica escuro.

Ela está dentro do castelo. Corredores se confundem com corredores a medida que a pégaso caminha, procurando por uma pônei. Ela sabia que tinha que encontrar uma pônei. Não sabia quem.

Ela passa por um corredor com fileiras de armaduras. Por um corredor com dezenas de espelhos, de diversos tamanhos e formas. Um corredor com caveiras de animais que ela não conhecia. Todos esses corredores já eram-lhe familiares, e apesar de a incomodarem a princípio, haviam se tornado quase que uma segunda casa. Uma casa dos sonhos.
Um corredor no entanto era horrível. Fluttershy se sentia nauseada só de passar por ele. E com todos os seus instintos gritando para fugir, para correr e esquecer daquele corredor. Mas em seu sonho, ela nunca era capaz de evita-lo.

O corredor era como todos os outros, apesar de que mais comprido. Tão, tão comprido que ela jamais conseguia ver seu fim, apenas um ponto escuro à distância. E nas paredes do corredor, retratos. O busto de batpôneis, emoldurados, todos perfeitamente encarando-a com uma expressão de irritação quase amedrontadora. Um corredor de centenas, talvez quilômetros de metros. Ela passava por aquele corredor devagar, tentando, tentando não olhar para os lados, com um grito preso na garganta, pronta para fugir... e seu corpo não obedecia. Nunca obedecia. E ela andava. E andava. E andava. Até chegar no final dele. Até chegar na Porta.

Ela havia passado a chamar aquele lugar de Porta do Pesadelo. Parecia certo.

Ela era simples. Grande, muito grande, feita de alguma pedra branca que Fluttershy desconhecia. em cada lado da porta, haviam quatro gravuras. Uma lua cheia, pequena. A minguante, levemente maior. A crescente, a maior das três. E a nova, que parecia consumir toda a luz ao redor de si.

E quando ela chegava lá, sentia seu corpo voltar a ser seu. Quase que automaticamente, a pégaso se encolhe. Ela sabia o que estava por vir, agora.

A Voz.

Ela era familiar, apesar de Fluttershy nunca conseguir colocar o casco sobre aonde ela já a havia escutado. A voz costumava começar com um sussurro. Perguntava que. Estava lá. Dizia... coisas. Coisas que a pégaso amarela nunca conseguia lembrar, no dia seguinte.

Mas não hoje. Não. Esse sonho estava... diferente. A Voz não chegou em um sussurro... mas no canto mais belo que ela já havia escutado. Era uma língua completamente aalienígena para Fluttershy, mas ela conseguia sentir a emoção. Era... triste. E bela. E profunda. A canção despertou alguma coisa nela. Ela deixa de se encolher, e começa a escutar mais atentamente. Devagar, muito devagar e muito baixinho, ela cantarola junto com pequenos "hmhum"s e "hmhmham"s.

Depois de alguns segundos, Fluttershy percebe que estava cantarolando sozinha. A Voz havia parado e... estava... escutando? Certamente era essa a sensação que passava.

"Você tem uma voz bonita." A Voz diz, com uma nota de curiosidade. "Como se chama, pequena pônei?"

Mas Fluttershy não responde. Ela se encolhe um pouco, e desvia o olhar.

A Voz dá um risinho. E Fluttershy percebe que ela não ri da pégaso, mas sim de si mesma. "Assustamos-te, não é? E mesmo assim, voltas aqui. Sempre voltas. Por que, pequena pégaso?" ela pergunta.

"... E-eu não q-quero vir. S-Senhora. Isso é s-só um sonho." Fluttershy responde, pela primeira vez, sua voz quase inaudível.

"Sim." A Voz responde. "É um sonho. Mas só os que desejam, são capazes de sonhar conosco. Qual o seu nome?" ela pergunta novamente, num tom menos doce e mais autoritário.

"F-Fluttershy! Senhora!" A pégaso responde... e imediatamente se arrepende. Ela conseguia sentir a voz franzindo a sua testa metafórica.

"Somos antigas, é verdade. Mas não use mais essas formalidades pôneis." Ela diz, ríspida. Fluttershy treme. "E... e q-qual o s-seu nome?"

A Voz parece ponderar. "Eu tive vários... hm... eu me pergunto..."

Um som lento e tortuoso de pedras sendo arrastadas se alastra pelos corredores. A grande porta na frente de Fluttershy se abre devagar, mostrando a escuridão negra como piche que habitava o seu interior. "Entre." A voz comanda. E Fluttershy se vê obedecendo, apesar de que estranhamente não cotra a sua vontade. Ela estava hesitante, é verdade. Mas a perspectiva de descobrir quem ou o que ela tanto visitava em sonhos era animadora.

Assim que a pégaso passa por elas, as portas se fecham, deixando-a sozinha na escuridão. Ela sente algo observando-a.

"Ah... sim. Sim, eu entendo agora." A voz diz, devagar. "Supomos que sementes jogadas ao vento também possam vingar."

