Sangue Winchester

20 Os irmãos Winchester (parte 4)


- Dean! Acorda!

Eu o sacudia e gritava em seu ouvido, mas era inútil. Nem ele nem Sam acordavam, na verdade ninguém na floresta acordava mesmo com a tempestade desabando sobre suas cabeças. Peguei meu celular na esperança de que estando no século XXI eu poderia pedir ajuda, mas estava sem bateria e o meu não era o único. Olhei a data no relógio do Dean e vi que era óbvio estarmos incomunicáveis, estamos nessa floresta há quase uma semana.

Tá legal. Tenho que ser racional. O que preciso fazer nesse momento? O ronco do meu estômago deu a resposta e resolvi tentar voltar à cidade, quem sabe lá eu consigo ajuda.

Andei pelo que me pareceu horas, o chão estava escorregadio agora que a chuva parou e eu não conseguia dar três passos sem acabar escorregando e caindo sentada. Essa situação já tinha se tornado extremamente aborrecedora e eu ainda estava mega confusa com tudo. A final, o que foi tudo aquilo se século XIX e vampiros? Eu não estou louca, mas não sei se realmente aconteceu, quero dizer, foi bem real e eu podia sentir e ouvir, não tem como ter sido um sonho. Mas então o que é real? Será que isso é real? Será que ainda não estou dormindo e só penso que acordei? Isso explicaria porque estou andando em círculos nesse exato momento. De volta ao ponto de partida.

Me sentei em um tronco de arvore e fiquei olhando todas aquelas pessoas caídas. Será que elas estão tendo o mesmo sonho que eu tive? Apoiei meus cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos, fiquei em silêncio e de olhos fechados para tentar clarear meus pensamentos e depois de um tempo ouvi o barulho de quando se pisa em folhas que estão caídas no chão. Abri meus olhos depressa e olhei ao redor para tentar identificar a origem do som, mas nada. Pouco depois o barulho se repetiu e dessa vez eu corri em sua direção e ele começou a ficar cada vez mais distante, parecia que estava fugindo de mim. Passei a ver pegadas no chão húmido, pareciam um pouco com as de um cachorro, mas ao mesmo tempo eram suaves como as de um gato, continuei seguindo até que tropecei em uma pedra e caí rolando até a beira da estrada.

Entrei como um furacão no chalé do Garth e esvaziei a dispensa, depois sentei a mesa bufando e liguei o computador do Sam. Parei para juntar os pontos, primeiro eu vi um vulto laranja, depois patas de um animal parecido com um cachorro. Então busquei no google qualquer coisa que fizesse sentido com raposas. Primeiro busquei “raposas e sonhos”, mas não deu em nada, só tinha opções de pesquisa sobre interpretações de sonhos com raposas. Depois busquei “raposas e ilusões” e acho que encontrei o que estava procurando. Kitsune é uma criatura do folclore japonês que pode mexer com a cabeça das pessoas e criar ilusões tão bem elaboradas que você não consegue distinguir o que é real e o que não é, isso explica porque eu realmente acho que passei os últimos dias no ano de 1812. A única coisa realmente estranha nisso tudo é que o Kitsune vive no Japão e não na América, mas eu lembro de ter escutado uma conversa entre Sam e Dean em que eles falaram que no ultimo apocalipse teve algumas criaturas que saíram de seus lugares de origem também e vieram para cá. Será que a notícia do portal do apocalipse já se espalhou pelo mundo inteiro?

Tá legal, se essa coisa é a culpada por todas aquelas pessoas estarem dormindo então o único jeito de acordar os rapazes é pegando essa raposa. Mas por que será que a internet nunca me diz como capturar as criaturas que eu enfrento? Se eu fosse enfrentar um vampiro ou um lobisomem iria encontrar mil e uma maneiras de mata-los, mas quanto a Aswang, boto cor de rosa e Pooka eu não encontro nem sequer um jeito de manter afastado, e com o Kitsune não foi diferente eu vou ter que arriscar tratar esse bicho como se fosse uma raposa normal, apesar de ela ter nove caudas, poder mudar de forma, criar ilusões, e até quem sabe cuspir fogo. Eu tô bem né?

Finalmente voltei à floresta, desta vez o sol brilhava forte no céu e eu pude ver com clareza o caminho. Fiz o caminho inverso seguindo as minhas próprias pegadas na intenção de voltar para onde havia deixado os outros, não parava de pensar se Sam e Dean já teriam acordado e poderiam me ajudar, eu criei o hábito de não aceitar ficar de fora das caçadas, mas também não quero ter de enfrentar uma criatura sozinha. Nunca vou esquecer de quando aquele Aswang me atacou o pânico que eu senti foi indescritível e não quero passar por isso de novo.

Em certo momento eu escutei novamente o caminhar entre as folhas e dessa vez consegui ver a pequena figura laranja, na verdade ela não tinha nove caudas, era jovem e só tinha três. Caminhei em sua direção e dessa vez ela não parecia que ia fugir consegui chegar realmente perto e quase podia tocá-la, o Kitsune parecia um animal normal e por um momento eu até esqueci que se tratava de uma criatura sobrenatural, estendi a mão em sua direção e ela começou a rosnar:

- Ah, qual é? Pensei que estivéssemos em paz. – Só eu pra ficar falando com um Kitsune no meio da floresta.

Nesse momento escutei outro rosnado, bem mais alto e ameaçador que vinha de trás de mim, eu não sabia do que se tratava, mas era para essa coisa que a raposa estava rosnando e não para mim. Me virei com cuidado e tentando não fazer movimentos bruscos e vi uma garotinha de mais ou menos uns sete anos de idade, ela era loira e seu cabelo estava todo bagunçado e ela usava roupas de hospital. Aquela menininha não parecia ameaçadora e por um momento eu até cheguei a pensar que podia ser uma das pessoas que estavam dormindo e quem sabe ela acordou como eu, mas foi aí que eu reparei nas mãos dela, ela estava segurando uma guia que estava presa a uma coleira que pairava no ar e de lá vinha o rosnado.

A garota soltou a guia e eu pude ouvir latidos ferozes e senti como se alguma coisa passasse perto de mim, mas não fazia sentido algum até eu ouvir os grunhidos da Kitsune, me virei para ela e vi seu pequeno corpo ser dilacerado por alguma coisa invisível. O sangue se espalhou por toda a parte e quando o ataque acabou e os barulhos cessaram, a menina desapareceu com o sei lá oque que estava com ela.

Fiquei ali em choque por um tempo até que comecei a escutar vozes e uma em especial me fez pular de alegria:

- Natale?!

- Dean!

* * *

- Viram caras, eu disse que estava tudo bem.

- Você passou as última semana inconsciente no meio da floresta Garth, como exatamente isso é “tudo bem”? – Perguntou Sam se apoiando na mesa.

Todos estavam no chalé tentando definir o que tinha sido real ou não na última semana e Dean ligou para o Bobby para dar notícias:

- Eu estava em Roma, e era o imperador, pra mim parece bom.

- E seria – Interrompeu Natale – Se na verdade você não estivesse sob controle de uma raposa mística japonesa.

- E quem é você mesmo?

- Natale – Respondeu Sam – É o mais novo membro da família.

- Bem específico Sammy. – Disse Dean desligando o celular, depois ele fez uma pausa e se virou para Garth – Pera aí, você estava em Roma?

- E vocês não? – Perguntou o caçador.

- É estranho – Disse Sam – Mas eu estava na faculdade outra vez.

- Nem tão estranho Sammy – Disse Natale – Eu estava no século XIX com vocês dois se passando pelos irmãos Grimm.

- E você Dean – Perguntou o caçula – Onde estava?

- Eh... Vegas.

- Claro!

Todos riram por um momento. Natale, que ainda pensava no que tinha acontecido com o Kitsune, estava com o computador no colo tentando esclarecer algumas dúvidas quando encontrou algo útil:

- Os Kitsunes têm medo de cachorros!

- E daí? – Perguntou Dean.

- Existem cães invisíveis?

- Ah, tem os cães do inferno – Respondeu Dean – Mas pra que você quer saber disso?

- Acho que encontrei um hoje.