Fluttershy se encolhe um pouco. "Q-Quem é você? P-Por favor, se m-mostre. Se e-estiver tudo bem."

A voz ri.

"Quando você sentiu nosso presente pela última vez, Fluttershy?" a Voz questiona, ignorando completamente a pergunta da outra. E tudo o que Fluttershy é capaz de fazer é se encolher um pouco e dar um olhar confuso. A voz suspira.
"A Marca do Morcego. Quando... você fica com orelhinhas fofas e presinhas sedentas. E olhos vermelhos."

Fluttershy solta um guinchinho. "D-Duas semanas atrás! Como você...?"

A voz ri novamente. "Pequena tolinha. Quem você acha que criou vocês? Seres da Noite. Batpôneis, certo?" Ela diz.

E no meio da escuridão, Fluttershy vê uma forma brilhar. Grande, esbelta, imponente. Uma alicórnio de pêlo tão negro quanto a noite, olhos e armadura tão reluzentes como as estrelas. Uma alicórnio que ela havia ajudado a destruir, anos atrás. Nightmare Moon.

A alicórnio começa a oh-tão-lentamente caminhar na direção da pequena égua amarela, que se vê paralisada.

"Inicialmente, vocês foram um experimento. Eu raptei em segredo seus sonhos, e os moldei à uma imagem que refletisse sua nova Mestra. Pégasos, tão orgulhosos, tão fortes... foi perfeito. Minha obra-prima, antes de nossa irmã nos banir para a Lua. Assim que Celestia encontrou minhas crianças, ela trabalhou para suprimir seus instintos verdadeiros. Os alimentando frutas e insetos, quando o único alimento verdadeiro é o sangue. Você os viu, não viu? No corredor, antes de nossa câmara? As almas, as verdadeiras personalidades de cada um de meus filhotes..."

Nightmare Moon pausa um pouco, pensiva. E Fluttershy se aproveita desse momento para falar, "M-Mas... são apenas r-retratos..."

A alicórnio sorri. "Retratos? Tola. São janelas. Eles apenas observam aquilo que não podem mais ter. Aquela que logo se juntará a eles..."

E com isso, a égua negra salta sobre Fluttershy, que tenta escapar mas é logo presa sob magia.

"Sóumsonhoruimsóumsonhoruimsóumsonhoruim" ela repete como uma mantra, fechando os olhos com força.

"Sim." responde Nightmare Moon. "Um verdadeiro Pesadelo." ela continua, dando um sorriso convencido. "Diga-me Fluttershy, qual o seu maior medo? Perder suas amigas? Seus animais? Ser culpada pela morte de todos eles?"

E Flutershy via.

Mesmo de olhos fechados, ela via cada palavra de Nightmare Moon sendo queimada dentro de sua mente, enchendo-a de terror. Twilight, Rarity, a sempre animada Pinkie Pie, todas com um olhar morto, sussurrando "por que você fez isso? por que não nos ajudou? por que por que por que..."

Em seu terror petrificado, a pégaso amarela não vê, mas sente-se mudando. Suas penas caiam . Seus olhos ardiam, e mudavam de cor. Presas cresciam rente a seus dentes. Ela era um mondtro de novo. E Nightmare Moon parecia se deliciar com a cena, sorrindo um sorriso frio.

"Nãoháluanãohálua,eunãodeveriametransformarquandonãotemlua" a pégaso choraminga. Nightmare Moon solta uma gargalhada estridente.

"EU SOU A LUA." Ela grita, puxando telecineticamente uma adaga, e golpeando...

... A sua própria pata. Uma gota de sangue grossa e rubra como o próprio Tártaro escorre lentamente.

"E agora o toque final..." Ela sussurra, forçando a boca de Fluttershy a abrir e deixando a gota cair lá e escorrer garganta abaixo.

O efeito é imediato.

A recém transformada batpônei parece relaxar, e para de resistir. Seus olhos se arregalam por um instante, mas logo adotam uma expressão quase submissa.

Nightmare Moon sorri, satisfeita com o resultado.

"Fluttershy, você será a minha primogênita. Aquela que irá trazer o Terror de volta ao coração de todos, que irá lembrar-lhes quem somos."

A pégaso assente, em silêncio e Nightmare Moon solta uma risadinha. "Eu estou presa em meu castelo; por hora, dentro da mente de Luna. Mas ela se lembrará quem verdadeiramente é. E será logo." ela comenta, quase que para si mesma. "E quando ela lembrar, você virá até nós. Agora vá. Volte a se misturar com seus pôneis. Deixe eles pensarem que estão seguros."

Nightmare Moon se afasta dois passos para trás, deixando Fluttershy se erguer.

"E lembre-se, amarelinha. A noite..."

"...durará para sempre, Mestra." Fluttershy finaliza, dando um sorriso de prazer puro, deixando as suas presas reluzirem em uma Lua que não estava no céu.

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